De .Lei da selva e desprezo de vendidos. a 7 de Janeiro de 2013 às 10:18
Até os seus aliados o governo despreza
(-por Daniel Oliveira, 7/1/2013, Arrastão e Expresso online)

Não há praticamente nada que João Proença não aceite. Não há acordo, por pior que seja, que não esteja disponível para assinar. O secretário-geral da UGT transformou-se num dos poucos aliados deste governo.
Mas nem ele é respeitado por Passos Coelho e Vítor Gaspar. Depois de ter acordado que não haveria mais alterações nas indeminizações por despedimento até entrar em vigor o novo fundo pago pelos trabalhadores, o governo decidiu, às escondidas, reduzir as indeminizações para 12 dias por ano.
Tal proposta nunca foi apresentada em concertação social. Até os patrões, que concordam com a medida, confirmam a traição.

Não é defeito, é feitio. Passos Coelho e Vítor Gaspar, incapazes de compreender os mecanismos democráticos pelos quais nos regemos, dinamitam todas as possibilidades negociais para qualquer medida sua.
Estes fanático à solta conseguiram, finalmente, deixar o governo irremediavelmente isolado: nem Cavaco, nem CDS, nem grande parte do PSD, nem UGT.

Pode dar-se o caso de estarmos, mais uma vez, a assistir à estratégia de avançar com a pior proposta para recuar depois,
tornando aceitável o que à partida nem deveria merecer negociação.
Mesmo que volte a resultar, ela vai minando a pouca credibilidade que reste a este governo.

As indeminizações por despedimento são a única forma que um trabalhador de 40 ou 50 anos com muitos anos numa única empresa tem para reconstruir a sua vida.
Para tentar começar um negócio ou apenas sobreviver entre o fim do subsídio de desemprego e a reforma.
São o que permite que o despedimento seja uma tragédia um pouco mais suportável e que evita o caos social.
Uma redução tão drástica nos seus montantes terá efeitos brutais no futuro.

Mas esta medida é coerente com a estratégia do governo e da troika para o País:
embaratecer o despedimento é enfraquecer o poder negocial do trabalhador,
enfraquecer o poder negocial do trabalhador é criar as condições para reduzir o salário,
reduzir o salário é a estratégia que este governo tem tornar Portugal competitivo.
Uma estratégia sem qualquer futuro.

Há, em países de média dimensão, duas estratégias possíveis perante o despedimento.
Uma, usada nos países que adoptaram a "flexisegurança":
facilidade de despedimento, barato e rápido, com prestações sociais fortes e apoio público ao emprego.
Há flexibilidade, mas a segurança está garantida. Há mobilidade no emprego mas há apoio aos desempregados e empenhamento do Estado na criação de emprego.
A outra, mais tradicional:
subsídios de desemprego moderados, pouco investimento público na reconversão dos trabalhadores e leis laborais que protegem o emprego criado.
A primeira, que já foi vendida por aqui, só é possível em países com muitos recursos.
É cara para o Estado.
A segunda, é a que pode ser aplicada nos países com menos recursos.

O que o governo quer é o pior dos dois mundos: despedimento fácil e barato e redução de apoios públicos aos desempregados.
É o que se pratica nos países subdesenvolvidos.
Aqueles que são competitivos no trabalho desqualificado.
Compreende-se, assim, que o governo despreze os parceiros sociais.
Em países realmente pobres a concertação social é irrelevante.
Funciona apenas a lei do mais forte.


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