Alternativas ao crime neoliberal: o exemplo do Equador

         Aprender  com  a  América  latina

Presidente RAFAEL CORREA  do Equador a descrever a Crise Espanhola (e a Portuguesa) falando do Equador  (2012/12/3, Público (espanhol), por Bonifacio Cañibano, via No moleskine)
      Rafael Correa chegou ontem à tarde à Universidade Pablo de Olavide, em Sevilha, onde era aguardado por uma multidão de pessoas. Veio explicar como tinha o Equador saído da crise da sua dívida ou, como ele próprio chamou, da «longa noite neoliberal» na qual afundaram o país na década de noventa: a ação conjunta de banqueiros insaciáveis, políticos corruptos e governos cegamente obedientes às medidas desreguladoras do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. Parecia estar a descrever o que se está a passar em Espanha e no Sul da Europa, porque o processo era quase uma fotocópia do seguido aqui, de tal modo que, para não provocar conflitos diplomáticos, avisou no início da conferência que «não vinha dar conselhos ao governo espanhol sobre a forma de sair da crise, mas sim descrever o que tinha acontecido no país dele».
      A sala onde decorreu a conferência estava a abarrotar de estudantes e havia mais três salas onde se seguia a sua intervenção por videoconferência. Mesmo assim, não era suficiente. Fora, no campus, um numeroso grupo de estudantes que tinham ficado sem lugar gritava durante metade da conferência: «Que saia Correa!»
     O presidente do Equador situou a origem dos problemas económicos do seu país na década de setenta, em pleno boom do petróleo. Nessa altura, o Equador crescia a um ritmo de 10 por cento, superior ao que a China apresenta atualmente. Então, quando houve excesso de liquidez, começaram a aparecer em Quito os burocratas do FMI, do BM e da banca internacional, predicando o endividamento agressivo. O país começou a comprar compulsivamente no estrangeiro todo o tipo de coisas, entre as quais, obviamente, pacotes de armamento caríssimos.
      Em 1982, o Equador já não conseguiu pagar a dívida e a situação explodiu. Naquela altura, disse Correa,«entrou em funcionamento a lógica financeira do FMI, que dá a prioridade ao pagamento da dívida, acima de tudo». Os sucessivos governos equatorianos sentiram a necessidade de endividar-se uma e outra vez para poder pagar os cada vez mais altos juros de uma dívida que continuava a crescer. «O objetivo da economia passou a ser o pagamento das dívidas do próprio Estado e dos bancos, enquanto a população empobrecia cada vez mais», acrescentou, levando os estudantes a aplaudir entusiasticamente. «O círculo infernal em que se encontram atualmente Grécia e Portugal» – afirmou Correa, que, por respeito ao país anfitrião, não incluiu a Espanha nesta referência.
     No Equador, sustentou o Presidente, «a dívida privada interna (a dos bancos) foi paga à base de empréstimos externos, mas à custa do endividamento do Estado». Também desta vez não referiu Espanha, mas lembrou que dois anos antes, numa visita a Portugal, tinha avisado o governo português do risco de acontecer o mesmo no país vizinho. Augúrio cumprido.
    O passo que o Equador deu em seguida também é bem conhecido nestas latitudes: «Foi o das privatizações, desregulações e cortes sociais, ditados pelo consenso de Washington, a Bíblia do neoliberalismo para a América Latina». (Algo semelhante ao que ditam atualmente Berlim ou Bruxelas). «Impuseram-nos leis», disse o Presidente, «que, diziam eles, impulsionavam a competitividade e a flexibilidade no trabalho, que é o mesmo que explorar os trabalhadores», esclareceu a uns estudantes cujos aplausos e entusiasmo continuavam a aumentar. «Demonizavam a despesa pública quando era para pagar aos professores, mas não quando era para comprar armas», voltou a esclarecer.
     Foi nesta conjuntura que o Equador entrou no ano 2000, no qual 16 bancos foram à falência. «Então, os políticos, que não representavam os cidadãos mas sim os poderes económicos, tudo fizeram para que a crise fosse paga pelo povo», referiu, tendo todo o cuidado para não mencionar em momento algum a Espanha, enquanto as quatro salas aplaudiam com grande alvoroço. Correa explicou que, pouco antes da falência, o governo em funções criou um Fundo de Garantia de Depósitos, que não teria sido uma má ideia se o objetivo não tivesse sido o de cobrir as perdas das entidades financeiras que faliram imediatamente depois. “Desta forma, as perdas da banca foram socializadas”. O presidente equatoriano manteve-se firme na decisão de não fazer comparações com a Espanha.
     O «quintalinho» equatoriano recebeu o nome de encautamiento de depósitos (cativação de depósitos), que se traduz na proibição governamental de os cidadãos utilizarem o dinheiro que tinham no banco. Depois chegou a dolarização, os suicídios – «chegamos a conhecer um novo fenómeno, o suicídio infantil» – e a emigração de milhões de equatorianos (alguns dos quais presentes na conferência).
     Correa criticou abertamente a independência do Banco Central Europeu, «que não está a fazer o necessário para que a Europa saia da crise». «A ideia de que a economia não é política não resiste a uma análise séria e torna-se uma estupidez argumentar que os tecnocratas que a dirigem tomam decisões sem interesses políticos concretos, como se fossem seres celestiais que não estão contaminados pela maldade terrena». Nesta altura o público estava rendido. Depois, dirigindo-se aos estudantes, disse: «Quando a burocracia financeira internacional toma decisões, não está a pensar em solucionar o vosso desemprego, está a pensar no pagamento da dívida». E disse-o com a elegância de colocar como sujeito dessa ação a burocracia internacional... não os políticos locais.
     Foi mais direto ao evocar um cartaz que tinha visto em Sevilha nessa manhã e que dizia «Gente sem casas e casas sem gente». «Se seguirmos a lógica dos poderes financeiros vamos chegar ao pior dos mundos possíveis, no qual as pessoas não terão casas e os bancos terão casas de que não precisam». Os despejos são inumanos, disse, e «não tem lógica que uma pessoa que entrega a casa, por não a conseguir pagar, fique endividado para sempre». O presidente explicou que, quando chegou ao governo em 2007, implementou de imediato diversas medidas: eliminou a hegemonia do seu banco central, auditou e reestruturou a dívida, eliminando o embuste da «dívida ilegítima» e recuperando títulos de dívida a 35 por cento do seu valor nominal. Depois pagou o resto, «para se livrar do condicionamento do FMI, como haviam feito o Brasil e a Venezuela». Correa terminou lembrando que «expulsei de Quito a missão do Banco Mundial e há seis anos que a burocracia financeira internacional não voltou ao meu país.  Agora estamos melhor do que nunca».
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Atenção: R.Correa é um presidente/ governante eleito democraticamente mas "é estranho", porque não governa para as oligarquias, para os bancos, para o sistema financeiro internacional, para o FMI, para as "tróicas", de lá ou de cá. Não, R. Correa, como aliás mais alguns governantes de outros países latino-americanos, trabalha e defende os interesses do seu povo. Parece mentira? Pois, mas assim se comprova que também existem verdadeiros e bons Políticos.


Publicado por Xa2 às 07:48 de 08.01.13 | link do post | comentar |

3 comentários:
De .Finança Kafkiana ordo/neoliberal crimin a 8 de Janeiro de 2013 às 09:35

A Máquina
(-por Alexandre Abreu, 7/1/2013, Ladrões de Bicicletas)

A trama de “Na colónia penal”, de F. Kafka, gira em torno de uma máquina, operada com zelo burocrático, que executa os condenados de um modo especialmente sádico: inscrevendo-lhes no corpo, ao longo de doze horas, o mandamento que infringiram.
O último executado é o próprio executor-chefe: imola-se voluntariamente, por amor à máquina, quando confrontado com a crescente contestação face à desumanidade do método.

É uma metáfora apropriada para aquilo que, a nível europeu, as elites alemãs criaram a partir de três elementos principais:
um BCE à imagem do Bundesbank e por este controlado;
a consagração nos tratados europeus dos princípios do ordoliberalismo (a variante alemã, precoce e mais corporativista, do neoliberalismo);
e a compressão salarial levada a cabo na última década na própria Alemanha.

O resultado: uma máquina neo-mercantilista, geradora de enormes excedentes comerciais na Alemanha a par de défices comerciais e endividamento na periferia europeia, que condena esta última ao declínio inexorável.

Na Alemanha, o pensamento ordoliberal não está confinado à CDU de Merkel. É uma componente tão central do modelo económico alemão no pós-guerra que a sua hegemonia abarca igualmente o FDP, o SPD e até os Verdes.
Obviamente, não é um modelo generalizável (os excedentes de uns são sempre défices de outros), mas isso não impede este pensamento de dominar a política alemã de tal forma que as eleições de 2013 serão, face aos tempos da crise europeia, totalmente irrelevantes.

Indiferentes à contestação crescente, as elites alemãs e europeias continuarão a operar zelosamente a máquina mesmo quando ela se virar contra os executores - neste caso, através da recessão na própria Alemanha induzida pelo colapso das periferias.
A máquina kafkiana é imparável uma vez iniciada e só se detém quando, no final do conto, todo o aparelho se desmorona com estrondo.
Assim será com o Euro, independentemente das eleições alemãs e do indizível sofrimento inútil entretanto originado.

-------- Diogo disse...
Caro Alexandre,

Eu fui um dos que gravou a sua intervenção na SIC Notícias, no Opinião Pública, e que o colocou no Youtube.
Considerei-a uma excelente intervenção e colocou o dedo na ferida ao dizer que
os membros do Governo que regulam as nossas finanças nada têm de ingénuos e que, portanto, são uns vigaristas.

Mas não pense que são (só) as elites alemãs que controlam a finança europeia. Como já dizia Henry Ford, nos anos vinte:

Existe no mundo de hoje, ao que tudo indica, uma força financeira centralizada operada por meia dúzia de homens que está a levar a cabo um jogo gigantesco e secretamente organizado, tendo o mundo como tabuleiro e o controlo universal como aposta.

Hoje ninguém acredita que a finança seja nacional nem ninguém acredita que a finança internacional esteja em competição. Existe tanta concordância nas políticas das principais instituições bancárias de cada país como existe nas várias secções de uma empresa – e pela mesma razão, são operadas pelas mesmos poderes e com os mesmos objetivos.

---- Anónimo disse...
Veremos se nao descamba em guerras .


De .Relatório FIM do Estado social. a 10 de Janeiro de 2013 às 08:51
O relatório do FMI

O relatório do FMI que deu lugar a uma conferência de imprensa de Carlos Moedas, um homem de peso deste governo e com algumas ligações internacionais (não nos podemos esquecer que esteve no Goldman Sachs), e sobre qual teceu largos elogios, não aparece por acaso mas a pedido do governo e aparece para em grande parte ser implementado.

O Governo pensa que pode impor medidas quando são sugeridas ou "fabricadas" por organismos internacionais.

O governo já disse que o documento é só de apoio. Mota Soares já disse também que há premissas erradas.

Mas não nos deixemos iludir. Este governo sabe o que quer fazer a este país. Quer um Estado mínimo mesmo quando nacionaliza o BANIF. Não é um contrasenso. É que o Estado mínimo é para servir o capital e sobretudo o grande capital. PME e mesmo algumas grandes não interessam a este governo ou outro parecido. Assim se o capital estiver em dificuldade este governo intervém para o fazer sair da situação crítica. É o caso do BANIF.

Este relatório é um atentado ao povo português. Ou nos unimos para por este governo no sítio certo que é apeá-lo ou então estamos a caminhar para esse Estado mínimo que cada vez mais estár ao serviço do grande capital.

(# posted by Joao Abel de Freitas , PuxaPalavra, 9/1/2013)


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