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De .Manif.: da próxima vez !... a 19 de Novembro de 2012 às 16:28
"São pessoas crispadas, com as veias do pescoço dilatadas de gritar irados, à beira do desespero" (Miguel Manso)

Não levei com bastonadas, mas ao meu lado, pais com filhos suportaram-nas. Não caí quando corria, em fuga, pelas ruas fora, mas vi quem caísse e fosse agredido violentamente pela polícia.


Sim, minutos antes, também assisti ao arremesso de pedras por parte de manifestantes e repudiei-as, como tantos outros fizeram. E sim, também vi caixotes do lixo incendiados depois pelas ruas.

Não foi a minha primeira vez num contexto daqueles. Sei como é. É como é. A impotência dos manifestantes desemboca em provocação. E do lado da polícia aproveita-se o pretexto para manifestar a força, o poder, indiscriminadamente. Isso não vai mudar nunca. Ambos os lados são o espelho da mesma encenação.

À violência de quem protesta responde o poder com mais violência, numa demonstração de força que serve para se reafirmar. Fomos atacados, dizem, limitámo-nos a responder legitimamente. É a história mais antiga do mundo. O resto são muitas bastonadas.

É uma tentação, a subida de tom dos manifestantes. Só não percebe quem não quer. Como forma de protesto, é discutível a sua eficácia. À violência do poder baseado na força deve responder-se com não-violência vigilante. A história mostra que quando um colectivo supera o medo sem violência, tende a unir-se mais, e a impor a sua vontade. O poder não está nos bastões, nem nas pedras, está na cabeça. Mas isso é a minha cabeça que pensa.

Neste momento de crispação não me parece que existam muitos que pensem da mesma forma. Ontem percebi-o. E hoje compreendi, ao ouvir as reacções, que não se tiraram quaisquer ilações. Ontem custou-me ver amigos com a cara ensanguentada, mas se querem saber o que custa mais é hoje ouvir polícias, sindicatos e políticos repetirem, também eles, as mesmas frases de circunstância, sem nenhuma novidade, nenhuma dedução nova, um enorme vazio, entre a desvalorização a roçar o paternalismo e o repúdio sem nenhum pensamento estruturado por trás. Algo que nos faça pensar, finalmente, para além do folclore habitual.

Será que esta gente não percebe que a próxima vez vai ser pior? E a que virá a seguir a essa, pior será. Porque vai acontecer. É claro que vai acontecer. E das próximas vezes não serão apenas “profissionais do protesto”, como o paternalismo vigente os trata.

Da próxima vez não serão jovens com cartazes de frases “giras”. Da próxima vez não serão “profissionais do protesto”, tratados assim como se fossem a hierarquia da disseminação da violência.

Lamento informar, mas quem pensa assim, está enganado. Não são esses os mais tumultuosos. Os mais violentos, prestes a explodir, são os muitos homens e as mulheres à beira do desespero. Quando essas pessoas pegarem fogo às ruas não o vão fazer com os caixotes do lixo colocados, apesar de tudo, a meio da rua, para as chamas não chegarem aos prédios. Vai tudo a eito. Como faz a polícia.

Alguns deles estavam lá ao lado dos “profissionais do protesto”. Eu vi-os. Não têm a cara tapada, não senhor. São pessoas crispadas, com as veias do pescoço dilatadas de gritar irados, à beira do desespero, gritando como se fosse a primeira vez, e para alguns deles até é capaz de ser verdade. Deixemo-nos de histórias. Os diversos poderes adoram “profissionais do protesto”. Dá-lhes jeito. Mas ontem foi mais do que isso. E da próxima vez será pior.

Da próxima vez, se ninguém tirar ilações, esperemos que não seja tarde de mais.


De Violência pró-ditadura anti-democrática a 19 de Novembro de 2012 às 10:57

Mais esclarecimentos sobre a carga policial de 14 de Novembro

(-por Daniel Oliveira, Arrastão e Expresso online)

Na semana passada vários "doutorados" em intervenções policiais explicaram daimpossibilidade das forças de segurança intervirem na concentração de dia 14, em frente ao Parlamento, para isolar e retirar os manifestantes violentos que, ao fim de tanto tempo, estavam claramente identificados por toda a gente. Se fosse precisa mais experiência do que a das últimas manifestações, expliquei que é isso mesmo que tem sido feito. Neste caso eram mais violentos e mais organizados. Seria mais difícil. Mas alguma coisa estaria muito mal se, para travar umas poucas dezenas de desordeiros, fosse preciso espancar centenas de pessoas num raio de quilómetros.

O "Correio da Manhã", que tem boas fontes na polícia e é insuspeito de antipatia para com os seus comandos ou para com o governo, deu-nos ontem conta da irritação das brigadas infiltradas por o Corpo de Intervenção não ter cercado cerca de uma dezena de agressores iniciais, dando cobertura aos agentes à civil que os deveriam deter. No jornal surgem várias críticas ao Comando de Lisboa, vindas de responsáveis policiais, por se ter optado por esperar quase duas horas e depois se ter efectuado uma carga policial indiscriminada, que além de ter atentado contra a integridade física de uma maioria de manifestantes pacíficos, impediu que os agressores fossem detidos em flagrante, dificultando a sua merecida punição judicial. Segundo fontes policiais do CM, era perfeitamente possível "uma contenção imediata do fenómeno, com prova consolidada para os principais agressores - evitando-se aquela extensão de confrontos". E diz-se que os polícia à civil foram "desaproveitados".

Esclarecidos os que diziam ser impossível o que toda a gente sabe que se pode fazer - e já foi feito - e sabendo-se agora que a polícia tem treino específico para fazer o que, desde a primeira hora, várias pessoas que participaram na manifestação esperaram que fosse feito, resta saber de quem foi a responsabilidade. Ao que se percebe, a decisão de deixar que um pequeno grupo violento tomasse conta do Largo de São Bento para depois correr tudo à bastonada até Santos veio do Comando de Lisboa. Este deve justificar a sua opção e informar se, tal como aconteceu com a carga policial (segundo o "Expresso"), a ordem veio diretamente do ministro Miguel Macedo. Ou seja, se correspondeu a uma opção política.

Não deixa, no entanto, de ser interessante que a origem de tantos parabéns dados à atuação policial tenha uma exceção: a própria polícia. A carga policial resultou de uma negliência de duas horas que deixou milhares de cidadãos entregues à vontade de uns poucos arruaceiros onde se incluem, sabe-se agora, meninos de claques de futebol. Fica a dúvida: de que lado está quem dá ordens à polícia? Dos que querem que a contestação se torne violenta ou dos que defendem o direito à manifestação?
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Violência de Estado (-por Sérgio Lavos)

Aqui está um dos profissionais da desordem de que falou o ministro da Administração Interna. O tal que ficou ofendido quando uma jornalista lhe perguntou se havia agentes infiltrados. Parece que tinha razões para ficar indignado. Os agentes não eram infiltrados, mas sim provocadores.

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Defender a democracia e o Estado de direito é isto
(-por Miguel Cardina)

A deputada Cecília Honório entregou no Parlamento um pedido para que Miguel Macedo explique a ação policial e as detenções aleatórias realizadas do dia 14 de novembro.
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Inquérito (-por Miguel Cardina)
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...Relatos indicam que ninguém ou quase ninguém ouviu os avisos que terão precedido a intervenção. E, como fica claro nas imagens, mesmo que se tivessem afastado teriam sido alvo da sanha policial.
Mais:
é no mínimo estranho que a polícia não tenha capacidade ou conhecimento para neutralizar um punhado de tipos a alguns metros de distância.

Isto cheira a outra coisa:
quem manda na polícia parece ter-se servido daquele fenómeno para agir como agiu de modo a tentar esvaziar as próximas manifestações.

E, quando assim é, não são só cidadãos e cidadãs os alvos do maquiavelismo securitário.
É também a Democracia.


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