3 comentários:
De É urgente acordar o PS a 14 de Julho de 2009 às 12:12
"É urgente acordar o PS"
[Manuel Alegre, Expresso.pt, 12-07-2009]

O histórico quer mudança de estilo, de políticas e de pessoas. E deixa um sério aviso ao PS: só "um sobressalto" evitará o pior.

Em nenhum outro país europeu a esquerda é eleitoralmente tão forte como em Portugal.
Mas essa força não serve para grande coisa. Sobretudo não serve para governar, seja em coligação seja através de acordos pontuais.

Em caso de maioria relativa do maior partido da esquerda, a governabilidade só é garantida à direita, quer através do bloco central quer com o apoio do CDS.
Nem o PCP e o BE estão disponíveis nem o PS quer governar com qualquer deles.

As nossas esquerdas parecem ter como desígnio principal excluírem-se umas às outras.
É uma das originalidades portuguesas.
Depois da queda do muro de Berlim, os partidos comunistas quase se evaporaram. Com a honrosa excepção do PCP, não só pelo seu papel na luta antifascista, mas também devido ao facto de Álvaro Cunhal ter preservado a ideologia tradicional do partido, fixando assim o núcleo essencial do seu eleitorado.

Esperava-se então que fosse a hora do socialismo democrático.
Mas o que veio foi a globalização neoliberal. Com os socialistas na defensiva ou ideologicamente colonizados.

Essa é talvez a razão pela qual a nova crise global do capitalismo financeiro beneficiou a direita e não a esquerda.
Parafraseando Saramago, para quê votar à esquerda se não há esquerda? Como projecto de governo, não há.

Se não mudar, o socialismo europeu corre o risco de ter um destino semelhante ao do movimento comunista.
Se a esquerda de poder imita o poder da direita e as outras continuam a sonhar com os amanhãs que já não cantam, se, no seu conjunto, a esquerda deixa de representar um horizonte visível de esperança, os eleitores viram-se para outro lado e para a ilusão da segurança que, em época de crise, a direita oferece.

Pelo menos a direita sabe o quer: quer poder.
E não tem os pruridos da esquerda, une-se para o conquistar.

As próximas eleições serão marcadas por uma ofensiva ideológica da direita.
O que está em causa é o consenso constitucional aprovado por larga maioria, incluindo o PSD, sobre os direitos sociais (escola pública, universalidade do acesso à saúde, segurança social pública).
A líder do PSD anuncia o fim de um ciclo e de uma concepção da democracia em que direitos políticos e direitos sociais eram considerados inseparáveis.
Com o absurdo de o PSD partir para as eleições com a bandeira da ideologia que está na origem da actual crise mundial.
Sabem-se os objectivos: papel do Estado, protecção social, direito do trabalho.

Os resultados desta receita estão à vista em toda a parte:
desregulação do mercado entregue a si mesmo,
busca sem freio do lucro pelo lucro com total indiferença pelos custos sociais,
ausência de ética e transparência.
Na hora do colapso do neoliberalismo, MFL faz o discurso ultraliberal do Estado mínimo.
À força de tanto querer rasgar, acabará por rasgar o horizonte social do 25 de Abril, consagrado na Constituição.

E por isso impunha-se um sobressalto. Seria preciso que os socialistas acordassem do seu torpor e que dentro do PS se ouvissem vozes a exigir uma mudança. Não só de estilo, mas de pessoas e de políticas.

Na educação, no trabalho (cujo Código é imperioso rever), na Justiça,
na função pública,
na relação com os sindicatos,
na afirmação do primado da política e
na urgência de libertar o Estado de interesses que o condicionam.

Seria preciso que o PS fosse capaz de se reencontrar consigo mesmo, com os seus valores e com o seu eleitorado.
E que as outras forças de esquerda, sem abdicarem das suas posições próprias, definissem com clareza o adversário principal e se interrogassem sobre as consequências de um eventual governo de MFL.

Se a direita governar, o povo da esquerda será o principal perdedor, independentemente da votação nos partidos que dele se reclamam.
...


De ser e governar à esquerda é preciso a 14 de Julho de 2009 às 12:18
"É urgente acordar o PS"
[Manuel Alegre, Expresso.pt, 12-07-2009]
...
Dir-me-ão que a maioria PS não governou à esquerda.
Eu gostaria que tivesse governado de outra maneira.

Mas também sei que uma maioria de direita jamais deixaria passar o referendo sobre a IVG e a lei do divórcio.

Sei que com um governo de MFL o SNS será praticamente desmantelado e o papel do Estado, como ela já afirmou, "reduzido ao mínimo indispensável".

Como socialista, não me compete dizer ao PCP e ao BE o que devem fazer.
Gostaria que uma maioria de esquerda fosse capaz de gerar soluções políticas alternativas.
Mas não tenho ilusões. Tal só será possível com uma ruptura de cada uma das esquerdas consigo mesma. O que está longe de acontecer.

Aos socialistas digo que ainda há tempo. Ainda é possível vencer o PSD.
Mas não será com certeza ouvindo opiniões à direita e esquecendo a sua própria esquerda.

Nas europeias, não foi o PSD que teve um aumento significativo de votação, foi o PS que perdeu grande parte da sua base social, a ponto de, pela primeira vez, ter ficado aquém de um milhão de votos. Várias vezes falei de um buraco negro na esquerda.
A soma da abstenção com os resultados do BE e do PCP mostram que esse buraco se situa na área do PS.

Não é crível que personalidades de direita consigam recuperar para o PS o eleitorado que este perdeu para a abstenção e para a esquerda.
Os socialistas não podem ter um discurso emprestado.

Não se combate o liberalismo ultra com o liberalismo suave.
Nem se vence o PSD com ex-ideólogos do PSD.
Ainda é possível dar a volta. Mas algo tem de acontecer. Apesar dos erros, a bandeira do PS não está no chão.

Mais política e menos marketing.
Mais socialistas e menos figurantes. Um pouco mais de esquerda. Ou, como diria Mário Cesariny, "um acordar".

Para que um dia destes não estejamos a perguntar-nos como é que se perdeu mais uma oportunidade e como é que um país maioritariamente de esquerda pode acabar uma vez mais a ser governado pela direita.
»


De Alternativa socialista ao neo-liberalism a 14 de Julho de 2009 às 11:51

« Alegre adverte que recusará alianças à direita

O ex-candidato presidencial Manuel Alegre adverte hoje o PS que recusará a reedição do Bloco Central ou qualquer aliança à direita e que continuará a bater-se contra o Código de Trabalho e pela «transparência» nos poderes públicos

As posições de Manuel Alegre fazem parte do quarto número da revista Ops! (Opinião Socialista), dedicada aos temas do «urbanismo e corrupção» e que será apresentada pelo próprio ex-candidato presidencial esta tarde, pelas 18h30, na livraria do Círculo de Letras.

«Recusaremos a reedição do Bloco Central ou de qualquer outra forma de aliança à direita», avisa Manuel Alegre no editorial da revista, numa alusão a um cenário de vitória do PS nas próximas eleições legislativas, mas com maioria relativa.

«Como militantes socialistas, sem abdicarmos da opinião própria nem das divergências até hoje formuladas, continuaremos a bater-nos, dentro e fora do PS, por uma alternativa socialista ao neo-liberalismo ainda dominante», acrescenta o ainda deputado socialista, que critica os encontros que o primeiro-ministro e líder do PS, José Sócrates, tem mantido com personalidades das áreas do centro e centro-direita.

«Mais do que ouvir ex-ideólogos da direita seria importante escutar a opinião socialista dos que, dentro do PS, não desistem de pensar à esquerda», refere Alegre, citando depois Antero de Quental para salientar que «não se pode viver sem ideias».

«E não é possível renovar a democracia sem ideias novas e sem debate ideológico. Na véspera de eleições marcadas por uma ofensiva ideológica da direita contra as metas sociais consagradas na Constituição da República Portuguesa, a revista Ops! e a Corrente de Opinião Socialista ocupam o seu lugar no combate pela defesa de uma democracia em que direitos sociais sejam inseparáveis dos direitos políticos», promete Alegre.

Alegre diz que a sua corrente de opinião continuará a lutar dentro do PS pela escola pública, pelo Serviço Nacional de Saúde e pela Segurança Social pública.

«Mas também por uma revisão do Código Laboral, pela transparência das decisões dos poderes públicos e pelo direito ao território», afirma.

No seu editorial, Manuel Alegre faz também uma crítica aos resultados do trabalho produzido pelas instituições ligadas ao PS, sobretudo à Fundação Respublica (liderada por António Vitorino).

«Nenhuma outra corrente política, nem o próprio PS, através das suas fundações ou iniciativas criadas para o efeito, conseguiu realizar trabalho semelhante, apesar dos escassíssimos meios de que dispomos. Isto mostra que, mais do que o marketing ou os aparelhos logísticos, o que importa são as ideias, a participação, o espírito cívico e desinteressado na busca de novas políticas para o país e para a democracia», aponta o ex-candidato presidencial. »

Lusa / SOL, 14.7.2009


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