Elite financeira capturou o poder político ... e suga cidadãos e estados

  O   lumpencapitalismo         (-por Daniel Oliveira, Arrastão e Expresso online)

  "Se não sabem o que fazer, ponham metade dos desempregados a abrir buracos e a outra metade a tapá-los. O que interessa é que estejam ocupados". É esta a proposta de João Salgueiro, para "oferecer às pessoas uma oportunidade de trabalhar, em vez de ficarem a vegetar, marginalizadas". Pode ser na construção civil ou nas matas, tanto faz, desde que não chateiem.

     Repare-se que Salgueiro não propõe trabalho desqualificado para garantir emprego para todos. Que não defendeu trabalho inútil para criar emprego pago que faça a economia andar. Que não há, na sua proposta, nada do que supostamente Keynes terá defendido. O objetivo é só este: ocupar as pessoas, como se de adolescentes rebeldes e em risco se tratassem.

     Entretanto, Filipe Pinhal, antigo presidente do BCP, saído da instituição bancária por causa de alguns escândalos relacionados com off-shores e manipulação de ações em bolsa, que recebe uma pensão de 70 mil euros de um banco em estado de coma, anunciou vai criar o Movimento de Reformados Indignados. Será, pelo menos nos montantes da sua reforma, um movimento de peso. Mas o facto de fazer este anúncio diz qualquer coisa: que o senhor está completamente a leste do que a esmagadora maioria dos reformados (da banca e não só) pensará sobre ele e a sua reforma.

     Se juntarmos a estes dois as conhecidas e repetidas declarações de Fernando Ulrich (que queria os desempregados a trabalhar à borla para o seu banco), são três bons retratos de um certo grupo social.     O grupo que mais conta hoje nos destinos do mundo (isto, claro, à pequena dimensão nacional): essa nova classe de gestores financeiros, que sugam os bancos que por sua vez sugam os clientes e os cofres dos Estados. Trata-se de gente que enriqueceu na bebedeira do dinheiro fácil - eles sim, viveram acima das suas possibilidades - e criadores de um capitalismo não produtivo e economicamente inviável. No seu mundo virtual, deixaram de ser capazes de distinguir o certo do errado, o razoável do impensável. Nada os liga à sociedade. Nem sequer ao grupo social de que são originários. São lumpencapitalistas. Quando comparados com os velhos capitalistas industriais (ou até com os banqueiros propriamente ditos), estes gestores são uma subespécie sem consciência política, social e moral de qualquer espécie. Nem empresários, nem assalariados, nem capatazes. São uma coisa híbrida que cresceu na lama da economia.

     Ao contrário do velho capitalista industrial, o grande gestor das instituições financeiras não segue uma ética política social própria. Não pode sequer defender a sua conduta usando o argumento da criação de riqueza ou de emprego. Nem sequer foi, em geral, criador das instituições que dirige. Não tem obra e não produz. É, resumindo, de todos os pontos de vista, um parasita. Tendo capturado, através do dinheiro sugado às atividades produtivas, capturou o poder político, os media e a academia, o lumpencapitalista quase conseguiu normalizar condutas que qualquer liberal decente teria de considerar próximas da marginalidade.

     Os limites aos bónus dos gestores da banca, definidos pela União Europeia, são o primeiro sinal de uma revolta cívica contra esta nova espécie de marginal económico. E que terminará com uma pergunta que até já nos Estados Unidos se faz (e no passado se fez muitas vezes): - pode toda a economia ficar refém de uma minúscula elite financeira, que põe em perigo os Estados, as economias e até a sobrevivência do próprio capitalismo?

     Podem-se ter muitas convicções sobre a intervenção do Estado na economia. Entre o liberalismo absoluto e a economia planificada haverá imensas gradações possíveis. Mas na política nunca deixou de existir uma boa dose de pragmatismo, que levou defensores acérrimos da economia de mercado a aceitar a existência de empresas públicas e comunistas de todos os costados a tolerar a existência de algumas atividades económicas privadas nos seus regimes.

E esse pragmatismo diz-nos que não é possível permitir que um grupo que claramente, pelo excesso de poder que conquistou, já perdeu a noção da realidade, sugue todos os recursos, públicos e privados. E que se for necessário o Estado deve optar por uma posição de força. Que pode ir de uma regulação mais musculada até à nacionalização efetiva da banca intervencionada (não nacionalizando apenas os prejuízos), passando sempre por esta ideia: nos tempos que vivemos, os Estados não podem deixar de controlar a atividade financeira. Não é ideologia. É uma questão de sobrevivência.

     As crises fazem quase sempre estalar o verniz em que a vida em sociedade se sustenta. Com a banca completamente dependente do controlo político que mantém sobre os governos e as instituições públicas (numa verdadeira economia de mercado, grande parte dos bancos europeus já teriam falido), os homens que realmente governam o mundo e o País passaram a ter rosto e voz. Pelos seus atos recentes, percebíamos que estávamos perante sociopatas. As suas palavras tresloucadas apenas o confirmam.



Publicado por Xa2 às 07:35 de 05.03.13 | link do post | comentar |

5 comentários:
De .Bancos lucram com a crise e dívidas.. a 11 de Março de 2013 às 10:29
Choremos pelos contribuintes do norte da Europa
(-por Daniel Oliveira, Arrastão)

O Banco Central Europeu aumentou os seus lucros no ano passado. Em apenas um ano, 37%. Segundo o próprio e o "Wall Street Journal", isso deveu-se, em parte, ao resgate à Grécia. O seu excedente, por exemplo, que em 2011 já fora de 1,894 milhões de euros, passou, em 2012, para 2,164 milhões de euros.

Mas o BCE está longe de ser o único beneficiário público da desgraça das economias do sul da Europa. Recentemente, ogoverno da Holanda fez saber que, "no total, o Banco da Holanda irá lucrar 3,2 mil milhões no período 2013-2017 com a participação em operações relacionadas com a crise ". O Estado holandês, através de engenharia financeira, assumiu uma garantia de 5,7 mil milhões ao Banco da Holanda . Em contrapartida, o banco transferiu para o Estado os lucros resultantes das suas operações de ajuda a Estados e bancos. Esse dinheiro permitiu a nacionalização do SNS Reaal (que se arruinou com operações imobiliárias em 2006, apostando em ativos tóxicos em Espanha) e o cumprimento das metas do défice. Vale a pena recordar que Jeroen Dijsselbloem, ministro das Finanças holandês, é presidente do Eurogrupo. E ele mesmo assumiu que, apesar dos riscos destas operações de ajuda às economias em aflição, a Holanda terá "ganhos substanciais".

Sabe-se também que, graças a turbulência na generalidade das economias europeias, a Alemanha, dos poucos portos seguros que restam para quem queira guardar o seu dinheiro - e nunca houve tanto dinheiro para guardar -, tem conseguido financiar-se sem custos ou mesmo com juros negativos.

Sempre que ouço os comentadores domésticos verterem lágrimas pelos contribuintes do norte da Europa, vítimas da irresponsabilidade grega, portuguesa e italiana, não consigo deixar de sorrir. Pelo contrário, enquanto a crise económica não chegar a sério a estes países, a situação aflitiva dos países do Sul e os resgates que têm sido obrigados a aceitar - e que têm tido como únicas consequências o agudizar das suas crises e aumento das suas dívidas -, têm sido excelentes notícia para os contribuintes do norte da Europa obrigados, como nós, a pagar as irresponsabilidades dos banqueiros.

Não, Alemanha, Holanda e outras economias europeias não estão a financiar a dívida dos países do Sul. Pelo contrário, as dívidas dos países do sul é que estão a financiar estes Estados. Os contribuintes dos países intervencionados têm pago a relativa estabilidade financeira dos países que financiam os resgates.

Dirão que as coisas são assim mesmo e que só nós somos responsáveis pela nossa situação. Não é bem assim, mas guardo esse debate para a próxima semana, mostrando aqui como a moeda única acentuou os desequilíbrios estruturais já existentes na Europa. Mas mesmo que isso fosse verdade, seria talvez altura de abandonar tanta gratidão para com os nossos credores, sobretudo pelos pobres contribuintes alemães e holandeses. Às vezes, e sobretudo na finança e na política, um pouco de cinismo não é mau conselheiro.

(publicado no Expresso Online)


De .Desvalorizar e escravizar trabalhadores a 5 de Março de 2013 às 14:46

«Generosidades» (das multinacionais) na Grécia

Em Atenas, representantes de onze multinacionais reuniram com o Ministro do Desenvolvimento, manifestando-se interessados em investir no país
desde que possam admitir trabalhadores a tempo parcial (três ou quatro dias por semana) por 250 a 300 euros por mês,
com poucas ou nenhumas regalias e indeminizações mínimas em caso de despedimento.

Aparentemente, não entendem a reacção negativa dos gregos, governantes incluídos, que vêem neste plano um reforço da pressão do FMI, da troika e da Alemanha
para que os gregos se tornem novos e bons «trabalhadores chineses».

Como diz um comentador, «em vez de nos tornarmos a "Dinamarca do Sul", acabaremos como a "China da Europa"».

Sei que me repito:
é sempre prudente que acompanhemos o que se vai passando na Grécia ... (nós vamos a seguir, no mesmo mau caminho)


(P.S. – O salário mínimo é actualmente 586 euros/mês, depois de um corte de 22%.)

(Fonte: http://www.keeptalkinggreece.com/2013/03/04/mutlinationals-blackmail-greece-part-timers-on-e250-300-monthly-salary/ )


De .Pagar dívida ...? como?quando?quanto?? a 5 de Março de 2013 às 12:59
A crise da economia portuguesa

A crise económica do País não se resolve apenas através do encontro de soluções para a dívida.
É preciso uma estratégia de longo prazo para o desenvolvimento do país que leve à criação de mais riqueza e melhor distribuição da mesma e mais e melhor emprego qualificado.

Mas é evidente que apontar e começar a implementar medidas para a solução da dívida vem ajudar muito.

Neste contexto, é muito interessante, porque poderia servir de paradigma, olhar-se para o acordo que presidiu à renegociação da dívida da Alemanha em 1953, acordo esse assinado em Londres a 27 de Fevereiro.

Em que consistiu o Acordo de 1953 sobre a dívida alemã?

O processo de negociação que levou à assinatura deste acordo foi longo e duro. As negociações por várias vezes estiveram no fio da navalha.

As negociações decorreram em simultâneo com 26 países, mas em especial com EUA, Holanda, Reino Unido e Suíça que detinham a parte substantiva da dívida.

Os EUA começam as negociações a propor o perdão total da dívida contraída no pós guerra. Os outros credores rejeitam. As negociações arrastam-se até que se estabelece o seguinte:

i) perdão de 50% da dívida global que era de 32 biliões de marcos
ii) escalonamento do pagamento da restante a 30 anos que depois acabou por ser alongado
iii) parte do pagamento condicionada à futura reunificação.

A ideia da condicionalidade da dívida, entendida como pagar o que se pode e quando se pode, foi a base da negociação numa visão de longo prazo, de forma a assegurar o crescimento da economia da Alemanha, o pagador. Esta base de negociação foi materializada em indicadores.

Assim, o valor dos montantes com o serviço da dívida não podia exceder em cada ano 5% das exportações e o consumo do país não podia ser reduzido por efeitos do pagamento da dívida.

Eis um Acordo interessantíssimo para base do pagamento da dívida portuguesa e a estender aos países europeus em dificuldade.

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Merkel perdeu a memória do tempo

LIÇÕES A TIRAR DA DÍVIDA ALEMÃ, parcialmente perdoada, pelo acordo de Londres de 1953

"Este plano não poderá provocar sobre a economia alemã efeitos indesejáveis sobre a situação financeira interna nem drenar, injustificadamente, os recursos de divisa quer os actualmente existentes quer os potenciais.
Os Governos signatários poderão solicitar as opiniões de peritos sobre todas as questões resultantes das negociações para a elaboração do plano bem como sobre a capacidade para pagar"
- in Konrad Adenauer : Artigo III da carta de 6 de Março de 1951, integrando o Apêndice A do Acordo de Londres de 1953 sobre a Dívida Alemã.

Vale a pena relembrar algumas regras e questionar porque razão hoje não se podem estender estas mesmas regras a outras situações de dívida externa.

Vale a pena dizer que a Alemanha foi o país mais caloteiro do século XX, três vezes falido, três vezes perdoado e que nem o acordo de 1953 cumpriu na íntegra.
E que o "milagre alemão" de que muito se falou há uns anos, só foi possível por estes perdões.
Há muitos livros de historiadores e economistas alemães, mas que devem estar na gaveta e que estes historiadores e economistas muitos deles nunca foram de esquerda.

Era bom ir ao baú tirar uns quantos para reflectirmos sobre a situação portuguesa tomando como base por exemplo esta passagem da carta de Adenauer.

(- # por Joao Abel de Freitas, PuxaPalavra)


De .Austeridade: via de+ Pobreza ...e MORTE a 5 de Março de 2013 às 13:35
O futuro de Portugal

«Há um economista que não deixa ninguém indiferente. Chama-se Hans- -Werner Sinn. Dirige o maior instituto de investigação económica germânico, sediado em Munique. Tem sido o campeão das políticas de austeridade.
É um firme opositor dos planos de resgate e acusa o Governo de Merkel por não ser suficientemente duro para com a periferia.
Apesar da barba lhe dar um ar de clérigo islâmico, a verdade é que a inflexibilidade de raciocínio e a teimosa indiferença face aos sinais da realidade remetem-no para o universo da Schwärmerei, uma forma germânica de FANATISMO, sempre com consequências devastadoras para a Europa.
Este homem liderou um estudo sobre o estado da economia europeia acessível na Internet ("The EEAG Report on the European Economy 2013").
Enquanto percorríamos as ruas em protesto nas cidades portuguesas, Sinn explicava a um jornal espanhol as teses centrais do estudo:
a austeridade na periferia europeia vai durar, pelo menos, mais dez anos. Mais concretamente:
"Espanha, Portugal e Grécia necessitam de uma desvalorização interna de 30%; a França, de 20%; a Itália, uma descida de preços de 10%."

Mas Sinn vai mais longe, considerando que a Espanha talvez possa permanecer na Zona Euro, mas tanto a Grécia como Portugal estão condenados a sair do euro:
"As atuais exigências europeias sacrificam uma geração ao DESEMPREGO maciço. Portugal está numa situação semelhante."
Para nós, as palavras de Sinn têm a vantagem de colocar o debate no seu fulcro.
O que está em causa não é o prolongar por mais um ano a meta do défice, mas saber se Portugal aceita continuar por ESTA VIA que faz da POBREZA um objetivo de política pública, e onde, no final, acabará por perder a própria alma.
Aquilo que confere a uma nação o direito de existir.»

[DN]- Viriato Soromenho-Marques. (via OJumento)


De .Descontentes... SURPRESA a seguir... a 5 de Março de 2013 às 13:46
Tudo se transforma
...
...
Grillo diz coisas simples e evidentes. Por exemplo:
“Estamos esmagados pelo nosso endividamento.
Quando os juros atingem 100 mil milhões de euros por ano, significa que estamos mortos.
Não há alternativa à renegociação da dívida.”
E avisa os credores:
“Quando eu compro uma acção de uma sociedade, e esta vai à falência, não há nada a fazer.
Arrisquei e perdi.”

Na sociedade, tal como na natureza, segundo Lavoisier, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.
Isto significa que se os PARTIDOS do “sistema” continuarem a pretender fazer da democracia um EMBUSTE, mentindo sem vergonha durante as campanhas eleitorais, fazendo da TRANSPARÊNCIA tábua rasa e não percebendo que, para o mal e para o bem, em democracia, “o povo é quem mais ordena”,
pode muito bem acontecer que os DESCONTENTAMENTOS expressos a 15 de Setembro e a 2 de Março venham a provocar algumas surpresas em futuras eleições.
O problema é se surge alguma SURPRESA que em vez de melhorar a qualidade da democracia que temos, a diminui ou a suprime.»

[i] - Tomás Vasques.


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