2 comentários:
De .Demo-economia global, nova-ESCRAVATURA. a 11 de Setembro de 2013 às 10:10
Emprego: Vagas para o inferno

(-por Ricardo Nabais, Sol, 10/9/2013)

Uma funcionária da fábrica chinesa que fabrica componentes das mais importantes marcas da electrónica mundial denunciou as condições de trabalho que a levaram a uma tentativa de suicídio. Em Londres, um estagiário morreu ao fim de 72 horas seguidas de trabalho. O que se passa nas grandes empresas?
Todos sabem, ou pelo menos suspeitam. Por que é fácil adquirir o seu iPod, o seu Kindle, a sua Playstation? E por que descem, ano após ano, os preços da tecnologia? A resposta encontra-se a uns milhares de quilómetros das nossas fronteiras. Mais precisamente em Shenzen, na província de Guangdong, na China, uma das mais famosas zonas económicas especiais criadas pelo governo chinês após a abertura ao mercado internacional, em 1979.
A fábrica é responsável pela produção das componentes dos aparelhos descritos acima, e tem um nome que até soa familiar aos ouvidos ocidentais, Foxconn. É de lá que saem as estrelas high-tech da Apple, da Dell, da Hewlett-Packard ou da Amazon.

E também milhares de trabalhadores menores de idade, a trabalhar sem condições de conforto mínimo ou até de saúde, em jornadas de muitas horas por dia, sem o pagamento de horas extraordinárias e sob forte pressão psicológica para aumentarem a ‘produtividade’.
E, é claro, com algumas tentativas de suicídio no currículo, obviamente abafadas pela empresa.
Uma dessas operárias veio agora a público denunciar as condições a que foi sujeita durante o breve tempo que passou na fábrica de Shenzen.
Chama-se Tian Yu e tinha 17 anos quando, em Março de 2010, se atirou do 4.º andar do edifício para pôr fim à vida, ao fim de apenas um mês de trabalho. Era a 18.ª a tentar fazê-lo só nesse ano.
Ficou paralisada da cintura para baixo, sem cuidados médicos – ‘seguro de trabalho, o que é isso?’, perguntarão os responsáveis pela empresa – e sem indemnização ou qualquer outro provento compensatório.
Só após longa pressão popular, dentro e fora de portas, a trabalhadora recebeu, passados oito meses, o que a empresa designou como um ‘pagamento humanitário’: 20 euros. E abriu uma linha de ‘apoio psicológico’, mas que funciona nas instalações da fábrica… Ou seja, sem privacidade.

Modelo da revolução industrial (séc.XIX)
O dia-a-dia destes operários foi descrito pela ex-trabalhadora a uma organização sem fins lucrativos fundada em 2005 por estudantes de Hong Kong e que visava, especificamente, a defesa dos empregados de limpeza e seguranças a trabalhar em regime de outsourcing
(um serviço externo prestado a uma companhia, que assim controla os ‘custos’, essencialmente os humanos), mas que rapidamente evoluiu para outras categorias profissionais.
Os operários das fábricas de componentes electrónicas, ‘competitivos’ devido ao baixo custo salarial e às condições mínimas de trabalho, tornaram-se também alvo da associação e da Organização Internacional do Trabalho.
Tian Yu pôde descrever o seu dia-a-dia.
O modelo laboral da fábrica, ultrapassado no Ocidente desde o pós-Segunda Guerra Mundial, faz lembrar o das histórias de Charles Dickens.
É um modelo de produção em série sem intervalos ou qualquer outro tipo de pausas – nem para conversar –, incluindo idas à casa-de-banho tabeladas, horas seguidas em tarefas repetitivas e jornadas de mais de 12 horas e meia diárias, seis dias e meio por semana.
Como muitas outras raparigas da sua idade, Tian saiu do campo para uma área urbana para procurar trabalho. Juntou-se a uma fila de milhares de pessoas, não lhe exigiram qualquer habilitação.
Entrava todos os dias às 7h20 para uma reunião – para incutir o ‘ânimo’ necessário para as tarefas do dia –, começava a trabalhar 10 minutos depois, com breve pausa para o almoço às 11h e saída às 19h40.
Muitas vezes não jantava para poder contar as horas suplementares, que nunca chegaram a ser pagas.

Pelo meio, cada trabalhador era obrigado a fazer, à vez, uma autocrítica, uma prática herdada da China comunista. O discurso, muito breve, é lido em voz alta – não foi escrito pelo próprio –, ao que se segue uma prédica do responsável pela unidade: “Se um trabalhador perde um minuto, quanto tempo suplementar será perdido por 100 pessoas?”, recorda-se Tian, citada pela revista francesa Les Inrockuptibles. ...


De Trabalho MORTAL - suicídio ou ASSASSÍNIO a 11 de Setembro de 2013 às 10:26
.Demo-economia global, nova-ESCRAVATURA.
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Emprego: Vagas para o inferno

(-por Ricardo Nabais, Sol, 10/9/2013)
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...A política do capataz não se esgota neste ritual: de manhã, os responsáveis percorrem os corredores a perguntar, em tom marcial ‘como está tudo?’, ao que os trabalhadores respondem, sem pestanejar, ‘tudo bem, tudo bem’.

Resta acrescentar ao cenário a prosaica tarefa da operária, antes que lhe mudassem, arbitrariamente, turnos e funções, como acontece a quase todos os colegas:
cabia-lhe verificar se os ecrãs da produção em série não tinham riscos. Além da curta ‘indemnização’, Tian motivou ainda uma reacção inusitada do sindicato, que por aquelas bandas é próximo do director da fábrica: o suicídio “é um acto imprudente, irresponsável, desprovido de sentido e que devia ser evitado”.
Apesar de ter aumentado muito ligeiramente os salários praticados, a Foxconn manteve as 60 horas semanais, sistematicamente denunciadas por ONG no terreno. A lei chinesa fixa-as em 49 horas.

Se o caso de Tian é relativamente vulgar no mercado de trabalho asiático – basta recordar a derrocada de um edifício no Bangladesh em Abril, que pôs a nu as condições próximas da escravatura dos operários –
o mesmo não se pode dizer do que se passa em estados de direito consolidados, (ainda) com regras para o desempenho de qualquer trabalho.

Morrer a trabalhar
Notícias recentes davam conta do excesso de horas dos trabalhadores do Facebook nos EUA, cuja ‘produtividade’ é medida por estarem disponíveis 24h por dia, sete dias por semana. E turnos de 12 a 24 horas por dia...
Um funcionário, habilitado, chegou a queixar-se ao jornal britânico The Independent: “Foi a pior experiência profissional que tive até à data”.

Mas nada supera o caso recente da morte de um estagiário alemão de 21 anos no Bank of America em Londres.
O caso é diferente – o rendimento mensal deste estagiário deveria ultrapassar o de centenas de operários na fábrica de Shenzen.
Mas Moritz Erhardt trabalhava há três dias consecutivos até ter sido encontrado morto por colegas da residência estudantil onde estava alojado.
Erhardt era epiléptico, e o seu estado obrigava-o, ainda mais, a não prolongar esforços desta natureza.
Foi vítima do que os colegas do banco chamavam ‘magic roundabout’ (algo como ‘voltinha mágica’).
A única interrupção do dia de trabalho (leia-se, um dia na íntegra, as 24 horas) era o tempo em que o táxi o levava à residência e esperava à entrada, enquanto o estagiário tomava um banho rápido e mudava de roupa, antes de se lançar em nova jornada.

O Bank of America fez um curto comentário de solidariedade para com a família de Erhardt e pouco acrescentou.
Outros funcionários confirmam que quem passa por um estágio naquele banco faz naturalmente 100 a 110 horas por semana. (!!!)
O salário, de 3.125 euros por mês, parece sonante, mas tendo em conta a carga semanal e a média salarial do país, não deslumbra.
E só poderá desfrutá-lo quem sobreviver o tempo suficiente.
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