Hermínio da Palma Inácio

Combatente antifascista e amante da liberdade, Hermínio da Palma Inácio faleceu hoje, aos 87 anos.

Hermínio da Palma Inácio (Ferragudo, Lagoa, 29 de Janeiro de 1922 - Lisboa, 14 de Julho de 2009) foi um revolucionário português contra o Estado Novo. É conhecido por ter protagonizado o primeiro desvio de um voo comercial de que há registo, com a Operação Vagô, em que um avião da TAP sobrevoa Lisboa, Barreiro, Setúbal, Beja e Faro a baixa altitude para lançar cerca de 100 mil panfletos com apelos à revolta popular contra a ditadura.

Palma Inácio iniciou a luta antifascista com a sua adesão ao Golpe dos Militares, em 10 de Abril de 1947, um movimento desencadeado pelo general Godinho e pelo almirante Cabeçadas e que contou com a participação de alguns civis, entre os quais João Soares, pai de Mário Soares.

Ao jovem revolucionário, então com 25 anos, coube a tarefa de sabotar os aviões da base aérea da Granja, Sintra, onde havia prestado serviço militar na companhia do oficial da Força Aérea Humberto Delgado.

Esta acção acabou por lhe valer sete meses de clandestinidade, numa quinta em Odivelas, seguindo-se a sua detenção pela PIDE, conhecendo assim, pela primeira vez, as celas do Aljube. À espera do julgamento, Palma Inácio foi preparando a fuga. Na manhã de 16 de Maio de 1948, com quatro lençóis enrolados nas pernas, debaixo das calças, juntou-se aos outros reclusos, na fila para a casa de banho. Um breve momento de ausência do guarda permitiu-lhe lançar-se pela janela, numa altura de cerca de 15 metros do chão, caindo junto à sentinela da prisão, no exterior do edifício, que não teve tempo de reagir. Palma Inácio pôs-se em fuga, desaparecendo no meio da multidão. Com a PIDE de novo à sua procura, seguiu para Marrocos, de onde, após várias peripécias pelos mares, consegue chegar aos Estados Unidos da América. O "brevet" de piloto garantiu-lhe a sobrevivência, mas as autoridades acabam por o localizar, obrigando-o a abandonar o país. O destino foi o Rio de Janeiro, juntando-se assim a outros antifascistas que do exterior procuravam meios para acabar com o regime de Salazar em Portugal. Estava-se em 1956 e Palma Inácio contava 34 anos. Dois anos depois, a luta antifascista agitou-se com a candidatura do General Humberto Delgado às eleições presidenciais e o exílio deste no Brasil, a que pouco depois se junta também o capitão Henrique Galvão.

Palma Inácio, acompanhado de Camilo Mortágua, Amândio Silva, Maria Helena Vidal, João Martins e Francisco Vasconcelos, preparou então uma operação que haveria de acordar Lisboa de espanto - na manhã de 10 de Novembro, um avião da TAP, que partira de Casablanca, é desviado para sobrevoar Lisboa, onde são lançados cerca de 100 mil panfletos antifascistas. Os caças da Força Aérea não conseguem interceptar o avião, que regressa a Casablanca em segurança.

De regresso ao Brasil, o grupo confrontou-se com a necessidade de procurar financiamento para as suas operações. Começou assim a preparação do assalto à dependência do Banco de Portugal na Figueira da Foz, concretizada em Maio de 1967 com Camilo Mortágua, António Barracosa, e Luís Benvindo.

Nesta altura, o movimento antifascista estava localizado em Paris, onde acaba por nascer a LUAR - Liga de Unidade e Acção Revolucionária, que reivindicou o assalto como operação manifestamente política.

Na capital francesa, Palma Inácio planeou outro golpe, mas que acabaria por fracassar: tomar a cidade da Covilhã. Desta vez, é detido pela PIDE. Palma Inácio concebeu a fuga da prisão do Porto, serrando as grades da cela com lâminas que a sua irmã lhe fizera chegar, com a ajuda do informador da PIDE, de alcunha o "Canário", e o conhecimento dos inspectores Barbieri Cardoso e Sachetti, que se havia introduzido na LUAR. Ambos os inspectores sabiam da existência das lâminas mas nunca as conseguiram localizar, apesar das inúmeras revistas à cela.

Em Novembro de 1973, é de novo detido pela PIDE, depois de ter entrado clandestinamente em Portugal para mais uma operação.

Cinco meses depois, na sua cela, recebeu, em código morse feito pela buzina de um carro, nas imediações de Caxias, a primeira notícia de que um golpe militar está em curso. No dia seguinte, a 26 de Abril, chegou a ordem de libertação dos presos políticos. Contudo, Palma Inácio foi o último a sair, pois alguns militares, que recusavam ver o assalto à Figueira da Foz como uma operação política, resistiram à sua libertação.

A 13 de Maio de 2000, o Presidente da República Jorge Sampaio, pela mão de Manuel Alegre, atribuiu-lhe a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade. [Wikipédia]



Publicado por JL às 18:53 de 14.07.09 | link do post | comentar |

3 comentários:
De ''Á Bastilha !'' a 15 de Julho de 2009 às 11:42
Palma Inácio deixa-nos a 14 de Julho, o dia em que se comemora a tomada da Bastilha. O dia da grande Revolução Francesa. O dia de novas perspectivas para a humanidade. Coincidências.

Palma Inácio, com a coragem e garra de revolucionário que sempre o caracterizaram, bem "poderia ter sido" o homem que, a 14 de Julho de 1789, gritou: "para a Bastilha". E o povo foi e as cadeias da prisão cederam.

# posted by Joao Abel de Freitas, Puxa Palavra


De Zé T. a 15 de Julho de 2009 às 10:50

Hermínio da Palma Inácio
«Revolucionário ingénuo» preocupado com as suas gentes.

Era ainda um jovem quando se alistou na Aeronáutica Militar.
Aí aprendeu a profissão de mecânico e tirou o curso de piloto civil para a aviação comercial. O monstro da II Guerra Mundial pairava sobre a Europa.

Atento ao racionamento de comida a que os seus conterrâneos estavam sujeitos, pegou num avião Tiger e lançou pelos ares alimentos.

Numa entrevista à revista «Grande Reportagem», em 2000, o contestatário algarvio explicou que, durante a II Guerra, «havia falta de comida, sobretudo daquela que os portugueses mais gostavam, o bacalhau. E havia na Figueira da Foz uma grande seca de bacalhau que tinha ao lado um campo de aviação pequeno. Nós íamos lá, aterrávamos, comprávamos o bacalhau, embrulhávamos o bacalhau em plástico e depois lançava-o sobre Tunes [no Algarve]».

LNT, 14.7.2009
.............................
Revolucionário por ideais e consciência social, insultado (''ladrão de bancos'') por alguns, Palma Inácio foi dos poucos que não aceitou cargos/tachos no pós-25Abril e viveu/morreu com uma pensão semelhante ao salário mínimo nacional.


De outros a 15 de Julho de 2009 às 11:03
tina disse...

Terrorista??!
Pois, já agora como é que define,sr.JSilva, certos banqueiros, deste nosso Portulgalzinho? Anjinhos, de luvas brancas e memórias esquecidas?
Ou "gente" de bem?

Até sempre Palma Inácio.
Há corações que guardarão a tua memória.
Tina

GJ disse...

História para recordar os revolucionários que queriam ser como o Zé do Telhado...

15 de Julho de 2009


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