Cheques em branco ou fiadores de ladrões?

Nunca estiveram tão actualizadas as palavras de José Afonso: “eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada…”

Há quem afirme, dizendo ou escrevendo, que o voto é uma espécie de cheque em branco que o eleitor passa ao partido em cuja lista de deputados ou de autarcas vote. Não deixa de ser, de certo modo verdade visto que depois dos votos contados o eleito passa a responder às vontades e estratégias partidária e não aos compromissos assumidos perante quem efectivamente os elegeu, os eleitores.

Mas não houve alguém, já há muitos, muitos, muitos, muitos, anos que disse e escreveu que " a economia era algo muito sério para deixar só nas mãos dos economistas"?

Não será que o mesmo principio se deve aplicar aos políticos dizendo que "a política é algo muito, mesmo muito sério para deixarmos os políticos à solta?"

E o que foi que nós fizemos? Deixamos os políticos à solta depois de os votar em ciclos quadrienais.

Quando um sistema democrático se corrompe, ao nível da corrupção que chegou actualmente o nosso sistema de representação, que nos obriga a suarmos lágrimas de sangue como as que nos são agora impostas não podemos deixar de concluir, pelo menos, duas considerações:

A primeira é que tudo isto é, também, resultado do que semeamos ou deixamos que alguém semeasse em nosso nome e por nossa conta. Fomos fiadores de ladrões.

A segunda é que, sendo um povo digno e querendo assumir, comprovadamente, mudanças de rumo terá de assumir o debate do sistema político em que temos vivido neste últimos trinta anos. É tempo de debater, dentro do regime democrático, as virtudes e defeitos, falhas e anacronismos, alterar aperfeiçoando o regime de representação política, as formas de exercício de democracia representativa e de exercício de democracia directa.

Dito de outra forma, determinar, mais clara e inequivocamente, o que aceitamos, na gestão da rés-publica, seja executado por representantes do povo e quais as matérias em que cada caso em cada circunstância o povo deva deliberar directamente e quais as matérias que o deve fazer ao nível da freguesia, ao nível municipal, ao nível regional e ao nível nacional.

Não é debater o sexo dos anjos, de resto são práticas há muitas décadas exercidas por democracias consolidadas onde a responsabilização é partilhada entre povo e quem exerce actividade política e de gestão em seu nome. Basta pois, adaptarem-se, à nossa realidade concreta, práticas que outras sociedades vêm experimentando com sucesso.

Então não é roubarem-nos o dinheiro que nos cobram nos impostos com os quais se fazem pagar quando aprovam diplomas que os próprios proponentes têm dúvidas da sua legalidade como sucedeu com o diploma que aprovaram sobre a reforma administrativa de Lisboa e que Cavaco Silva devolveu com um valente raspanete?

Já, quase, ninguém se lembra e muito menos há quem pergunte o que espera a Assembleia da República para resolver o imbróglio.

 



Publicado por Zé Pessoa às 20:06 de 13.10.12 | link do post | comentar |

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