Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2012

  Entre a Google e Depardieu, os parvos somos nós  (-por Daniel Oliveira, Arrastão e Expresso online)

  O presidente executivo da Google, Eric Schmidt, diz que se orgulha de ter poupado milhares de milhões de euros à sua empresa na fuga aos impostos. Não cometeu nenhum ilícito. Apenas usou os paraísos fiscais. "Estou muito orgulhoso da estrutura que montámos. Fizemo-lo com base nos incentivos que governos nos ofereceram", disse. A empresa sediada na Califórnia colocou de cerca de 7,7 mil milhões de euros das receitas de 2011 nas Bermudas, o que garantiu uma poupança de cerca de 1,5 mil milhões em impostos. As declarações de Schmidt provocaram indignação no Reino Unido, após a recente revelação de que, apesar de ter registado 3 mil milhões de euros de receitas no País, em 2011, apenas pagou 7,5 milhões em impostos. "Chama-se capitalismo. Nós somos orgulhosamente capitalistas." Explicou o senhor.

     Gérard Depardieu sentiu-se "insultado" com as críticas sobre a sua decisão de ir viver para a Bélgica por causa dos impostos que o governo francês criou para os mais ricos. Tão ofendido que anunciou que vai renunciar ao passaporte francês.

     Confesso que também não compreendo a ira contra Schmidt e Depardieu. Não são eles que governam. Não foi a Google que permitiu a existência de paraísos fiscais que acabariam no dia em que as principais potências do Mundo os considerassem um problema. Não foi Depardieu que impediu uma harmonização fiscal da Europa. Foram as autoridades europeias.

      O primeiro-ministro francês acusou Depardieu de falta de patriotismo. Fiquei curioso: o que fez o governo francês pela harmonização fiscal no espaço da União? É que se, para fugir aos impostos, Depardieu tivesse de deixar de ser cidadão do espaço comunitário talvez pensasse duas vezes. E o que fez a Europa e o Reino Unido para impedir que empresas que operam no espaço da União usassem paraísos fiscais? É que não sei se a Google terá grande mercado nas Bermudas. E o que fez a União Europeia, no contexto internacional, para pôr fim aos offshores que permitem a pequenos Estados viverem à custa das economias dos outros? Ou para impedir que empresas que fogem ao fisco possam operar no seu País?

     Nada do que os governos, britânico e francês incluídos, deixaram de fazer resulta de qualquer esquecimento. A ideia é mesmo alimentar a concorrência fiscal na Europa e fora dela e permitir que o sistema fiscal dos países desenvolvidos seja um autêntico queijo suíço para que dele beneficiem apenas os que mais têm. Porque os governos que elegemos não governam para nós.

     A situação em que vivemos resume-se a isto: as grandes empresas e os cidadãos mais ricos usam as infraestruturas e apoios públicos dos países mais desenvolvidos, pagos quase exclusivamente por trabalhadores por conta de outrem com menores recursos do que eles. Como apenas os que menos têm pagam impostos, os recursos vão minguando. Como eles faltam, corta-se no fundamental. O fundamental que até agora permitiu que sobre dinheiro a alguém para ver os filmes do senhor Depardieu e que permite ao senhor Eric Schmidt viver com alguma segurança num País civilizado. Mas se falta para o fundamental, nunca falta para gastar o nosso dinheiro em resgates bancários. Até porque, à medida que o Estado mais nos vai faltando, mais dependemos da banca para coisas tão simples como ter casa, escola, saúde e reformas. Ficam todos a ganhar. Todos menos nós, que somos a maioria.

      A concorrência fiscal, sobretudo na Europa, é insustentável. É até insustentável para as empresas que precisam do mercado europeu, onde as que contratam Depardieu e a Google estão seguramente incluídas. Mas o mundo não gira por imperativos éticos individuais. Não gira sequer por nenhum desígnio racional. O que o faz girar são os interesses individuais e coletivos em conflito. Não espero que um dia a Google e outras empresas distribuam menos dinheiro aos seus acionistas porque resolveram pagar voluntariamente os impostos onde deviam. Se a lei lhes permite fazer de forma diferente, de forma diferente farão. Não espero que o senhor Depardieu decida viver numa mansão mais pequena porque quer continuar a ser francês. Espero que sejam os governos a defender o interesse da maioria e a obrigá-los, como nos obriga a nós, a pagarem tudo o que devem pagar. E isso só acontecerá quando a maioria pensar como Eric Schmidt e Gérard Depardieu: de acordo com os seus interesses.

      Se a maioria paga impostos e não pode fugir a eles, se a maioria precisa que o Estado continue a garantir o que apenas os impostos podem pagar, se a maioria não quer viver do crédito quando os impostos que paga lhe devia garantir o fundamental, a maioria deve eleger quem obrigue quem mais tem a pagar tudo o que deve até ao último cêntimo. Os que podem fugir aos impostos não elegem governos. Somos nós que os elegemos. Podemos acusar estes cidadãos de falta de sentido ético ou de patriotismo. Mas os culpados somos nós, que votamos em quem não defende os nossos próprios interesses. Eric Schmidt diz-se "orgulhosamente capitalista". Até quando seremos nós "orgulhosamente parvos"?



Publicado por Xa2 às 13:40 | link do post | comentar

5 comentários:
De .Injustiça Fiscal e económica. a 19 de Dezembro de 2012 às 14:10
-------Sérgio
Outra vez a indigência do "impostos = roubo?"

O Depardieu que se mude para o Kazaquistão e desenvolva lá a sua carreira...
Sem dúvida a carga fiscal será mais do seu agrado e terá, por causa disso mesmo, tudo aquilo que teve em França e que lhe permitiu ter uma carreira...

Il est vraiment un con minable...
---------"Pirralha...eu?"
«Eric Schmidt diz-se "orgulhosamente capitalista". Até quando seremos nós "orgulhosamente parvos"?»

Se calhar, só quando deixarmos de acreditar na possibilidade de os
governos controlarem o orgulhoso monstro do capital financeiro…
(que é o) controlador dos governos subservientes.

Cristina
-------- H.Cimento

... Quanto à fuga das empresas ao fisco, também me parece ridículo que, por exemplo,
um estado como a Califórnia onde se encontram algumas das maiores empresas do mundo se encontre à beira da falência

------------

Justiça fiscal na UE e em Portugal?
(- por AG , CausaNossa, 12/12/2012)

"Pode o Presidente Barroso explicar porque é que a Troika que monitoriza o programa de ajustamento em Portugal não diz uma palavra ao
ver o Governo português legalizar a evasão e a fraude fiscais e a lavagem de dinheiro por individuos, empresas e bancos
que estao identificados como tendo acumulado mais de 4 mil milhões de euros só na Suíça, ao permitir-lhes pagar uma indecentemente baixa taxa de 7,5%?

Sem ter de repatriar esses activos, sem ter que revelar a possível origem criminosa desses activos e, ainda por cima, escandalosamente garantindo-lhes a protecção do segredo!

Onde está a justiça, a igualdade e a equidade sobre as quais o Presidente Barroso hoje aqui falou, mas que os
cidadãos europeus, sofrendo o desemprego e a pobreza em consequência da crise, não vêm de tido a UE pôr em prática?"

Foi a pergunta que dirigi esta manhã ao Presidente da Comissão Europeia em debate no PE sobre as propostas da Comissão e de Van Rompuy em debate na próxima Cimeira Europeia.

A propósito deste assunto, já enviei uma pergunta escrita à Comissão. A resposta pode ser encontrada aqui.

Barroso não respondeu - para espanto de muitos parlamentares, havia entretanto abandonado o hemiciclo,
deixando um dos seus Comissários a fingir que respondia.


De 'Polvo' G.Sachs controla$$ governante$$ a 21 de Dezembro de 2012 às 15:43

Sobre o Poder Tentacular de Goldman Sachs
(a banca que dirige o mundo, assaltando Estados e Povos)

Um filme a não perder por quem deseja conhecer as teias do poder financeiro no mundo globalizado e descobrir as raízes da crise que afecta dramaticamente os povos de muitos países capturados pelo endividamento e pela austeridade obsessiva.

Ver aqui. http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=iuNry6X9V8Q
----------

daniellefful :
Les gouvernements non seulement ont abdiqué mais se sont rendus complices de toute cette machine infernale

DJYooss:
qui a de l'explosif j'ai un petit travail de nettoyage a effectuer ...

666Vredesbyrd:
Goldman Sachs c'est Rotschild , depuis la mort de De Gaulle, les accords de Bretton woods ont été annulé et la France à élu un membre de Rotschild, George Pompidou.
Depuis la France et les pays d'Europe ont perdu leur souveraineté.
C'est Goldman Sachs qui a truqué les chiffres pour l'adhésion de la Grèce à l'Europe et qui a fait plongé la Grèce,l'Italie et tous les autres pays.
Les présidents des pays en crise appartiennent à Goldman Sachs.

TCJAL :
Le fameux reportage donc on ne cesse de parler en cours de Finances Publiques ^^ merci !
Le regarder c'est comme si je révisais !


De .Leis de/para grandes Fujões. a 20 de Dezembro de 2012 às 16:37
Os grandes escapam aos impostos
(-por OJumento, 20/12/2012)

Uma das melhores estratégias de evasão fiscal é o recurso aos tribunais, as grandes empresas recorrem da decisão da Administração Fiscal por tudo e por nada, a lei tem mais mecanismos para que os potenciais faltosos recorram do que para cobrar impostos. É o resultado da influência corrupta do lóbi dos consultores e dos advogados especializados em fiscalidade que vão passando pelo governo e criando mecanismos que permite o enriquecimento da classe.

O montante dos impostos que aguardam decisão judicial daria para acabar com a austeridade, mas parece ser preferível continuar a destruir empresas, a despedir trabalhadores e a promover a fome do que alterar este Estado de coisas. E porquê? Por uma razão muito simples, porque os mais interessados neste grande negócio altamente corrupto são as maiores empresas portuguesas, dessas cujos presidentes aparecem frequentemente nas televisões a aprovar mais austeridade, bem como alguns dos mais conhecidos advogados, gente que aprece com ar muito douto a dar opinião sobre tudo e mais alguma coisa nas televisões.

Uns escapam-se aos impostos e os outros ganham chorudos honorários graças aos recursos ou às reengenharias financeiras, tudo à custa de um país à beira do colapso e de um povo quase na miséria. Até quando?


De «interesse nacional» mascara Patifarias. a 20 de Dezembro de 2012 às 16:43
O caso Paulo Portas

«Paulo Portas está em desacordo com o Orçamento, mas aprovou-o em nome do "interesse nacional."
A invocação deste "interesse" tem-se prestado às maiores vilanias.
A abstracção contida no conceito constitui a característica essencial dos políticos que atrás dele se resguardam, a fim de impor o próprio vazio de sentido das suas decisões.
Afinal, que é o "interesse nacional"?
São os bancos, as companhias de seguros, os interesses dos mais afortunados, o enriquecimento ilícito e, agora, a troika?

Na lista das prioridades estamos em último lugar, a verificar pela miséria, pelo desemprego, pela queda abismal do nosso poder de compra, pela emigração em massa dos mais jovens e pela angústia devastadora dos mais velhos.
O "interesse nacional" é a máscara da nossa decepção permanente.

Ao refugiar-se nesta efabulação atroz, Paulo Portas desacreditou-se ainda mais.
Ele não perdeu a capacidade de tomar posição relativamente à realidade que o rodeia; é demasiadamente arguto e experiente para admitir como verdade
o embuste, criado por quem tem do poder uma ideia absoluta, da democracia uma concepção de eguariço e de nós uma percepção de subalternidade.

Ao reconhecer que, no próximo Orçamento, as coisas não serão admitidas tão benevolentemente, Portas confirma que o documento por si aprovado é um estropício, para não dizer uma monstruosidade.

A obediência às imposições do PSD, as quais agridem a moral social que proclama defender, amolgam-lhe o carácter e atingem-lhe a honra.
Não há como escapar das acusações.

A coligação está por um fio.
E não é apenas a exposição de decisões tomadas unilateralmente, como o desprezo demonstrado em assuntos cruciais.
Passos considera mais o que lhe sussurra Gaspar do que acolhe o que lhe sugere Portas.
Entre estes dois homens há um conflito de culturas e um atrito ideológico.
O mal-estar no CDS é difícil de dissimular, e bem pode o patético Relvas asseverar que tudo está muito coeso quando ouvimos os trambolhões que já chegam ao céu.

O "interesse nacional", sobre ter dado cobertura às maiores patifarias, faz-nos engolir, com repugnância, o amargo veneno da servidão.

Quem da expressão se tem servido não admite, aos outros, a possibilidade de escolha.
"Não há alternativa"
é, igualmente, uma frase maldita que nos têm inculcado como impossibilidade de conduta, a não ser aquela que o poder impõe.
É no mínimo estranho que um homem lido e havido como Paulo Portas tenha admitido a possibilidade de que todos somos jumentos, e que a preguiça mental e a indiferença cobarde nos hajam definitivamente afectado.

Teve a oportunidade de bater com a porta, e libertar-se das teias de uma política que o embaraça.
Não o fez, em nome do tal "interesse nacional", e excedeu os limites éticos tradicionalmente atribuídos aos homens de bem.
A escolha foi dele.»

[DN] Baptista-Bastos.
(via OJumento)


De Impostos: só pagam Trab.conta outrem!! a 20 de Dezembro de 2012 às 17:24
Impostos: os pobres pagam, os ricos recorrem


«Os grandes contribuintes, responsáveis por quase um terço da receita fiscal em Portugal, resistem a pagar os impostos resultantes de inspecções do Fisco. De acordo com o parecer da Conta Geral do Estado de 2011, entregue ontem no Parlamento pelo presidente do Tribunal de Contas (TC), Oliveira Martins, dos 552 milhões de euros que os grandes contribuintes tinham de entregar, apenas pagaram 63 milhões de euros até Março deste ano.

O parecer dos juízes alerta para o facto de a Autoridade Tributária, presidida por Azevedo Pereira, ter cobrado "menos de 10% do valor das liquidações resultantes de inspecções aos grandes contribuintes", que correspondem a grandes grupos económicos. O valor da receita fiscal aumentou no ano passado 590 milhões de euros, relativamente a 2010, mas em contrapartida tem diminuído o valor da cobrança após inspecções.

Os juízes chamam a atenção para o facto de muitos dos processos de liquidação seguirem para tribunal. Nesse sentido, recomendam ao Governo que "adopte medidas tendentes a melhorar a eficácia das inspecções aos grandes contribuintes e aperfeiçoe o sistema de informação com vista a apresentar a receita obtida após as decisões finais sobre os processos".» [CM]

Parecer do Jumento:
Digamos que tudo está feito para dar de comer a uma classe de advogados que enriquece à custa do país.

Despacho do Palheiro: «Acabe-se com esta marmelada.»


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