Global dominação corporativa do comércio, dos recursos e dos Estados

  Liberalização  comercial - O  proteccionismo  dos  mais  fortes   I   (-por Nuno Teles)

  .    . 
       Embora sem grande impacto mediático (excepto em França, que defende as especificidades culturais), estão em curso as negociações para a criação de uma zona de livre comércio entre os EUA e a UE.
     O acordo é apresentado como uma oportunidade para redinamizar o crescimento económico de ambos os blocos, que representam à volta de metade de todas a exportações mundiais.
     De forma explícita ou implícita, velhas e novas teorias são convocadas para apoiar o processo, da teoria das vantagens comparativas de David Ricardo - onde a cada país trocará os bens onde detém vantagens comparativa pelos bens produzidos onde estes são relativamente menos custosos de produzir - até à "nova economia política" - a concorrência acrescida entre as empresas conduziria a ganhos de eficiência face a ambientes proteccionistas onde as empresas se concentrariam na captura dos poderes públicos.
      A História mostra, no entanto, que, na verdade, o livre-cambismo é o proteccionismo dos mais ricos e fortes. Com muito poucas excepções (Holanda, Suiça), todos os países desenvolvidos adoptaram fortes medidas proteccionistas para proteger os seus mercados nacionais da concorrência externa, por forma a permitir o desenvolvimento de indústrias que, no seu estado inicial, são necessariamente menos competitivas.
      Dos EUA ao Reino Unido, passando pelos mais recentes casos de sucesso asiático (China e Vietname), o livre - cambismo só foi adoptado numa fase mais tardia do seu desenvolvimento como forma de penetrar nos mercados externos. Os elogios ao papel do comércio internacional no desenvolvimento, como este aqui de Martin Wolf, têm, por isso, que ser tomados com uma boa dose de cepticismo.
      O acordo agora em negociações entre a UE e os EUA coloca, mais uma vez, não só problemas ao impacto global desta liberalização em determinados sectores, como devia ser tomada com especial atenção por países como Portugal, cujas estruturas económicas diferem radicalmente dos países que comandam as negociações europeias. 
     A experiência das negociações com a OMC (Organização Mundial de Comércio) e a forma como conduziram à depressão de regiões inteiras do país são razão suficiente para ver estas negociações com preocupação.

---------------

      Entretanto,  por  França...      Des-globalização e defesa ecológica e social   
 
     A globalização tornou-se um sistema prejudicial para todos os trabalhadores, para todas as classes populares e médias do mundo inteiro; uns porque perdem o que alcançaram com tanto custo, outros porque nada ou muito pouco ganham (...) o comércio livre é a guerra de todos contra todos (...) o proteccionismo europeu, simultaneamente ecológico e social, é o keynesianismo do século XXI, uma forma política realista, justa e eficaz de organizar a economia de mercado mundial.
       Excertos do pequeno livro-manifesto lançado por Arnaud Montebourg aquando da sua candidatura nas primárias socialistas francesas, onde foi o terceiro candidato mais votado. 
        A ('démondialisation') desglobalização, um proteccionismo na escala certa, ambiental e socialmente consciente, e que não se confunde com autarcia (isolamento e autosuficiência), é uma das ideias à esquerda que é preciso desenvolver : 
   os países mais desenvolvidos têm o direito a proteger os seus arranjos sociais, laborais e ambientais e a sua base industrial e fiscal das chantagens das transnacionais e do capital financeiro ;
   enquanto que os países subdesenvolvidos têm direito a pôr em prática, com toda a autonomia, as políticas públicas de intervenção para o desenvolvimento que hoje a OMC e tantos tratados tentam impedir.
       Bom, agora Montebourg é ministro da “recuperação industrial” e está a ter o seu primeiro e bem duro teste com o anúncio recente de milhares de despedimentos na Peugeot, símbolo da desindustrialização da França, muito acentuada pelo euro e por uma crise que tem gerado uma sangria de empregos industriais.    Assumindo o projecto de dizer a verdade ao poder, Jacques Sapir, um dos principais teóricos da desglobalização, lembra ao governante Montebourg o que há a fazer se quiser permanecer fiel ao espírito do candidato Montebourg:
  entrar pelo gabinete de Hollande (e órgãos da UE) e dizer-lhe que sem proteccionismo selectivo e política cambial não vamos lá.
Se a linha de Montebourg for derrotada, e tudo está feito para que o seja se não houver forte pressão social e política de baixo, capaz de contrariar a que vem de cima, a Frente Nacional certamente que saberá monopolizar o cada vez mais popular discurso proteccionista, dando-lhe o cunho xenófobo e regressivo que alguns à esquerda estranhamente julgam que é indissociável de uma palavra na realidade a conquistar e a usar sem medos nem hesitações pelos que estão na margem certa.
         (-


Publicado por Xa2 às 07:58 de 20.07.13 | link do post | comentar |

3 comentários:
De +Ricos comem os Pobres (e desUnidos).. a 22 de Julho de 2013 às 14:46
Liberalização comercial - O proteccionismo dos mais fortes II

No seguimento da convenção de Lomé, em 1975, a União Europeia aplica uma pauta aduaneira preferencial para um conjunto de países em vias de desenvolvimento - os países ACP (Africa, Caraíbas e Pacífico).
A UE é, de longe, o seu maior parceiro comercial. Considerados discriminatórios no âmbito da OMC, estes acordos deram origem a uma prolongada negociação entre a UE e estes países no sentido da total liberalização comercial.

Se já não bastasse o desequilíbrio do padrão das transacções comerciais - estes países exportam sobretudo produtos minerais e agrícolas e importam bens de capital -, a ser agora agudizado, as tarifas alfandegárias são a maior fonte de receitas para muitos destes Estados incapazes de colectar outros impostos.
Não surpreende, portanto, que as negociações tenham entrado num impasse.
A UE procura agora contornar este bloqueio através de acordos bilaterais, onde o seu poder se manifesta de forma mais clara, corroendo assim este bloco de países.
Ao contrário de certas narrativas sobre países emergentes, o neocolonialismo parece estar bem de saúde.

-------Liberalização comercial - O proteccionismo dos mais fortes III

Uma das discussões mais interessantes no debate económico, para lá da crise económica no seu sentido mais estrito, está na discussão sobre as rendas de que empresas como a Apple ou a Microsoft beneficiam.

Como este artigo de Paul Krugman * ilustra, hoje as grandes empresas estão mais focadas nas rendas monopolistas que conseguem extrair dos seus produtos - sejam eles o Windows da Microsoft, o Iphone da Apple ou o algoritmo do Google -
sem que tenham que reinvestir os seus ganhos no seu negócio e onde a produção em sentido estrito está subcontratada e deslocalizada
(as empresas que produzem estes produtos ganham uma ínfima parte do seu valor de mercado).

Conclusão, os lucros encontram-se crescentemente desligados da produção, reflectindo sobretudo o domínio do mercado.

Sem necessidade de reinvestimento na produção, estas rendas contribuem para a um mercado de trabalho pouco dinâmico, com salários estagnados e aumento das desigualdades.

A luta contra estes gigantescos monopólios é por isso urgente para uma agenda progressista, como bem mostra este recomendável artigo de Richard Sennet.**

Esta desigualdade é, por sua vez, alimentada pela ofensiva em curso em torno dos direitos de propriedade intelectual.
Este artigo de Joseph Stiglitz *** mostra bem como o reforço da propriedade intelectual, nomeadamente biológica, ao alimentar as rendas monopolistas de que fala Krugman, dificultará o acesso a bens e serviços a quem não pode pagar.
No exemplo de Stiglitz, o patenteamento de genes e a sua relação com o acesso a cuidados de saúde é claro.

Por que é que isto é relevante quando se discute comércio internacional? Por duas razões.
A primeira diz respeito à forma como o fortalecimento da propriedade intelectual é normalmente associado aos acordos de comércio internacional.
Países, como os EUA, conseguem assim impor as suas regulações ao resto do mundo.

A segunda razão diz respeito à forma assimétrica como a propriedade intelectual beneficia os países mais ricos, onde ela é desenvolvida, e à forma como esta pode ser um bloqueio no desenvolvimento de tecnologias e indústria em países em estádios de desenvolvimento mais atrasados.
E isto vale tanto para os países ACP, como para Portugal.

(-por Nuno Teles, 20/7/2013 )
-----------
links dos artigos:
*
http://www.nytimes.com/2013/06/21/opinion/krugman-profits-without-production.html?_r=1&

**
http://www.ft.com/cms/s/06512782-de6e-11e2-9b47-00144feab7de,Authorised=false.html?_i_location=http%3A%2F%2Fwww.ft.com%2Fcms%2Fs%2F0%2F06512782-de6e-11e2-9b47-00144feab7de.html&_i_referer=http%3A%2F%2Fladroesdebicicletas.blogspot.pt%2F#axzz2ZmWnLIhf

***
http://opinionator.blogs.nytimes.com/2013/07/14/how-intellectual-property-reinforces-inequality/?ref=josephestiglitz


De Capitalismo, monopólios fuga d'impostas. a 24 de Julho de 2013 às 13:58
O capitalismo explicado às crianças
(Julho 23, 2013 por Mário Machaqueiro)

Para quem ainda acredita no mito do grande capital criador de emprego, recomenda-se a leitura deste “post” publicado por Nuno Teles no blogue “Ladrões de Bicicletas”.
Sem querer estragar o “suspense” da leitura, direi apenas que nele
se mostra como, graças às maravilhas da economia de casino mas, sobretudo, a uma posição quase monopolista no mercado norte-americano,
o dinheiro acumulado pela Apple serve, não para criar emprego, mas sim para criar simplesmente… mais dinheiro.
Que depois é repartido generosamente entre os principais accionistas da empresa.
E com o bónus perverso de ainda usufruir de deduções fiscais.
Como diria Vítor Gaspar, “é lindo”.

----------
Ainda os monopólios

(Nuno Teles, 22/7/2013, Ladrões de B.)
[ iAvoid : factura do "imposto real" da Apple no ano passado (a maior parte da maçã); o que de facto pagou (uma pequena 'dentada' na maçã) ]

No seguimento deste post ( http://ladroesdebicicletas.blogspot.pt/2013/07/liberalizacao-comercial-o_20.html ),
é curioso observar a posição da Apple, enquanto empresa monopolista, e a sua relação recente com os mercados financeiros.
Sem grandes incentivos ao reinvestimento dos seus lucros, esta empresa acumulou ao longo dos anos 145 mil milhões de dólares.
No entanto, no passado mês de Abril, a Apple decidiu endividar-se nos mercados com obrigações no valor de 17 mil milhões de dólares.
Naquela que aparentemente foi a maior emissão de dívida de sempre de uma empresa privada, as taxas de juro variaram entre 0,5% nas obrigações a três anos e 3,8% a trinta anos.

Todavia, porque é que uma empresa se vai endividar se está a nadar em liquidez?
A razão é bastante prosaica.
Boa parte dos 145 mil milhões de dólares disponíveis foi ganha e está depositada fora dos EUA.
O seu repatriamento implicaria o pagamento do imposto sobre lucros norte-americano (35%).
Por outro lado, o juro pago nesta emissão de dívida será dedutível na factura fiscal da Apple, resultando aparentemente numa poupança de 100 milhões de dólares todos os anos.
Este dinheiro angariado nos mercados não servirá para financiar novos investimentos (e emprego), mas sim para permitir uma maior distribuição de dividendos pelos accionistas e financiar um programa de recompra de acções cujo objectivo é elevar a sua cotação na Bolsa.

Conclusão,
a Apple beneficia de uma posição no mercado que lhe permite focar-se na valorização financeira das suas acções em vez da sua actividade produtiva,
foge descaradamente ao fisco do país que lhe deu as condições físicas e humanas para florescer
e, não contente, financia os ganhos dos seus accionistas através de um subsídio implícito dos contribuintes norte-americanos graças às deduções fiscais.

--------
Alexandre de Castro disse...

O problema central desta crise é este:
a financeirização da economia.
Os fabulosos lucros das multinacionais ligadas à produção de bens, possibilitados pela deslocalização das empresas para os países asiáticos, com baixos custos salariais, foram investidos na febril atividade especulativa da dívida privada, para obter novos lucros.
Os primeiros lucros, aqui referidos, resultaram do valor acrecentado pelo trabalho.
Já os segundos lucros referidos resultaram da especulação, que iam reproduzindo-se em novos ciclos de investimentos.
A economia real foi abandonada.



De .EXPORTações: Lucros e CUSTOS !! a 25 de Julho de 2013 às 09:43
Do aumento das exportações (de gasóleo)

A quem tenha escapado, este notável trabalho de escrutínio estatístico de Sérgio Aníbal, no Público, sobre o recente aumento das exportações é obrigatório. Dois terços do aumento das exportações são imputáveis a uma nova unidade de refinação da Galp. De outra forma as exportações teriam crescido uns magros 1,5% (contra 4,5%). O aumento das exportações diz assim respeito a produtos refinados, como o gasóleo.

Porque é que isto é relevante? A primeira razão, assinalada no artigo, está na excitação das hostes governamentais com este aumento das exportações enquanto sinal do sucesso do programa de redução dos salários e aumento da competitividade da economia nacional. É óbvio que este investimento da Galp precedeu em alguns anos o programa de ajustamento e, por isso, dificilmente pode ser entendido como consequência das actuais políticas.

Dir-me-ão que, mesmo sem qualquer relação com o actual programa, o aumento das exportações é uma boa notícia no que respeita à recuperação económica. Aqui devemos ser também cautelosos. O aumento das exportações permite, à partida, a diminuição do nosso défice externo. Contudo, se é certo que os refinados são bens resultantes de indústrias intensivas em capital, os seus efeitos de arrastamento sobre o resto da economia são diminutos. Primeiro, porque a produção de gasóleo depende sobretudo de um bem importado, o petróleo. Mais exportações significarão mais importações. Por outro lado, a capacidade deste investimento criar valor e emprego resume-se praticamente à Galp - 100 postos de trabalho directos mais 450 indirectos, segundo a própria Galp, numa actividade com margens diminutas. Finalmente, este acréscimo de produção não terá, no actual contexto, qualquer impacto nos preços praticados no mercado de gasóleo. Os ganhos parecem diminutos.

Por último, este tipo de investimentos deve levantar a questão do modelo de desenvolvimento a seguir. Se o investimento não é todos igual no que toca a crescimento e emprego, também não o é no que diz respeito aos custos ambientais. Se produzimos o gasóleo que Espanha e os EUA consumem, não estaremos a assistir a uma transferência de poluição desses países para o nosso? Os custos parecem, por isso, assinaláveis. Em alternativa, não deveríamos trabalhar na reconversão enérgica que privilegie a eficiência e as fontes renováveis? Decidir quais as apostas estratégicas de uma economia é parte importante de qualquer democracia.
(-por N.Teles)

------Aleixo disse...
Sendo a GALP uma empresa com refinarias em Portugal, os responsáveis pela sua privatização,
não tiveram uma acção dolosa dos interesses do Estado, ao não exigirem o abastecimento do país,
a preços não relacionadas com a cotação internacional, dos produtos refinados ??
Quem paga os custos ambientais?
A poupança nos custos da mão-de-obra (caseira), na produção de um produto com cotação internacional,
vai toda para...o Amorim??!!
Se não temos os refinados com preços caseiros...
então imponham, impostos compensatórios!

----- Anónimo
A exportação de gasóleo é obtida com matéria- prima importada que é o petróleo bruto.Tem a desvantagem de quer a matéria-prima importada quer o produto acabado exportado não ser transportado em navios nacionais , pois não existem navio-tanques petroleiros na frota mercante portuguesa.

------ José M. Sousa
E qualquer dia o preço da emissão de CO2 - sim, porque as AC terão que ser levadas a sério - dispara!

------- Anónimo disse...
Caros Ladrões de Biclas: exporta-se gasóleo porque se vende muito menos em Portugal, havendo superavit. Em 2012 caiu 11,9%, em 2011 cai à volta de 10%. Como para a instalação da fábrica se previa um aumento do consumo...

------ José Guinote disse...
Para lá das questões referidas pelo Nuno Teles no post chamo a atenção para o facto de a Galp ter beneficiado de apoios do Estado na ordem dos 15% do investimento, isto é cerca de 150 milhões de euros. Na altura a empresa referia-se à criação de 150 postos de trabalho agora já são apenas cem. Na mesma altura o Estado entregou mais 96 milhões em beneficios fiscais no projecto la Seda que iria criar 150 postos de trabalho. Uma trapalhada completa envolvendo a Caixa Geral de Depósitos e muitos milhões de € Estado.


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