Greve é resistência a ser escravizado

    Verdades e mentiras sobre a greve dos estivadores   (-por Daniel Oliveira)

    Pedro Passos Coelho justificou a queda nas exportações com a paralisação dos trabalhadores portuários. Começa a ser um hábito: tudo o que corra mal é responsabilidade de quem se oponha ao governo.      Falemos da greve dos estivadores. A intoxicação sobre o tema tem atingido níveis pornográficos. E resume-se a isto: os estivadores, que ganham 22 euros por hora e mais de quatro mil euros por mês, querem continuar a viver à custa dos seus privilégios enão aceitam que mais ninguém seja contratado.

      Primeiro: os estivadores recebem cerca de 1.492 euros por mês e 8,6 euros por hora. É este o seu ordenado bruto médio e não os valores que têm sido indicados. Os estivadores trabalham muito mais do que as 40 horas semanais. A prova disso está nos efeitos da greve: a paralisação resume-se à recusa em laborar mais do que um turno normal. Ou seja, os trabalhadores dos portos em greve efectuam 8 horas de trabalho diário, de segunda a sexta feira. O horário da maioria dos trabalhadores portugueses. Os estivadores têm uma profissão de altíssimo desgaste, que obriga a uma disponibilidade de horário quase permanente e que tem um nível de sinistralidade muito acima da média. Por corresponder ao manuseamento de máquinas perigosas, os estivadores têm uma profissão especializada. E, desde 1979, têm a sua profissão regulamentada.

      Este governo decidiu que, apesar da atividade portuária continuar a ter regras próprias, isso deixava de se aplicar aos trabalhadores do sector. Esta decisão tem um objectivo: fazer com que os profissionais da área passem a ser precários sem qualquer preparação, pagos miseravelmente e sem nenhumas garantias laborais. Não resulta de nenhuma crise. A atividade portuária está bem e recomenda-se. De tal forma que têm sido recrutados bastantes profissionais na última década. E, ao contrário do que se diz, o sindicato dos estivadores exige ainda mais contratações. Mas com as regras que até agora existiam. Esta nova legislação resulta de pura ganância. O resultado desta decisão será despedimento de cerca de 2/3 dos estivadores, para serem substituídos por mão de obra barata, não qualificada e totalmente precária.

      Os estivadores não estão a fazer greve para verem os seus salários aumentados - logo, o argumento do seu salário é pura demagogia. Os estivadores não estão a fazer greve para trabalharem menos. Nem para terem mais direitos. Estãoa fazer greve para defenderem os seus postos de trabalho. Sabendo que esses postos de trabalho correspondem a funções que continuam a ser necessárias.

      O único crime dos estivadores é levarem o direito à greve a sério. A greve não é um mero gesto simbólico. Não cumpre a função de uma manifestação. É o momento em que o trabalhador usa a única arma que tem: a do lucro do seu empregador depender do seu trabalho. Só há um responsável pelas perdas económicas que resultam desta greve: um governo que, servindo a ganância de quem prefere ter escravos ao seu serviço, em vez de profissionais especializados, se recusa a negociar.

      Os estivadores, pela sua coragem, determinação e firmeza (que os faz perder muito dinheiro todos os meses), são um exemplo. De quem não aceita perder a sua dignidade sem dar luta. 

      Os que, garantindo que respeitam o direito à greve, exigem uma requisição civil (ou os serviços mínimos unilaterais, que abarcam as exportações e que na prática proíbem a greve num sector não militar ou policial), mostram até onde pode ir o seu cinismo. A greve só é aceitável se tiver como única consequência a perda de um dia de salário para quem a faz. Mas não, a greve não é isso. É o direito de, usando o poder de não trabalhar, defender quem vive do seu trabalho da arbitrariedade. Os estivadores apenas fazem uso pleno, e dentro da lei, das prerrogativas democráticas que a Constituição e o Estado de Direito lhes garante. Se, para defenderem o seu trabalho, se veem forçados a fazer greve e a perder com ela rendimento, é o governo, que se recusa a negociar, que deve ser responsabilizado pelas perdas que esta paralisação traz para o País e, já agora, e em primeiro lugar, para os próprios estivadores em greve.  Ou julgava que podia fazer tudo o que queria sem encontrar nenhuma resistência?



Publicado por Xa2 às 07:46 de 19.11.12 | link do post | comentar |

2 comentários:
De Constituição ainda protege dir. Greve. a 9 de Setembro de 2013 às 13:42
Patrões queriam derrotar a greve nos tribunais mas a razão foi dada aos trabalhadores
(-por António Mariano, 9/9/2013
http://blog.5dias.net/ )

O patronato portuário de Lisboa instaurou a 17 de Julho de 2013, junto do Tribunal de Trabalho, um Procedimento Cautelar Comum contra o Sindicato dos Estivadores através do qual pretendia decretar a desconvocação e/ou cancelamento das greves em curso e a condenação do Sindicato ao pagamento de uma sanção pecuniária compulsória mínima de 5.000 euros diários por cada dia de atraso na desconvocação ou cancelamento de tais greves.

O Sindicato dos Estivadores apresentou oposição às medidas desse procedimento cautelar através de uma peça jurídica intitulada “Fundamentos legais da improcedência absoluta do pedido de providência cautelar”.

O Tribunal do Trabalho de Lisboa indeferiu a providência cautelar comum argumentando o seguinte:
... ...
Por outras palavras, os patrões de Lisboa tentaram eliminar o direito constitucional dos estivadores à greve, mas o Tribunal do Trabalho não o permitiu.

Mais uma batalha ganha pelos trabalhadores num processo edificante sobre a falta de razão dos patrões.



De ... a 20 de Novembro de 2012 às 11:04
------ O Estado Social está para lá das nossas possibilidades

Os moços (políticos de direita, comentadores, jornalistas e afins)
que andam por aí a dar como adquirido que o Estado Social vive acima das nossas possibilidades,
parecem um pai que depois de convencer o filho a deixar o emprego, refila com ele por não ter dinheiro para pagar o empréstimo da mota.

Fico na dúvida se esta gente é parva e não percebe que com 16% de desemprego, há 16% da população activa que é uma despesa para o Estado em vez de ser uma receita,
ou se nos estão a tomar por parvos para conseguirem em tempo de crise o que não conseguem em tempos normais, a redução do Estado Social.
A primeira parece-me mais plausível.

Entretanto o Eurostat divulgou hoje os 5 países da UE onde a indústria mais caiu foram exactamente os 5 PIIGS.
Dados os desequilíbrios comerciais e quebra do produto nos PIIGS, este será dos índices a mais ter em conta.
A sensatez da actual política europeia está portanto à vista.

Poderá também gostar de:
•A quimera do euro
•Desemprego nos PIIGS
•E uma greve geral europeia?

(-por Miguel Carvalho, 14/11/2012)

------- Perspectivas

O sonho de Sá Carneiro é um pesadelo:
um presidente que é o primeiro que não tenta sê-lo «de todos os portugueses»,
um governo que com a desculpa da intervenção externa realiza um programa revanchista e extremista,
uma maioria que assina por baixo,
um PS anestesiado e
uma esquerda radical guetizada.

A situação política actual só mudará nos seguintes cenários.

1.Acontece um segundo resgate antes do Verão, e Cavaco nomeia um novo primeiro ministro (Ferreira Leite?) à frente de um governo de «tecnocratas», com ou sem apoio do PS;

2.O CDS deixa-se de fitas e sai do governo, passando ao apoio parlamentar (o que não duraria muito tempo);

3.O PSD tem uma derrota estrondosa nas autárquicas de Outubro de 2013, precipitando uma revolta interna e novas eleições;

4.Uma entidade externa «demite» Passos Coelho e Gaspar por manifesta incompetência (talvez isso tenha acontecido com Papandreou, fez agora um ano), empurrando Cavaco para o cenário 1.

Na ausência de qualquer um destes cenários, temos pela frente
ainda mais dois anos e meio de empobrecimento generalizado, subserviência à Alemanha e violência policial.

(-por Ricardo Alves, Esquerda Republicana, 18/11/2012)
----------

------- Em frente, para trás!

Há um certo conceito de Estado, que se julgava enterrado nos tempos medievais, que faz o seu caminho com este governo.
É menos do que o Estado mínimo, é um Estado que apenas retém as funções pré-iluministas de:
polícia, exército, espionagem e «justiça» (mas só para a plebe).
Que gasta dinheiro em vigilância, mas não em saúde e educação.
Que aumenta em 10% polícias ao mesmo tempo que anuncia o fim do Estado social.
E quando o povo se revoltar... haverá a polícia privada dos senhores feudais, ao redor dos seus condomínios privados...

---------
FilipeMoura: De acordo genericamente, exceto na parte de aumentar os polícias. Os polícias trabalham em condições absolutamente humilhantes e têm funções de altíssimas responsabilidades. Se queremos exigir mais dos polícias (e eu sou a favor de que se exija!), também temos de lhes dar melhores condições de trabalho.

Ricardo Alves: Filipe, mas num momento em que se baixam salários a enfermeiros e se despedem professores, aumentou-se em 10% as polícias... Isto tem uma clara leitura
..

Ambos têm razão:
- os agentes da polícia estão mal pagos e trabalham em más condições;
- este aumento é um acto político para baixar a contestação dos próprios agentes da polícia e trazê-los para o lado do Governo
(«dividir para reinar» e defender a casta no poder e seus afins ... separando-os dos outros trabalhadores, desempregados e reformados que mostram a sua indignação e descontento.).

Por outro lado, este anunciado aumento não quer dizer que chegue aos agentes... pode ficar pelo caminho, para material, instalações serviços, ... e para os oficiais e comandantes ou apenas para os corpos especiais/intervenção e não para a maioria dos agentes 'normais'.


Comentar post

DESTAQUE DO MÊS
14_04_botão_CUS
MARCADORES

todas as tags

CONTACTO

Email - Blogue LUMINÁRIA

ARQUIVO

Junho 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Online
RSS
blogs SAPO