5 comentários:
De Ana Benavente a 17 de Dezembro de 2012 às 14:05
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Conflito entre os governantes que entendem a democracia como uma carta em branco entregue pelo povo para governarem contra o povo e os cidadãos que não entendem democracia sem diálogo político, sem negociação constante, sem Estado democrático que, tal como consta na nossa Constituição, assegura a todos direitos que não podem ser unilateralmente anulados. A nossa salvação só pode vir de mais participação, mais activa e decidida. Uma democracia representativa limitada aos orgãos de poder, sem a participação cidadã, é uma democracia sem alma. Um dia acordamos e já nem é democracia. Vendeu-se e vendeu-nos.

O que pensa da possibilidade de candidaturas independentes à Assembleia da República, e sobre a modificação da lei que o permita.

Podem ser positivas ou não. Para mim, mais do que candidaturas independentes – não sei bem o que quer dizer “independente”- considero urgente a democratização da vida interna dos partidos, a sua abertura aos cidadãos, a prestação de contas e até, porque não, o aparecimento de novos partidos ou movimentos com fins eleitorais se os actuais partidos se mantiverem burocratizados, fechados, investidos por pequenos e grandes interesses, divorciados, de facto – apesar de alguns discursos – da vida cidadã e dos problemas reais das pessoas, das sociedades e do mundo. O multipartidarimo é fundamental em democracia mas a existência de mais movimentos organizados só reforça a democracia, acorda as consciências, dá esperança aos cidadãos.

Qual a sua opinião sobre o Orçamento de Estado para 2013, e qual deve ser o papel do Presidente da República na apreciação do mesmo.

”Obvio, meu caro Watson” que não acredito na acção deste Presidente da República. Foi primeiro ministro durante 10 anos, escolheu receber a reforma e não o seu vencimento como Presidente. É um Presidente cujo silêncio e modo de agir me ofende todos os dias. Se devia vetar o orçamento para 2013? Claro que devia, mas não acredito que o faça.

O orçamento para 2013, na sua versão aprovada na AR, é um orçamento criminoso que empobrece a grande maioria dos portugueses e, em particular, os mais vulneráveis e os mais fracos. É um orçamento de retrocesso a um passado de grandes desigualdades e de ignorância. É um orçamento de um governo de direita que brutaliza a democracia e contraria as nossas leis fundamentais. Deixámos, com eles, de ser pessoas para passarmos a ser “recursos” e fragmentos do capital, dispensáveis e substitíveis. É um orçamento de bárbaros.

É um orçamento ao serviço da grande finança. É um orçamento que merece uma luta sem tréguas. Quando soube que os pais que têm filhos deficientes profundos tinham perdido direito ao magro subsídio estatal que recebiam, tive vergonha. Quando se penalizam desempregados aumentando, ao mesmo tempo, o tempo de trabalho para outros, quando se anunciam economias à custa da educação básica e obrigatória, estamos diante de questões civilazacionais, questões maiores que não podem ser entendidas como “um mau momento a passar”. NÃO. Este orçamento é uma peça de uma estratégia nacional e europeia para uma sociedade e um mundo em que não quero viver. É a democracia que está em causa. Já não se trata do acessório mas sim do fundamental: direitos e deveres, participação democrática, liberdade e igualdade, dignidade para todos. É isso que está em causa.

Pensa que algum dia será possível um esforço conjunto das forças de esquerda, nomeadamente dos partidos com assento parlamentar, BE, PCP, PS e movimentos de cidadãos unirem-se numa estratégia de desenvolvimento e aprofundamento da democracia no nosso País, melhor dizendo, pôr Portugal no comboio da frente do desenvolvimento esquecendo as querelas partidárias.

Não sei se será possível. Se considero importante? Considero fundamental. Não diria “esquecer” o que diferencia uns dos outros, diria antes que se trataria de encontrar o que une e não o que separa.

Tem sido um exercício difícil, senão impossível, quando foi tentado.

Aqui e ali, ...


De Ana B. a 17 de Dezembro de 2012 às 14:07

[MIC, 16-12-2012]
O nosso entrevistado de hoje é Ana Benavente, militante anti-fascista, ex-deputada e ex-secretária de estado, actualmente activista e dirigente da IAC e cidadã a tempo inteiro.
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Tem sido um exercício difícil, senão impossível, quando foi tentado.

Aqui e ali, na vida autárquica, houve entendimentos positivos, mas a nível nacional as forças de esquerda têm perdido poder por causa das querelas que refere. Além disso, é frequente reproduzir, dentro de “novos” movimentos, “velhas” práticas centralistas, burocráticas e autoritárias. No entanto, como se diz que para grandes males, grandes remédios, considero que é uma questão importantíssima na actualidade portuguesa se não queremos que a direita vença, com a sua ideologia de “uns mais iguais do que outros” e do regresso “aos pobrezinhos”, praticando uma hipocrisia agoniante. O facto das empresas do PSI 20 terem todas sede fora de Portugal deveria fazer-nos pensar. Sair de casa para não ficarmos sem casa. Se as forças de esquerda quiserem e souberem trabalhar em conjunto, claro que isso será possível. Mas se não quiserem (querem?) ou se não souberem (sabem ou querem aprender com esse processo?) é evidente que tal não será possível. Infelizmente, a história conta-nos mais fracassos do que vitórias em situações desta natureza. Desistir? Nunca. Mas o voluntarismo de alguns cidadãos não é suficiente. A questão do “poder” (pessoal e colectivo) está no centro da democracia e do modo como esta é entendida. Sendo a democracia que está em jogo, é necessária “a força do povo” (já não se usam estas expressões, não é? Estão fora de moda. Pois lamento). Persisto e assino.


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