De Proletário/ Trabalhador PIOR q. ESCRAVO. a 24 de Julho de 2013 às 14:14
Um escravo sai caro, um proletário é melhor: sobre a configuração da UE
(-por João Vilela , 23/7/2013, blog.5dias)

Friedrich Engels, numa obra afamada, define da seguinte forma a diferença entre proletários e escravos:
«[o] escravo está vendido de uma vez para sempre; o proletário tem de se vender a si próprio diariamente e hora a hora.

O indivíduo escravo, propriedade de um senhor, tem uma existência assegurada, por muito miserável que seja, em virtude do interesse do senhor; o indivíduo proletário – propriedade, por assim dizer, de toda a classe burguesa -, a quem o trabalho só é comprado quando alguém dele precisa, não tem a existência assegurada.
Esta existência está apenas assegurada a toda a classe dos proletários.
O escravo está fora da concorrência, o proletário está dentro dela e sente todas as suas flutuações.»
Como diria um professor meu, com mais colorido, «encarem o escravo como um automóvel, aqueles de vocês que não têm pais generosos para custear o vosso automóvel: custou-vos dinheiro, custa-vos diariamente o dinheiro da gasolina, das escovas, dos pneus furados, da inspecção e do seguro.
Só se fossem idiotas iriam dar-lhe pancadas na carroçaria, que só significariam mais uma despesa, a de o consertar.
Um escravocrata brasileiro ou de Nova Orleães também percebia isso».

A diferença entre escravo e proletário, portanto, está em quem assegura, e de que modo, a reprodução da força de trabalho de cada um destes dois dominados.
Como se compreende pelo texto, por mais miserável que fosse a subsistência do escravo, ao dono competia prover-lha e não ao próprio.

A própria condição servil, de grilhetas nos pés, deslocando-se da sanzala para a roça e da roça para a sanzala sob a vigilância inclemente do feitor, perseguido quando fugia para o quilombo, devolvido à casa de partida e lá condenado a ficar – ela, em si, instituía uma impossibilidade real de o escravo prover a sua própria subsistência, mesmo que o quisesse.

Tido e tratado como coisa, implica todos os custos de manutenção que as coisas comportam, sejam carroças, enxadas, prensas ou computadores.

O proletário é um homem livre numa sociedade livre, circula por onde quiser, contratualiza em liberdade a sua relação laboral pelo tempo que quer ou que pode, é livre de se vir embora (ou o patrão o pôr a mexer), de circular pelo mundo, de escolher sem que lhe ponham entraves o sítio do planeta onde prefere que o explorem.
Quanto à sua alimentação, à sua casa, à sua saúde, à sua aprendizagem e destreza no exercício de um qualquer trabalho, a forma como gere os lazeres que consegue ter, à maneira como tem filhos e os educa e alimenta, isso é um problema seu que a si mesmo compete resolver.

A liberdade, ensina-lhe a burguesia, traz associada a si um preço, o preço de se submeter à liberdade, dos outros, de o explorar e oprimir conforme queiram e possam.
Se ele quer deixar de ser oprimido e explorado, tem bom remédio: torne-se ele mesmo burguês.
No fundamental, a diferença entre o empreendedorismo que hoje nos apregoam como solução miraculosa para o desemprego e a pobreza é em tudo igual à resposta que Guizot deu, nos anos 30 do séc. XIX, a um grupo de peticionários que requeria a substituição do sufrágio censitário pelo sufrágio universal: «se quereis votar, enriquecei».

Mutatis mutandis:
a forma como a UE se vem configurando nos últimos anos é a acabada demonstração de que a relação entre potências dominantes e potências subalternas na divisão internacional do trabalho corresponde na íntegra a esta teoria geral.
Nos termos do Programa do PCP «[s]ão traços e tendências do capitalismo na actualidade a aceleração dos processos de internacionalização e a mundialização da economia, a criação de espaços de integração dominados pelo grande capital e pelos Estados mais poderosos,
a centralização e concentração do capital com a formação de gigantescos monopólios que dominam a vida económica e o poder político, a recolonização planetária para o domínio dos recursos naturais, mercados, fontes de mão-de-obra barata, o agravamento da exploração da força de trabalho e o desmantelamento das funções sociais do Estado» (o itálico é meu).
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