Direita volver: a magia das primárias
(-Francisco Louçã , 13/11/2013, Esquerda.Net)
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...As diretas, assim, não são só um fútil concurso de beleza ou a porta aberta a jogos financeiros clandestinos.
São uma campanha para forçar a esquerda a virar ao centro e à direita.
O resultado será sempre um reforço do PS e do PSD, porque os seus eleitores anularão os que noutros partidos se lhes opõem.
Assim, esta solução pretende um efeito:
em vez de forçar os partidos a romper com a austeridade, quer consagrar o seu domínio e anular as contestações.
Se a crise de Portugal é a política dos partidos da austeridade, então ela agravar-se-ia com o populismo.
Ao contrário do populismo, que descreve a sociedade como plana e dormente, à espera de despertar ao som melodioso de um Flautista de Hamelin,
os democratas reconhecem uma democracia com contradições e com disputa.
Os partidos são parte dessas disputa e têm o dever de confrontar projetos, convergentes nuns casos, antagónicos noutros.
SÓ os seus MEMBROS podem DECIDIR quem melhor que os representa .
Nenhum financiador, nenhuma agência publicitária, nenhuma empresa, nenhum outro partido tem o direito de intervir nessa escolha.
Artigo publicado no jornal “Público” de 13 de novembro de 2013
A quem servir a carapuça
-por Frederico Aleixo, 19/11/2013,5Dias)
Eu desconfio sempre da postura moralista na política.
Não sigo o aristotelismo e não acredito que o fim da política seja a liberdade ou a felicidade humanas.
Quanto muito será sempre uma liberdade contingente e limitada pelos interesses de uma entidade denominada de Estado.
A verdadeira liberdade chegará com a supressão de classes e interesses colectivos antagónicos.
Com o fim da política entendida nos termos do paradigma dominante na sua ciência.
Até lá, todos temos de sujar as mãos. Umas mais imundas que outras.
Talvez por isso não goste muito de discutir rosas e papoilas. Prefiro cingir-me à matéria objectivamente existente.
Não me revejo no completo relativismo dos conceitos de liberdade e esquerda, assim como numa falácia anti-partidária ou apartidária em forma de partido.
O que não falta na história são disparidades entre o ideal e o terreno.
Não acredito na defesa do europeísmo a toda a prova.
Um europeísmo que nas suas bases está já minado pela desigualdade de relações entre os povos, pela liberalização económica e hierarquia de potências.
Por mais voltas que se dê ao argumentário, se Rui Tavares critica a política europeia de forma estrutural, não se percebe porque transitou do GUE/NGL para Os Verdes.
Um grupo parlamentar europeu que apoiou o constitucionalismo europeu nos seus moldes actuais, como ficou provado com o suporte dado em relação ao projecto constitucional europeu ou mesmo em relação ao Tratado Orçamental.
Para não falar na conivência perante a intervenção da NATO. Onde está a solidariedade entre povos?
Não acredito em processos de democratização política que não sejam antecedidos de uma alteração nas relações de produção.
Mas as interrogações prosseguem. Pergunto-me sobre o meio da esquerda.
Será o espaço a ocupar entre o PS e o BE?
E já alguém se indagou se a esquerda precisa desse espaço ocupado por um partido que se disponha a coligações com o arco da governabilidade?
Um género de DIMAR na Grécia e Os Verdes na Alemanha, mesmo que a experiência tenha trazido os seus dissabores?
Não deveriam antes os militantes do PS reflectir sobre o percurso da social-democracia e buscar uma mudança interna, tendo em conta os resultado da Terceira Via?
Não quero apressar julgamentos, mas a existência de uma muleta pós-eleitoral não me parece contribuir devidamente para um processo de transformação à esquerda.
Assim sendo, preparo-me para mais uma tentativa de medicação paternalista prescrita de acordo com sintomas, ao invés de um diagnóstico da verdadeira patologia social.
Continua-se a tratar o socialismo como uma flor, quando este se trata de uma raiz.
Um partido de gritos
(por João Vilela, 17/11/2013, 5Dias)
Está em marcha a organização em partido dos sectores mais capitulacionistas do REFORMISMO prostrado.
Por outras palavras, as pessoas que gostam do PS, militariam no PS, concordam no essencial com o PS, estariam dispostas a empunhar para todo o lado a bandeirinha do PS se isso não lhes tirasse a aura de gente cool de esquerda,
decidiram-se a inventar um partido que cheira a PS, sabe a PS, soa a PS, tem aspecto de PS, mas que não é o PS, de modo a preservar a dita aura de esquerda cool.
O nome do partido é LIVRE. ...Vejo Rui Tavares dizer, ... que «a posição do LIVRE será discutida nos órgãos próprios do LIVRE porque dentro do LIVRE há opiniões diferentes mas a opinião oficial do LIVRE é definida no LIVRE pelos órgãos próprios do LIVRE e não pelo líder do LIVRE», ...
...O mal do LIVRE não é falar alto, que é a forma:
é berrar sem lá ter nada dentro, de conteúdo.
Ou pelo menos de conteúdo que se possa reclamar vagamente TRANSFORMADOR da sociedade, atendo-se à invocação, em vão, da esquerda e até (ao que chega a lata de alguns…) do socialismo.
E de que socialismo nos falam?
Um socialismo de «recusa da mercantilização das pessoas» (houve um tempo em que os capitulacionistas pelo menos fingiam ter uma perspectiva de classe:
agora reduzem-se ao personalismo, não sei se cristão se outro, sem máscara posta, não vá o capital duvidar da sua fidelidade)
e no qual será «crucial na criação de uma economia mista, em geral com três setores (privado, público e associativo/cooperativo)».
Aos delírios de António José Seguro de um capitalismo ético responde Rui Tavares com o delírio de um socialismo capitalista.
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... No final do milénio, a coisa começou a mudar com o aparecimento de um «Bloco»: mas mesmo esse era «de Esquerda», conservando uma definição formal do tipo de organização que era, e uma definição material, do propósito político que tinha.
O LIVRE é um adjectivo sem substantivo, é a qualidade de coisa nenhuma. Adjectivo em termos morfológicos, será também adjectivo, no sentido jurídico do termo, para alguém que bem sabemos.
Rui Tavares, na recente publicação do seu livro «A Tragédia Europeia» foi fotografado, sorridente, com Mário Soares de um lado e Carvalho da Silva do outro.
É um homem livre, o chefe do LIVRE:
e os homens livres, sabemos, deitam-se com quem quiserem. E fazem-nos a cama, a todos, por vezes.
O LIVRE vende-se-nos ainda com uma mentira histórica e com uma ironia histórica.
Mente quando assevera «a Europa arrisca-se a falhar na sua promessa de prosperidade partilhada, democracia e direitos fundamentais para todos».
A «Europa» nunca prometeu semelhante coisa.
A CEE ou a UE – que parecendo que não são coisa distinta… – poderão tê-lo feito, mas ninguém em seu perfeito juízo alguma vez acreditou na propaganda que lhe foi vendida pelo invasor.
Muito menos quem, sendo historiador de formação, se debruça sobre uma organização transnacional buscando encontrar-lhe as raizes:
quem considerar que a CEE (e então a UE…) nasce com vista ao cumprimento de uma «promessa» de «prosperidade partilhada», está louco.
Quem julga que uma organização com a arquitectura institucional ANTIDEMOCRÁTICA, blindada e irreformável da UE «promete» desde o nascimento «democracia», só pode usar de má fé.
Quem encontra nos promotores do livre-comércio, da abolição de fronteiras, da circulação de bens capitais e mercadorias sem entrave um promotor sério de «direitos fundamentais para todos»
e não do esmagamento do trabalho pelo capital, dos pequenos produtores pelos grandes conglomerados,
e se espanta que seja decorrente desta infra-estrutura uma superestrutura excludente dos «inadaptados», dos «fracos», dos «incapazes», não tem a noção mais ténue do que a história é de que dinâmicas tem.
Mas pior é a ironia do símbolo, a papoila, tida por «símbolo de paz» pelo LIVRE. Com efeito, a papoila é um símbolo ligado ao 11/11/1918, data da subscrição do armistício entre Alemanha e França .(e dos cemitérios de soldados na Flandres ...) e é tb símbolo do MDM ...
Ana Benavente, que pertenceu ao Secretariado Nacional do PS na época de Ferro Rodrigues e ex-ministra de Guterres, admitiu sair do PS e aderir ao partido LIVRE, visto não ter actividade política há muito tempo e já não se identificar com as correntes DOMINANTEs no PS desde 2005.
"PS tem marcado a sua acção pelas reacções às decisões da maioria governativa. Não está perto das pessoas – com excepções a nível autárquico, enredado nas suas tensões internas e prima pela AUSÊNCIA de uma alternativa séria para o País que os portugueses compreendam.”
Ana Benavente pensa aderir ao LIVRE se corresponder ao que pensa ser “uma urgência em Portugal”, o que se resume a uma “proposta ALTERNATIVA à austeridade”, marcada por “uma ARTICULAÇÃO séria entre partidos de ESQUERDAs e MOVIMENTOS sociais com base numa proposta clara para os cidadãos”.
Porém, sublinha que a sua entrada no LIVRE vai depender da sua coerência.
Que seja “um partido para um período da nossa história, um instrumento de luta social
e não mais uma organização burocrática, cheia de boas intenções no seu início,
mas tornando-se numa teia de poderes internos de que
desaparece o debate político sério, aberto e democrático”, assinala Benavente.
A entrevistada sublinha ainda que, no caso de aderir ao LIVRE, vai entregar o cartão do PS, até porque há muitos anos que
não tem qualquer actividade política, sublinhando que “um partido não é uma família, uma religião, nem um clube desportivo.
É uma organização política para a REFLEXÃO e a INTERVENÇÃO”.
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No encontro, que contou com a participação de cerca de centena e meia de pessoas, entre as quais José Sá Fernandes, Joana Amaral Dias e a deputada socialista Inês Medeiros, irá conforme adiantou Rui Tavares debater-se a eventual criação de um partido, que poderá vir a chamar-se
"Livre - Liberdade, Esquerda, Europa e Ecologia".
(de e para eleitores PS-BE-PCP-VERDES- independentes de Esquerda)
Um partido que, segundo o eurodeputado, poderá vir a situar-se "no meio da esquerda", ou seja, "é o lugar onde está muita GENTE que está DESCONTENTE, que está impaciente, muitos INDEPENDENTES que têm muitíssimo valor" e que estão cansados das MÁQUINAS partidárias.
"É uma retaguarda de eleitores de esquerda, de eleitores que saem à RUA tantas vezes,
uma retaguarda de pessoas que já votaram 'PC', que já votaram no BE, que já votaram no PS",
mas que neste momento sentem que não têm representação.
"Não tendo EM QUEM VOTAR eu RECUSO-me a fugir para a ABSTENÇÂO, recuso-me a fugir para o voto em branco", sublinhou Rui Tavares, confessando não existir neste momento um partido em que se sinta confortável.
"Não vou ficar parado sem representação, em democracia tem de haver sempre SOLUÇÕES de representação, se houvesse neste momento algum partido em que me sentisse confortável, que me representasse, eu neste momento entrava no partido", acrescentou, frisando que "aqueles que não se sentem representados devem fazer por se representar" e usar os seus direitos constitucionais.
No encontro desta tarde será discutida a declaração de princípios, onde se defende "a procura e a realização de CONVERGÊNCIAS abertas, claras e TRANSPARENTES, para criar uma maioria progressista capaz de criar uma alternativa política em Portugal e na Europa".
Entre os princípios defendidos na declaração está o socialismo, embora se recuse o "estatismo".
"SOCIALISMO no sentido de recusa da mercantilização das pessoas, do trabalho e da natureza.
Embora a ação governativa ou estatal seja crucial na criação de uma economia mista, em geral com três setores (público, associativismo/cooperativo e privado, o nosso socialismo não é um estatismo", lê-se na declaração de princípios.
Na declaração é ainda referido que o lugar do eventual novo partido "é no meio da esquerda".
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