De +Ricos comem os Pobres (e desUnidos).. a 22 de Julho de 2013 às 14:46
Liberalização comercial - O proteccionismo dos mais fortes II

No seguimento da convenção de Lomé, em 1975, a União Europeia aplica uma pauta aduaneira preferencial para um conjunto de países em vias de desenvolvimento - os países ACP (Africa, Caraíbas e Pacífico).
A UE é, de longe, o seu maior parceiro comercial. Considerados discriminatórios no âmbito da OMC, estes acordos deram origem a uma prolongada negociação entre a UE e estes países no sentido da total liberalização comercial.

Se já não bastasse o desequilíbrio do padrão das transacções comerciais - estes países exportam sobretudo produtos minerais e agrícolas e importam bens de capital -, a ser agora agudizado, as tarifas alfandegárias são a maior fonte de receitas para muitos destes Estados incapazes de colectar outros impostos.
Não surpreende, portanto, que as negociações tenham entrado num impasse.
A UE procura agora contornar este bloqueio através de acordos bilaterais, onde o seu poder se manifesta de forma mais clara, corroendo assim este bloco de países.
Ao contrário de certas narrativas sobre países emergentes, o neocolonialismo parece estar bem de saúde.

-------Liberalização comercial - O proteccionismo dos mais fortes III

Uma das discussões mais interessantes no debate económico, para lá da crise económica no seu sentido mais estrito, está na discussão sobre as rendas de que empresas como a Apple ou a Microsoft beneficiam.

Como este artigo de Paul Krugman * ilustra, hoje as grandes empresas estão mais focadas nas rendas monopolistas que conseguem extrair dos seus produtos - sejam eles o Windows da Microsoft, o Iphone da Apple ou o algoritmo do Google -
sem que tenham que reinvestir os seus ganhos no seu negócio e onde a produção em sentido estrito está subcontratada e deslocalizada
(as empresas que produzem estes produtos ganham uma ínfima parte do seu valor de mercado).

Conclusão, os lucros encontram-se crescentemente desligados da produção, reflectindo sobretudo o domínio do mercado.

Sem necessidade de reinvestimento na produção, estas rendas contribuem para a um mercado de trabalho pouco dinâmico, com salários estagnados e aumento das desigualdades.

A luta contra estes gigantescos monopólios é por isso urgente para uma agenda progressista, como bem mostra este recomendável artigo de Richard Sennet.**

Esta desigualdade é, por sua vez, alimentada pela ofensiva em curso em torno dos direitos de propriedade intelectual.
Este artigo de Joseph Stiglitz *** mostra bem como o reforço da propriedade intelectual, nomeadamente biológica, ao alimentar as rendas monopolistas de que fala Krugman, dificultará o acesso a bens e serviços a quem não pode pagar.
No exemplo de Stiglitz, o patenteamento de genes e a sua relação com o acesso a cuidados de saúde é claro.

Por que é que isto é relevante quando se discute comércio internacional? Por duas razões.
A primeira diz respeito à forma como o fortalecimento da propriedade intelectual é normalmente associado aos acordos de comércio internacional.
Países, como os EUA, conseguem assim impor as suas regulações ao resto do mundo.

A segunda razão diz respeito à forma assimétrica como a propriedade intelectual beneficia os países mais ricos, onde ela é desenvolvida, e à forma como esta pode ser um bloqueio no desenvolvimento de tecnologias e indústria em países em estádios de desenvolvimento mais atrasados.
E isto vale tanto para os países ACP, como para Portugal.

(-por Nuno Teles, 20/7/2013 )
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links dos artigos:
*
http://www.nytimes.com/2013/06/21/opinion/krugman-profits-without-production.html?_r=1&

**
http://www.ft.com/cms/s/06512782-de6e-11e2-9b47-00144feab7de,Authorised=false.html?_i_location=http%3A%2F%2Fwww.ft.com%2Fcms%2Fs%2F0%2F06512782-de6e-11e2-9b47-00144feab7de.html&_i_referer=http%3A%2F%2Fladroesdebicicletas.blogspot.pt%2F#axzz2ZmWnLIhf

***
http://opinionator.blogs.nytimes.com/2013/07/14/how-intellectual-property-reinforces-inequality/?ref=josephestiglitz


De Capitalismo, monopólios fuga d'impostas. a 24 de Julho de 2013 às 13:58
O capitalismo explicado às crianças
(Julho 23, 2013 por Mário Machaqueiro)

Para quem ainda acredita no mito do grande capital criador de emprego, recomenda-se a leitura deste “post” publicado por Nuno Teles no blogue “Ladrões de Bicicletas”.
Sem querer estragar o “suspense” da leitura, direi apenas que nele
se mostra como, graças às maravilhas da economia de casino mas, sobretudo, a uma posição quase monopolista no mercado norte-americano,
o dinheiro acumulado pela Apple serve, não para criar emprego, mas sim para criar simplesmente… mais dinheiro.
Que depois é repartido generosamente entre os principais accionistas da empresa.
E com o bónus perverso de ainda usufruir de deduções fiscais.
Como diria Vítor Gaspar, “é lindo”.

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Ainda os monopólios

(Nuno Teles, 22/7/2013, Ladrões de B.)
[ iAvoid : factura do "imposto real" da Apple no ano passado (a maior parte da maçã); o que de facto pagou (uma pequena 'dentada' na maçã) ]

No seguimento deste post ( http://ladroesdebicicletas.blogspot.pt/2013/07/liberalizacao-comercial-o_20.html ),
é curioso observar a posição da Apple, enquanto empresa monopolista, e a sua relação recente com os mercados financeiros.
Sem grandes incentivos ao reinvestimento dos seus lucros, esta empresa acumulou ao longo dos anos 145 mil milhões de dólares.
No entanto, no passado mês de Abril, a Apple decidiu endividar-se nos mercados com obrigações no valor de 17 mil milhões de dólares.
Naquela que aparentemente foi a maior emissão de dívida de sempre de uma empresa privada, as taxas de juro variaram entre 0,5% nas obrigações a três anos e 3,8% a trinta anos.

Todavia, porque é que uma empresa se vai endividar se está a nadar em liquidez?
A razão é bastante prosaica.
Boa parte dos 145 mil milhões de dólares disponíveis foi ganha e está depositada fora dos EUA.
O seu repatriamento implicaria o pagamento do imposto sobre lucros norte-americano (35%).
Por outro lado, o juro pago nesta emissão de dívida será dedutível na factura fiscal da Apple, resultando aparentemente numa poupança de 100 milhões de dólares todos os anos.
Este dinheiro angariado nos mercados não servirá para financiar novos investimentos (e emprego), mas sim para permitir uma maior distribuição de dividendos pelos accionistas e financiar um programa de recompra de acções cujo objectivo é elevar a sua cotação na Bolsa.

Conclusão,
a Apple beneficia de uma posição no mercado que lhe permite focar-se na valorização financeira das suas acções em vez da sua actividade produtiva,
foge descaradamente ao fisco do país que lhe deu as condições físicas e humanas para florescer
e, não contente, financia os ganhos dos seus accionistas através de um subsídio implícito dos contribuintes norte-americanos graças às deduções fiscais.

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Alexandre de Castro disse...

O problema central desta crise é este:
a financeirização da economia.
Os fabulosos lucros das multinacionais ligadas à produção de bens, possibilitados pela deslocalização das empresas para os países asiáticos, com baixos custos salariais, foram investidos na febril atividade especulativa da dívida privada, para obter novos lucros.
Os primeiros lucros, aqui referidos, resultaram do valor acrecentado pelo trabalho.
Já os segundos lucros referidos resultaram da especulação, que iam reproduzindo-se em novos ciclos de investimentos.
A economia real foi abandonada.



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