"Do rabo"
Mas a contabilidade criativa não fica por aqui. O acontecimento da semana foi o anúncio em relação aos mil milhões pagos à banca devido aos exóticos instrumentos financeiros contratados por empresas públicas. “Descobriram” uns contratos – certamente também exóticos – no instituto público que gere a dívida, o IGCP, cujos ganhos (potenciais?) compensam estas perdas. Que sorte, hein? Que contratos são estes? São todos de valor positivo? A que desconto foram finalizados? (só assim se explica o acordo da banca) Afinal há dinheiro?
Tudo demasiado estranho e opaco. Mais uma razão para subscrever a campanha empreendida pela
“Iniciativa por uma Auditoria Cidadã à Dívida Pública”.
«
Um dos executivos pergunta ao outro "como chegou ao número de sete mil milhões como sendo a soma correcta para pedir ao Estado". O outro ri-se e diz que "a tirou do rabo" ["picked it out of my arse"].Mais a sério, explica que "inicialmente não convém pedir muito". O melhor é deixar que o financiamento pelo Estado vá crescendo discretamente, sempre usando o argumento de que "deixar o banco afundar-se seria pior para toda a gente".Acima de tudo, sugere o executivo (rindo ainda mais, juntamente com o seu colega) "não se pode deixar que os contribuintes percebam que nunca vão recuperar o que é deles". A cada nova solicitação de fundos, tem de se explicar que é para o cidadão comum proteger "o seu dinheiro".Com um pouco de sorte, acrescentam os executivos, "o banco ainda acaba nacionalizado e eles os dois conservam os seus lugares".Ao todo, o Estado irlandês já investiu 30 mil milhões de euros, só naquele banco. Estas novas revelações, surgidas no diário Irish Independent, podem vir a ter consequências.»
Excertos de uma conversa entre dois executivos do Anglo Irish Bank, gravada em 2008, nas vésperas de o governo irlandês injectar milhares de milhões de euros no banco («
o BPN de lá», como refere Luís M. Faria, que assina esta notícia no
Expresso).
Trata-se somente de um caso, «documentado» (as gravações podem ser ouvidas na íntegra
aqui, em inglês). O que aconselha, obviamente, prudência nas generalizações. Mas não custa mesmo nada captar e perceber, através deste episódio, o estado das coisas e o «espírito do tempo» que antecedeu o início da crise. O início da crise? Não será este, por acaso, o «perfume» que paira no ar, desde então?
(
Nem de propósito, este escândalo é conhecido no dia em que Vítor Gaspar avisa que o défice no primeiro trimestre pode ficar acima dos 10%, devido a novas ajudas à banca, nomeadamente ao BANIF).
Passos Coelho insiste que todos estão a fazer sacríficos e que estamos na direcção certa. No meio de uma crise socioeconómica que se acentua, multiplicam-se os indicadores que confirmam para quem se dirige a política deste governo:
o número de milionários subiu 3,4% no ano passado e está a caminho dos 11 mil portugueses com mais de um milhão de dólares. E quantos pobres foram necessários?
(c. mil habitantes para cada 1 que fica milionário)