De .o q. + preocupa é o SiLÊNCIO dos Bons. a 18 de Fevereiro de 2013 às 09:11
> Os silêncios

Um dia bateram-me à porta e anunciaram-me que o governo tinha decidido
cortar-me meio subsídio de Natal. Apesar de inconstitucional, compreendi o
sacrifício que o Governo me pedia.

Noutro dia bateram à porta do meu pai e anunciaram-lhe que iam cortar meia
pensão do Natal. Apesar de considerar que era um roubo, ainda admiti, porque
o pais estava em estado de emergência.
Depois bateram-me à porta e anunciaram que me iam tirar dois meses de
salário e dois meses de pensão ao meu pai. Depois da estupefacção,
resignação.

A 7 de Setembro, bateram-me à porta para me anunciar que tiravam 7% do
salário para dar 5,75% ao patrão e ficavam com os trocos, em principio para
os cofres da Segurança Social.

Desta vez fiquei indignado. Achei que estava a ser roubado e que estavam a
transformar os patrões em receptadores do dinheiro roubado.
Em reacção, corri para a rua para protestar.
Bateram-me mais uma vez à porta e informaram-me de que o ministro das
finanças ia reescalonar as taxas de IRS, de modo a torna-lo mais
progressivo.

Imaginando que iam poupar os rendimentos mais baixos e taxar fortemente os
mais altos, pensei que o Governo, finalmente, voltava ao trilho da lei.
Mas para surpresa minha, voltaram a bater-me à porta para me ameaçarem com
aumentos brutais no IMI. A minha indignação transformou-se em ira e
juntei-me ao movimento nacional de resistentes ao pagamento do IMI.

Ainda mal refeito do choque do IMI, bateram-me novamente à porta para me
mostrarem nos jornais, em grandes parangonas e cinco colunas, os novos
escalões de IRS. Afinal aumentaram as taxas dos rendimentos mais baixos,
menos os dos mais altos e não criaram nenhum escalão para os mais ricos. E a
progressividade do rei dos impostos diminuiu. A minha raiva subiu de tom e
resolvi não mais voltar a votar estou preparado para qualquer acção
revolucionária que apareça. Ao fim e ao cabo eu o meu pai e a minha família
já não temos nada a perder.

- (J. Nunes de Almeida, Ericeira)
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> Maiakovski, poeta russo escreveu, no início do século XX :

Na primeira noite, eles se aproximam
e colhem uma flor de nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite,
já não se escondem,
pisam as flores, matam nosso cão.
E na oportunidade
E não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles,
entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua, e, conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada,
já não podemos dizer nada.

- Maiakovski (1893-1930)
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> Depois Bertold Brecht escreveu:

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

-Bertold Brecht (1898-1956)
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> Em 1933 Martin Niemöller criou o seguinte poema:

Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.
Como não sou judeu, não me incomodei.
No dia seguinte, vieram e levaram
meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunista, não me incomodei .
No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico.
Como não sou católico, não me incomodei.
No quarto dia, vieram e me levaram;
já não havia mais ninguém para reclamar.

-Martin Niemöller,(1892-1984) símbolo da resistência aos nazis.
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> Em 2007 Cláudio Humberto presenteou-nos assim:

Primeiro eles roubaram nos sinais, mas não fui eu a vítima,
Depois incendiaram os ônibus, mas eu não estava neles;
Depois fecharam ruas, onde não moro;
Fecharam então o portão da favela, que não habito; Em seguida arrastaram até a morte uma criança, que não era meu filho.
- Cláudio Humberto, em 09 Fevereiro de 2007
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> Também Martin Luther King (1929.1968):

O que mais me preocupa não é nem o grito dos violentos, dos corruptos, dos desonestos, dos sem carácter, dos sem ética.
o que mais me preocupa é o silêncio dos bons !.


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