Austeridade : tragédia económica e política

 

Autor do livro 'Austeridade' diz que cortes anunciados são 'inúteis'  (Lusa/Sol, 12/10/2013)

Cortugal    Mark Blyth, professor de Economia Política, e autor do livro "Austeridade -- uma ideia perigosa", lançado hoje em Portugal, disse à Lusa que os cortes orçamentais anunciados pelo Governo de Passos Coelho não servem para nada.

  "[Os cortes orçamentais] São totalmente inúteis (como solução, mas uma tragédia como opção intencional). O problema é a forma como os bancos portugueses e a economia portuguesa estão agarrados a um sistema monetário que tem um banco central mas não dispõe de um sistema de colecta de impostos (a nível Europeu) capaz de resolver o problema. Podem espancar a despesa pública portuguesa até a rebaixarem a 'níveis neolíticos'. É como instalar uma instituição bancária na Idade da Pedra. Não resolve o problema. O que estão a fazer é totalmente inútil", disse à Lusa Mark Blyth a propósito dos cortes orçamentais anunciados pelo Governo português.

   O escocês Mark Blyth, professor de Economia Política no departamento de Ciência Política da Universidade de Brown, em Providence, Estados Unidos, é autor do livro "Austeridade -- uma ideia perigosa" em que defende que as medidas drásticas não são adequadas para a solução da crise económica.

   "Quando tudo começou a arrebentar em 2007 e 2008 ficámos a saber tudo sobre as fragilidades das economias do sul da Europa, mas também sobre o elevado nível de endividamento do sistema bancário e que esteve escondido durante mais de uma década", disse o académico, sublinhando que as medidas impostas pelos governos dos países expostos à crise não fazem sentido porque apenas servem o sistema bancário em crise.

    "O que são necessárias são políticas - caso contrário - a mobilidade laboral vai tentar afastar o problema justificando-a como uma medida económica afastando as pessoas com qualificações que simplesmente vão abandonar os países. E depois quem paga os impostos?" (e quem inova?, quem gere com qualidade?... e quem defende o Estado/nação? e a sua cultura e democracia?), questiona Mark Blyth, recordando que na Irlanda milhares de académicos já abandonaram o país.

     Para o professor de Economia Política, pressionar o sistema com austeridade "como se fosse um estilo de vida" só pode dar maus resultados e a crise não pode ser solucionada enquanto se tenta resolver, "ao mesmo tempo", uma crise bancária "através de reformas governamentais, porque uma coisa não tem nada que ver com a outra".

     "A austeridade é uma forma de deflação voluntária em que a economia se ajusta através da redução de salários, preços e despesa pública para 'restabelecer' a competitividade, que (supostamente) se consegue melhor cortando o Orçamento do Estado, promovendo as dívidas e os défices" (página 16), escreve Blyth no livro "Austeridade -- uma ideia perigosa", realçando que não se verificam à escala mundial casos que tenham sido solucionados com políticas de austeridade.

     "Os poucos casos positivos que conseguimos encontrar explicam-se facilmente pelas desvalorizações da moeda e pelos pactos flexíveis com sindicatos (...) A austeridade trouxe-nos políticas de classe, distúrbios, instabilidade política, mais dívida do que menos, homicídios e guerra" (páginas 337-338), escreve o autor.

     "Mas também é uma ideia perigosa porque o modo como a austeridade está a ser apresentada, tanto pelos políticos como pela comunicação social -- como o retorno de uma coisa chamada 'crise da dívida soberana' supostamente criada pelos Estados que aparentemente 'gastaram de mais' -- é uma representação fundamentalmente errada dos factos", defende Blyth.

     Como alternativa, o autor da investigação defende a "repressão financeira" assim como um esforço renovado na coleta de impostos "sobre os mais ganhadores", a nível (nacional, europeu e) mundial, assim como a procura de riqueza que se encontra "escondida em offshores" e que os Estados "sabem" onde está.

     "Na verdade, um novo estudo da Tax Justice Network calcula que haja 32 mil biliões de dólares, que é mais duas vezes o total da dívida nacional dos Estados Unidos, escondidos em offshores, sem pagar impostos" (página 358), conclui Mark Blyth no livro "Austeridade -- A história de uma ideia perigosa" (editora Quetzal, 416 páginas).

 



Publicado por Xa2 às 14:15 de 19.10.13 | link do post | comentar |

4 comentários:
De Viragem EconomicoSocial no FED dos EUA ? a 21 de Outubro de 2013 às 15:04

Janet Yellen: Quem é a mulher mais poderosa do mundo?
(Visão, 20/10/2013)

Pela primeira vez nos seus 100 anos de história, a Reserva Federal dos EUA (FED) vai ter uma mulher como presidente. Um desafio ímpar para esta economista discreta, preocupada com o desemprego. Seis factos sobre a sua vida:

1. Nasceu há 67 anos, no bairro nova-iorquino de Brooklyn. No final do liceu, quando era diretora do jornal da Fort Hamilton High School e tinha de entrevistar o melhor aluno, como era da praxe, entrevistou-se a si própria.

2. É apontada como a pessoa mais bem preparada para liderar o FED. Licenciada em economia pela Universidade de Brown e doutorada por Yale, os seus talentos académicos permitiram-lhe lecionar em Harvard e Berkeley.

3. Em Yale, conheceu o professor que mais a marcou, o Nobel James Tobin. Foi com ele que Yellen diz ter aprendido a importância do serviço público: "Trabalhar não significa apenas alcançar um elevado nível intelectual, também consiste em contribuir para melhorar a condição humana."

4. Em 1977, foi nomeada para a divisão de Finanças Internacionais do FED, em cujo refeitório conheceu o amor da sua vida, George Akerlof. Em 2001, o seu marido partilhou o Nobel da Economia com Joseph Stieglitz.

5. Em 1980, o casal foi para Berkeley, na Califórnia, onde nasceu o filho de ambos, Robert (também doutorado em economia). Quando este era bebé, Janet desenvolveu a teoria de que as pessoas mais bem pagas trabalham melhor - pressuposto confirmado com as sucessivas babysitters que contratou.

6. Caso a sua nomeação seja confirmada pelo Senado, iniciará funções a 1 de fevereiro. Nessa altura se verá se ela continuará a usar a sua "bola de cristal" - como fez em 2005, quando era governadora do FED, em São Francisco - para alertar para a bolha imobiliária e defender que o capitalismo tem limites que exigem a intervenção de um regulador capaz de fazer com que o mercado funcione.
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Ler mais: http://visao.sapo.pt/janet-yellen-quem-e-a-mulher-mais-poderosa-do-mundo=f753738#ixzz2iMfIcr4c


De Problema: pobreza, exploração,...precari a 21 de Outubro de 2013 às 16:30
« Num país em o que ordenado mínimo é inferior a 500 euros e onde as propinas são superiores a 1000, onde o aumento do desemprego e dos impostos é assustador e a precariedade está presente, é capaz de explicar parte do problema.»

-por antonio, em : Crato pediu inquérito sobre queda das candidaturas ao superior


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