4 comentários:
De .ultrapassar impasse na Esquerda. a 15 de Abril de 2013 às 10:48
Impasse: à esquerda, na caminha é que se está bem (IV)
(-por Daniel Oliveira , 12/4/2013, Arrastão)

Não é só por António José Seguro não mobilizar que não surge como alternativa à tragédia que nos governa. O problema é que qualquer líder do PS, nestas circunstâncias, teria de mobilizar muitíssimo. O suficiente para conquistar uma maioria absoluta. Caso contrário, o País estaria condenado a um governo de bloco central, que se limitaria a gerir a crise sem um rumo, ou a um governo minoritário, condenado a sobreviver uns meses. O problema é que, ao contrário do que acontece à direita, governos pluripartidários à esquerda estão interditos.

O bloqueio à esquerda tem, em Portugal, razões históricas profundas: o PCP ter sido, durante a ditadura, hegemónico na oposição; a democracia ter nascido de um combate feroz entre as várias forças de esquerda; o PS ter-se implantado no País contra o PCP e em aliança com a direita; o adormecimento, por meio século, do nosso movimento sindical, muito dependente das lógicas partidárias; um movimento social-democrata (aqui representado pelo PS) que, ao contrário da maioria dos países europeus, não tem raízes no movimento operário e nos sindicatos; a debilidade da nossa sociedade civil. Tudo contribui para criar fronteiras estanques à esquerda. Na realidade, as grandes clivagens ideológicas foram, nos últimos 40 anos, feitas no interior da esquerda e não entre a esquerda e a direita (abstenho-me aqui de ter um "esquerdómetro", limitando-me a usar as categorias de filiação histórica dos partidos).

Só que nos últimos 40 anos muita coisa mudou. E a verdade é que a direita, que tinha uma posição ideológica envergonhada, se tornou agressiva e ultraliberal. Ou seja, as condições exigem que a esquerda consiga trabalhar para os entendimentos que nunca considerou necessários.

Não escondo que não é apenas o passado que torna este entendimento difícil. Juntar a autosuficiência do PCP, a cultura de contrapoder do BE e a cultura de cedência do PS nunca seria fácil. Há, ainda assim, três denominadores comunsque neste momento poderiam garantir um governo de esquerda: o diagnóstico da crise (a que Sócrates chamou de "narrativa"), a convicção de que apenas uma política pública para o crescimento económico nos pode tirar deste sufoco e a certeza de que o equilíbrio das contas públicas não passa pela redução das funções sociais do Estado. Se estiverem de acordo nestas matérias, a grande fronteira política pode finalmente fazer-se, em Portugal, entre a esquerda e a direita.

Um governo de esquerda, fosse ele qual fosse, seria hoje um governo de emergência nacional. Com dois objectivos:libertar-nos da intervenção externa e retirar-nos da crise aguda sem pôr em causa a democracia e as funções sociais do Estado.

O programa deste governo passa, antes de mais, por uma negociação firme com os nossos credores e com a troika. Para alterar as condições de pagamento, as maturidades, os juros e, provavelmente, os montantes. Por uma simples razão: nas atuais circunstâncias a dívida não é pagável. Para modificar radicalmente o memorando (ou denunciá-lo), alterando toda a sua lógica para uma política de crescimento que favoreça as condições para que o Estado e as empresas criem emprego e receitas que possam garantir o equilíbrio das contas e o pagamento das dívidas. Deixando claro que não estamos disponíveis para a destruição do nosso Estado Social, que teria pesados efeitos sociais e económicos. Fácil dizer, muito difícil fazer.

Uma negociação deste género exige três condições políticas prévias: um governo com amplo e forte apoio popular; umcompromisso para procurar na Europa, entre os países em dificuldades, aliados; e uma enorme coragem para lidar com as possíveis consequências de uma atitude mais musculada na relação com a troika. Entre as consequências indesejadas mas possíveis, está uma ruptura com os credores e o fim do financiamento europeu, que põe em causa a permanência no euro (tema que tenho prometido para uma crónica e que os acontecimentos têm adiado).

Uma solução governativa desta natureza exige cedências de todas as partes. O PS terá de assumir, de uma vez por todas, que o problema não é apenas a "austeridade custe o que custar". Uma austeridade mais branda pode...


De .ultrapassar impasse na Esquerda. a 15 de Abril de 2013 às 11:03
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Uma solução governativa desta natureza exige cedências de todas as partes.
O PS terá de assumir, de uma vez por todas, que o problema não é apenas a "austeridade custe o que custar".
Uma austeridade mais branda pode tornar a "espiral recessiva" mais lenta.
Serve para quem acredita, com base em não se sabe bem o quê, que haverá, muito brevemente, uma radical alteração no quadro europeu.
Quem duvide disso e mesmo assim defenda uma versão mitigada da austeridade está a enganar os portugueses.
A morte será mais lenta, mas a espiral recessiva regressará e, daqui a um ano ou dois, estaremos de novo em crise profunda e a aplicar as mesmas medidas que agora rejeitamos.

O Bloco de Esquerda e o PCP (os dois ou um deles) terão de aceitar negociar com os credores.
Não se pode defender a renegociação da dívida sem querer falar com aqueles a quem devemos.
E hoje os nossos maiores credores internacionais são institucionais. Ou seja: a troika.
Dizer que se quer renegociar a dívida e que não se quer falar com a troikaé uma falácia.
Mesmo assumindo, como eu assumo, que a troika é hoje a maior e mais poderosa inimiga dos interesses nacionais, é com os inimigos que se negoceia.
Com os amigos conversa-se.

Só que esta negociação pode correr mal. Se ela correr mal, poderemos ficar num impasse.
Ou metemos a viola no saco, e então não se pode falar de uma verdadeira negociação, ou usamos as duas únicas armas que temos:
sermos devedores e fazermos parte do euro.
No fim, se tudo correr ainda pior, podemos ficar sem financiamento e, no limite, sermos obrigados a sair do euro para nos conseguirmos autofinanciar (às consequências disto irei, repito a promessa, noutro texto).
E é aqui que a porca torce o rabo.
Chegados a este ponto, as divisões à esquerda deixam de ser as tradicionais. Esta é uma questão que divide transversalmente toda a esquerda.
Encontramos dentro do PS, do PCP e do BE quem considere a permanência no euro um tema tabu (a maioria) e quem já o comece a discutir como uma possibilidade a não descartar.
Ou seja, poderemos, num futuro próximo, chegar a um ponto onde as divisões da esquerda já não são as que eram e ultrapassam em muito as fronteiras partidárias atuais.

Um governo que nos queira realmente tirar desta crise é um governo que terá de saber lidar com uma enorme incerteza.
Certo, nesta crise, é que o caminho atual nos matará. Todas as alternativas não estão isentas de enormes perigos.
E, se os piores cenários se confirmassem, poderiam resultar numa pesada fatura política para quem as queira aplicar.
Mas, nos tempos que correm, os partidos e os políticos que não queiram correr este risco serão inúteis.

Seria bom que o estado do debate sobre os entendimentos à esquerda fosse o que aqui vou explanando. Mas não é.
A incapacidade da esquerda conversar nada tem a ver com a crise, com a troika e com euro. Ela tem, por um lado, a ver comum indisfarçável oportunismo, em que cada um anda a ver o que pode ganhar com o descontentamento das pessoas.
E, por outro, com um sectarismo histórico que vê qualquer conversa com o vizinho do lado como sinal de traição.

Um pequeno episódio recente ilustra bem o que aqui digo.
No concelho de Caminha, no Minho, PS, PCP e BE locais sentaram-se à volta de uma mesa para uma coligação que derrotasse o PSD.
O PCP concelhio acabou, por ordem da direção nacional, que interditou qualquer coligação em todo o País, por desistir.
O PS e o Bloco, depois de voltarem a tentar que o PCP se juntasse ao processo negocial, chegaram a um acordo, com base em princípios programáticos. Estava tudo pronto, até que os órgãos nacionais do BE entraram em campo. A Mesa Nacional do Bloco de Esquerda vetou o acordo já firmado.
Por razões que nada tiveram a ver com a situação em Caminha ou com divergências de programa.
Apenas com o argumento de que o PCP, que fora envolvido nas negociações de que saiu por decisão própria, não estava na coligação.
Ou seja, entregando ao PCP a estratégia nacional de alianças do próprio BE (com excepção para o Funchal).
O resultado será que o Bloco provavelmente nem concorrerá naquele concelho.
Conclusão: mais vale não ir a votos do que correr o risco de fazer qualquer entendimento à esquerda. Não vá o País pens


De .Esquerda: cuidado aprox. de Tempestad a 15 de Abril de 2013 às 11:14
...
Conclusão:
mais vale não ir a votos do que correr o risco de fazer qualquer entendimento à esquerda.
Não vá o País pensar que os partidos oposição falam a sério quando falam de um governo de esquerda.

Se um entendimento à esquerda é impossível, por razões de estratégia nacional, numas eleições locais, onde as divergências programáticas e ideológicas são muito menores, para derrotar o PSD, há três mandatos consecutivos de poder incompetente num concelho em crise,
quando tem ali existido uma razoável convergência entre os partidos da oposição (sendo que a proposta de coligação nasceu do BE local), imaginem no País.

Junte-se a isto as vozes de dirigentes do PS que repetidamente defendem, no caso provável do próximo governo ser minoritário, um governo de bloco central (ou a sua indisponibilidade para debater soluções fora dos limites do memorando da troika)
e temos um clima bem mais claro de indisponibilidades mútuas, sempre disfarçadas com outros argumentos.

E esta é, devo dizer, a maior razão do meu desalento:
perceber que todos os partidos querem ter razão, mas que são poucos os que estão disponíveis para arriscar a pele pela razão que têm.

Enquanto os partidos da oposição não perceberem que vivemos mesmo num momento de emergência nacional, em que são chamados a cumprir um papel histórico que, como sempre acontece nestas alturas, lhes pode correr mal, estaremos condenados a esta agonia.

Não aprendemos nada com a tragédia alemã dos anos 30, quando social-democratas e comunistas se guerreavam, enquanto os nazis de apoderavam do poder.
Com as devidas distâncias, é esta a situação em que os partidos de esquerda se encontram:
ou assumem as suas responsabilidades históricas ou estarão condenados a ser espetadores revoltados desta crise.
E os portugueses, suas vítimas submissas.

(-por Daniel Oliveira, 12/4/2013, Arrastão e Expresso online)


De União Europeia morreu em Chipre a 12 de Abril de 2013 às 13:56
Quando as tropas norte-americanas libertaram os campos de extermínio nas áreas conquistadas às tropas nazis, o general Eisenhower ordenou que as populações civis alemãs das povoações vizinhas fossem obrigadas a visitá-los. Tudo ficou documentado. Vemos civis a vomitarem. Caras chocadas e aturdidas, perante os cadáveres esqueléticos dos judeus que estavam na fila para uma incineração interrompida. A capacidade dos seres humanos se enganarem a si próprios, no plano moral, é quase tão infinita como a capacidade dos ignorantes viverem alegremente nas suas cavernas povoadas de ilusões e preconceitos. O povo alemão assistiu ao desaparecimento dos seus 600 mil judeus sem dar por isso. Viu desaparecerem os médicos, os advogados, os professores, os músicos, os cineastas, os banqueiros, os comerciantes, os cientistas, viu a hemorragia da autêntica aristocracia intelectual da Alemanha. Mas em 1945, perante as cinzas e os esqueletos dos antigos vizinhos, ficaram chocados e surpreendidos. Em 2013, 500 milhões de europeus foram testemunhas, ao vivo e a cores, de um ataque relâmpago ao Chipre. Todos vimos um povo sob uma chantagem, violando os mais básicos princípios da segurança jurídica e do estado de direito. Vimos como o governo Merkel obrigou os cipriotas a escolher, usando a pistola do BCE, entre o fuzilamento ou a morte lenta. Nos governos europeus ninguém teve um só gesto de reprovação. A Europa é hoje governada por Quislings e Pétains. A ideia da União Europeia morreu em Chipre. As ruínas da Europa como a conhecemos estão à nossa frente. É apenas uma questão de tempo. Este é o assunto político que temos de discutir em Portugal, se não quisermos um dia corar perante o cadáver do nosso próprio futuro como nação digna e independente.
por VIRIATO SOROMENHO MARQUES


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