OS MÉDICOS, OS CANGALHEIROS E O MORTO

   

Hoje fui à Assembleia da República assistir ao debate do Orçamento de Estado para 2013.

Devo dizer que embora se designe, aquele espaço, como a “casa da democracia” fiquei com a ideia que já ali se não aprende nada e a gente sai de lá com os ouvidos a sangrar de tanta agressão e disparate ouvir. O que ali se vê e se ouve tem tanto de deslumbrante como de demagógico e de disparate, como de agressão a quem lhes paga e a quem tanto massacram. É uma completa decepção.

Mas indo aos factos e fatos que as actuais circunstâncias e as vontades de quem manda nos impõem, conforme nos querem fazer crer, a verdade é que estamos entalados entre quatro tabuas.

Aqueles que nos doseiam a receita e nos fazem engolir a medicação, cada vez em doses mais reforçadas, dizem que não há outro remédio para salvar um país doente por males apanhados devido a festas e andanças para as quais tal gente nos empurrou.

Tais curandeiros reforçam, quando o seu argumentário lhes começa a faltar, que o referido caminho (prescrição do receituário e doseamento) é aconselhado por uns senhores troikianos, já habituados, experimentadamente, a esmifrar outros doentes. Sabemos bem que essa troika vem ao que vem e vem ao serviço de certos “laboratórios internacionais” que se fazem pagar através de rendosos e usurários juros.

Uns e outros são sabedores que nem a receita nem os doseamentos melhoram a saúde do doente, nem isso alguma vez foi a sua intenção. O que sabem, uns e outros (o doente ainda mais) é que de doente já passou a moribundo e a seguir virá a morte (para alguns já chegou).

Uns e outros, médicos e cangalheiros, agora preocupam-se, já não com a cura do doente, mas sim com a extorsão da herança do defunto.

A “refundação” que o médico-chefe pretende levar a cabo é bem reveladora da estratégia e do que pretende. A situação do deficit agravou-se, são previsíveis rupturas sociais, ainda há muito património e actividades publicas a ser entregues a especuladores e experientes parceiros que, de futuro, garantirão lugares muito bem pagos aos amigos de ontem, de hoje e de amanha. Á que agir com rapidez.

Para que tudo isto seja feito por um governo sem escrúpulos é conveniente que tais medidas estejam inscritas, num qualquer memorando de ajustamento assinado com a troika, de modo a justificar o aperto preconizado.

Antes de solicitarmos a intervenção de uma qualquer associação de defesa do consumidor para mediar o reescalonamento da divida, à semelhança do que é feito, tardiamente, com os devedores particulares junto dos bancos, (ninguém agiu quando os bancos forçavam os clientes a ter os tais cartões!) ou de estarmos todos mortos o governo acautelará a alienação dos transportes e aeroportos, venderá quartéis, bombeiros e militares. Entregará, à iniciativa privada, hospitais, centos de saúde, SNS, Caixa Nacional de Pesões, CGA e ADSE.

Com a política da refundação o governo alienará, a privados, a gestão dos tribunais e prisões, o Instituto do emprego e formação profissional.

O próprio governo será entregue a Bruxelas e os Passos do Conselho passarão, definitivamente, a ser passos perdidos.

Mas, é curioso! Para que quererão eles isto tudo se o país estiver, então, completamente morto?



Publicado por Zé Pessoa às 19:12 de 30.10.12 | link do post | comentar |

1 comentário:
De ... a 31 de Outubro de 2012 às 17:33
-----------
O défice de 2012 sem medidas extraordinárias seria de 6% do PIB.
Mas o mau desempenho da economia e o acréscimo da dívida elevaram-no para 7,7%.
Como o Governo se comprometeu a reduzi-lo para 4,5% em 2013, houve que financiar os 3,2% restantes.
E assim nasceu o plano de austeridade mais violento de que há memória em Portugal: entre mais receitas (impostos) e menos despesas (despedimentos e cortes nos salários e nas prestações sociais) o Governo propõe-se usurpar-nos €5.338 milhões.
Deve ter enlouquecido.
Sucede que esta loucura tem custos, que o Governo não deveria ignorar.
E nem sequer vou recorrer aos famosos multiplicadores do FMI, onde os “sábios” se atropelam uns aos outros.
Limito-me a olhar para os cortes brutais a que vai ser submetida a procura interna, entre consumo e investimento:
com aquela machadada de €5.338 milhões, é óbvio que a economia vai bater no fundo.
Ou seja, quando o Governo afirma que a recessão em 2013 será de apenas 1% do PIB só pode estar a brincar connosco.
Mas não tem graça nenhuma.»

Daniel Amaral, em «OE/3013: a ruptura»



----------- D., H disse...

Está desfeito o enigma da refundação!

Convenhamos que com aquela hipótese estupidamente improvável – a do pagamento da dívida nas condições vigentes – não surpreende a conclusão.

Em consequência, Passos Coelho precisa de mais massa, cada vez mais e mais, para satisfazer os apetites insaciáveis dos agiotas que “investiram no resgate”.
Quanto mais resgates, melhor…
O que já não há, é pachorra para aguentar o Ulrich e toda esta pandilha.

(http://economia.publico.pt/Noticia/banca-utiliza-dinheiro-do-bce-para-lucrar-com-a-divida-publica-e-abandona-empresas-1568424)



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