Voluntariado e lucros à custa do desemprego, exploração e perda pública

O Negócio do Século   (-por Raquel Varela , 25/11/2013, 5Dias e em Revistarubra.org )

     Como é que o salário de um dia de trabalho acaba nas mãos de um Banqueiro que, sorridente e em directo na televisão, diz que o país aguenta tudo?     A história é simples, demasiado simples.

     Leio nas notícias que a Câmara de Mafra, como tantas outras, está falida ou em risco de falir ou com «sérios problemas financeiros».      Uma das razões principais da falência autárquica neste país, se não for a principal, é as autarquias serem, no negócio imobiliário, a face pública dos fabulosos lucros privados que resultam do loteamento das terras agrícolas ou ecológicas, e da sua transformação em prédios urbanos.

     O investigador Pedro Bingre do Amaral explica-o como ninguém — a margem de lucro entre um terreno passar de rural a  urbano fica, no caso português, em mãos privadas. Trata-se de um negócio — cito Paulo Morais — que só «tem margens de lucro semelhantes no negócio de tráfico de droga no grossista, porque no retalhista já é mais baixo».      Se o terreno valia 5, passa a valer 50 000, por exemplo. A diferença fica toda nas mãos privadas, desde 1965 até hoje.   No resto da Europa, essas mais-valias revertem sobretudo para o público sobre a forma de impostos. Às Câmaras compete fazer, além disso, a urbanização — esgotos, estradas, etc. — deste interminável conjunto de prédios que se vai construindo.

     Entretanto, um dia, pelo real funcionamento da lei da oferta e da procura, os Bancos descobrem que têm na mão 5 e não 50 000.   Os Bancos chamam o Governo que emite dívida pública para que os Bancos não assumam o risco do negócio. O Governo, para garantir a dívida pública, emitida para dar aos Bancos, corta salários e pensões.

     A Câmara de Mafra anunciou estes dias um aumento do IMI de 0,3 para 0,5%.     Entretanto, aumentou o horário de trabalho dos seus funcionários para as 40 horas, quando quase todos os municípios suspenderam e mantêm o horário de 35.    A CM anunciou também a redução da derrama — que incide sobre o lucro tributável das empresas.   Em poucas palavras :    aumenta-se os impostos que incidem sobre o trabalho e reduzem-se os impostos das empresas. Negócio do século!

     Historicamente, legitimava-se o capitalista como o homem que colocava o seu capital num negócio e que, por isso, assumia lucros e perdas — e lucro seria assim o prémio pelo risco que corria.  Embora eu nunca tenha concordado com esta visão — tudo a mim me parece extracção de trabalho, nada mais —, hoje, o que se verifica é que quando as grandes empresas sofrem perdas (não as pequenas, afogadas em impostos) o Estado assume-as, todas, emitindo dívida e enviando a conta para os que vivem do salário e que não podem resistir ao saque fiscal.    Para reduzir o salário, corta-se no salário directo, mas faz-se mais, despedem-se trabalhadores e exige-se aos que ficam que deixem de ter vida e trabalhem por 2 ou 3.

      Hoje, por acaso justamente em Mafra, numa grande superfície, vi escuteiros a embrulhar presentes.   Perguntei à responsável porque estavam eles ali, ao que ela me respondeu que estavam ali «a fazer aquele trabalho e a angariar fundos para ajudar as famílias carenciadas».   Esclareci-a que, num país decente, aquilo era:

   1) trabalho infantil mascarado de trabalho voluntário;

   2) substituição de trabalhadores que ocupam aquelas funções por trabalhadores que não recebem ou recebem muito abaixo dos outros da mesma empresa;

   3) que isso descapitaliza a Segurança Social e o Estado Social porque há cada vez menos gente a descontar.

Finalmente, disse-lhe, com quietude, que ela NÃO estava ali a AJUDAR famílias carenciadas, estava a contribuir para as produzir:  estava a ocupar, com crianças, lugares de trabalhadores que, por aquela via também, não são contratados.

    Acredito que ela o faça por bem… tenho quase a certeza disso, na verdade; mas há homens que matam as mulheres porque «elas jamais conseguiriam viver sem eles»— ou como dizia certo velho com barbas: de boas intenções «está o inferno cheio!»



Publicado por Xa2 às 19:43 de 25.11.13 | link do post | comentar |

2 comentários:
De Voluntáros -> perda d'emprego e direitos a 5 de Dezembro de 2013 às 16:22
Trabalho Voluntário
(-por Raquel Varela, 3/12/2013, 5Dias)

A propósito de um artigo que escrevi onde mencionava o trabalho de crianças, em regime de voluntariado, a ocuparem postos de trabalho, e na impossibilidade de responder a todas as mensagens individuais, gostava de esclarecer:

1) Caso essas crianças estivessem a ajudar outros trabalhadores, que estavam no seu posto de trabalho, e naquele dia tinham a ajuda simpática das crianças, isso é uma boa ideia, ajuda os trabalhadores que ganham o mesmo e têm menos trabalho naquele dia, trata-se de uma boa acção, as crianças aprendem, na minha opinião e bem, a ajudar.
Todos ganham. Quando tinha 7 anos passei muito tempo na mercearia da minha tia avó no Alentejo a ajudá-la a ela e à empregada.
Não lhe passava a ela pela cabeça despedir a empregada ou não contratar alguém para eu ir fazer o trabalho – isso, nas sociedades evoluídas, democráticas, chama-se trabalho infantil. E é ilegal.

2) Uma vez que no caso mencionado estavam a ocupar gratuitamente um posto de trabalho onde não estavam mais trabalhadores isso configura ocupação de postos de trabalho recorrendo a trabalho infantil mascarado de trabalho voluntário.

3) É indiferente se isto é feito com pioneiros de boina vermelha, pupilos do exército, escuteiros, senhoras reformadas ou ecologistas radicais de 5 anos.
Não é de um grupo em particular que estamos a tratar mas da crescente substituição de trabalho pago por trabalho voluntário.

De hoje para amanhã quando as freiras forem gratuitamente fazer de enfermeiras para pressionar os salários dos enfermeiros para baixo também vamos achar que é ajuda humanitária/voluntária?
E quando uns reformados chateados forem para as escolas dar aulas de graça?
E quando alguém a receber o RSI for obrigado a ir secretariar uma câmara?
E quando colocarem mendigos a varrer ruas em troca de comida?

Os limites de qualquer coisa na vida são necessários – sobretudo quando se trata de direitos do trabalho.

-------
← Troika regressa com intenção de baixar (ainda mais) salários do sector privado
--- APELO Irregularidades na Avaliação do Concurso Investigador FCT 2013
----------→4 respostas a Trabalho Voluntário
---um anarco-ciclista diz:

os pioneiros sempre foram uma bela “instituição”… é farsola esse tipo (rebuscado) de comparações…

--- Nuno Gana Bértolo diz:

Querida Raquel, quando menciona ” E quando alguém a receber o RSI for obrigado a ir secretariar uma câmara?” isso já acontece e acontece com os desempregados do subsidio de desemprego.

São convidados a fazer trabalho social deveria investigar isso Raquel, desempregados obrigados a ocupar postos de trabalho a custo “Zero” (85 euros mês mais 4.5 de refeição).

http://www.facebook.com/photo.php?fbid=228841277276674&set=a.166362693524533.1073741828.166359153524887&type=1&theater

--- JgMenos diz:

Ocorre-me lembar a expulsão das Irmãs de Caridade lá pelos idos de 1862!
Gente que hoje tem o nome em ruas por esse país assim fundaram a base retórica dos seus argumentos.
Ninguém a pode acusar de inovar na matéria!

--- Rita Catita diz:

Concordo plenamente consigo… Aliás, digo-o várias vezes:
para cada voluntário (e estagiário não remunerados, também),
há sempre um explorado, um explorador e uma pessoa desempregada!


De Trabalho " Voluntário" ou Escravatura ?! a 9 de Setembro de 2014 às 10:22


Voluntariado? Em nome de quê?


Estão abertas as inscrições para voluntários do Doclisboa’14

Num país em que até as duas primeiras figuras do Estado trabalham como voluntários, a vaga deste tipo de pedidos não pára de aumentar. Mas talvez valha a pena lembrar que se está a falar de uma tarefa remunerável e que há muita gente a precisar de emprego (e até para trabalhar em bares se pedem pessoas...).

Há quem defenda que se trata de «cultura», que é habitual noutros países. Ainda assim: por essa lógica, ópera, teatro, etc., etc., deviam funcionar com base em trabalho gratuito deste tipo?

Portugal não está numa fase normal e em tempo de guerra não se limpam armas. «Oferecer» trabalho e dizer que o mesmo não é pago? NÃO, definitivamente.
.
-- por Joana Lopes
http://entreasbrumasdamemoria.blogspot.pt/ 5/9/2014


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