Movimento 5 estrelas ... e convergência na Manif. 2 Março

E em Itália… O POVO É QUEM MAIS ORDENA !!!  Tsunami eleitoral arrasa Troika e o Euro Alemão

(-por Francisco, 26/2/2013, http://blog.5dias.net/ )

     Não é a Merkel, não é a Troika, não é o Monti, não são os “mercados”, não são os “investidores” ou os fundos de pensão, não são (os comentadores avençados nem) os articulistas do Economist ou do Finantial Times. Não, em Itália é o Povo quem mais ordena. Abaixo um excerto de um texto publicado na cobertura que o Finantial Times fez da noite eleitoral italiana: «Given the resounding defeat for the most reform-minded party which investors had hoped would act as a moderating force in the next government, and the populist backlash against the country’s political establishment, the prospects for fiscal and structural economic reform in Italy appear to have been dealt a severe blow. »

     Há uns tempos o Economist deixava claro qual o melhor cenário para a grande finança internacional: «A better result would thus be one in which Mr Bersani and his more left-leaning colleagues ally with Mr Monti out of necessity, not merely for show, giving the former European commissioner greater influence. »

     FALHARAM !  Monti não teve votos suficientes para viabilizar qualquer governo e está fora da jogada. Queriam o Bersani (coligação pseudo-esquerda) a limpar o cú à Merkel e ao Monti e a acalmar os sindicatos (papel que o Bersani estava pronto a desempenhar), enquanto o Monti governava realmente. Não aconteceu. O grande capital e o IV Reich (União Europeia telecomandada por Berlim e cada vez mais anti-democrática) tiveram uma estrondosa derrota. Não é por acaso que os jornais alemães têm títulos como:  Bild – “Será que vão destruir o nosso Euro?”    Der Spiegel – “Itália um perigo para a Europa

     Espero bem que sim! Espero bem que o vosso Euro seja destruído! No mínimo que seja um euro Europeu e não um Euro ao serviço da Alemanha, como os próprios chauvinistas Alemães do Bild assumem (e ainda há quem ache que não há interesses nacionais ou contradições entre estados-nação !!!!).  E um perigo para a Europa?  Mais uma vez, espero bem que sim, espero que de facto seja um perigo mortal para as políticas austeritário-depressivas que têm conduzido os povos do sul da Europa à miséria.

     Esta não foi a “única” coisa positiva destas eleições, mas mesmo que fosse já era motivo para festejarmos!

Na ida para estas eleições o povo Italiano confrontava-se com duas grandes questões.    Primeiro, a miséria, o corte de rendimentos, a austeridade regressiva, como parar com isso ?    Segunda, que já vem de longe, a corrupção e a máfia como atacar esse cancro de forma mais eficaz ?

    Se pensarmos que estas duas temáticas e questões (e a meu ver, COMÉ ÓBVIO) eram as centrais para o povo Italiano, veremos que os resultados destas eleições são bastante previsíveis e foram os melhores possíveis tendo em vista que o objectivo era atacar esses mesmos problemas.

     Ainda ontem no final do meu post, deixei algumas perguntas chave lançadas pouco antes de terem fechado as urnas…

---   Em Itália veremos quantos votos o programa da Troika realmente obtém. Monti o vice-rei da Merkel e do FMI para as províncias italianas concorre às eleições, quantos votos terá?

monti Para o Senado teve 9,1% e para a Câmara de deputados 10,5%, é isso que vale o ex-primeiro Ministro de Itália, o menino querido dos mercados, o vice rei para as províncias italianas do IV Reich. O seu programa austeritário, ao serviço do grande capital e da banca, vale 10% ou menos do eleitorado Italiano.   É esta a base social de apoio da Troika e dos Troikistas.    Foi o grande derrotado da noite juntamente com todo o seu programa… 

    Sempre achei arriscado por parte da grande burguesia lançar desta forma o seu delfim para a arena pública (ex-banqueiro da Goldman Sachs, ex-comissário Europeu).    Presumo que o cálculo seria que ele conseguisse os votos suficientes para viabilizar um governo Bersani (tal como o Economist e incontáveis intelectuais ao serviço do grande capital desejavam/previam). Mas tal não aconteceu e o que acabou por ter lugar foi uma humilhação pública do “salvador do euro” e do filho pródigo da grande finança.

     É neste momento muito mais difícil, qualquer que seja o governo Italiano que se forme, seguir as políticas ditadas por Berlim e pelos talibãs neo-liberais.

---     E a pseudo-esquerda que se prepara para governar com Monti (veremos quais os resultados dessa estratégia suicida)?

 Sendo uma estratégia à partida suicida o resultado é que não resultou… Monti era o inimigo a abater, o justo alvo do ódio popular, o carrasco nomeado por Berlim, que substituiu num processo muito estranho um representante (mal ou bem) eleito pelo povo.

     O Economist e a grande finança queriam à toda força um Bersani que domesticasse a luta social e que prosseguisse a destruição do estado social e empobrecimento geral da população italiana, com Monti como cão de guarda do IV Reich no seu governo…  E o Bersani ajeitou-se a esse papel.  Era assim que queria ganhar a confiança do povo Italiano ???   É isso ser de Esquerda ???   O resultado desta política colaboracionista com a Troika (oficialmente não está em Itália, mas é como se estivesse…) é um rotundo fracasso eleitoral.

     Para a Câmara dos Deputados, depois de todas as palhaçadas do Berlusconi e da intensa campanha internacional de descredibilização, mesmo assim a coligação “Bem comum” da pseudo-esquerda ganha as eleições apenas com uma vantagem de décimas !  “Bem comum” de Bersani tem 29,54% e a coligação do Berlusconi tem 29,13% !!!  Uma diferença de 0,41%… isto é um empate técnico…  E Bersani só tem uma larga maioria na câmara de deputados, porque tal como na Grécia o partido mais votado tem um bónus.   A Itália sendo uma federação (ou perto disso, é um país recente que só se unificou na década de 60 do século XIX com grandes diferenças regionais) tem um senado onde a representação regional tem mais peso, no Senado o bonus é dado por região e não pelo total nacional. Isso explica porque mesmo com 31,60% dos votos contra  30,66% de Berlusconi (mais uma vez uma vitória rés-vés Campo de Ourique) Berlusconi fica no final com mais senadores.

     Até ao momento Bersani ainda não falou, é revelador do tsunami eleitoral que varreu Itália. Mais revelador é da gigantesca encruzilhada estratégica em que se encontra a Internacional “Socialista”. Por um lado apregoam políticas pró-crescimento e um atenuar da austeridade, por outro são os mais fiéis defensores do reforço da União Europeia/IV Reich, esta é uma contradição que é difícil resolver e o desenrolar da crise apenas tornará a tarefa mais difícil.

---     E o mafioso-demagogo (Berlusconi), é um crápula, mas ao menos teve a lucidez política de eleger Monti como seu inimigo nº1 (pa enganar as massas, mas ao menos dá-se a esse trabalho…)…

    Il Cavalieri… Feito cavaleiro por decreto presidencial quando lhe foi atribuída a ordem de mérito do trabalho… foi o primeiro ministro italiano que permaneceu mais tempo no cargo desde a segunda guerra mundial (e o terceiro desde a unificação de Itália). Faz parte de uma longa tradição de políticos italianos de Cesar Bórgia a Andreotti, uma tradição que confunde negócios públicos com privados, que não tem pejos em recorrer à violência, suborno/corrupção/intriga, apoiada e ligada à santa madre igreja católica apostólica Romana. Há quem diga que é o herdeiro de Andreotti (de que este filme faz um interessante retrato) e da maçónica P2. Ou seja, “Il Cavalieri” pode ser um misógeno, xenófobo, mafioso e tuti quanti, mas é também a cara, o herdeiro de uma longa tradição e de um conjunto de interesses poderosos na economia-sociedade-política Italiana.

    É importante relembrar isso porque como é óbvio, este sector da sociedade Italiana não iria  desaparecer por milagre só porque nesta particular conjuntura isso é o que dá mais jeito à grande finança Internacional e Alemã… Esta lógica mafiosa, que foi alimentada no pós guerra para conter a ascensão ao poder do histórico (hoje defunto) Partido Comunista Italiano não se liga e desliga consoante os desejos da grande burguesia internacional… Sobretudo quando a situação económico-social só se agravou enquanto Itália foi governada pelo vice-rei ao serviço da Alemanha. Depois, com um elevado instinto de sobrevivência Berlusconi lançou forte e feio a cartada anti-Merkel, em conjunto com uma série de propostas demagógicas (como enviar uma carta a todos os italianos a dizer que lhes vai devolver parte dos impostos pagos…).

    Entre escolher aqueles que prometem lutar por melhores condições de vida e aliviar o sofrimento do povo ou aqueles que só prometem mais do mesmo, sendo que é óbvio (sobretudo em Portugal) que esse rumo só levará a mais miséria, quem é que escolheriam?

    Pode-se, como muit@s fazem, olhar para o fenómeno Berlusconi (e outros semelhantes tipo Alberto João, Isaltino Morais ou Valentim Loureiro) com um certo desdém aristocrático-liberal e dizer que são uns “incivilizados”, “selvagens” ou outros mimos equivalentes e depois ficar à espera que a “ralé” se importe com isso e vire as costas ao seu “Cavalieri”.  Ou pode-se fazer um esforço…  Avaliar as dinâmicas políticas, sociais e económicas por um prisma materialista dialéctico, ir para lá da espuma dos dias e perceber qual o papel que esse tipo de movimentos/personagens desempenha a cada momento do processo histórico. Aliás só assim se poderá percorrer o caminho que permitirá derrotar/neutralizar os Berlusconis desta vida.

    E não é de certeza a correr para os braços do Monti e prometendo mais miséria para o povo que se derrotam estas personagens !!!!!!!

Deixo uma última nota, a forma como Berlusconi foi deposto do poder e substituído por Monti. A demissão de Berlusconi em Novembro de 2011 de primeiro ministro deveria ser motivo de júbilo. Eu pecador confesso que não senti na altura júbilo nenhum. Berlusconi não  caíu devido à pressão popular (embora vários protestos que antecederam a sua queda tenham contribuído para o desgaste), não saiu para se dar voz ao povo e haver novas eleições.   Não, o que se passou foi um representante eleito pelo povo ser deposto e substituído por um funcionário da Comissão Europeia (ex Goldman Sachs). Não sei o que é que há para celebrar nisto. Aliás para muita da base “Berlusconiana” não só não havia motivos para celebrar, como havia fortes motivos para levar acabo uma VENDETTA (vingança)...

 ---   E o palhaço? No meio desta palhaçada, envolvendo máfias domésticas e internacionais, veremos como se sai o genuíno palhaço

Beppe Grillo

   Beppe Grillo e o movimento 5 estrelas foram os grandes vencedores. O movimento 5 estrelas foi o Partido mais votado para a câmara dos deputados com 25,55% dos votos, as coligações de Berlusconi e Bersani estão ligeiramente acima (com 29% e qualquer coisa cada uma) mas os seus partidos ficaram abaixo do movimento.

   Assim irrompe na Europa e na Itália este movimento que vindo do nada conquista o primeiro lugar (como partido) nas eleições. Do nada? Do nada não é bem assim, as últimas eleições em Itália antes destas foram para o governo regional da Sicília e adivinhem quem foi o partido mais votado? Foi o 5 estrelas… E este tipo de fenómeno, a mim, faz me lembrar velhos episódios da história italiana… Grillo é em certo sentido o herdeiro de Savonarola, o monge dominicano que se insurgiu contra a opulência dos príncipes-banqueiros Médicis e o deboche do papado Bórgia.

   A linha de ataque principal de Grillo é contra a corrupção/máfia e os políticos (instalados) em geral. Tendo em conta o historial Italiano nessa matéria, é uma escolha que faz algum sentido… Não admira que essa mensagem caia em terreno fértil. Chamam-lhe populista, so what? É ou não é a corrupção um enorme problema em Itália? Está ou não está a vida política-partidária tradicional completamente podre e sem capacidade de resposta face aos actuais desafios? Óbvio que sim…

   Outra linha foi a anti-euro e IV Reich. Mais uma vez na mouche, se o Euro como diz o BILD é a moeda da Alemanha então os Alemães que fiquem com ela! Em Portugal, pequenino, a saída do euro causa algum temor, percebo “o que será de nós pobres e miseráveis portugueses abandonados à nossa sorte sem o euro para nos proteger”, esta é uma narrativa que vai colando. Em Itália país membro dos G7, há outra confiança que permite lançar um desafio mais claro.

    Outras propostas/campanhas do movimento são por exemplo a saída das tropas italianas do Afeganistão e a defesa da água e saúde como bens públicos e universais. O programa pode ser consultado aqui ou aqui.

    Mas talvez o que salte mais à vista seja a idiossincrasia do líder, que começou a campanha  para o governo regional da Sicília percorrendo a nado o estreito de Messina… Com vigor e agressividade está sempre à ofensiva “políticos rendam-se estão cercados!” foi um dos seus gritos no gigantesco comício de encerramento em Roma. Depois há toda aquela coisa do movimento, com candidatos escolhidos pela net, campanha de costas viradas para a televisão e com aposta forte nas acções de rua e pela internet

    Tenho algumas dúvidas quanto à consistência de tudo isto… mas o resultado do 5 estrelas é muito mais um sinal de esperança do que um “perigo”. Que o Economist e outros que tais achem que é um “perigo” compreendo eu e até valida a virtude deste movimento, que quem esteja contra o neo-liberalismo austeritário-autoritário também veja este movimento como um perigo compreendo menos…  Obviamente que a combinação líder forte/carismático  com movimento basista/horizontal leva a certas incongruências e a saltarem cá para fora certas propostas mais “reaccionárias”, mas esse não é o centro estratégico do movimento, não é o fundamental do seu papel histórico neste momento. Esses são epifenómenos marginais inerentes a qualquer amplo movimento de massas genuíno…     A Esquerda já tem obstáculos suficientes no seu caminho, não precisa de inventar inimigos adicionais…    O pau na engrenagem da União Europeia/Mercados colocado pelo 5 estrelas é muitíssimo bem vindo.

---    Para lá das perguntas que lancei no post de ontem levanta-se uma outra, e a Esquerda, a Esquerda a sério ?  Onde está no meio disto ?

Quarto_StatoA Esquerda italiana suicidou-se em 2006 quando a Refundação Comunista (que por instantes foi o “modelo” para a nova esquerda europeia…) integrou o governo Prodi. Quando o governo Prodi caiu a Esquerda foi varrida do parlamento e a refundação desintegrou-se… Uma vez perdida a confiança do povo, a consistência da organização, a própria confiança dos militantes, os danos são de tal ordem que não é fácil a reconstrução. Estas não são coisas que se recuperam com um estalar de dedos. O espaço deixado vazio pela refundação seria mais tarde ou mais cedo reocupado por alguém. Perante o acelerar da história não houve tempo para a esquerda superar as suas recriminações sectárias e a confiança popular. Outros chegaram-se à frente. O "movimento 5 estrelas" …

   Não é por acaso que o comício de encerramento de Grillo foi na praça S. Giovanni, local histórico dos comícios/celebrações de esquerda em Itália. Num inquérito feito aos apoiantes de Grillo é revelador que a maior parte deles se consideram de Esquerda e em vários assuntos estão mais à Esquerda que a média da população Italiana.

Revelador também é este testemunho apanhado pelo New York Times:   « As he sat outside his shop in Rome, Stefano Anidori, 52, said he had voted for the left in the past, but was considering supporting Mr. Grillo. “I am undecided, but I am so angry that I think I’ll vote for Grillo,” he said.

But he also worried that the movement was too new in politics.“How can they propose laws or understand the system quickly enough for a country in such deep trouble?” he asked. “But I voted for the left for 20 years. I am tired of losing and tired of seeing the same faces over and over again.” »

    Foi em grande medida o povo de esquerda, traído e abandonado pelos seus supostos representantes, que deu este resultado a Grillo. Foi quem está farto da miséria e corrupção e não vê saída nos políticos do costume. Foi quem no 1º de Maio celebra o dia do trabalhador na praça S. Giovanni. Grillo pode dizer que não é de esquerda, nem de direita, que é do povo. Mas ele é o herdeiro da tradição de resistência à esquerda. Quem insulta Grillo e o 5 estrelas agora, é esse povo e os milhões que nele votaram que está a insultar.

    O povo vai lutar contra a miséria. A sua fúria vai-se exprimir em episódios espontâneos, mas também pelos instrumentos institucionais/formais de luta que tem ao seu dispor. Se esses instrumentos forem capazes de produzir resultados concretos no seu quotidiano, serão reforçados e engrandecidos.   Se forem inúteis serão descartados e novos surgirão.  Em Portugal a Esquerda institucional (PCP e BE) ainda têm um certo capital de esperança/confiança. Se forem capazes de em harmonia com o movimento popular atingir resultados concretos irão crescer, se traírem como traiu a refundação ou se se relegarem para um sectarismo impotente, então outras forças surgirão para tomar o seu lugar. E nem todas elas serão tão “simpáticas” como o "5 estrelas"…

   Mas em Portugal e para já, a convergência que se está a construir pela base em torno do 2 de Março, parece ser exactamente o caminho a seguir para a Esquerda que se quer tornar um instrumento útil ao serviço do povo.  É continuar esse caminho.  O exemplo Italiano mostra qual será o seu destino se claudicar.



Publicado por Xa2 às 07:51 de 27.02.13 | link do post | comentar |

3 comentários:
De .italianos chateados com políticos e ... a 27 de Fevereiro de 2013 às 11:07
A birra italiana
por Daniel Oliveira

Muitos sociólogos e politólogos analisarão os resultados das eleições italianas e os mais de 25% conseguidos por Beppe Grillo. Um comediante abastado que se começa a levar a sério. Que defende um rendimento de cidadania de mil euros, a saída do euro, a diminuição dos salários dos políticos e a redução da semana de trabalho para 20 horas. Defende-o, esclareça-se, com a convicção de um stand up comedy.

Os estudiosos falarão do cansaço dos eleitores. Dos efeitos de um governo imposto pela Europa que, nas urnas, valia 10%. Da crise económica e dos seus efeitos. Da desagregação da vida política e das instituições italianas. Dainexistência de alternativas, em que à sucessão de nascimentos e mortes de partidos políticos não corresponde a renovação de políticos, sempre os mesmos, sempre velhos. De um centro e de uma direita que, durante décadas, associadas à Mafia e à Igreja, cumpriram a função de suster o comunismo e, quando se tornaram inúteis, se afundaram na lama em que viviam, desembocando no triste espetáculo do partido-empresa de Berlusconi. De um grande partido de esquerda que, de eleição para eleição ganha uma consistência cava vez mais gelatinosa e tonalidades cada vez mais cinzentas. De uma outra esquerda que vive em dissensão permanente.Ninguém consegue mobilizar ninguém e, tal como cá, já só se vota contra alguém. De um País que são dois e que nem na Europa se conseguiu unificar. Deum sistema eleitoral absurdo que promove o disparate. De uma televisão dominada por Berlusconi que tratou de embrutecer a vida pública italiana...

Tudo considerações importantes. Cada uma delas dava para um artigo. Mas deixem-me que trate o assunto de outro ponto de vista. Que não trate o povo e os eleitores como mero objeto de estudo, apenas reativo às suas circunstâncias, mas como ator político consciente. Mesmo que respeitemos os resultados de todas as eleições, como temos que respeitar, isso não quer dizer que eles não mereçam um debate que responsabiliza os eleitores pelas consequências das suas escolhas.

Sim, o voto em Beppe Grillo é um sintoma de uma doença. Mas esse sintoma já era evidente nas repetidas eleições de Berlusconi. Um sintoma que deve fazer a comunicação social, que alimenta a inconsequência e tudo o que é gasoso, pensar. Que deve fazer os principais governantes europeus, que servem todos os interesses menos os interesses de quem os elege, pensar. Que deve fazer a esquerda, cujo programa Beppe Grillo, em grande parte, aproveitou sem que lhe queira dar a a forma de uma alternativa, pensar.Que deve fazer os burocratas europeus, transformados em novos engenheiros sociais e promotores da degradação das democracias da Europa, pensar. Mas, desculpem-me o mau feitio, também deve fazer pensar cada um de nós. A cidadania não é um like no facebook e uma graçola na urna de voto. É a nossa vida. A política pode ter-se transformado numa piada de mau gosto. Mas as únicas vítimas desta anedota serão os cidadãos comuns. "Eles", como se gosta de dizer, vivem bem com Beppe Grillo. Afinal de contas, toda a corte precisa do seu bobo.

Já o escrevi várias vezes: a democracia não é um centro comercial, onde se escolhe, à última da hora, o produto que se quer comprar. Aqui o cliente não tem sempre razão. Porque o cidadão não é cliente e as escolhas políticas não são produtos. A democracia é dos cidadãos e é feita pelos cidadãos. Se funciona mal a culpa é nossa. Um povo que realmente se revolta e quer ser consequente com a sua revolta luta por alternativas. O discurso populista contra os "políticos" (como se não fossem eleitos por nós) e o voto inconsequente de mero protesto - como se o protesto pudesse ser resolvido em cinco minutos, numa mesa de voto - resulta de uma infantilização dos cidadãos. Que os próprios cidadãos alimentam para se desresponsabilizarem pelas suas escolhas.

Em vez de se comportarem como donos da sua vida e responsáveis pelas suas escolhas, os italianos fizeram uma birra. Julgará, quem assim se comporta, que assusta o "sistema", o "regime" e os "políticos". Não assusta ninguém. A inconsequência do protesto é a coisa mais fácil de assimilar. Beppe Grillo é um episódio. Daqui a poucos anos, depois da dura passagem pela política lhe reti...
...


De .Política e voto deve ser consciente. a 27 de Fevereiro de 2013 às 11:13
A birra italiana
( D.O.)

...
... Beppe Grillo é um episódio. Daqui a poucos anos, depois da dura passagem pela política lhe retirar a graça e o brilho, será mais uma estória na história política italiana, sempre tão recheada de peripécias.
Nem a banca, nem os burocratas, nem a Mafia, nem Bruxelas, nem Berlim, nem os "políticos do sistema" estão preocupados.
Não muda nada.
E é isso mesmo que o voto de um quarto dos italianos nos diz:
estão zangados mas não querem correr o risco de mudar nada.
Porque a mudança dá muito mais trabalho e menos vontade de rir do que o voto irrefletido num comediante.
Exige ativismo, pensamento, confronto, risco.

Sim, o voto em Beppe Grillo é um sintoma de uma doença.
Mas esse sintoma já era evidente nas repetidas eleições de Berlusconi.
Um sintoma que deve fazer a comunicação social, que alimenta a inconsequência e tudo o que é gasoso, pensar.
Que deve fazer os principais governantes europeus, que servem todos os interesses menos os interesses de quem os elege, pensar.
Que deve fazer os burocratas europeus, transformados em novos engenheiros sociais e promotores da degradação das democracias da Europa, pensar.
Mas, desculpem-me o mau feitio, também deve fazer pensar cada um de nós.
A cidadania não é um like no facebook e uma graçola na urna de voto. É a nossa vida.
A política pode ter-se transformado numa piada de mau gosto.
Mas as únicas vítimas desta anedota serão os cidadãos comuns.
"Eles", como se gosta de dizer, vivem bem com Beppe Grillo.
Afinal de contas, toda a corte precisa do seu bobo.


Publicado no Expresso Onlin


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