Mascarar o desastre, o desgoverno e a espiral de tragédias

Empurrar com a Barriga

 A Ministra das Finanças veio anunciar uma nova operação de troca de dívida, com o objetivo de prolongar as maturidades (prazo em que os montantes devem ser pagos aos credores) em três anos.   É uma operação semelhante à que ocorreu em 2012, realizada com os mesmos objetivos.   Sobre estas operações, há a registar que: 
1. Já não há tabu nenhum sobre a restruturação da dívida. É disso que se trata com estas operações.
2. No entanto, estas operações não representam, como já vi escrito em algumas notícias, uma "redução das necessidades de financiamento do Estado Português". Significam simplesmente a deslocação dessas necessidades para o futuro, nomeadamente, para depois do mandato do atual Governo.
3. Esse adiamento tem um preço: tal como aconteceu na operação de 2012, o aumento das maturidades terá como contrapartida um aumento dos juros, ou seja, um AGRAVAMENTO das necessidades de financiamento.
4. Claro que uma extensão das maturidades poderia ser útil (associada a uma redução dos montantes e juros) para criar uma margem de manobra orçamental para políticas de crescimento económico. Mas não é esse, como se sabe, o objetivo do Governo.
5. O objetivo desta estratégia é simplesmente mascarar o desastre que constituiu o programa de ajustamento, à custa da sustentabilidade da dívida no médio prazo. É uma estratégia míope e irresponsável, que visa exclusivamente prolongar a sobrevivência do pior Governo da nossa democracia, atirando os consequências para os vindouros.    
    Defendendo na Assembleia da República a proposta de Orçamento para 2014, a Ministra das Finanças afirmou que "a recuperação da autonomia financeira perdida exige um processo de ajustamento que vai além das condições do programa". Para os que ainda suspiram pelo fim do protectorado, a ministra lembra que o ajustamento não decorre apenas dos compromissos com o Memorando, decorre também dos compromissos assumidos com a participação na zona euro e da necessidade de restabelecer a confiança dos mercados financeiros.
De facto, quem não questiona a participação de Portugal na zona euro tem de aceitar estes constrangimentos. Mais, tem de aceitar as novas exigências do Tratado Orçamental quanto aos défices e à dívida pública, bem como o escrutínio prévio dos orçamentos dos estados--membros no âmbito do "semestre europeu". Em suma, tem de abdicar da política orçamental como instrumento de estabilização dos ciclos económicos e de promoção do investimento público em ordem ao desenvolvimento.
Evidentemente, é sempre possível acreditar que um dia o ordoliberalismo alemão será expurgado dos tratados e da legislação europeia. É sempre possível acreditar que o objectivo do pleno emprego será um dia a prioridade da política económica europeia. É sempre possível acreditar no Pai Natal.
     Com o novo pacote de redução de salários e pensões, o Orçamento retoma a espiral recessiva iniciada em 2011. É verdade que, após a terapia de choque inicial, a economia tem dado ténues sinais de poder vir a retomar o crescimento. Daí que, tanto o governo como os ideólogos do regime, se tenham apressado a lembrar que estavam errados os economistas radicais que clamaram contra a espiral recessiva em que o país tinha mergulhado. Para falarem assim, omitem dois elementos essenciais: primeiro, a austeridade teve um compasso de espera em 2013, deixando extinguir os efeitos multiplicadores sobre o produto; segundo, tendo as famílias (no seu conjunto) aumentado muito a poupança, e estando a relação com o resto do mundo em equilíbrio, então forçosamente o sector público terá um défice elevado. Esta última relação é contabilística, não é uma opinião. Infelizmente, a ministra das Finanças não parece conhecer as identidades básicas da macroeconomia porque, no debate parlamentar, se atreveu a relacionar a austeridade com o "equilíbrio efectivo das finanças públicas".
      Porque esta identidade contabilística é mesmo irrevogável, em 2014 voltaremos a ter um orçamento rectificativo para reconhecer que o défice se recusa a baixar e teremos mais encarniçamento nos cortes. Ou nos impostos, se o Tribunal Constitucional decidir que todos os portugueses, e não apenas os funcionários públicos, têm de pagar pela política errada e cruel de quem nos governa, aqui e em Bruxelas, Berlim e Frankfurt.
         O que mais espanta é a forma como altos responsáveis de partidos da esquerda, acompanhados por alguns comentadores da mesma área política, aceitam o quadro teórico que informa os termos do debate orçamental formatado pelo governo e seus ideólogos.
É frequente aceitarem a necessidade de reduzir os défices, como se estes não fossem um instrumento de política económica de que um governo de esquerda não pode prescindir.
 É frequente acusarem o governo de ter falhado as metas do défice por incompetência quando o que está em causa é a impossibilidade de tal acontecer num contexto em que não é possível a desvalorização externa da moeda e a chamada "desvalorização interna" não só é socialmente insustentável como nunca permitirá aos exportadores vender numa moeda forte e competir com países de baixos salários. É triste a pobreza do discurso das oposições, e também é por essa razão que não se vê luz ao fundo do túnel. Razões de sobra para criar uma alternativa.   (O meu artigo no jornal i; fui buscar a fig. aqui) (-
 


Publicado por Xa2 às 07:43 de 05.12.13 | link do post | comentar |

8 comentários:
De NÃO à economia de exclusão e desigualdad a 6 de Dezembro de 2013 às 09:40
Rev.Visão
Revolução Francisco: Como o Papa quer mudar a Igreja e o mundo.

“Devemos dizer não e uma economia da exclusão e da desigualdade social.
Esta economia mata”.


De cartel bancário/ bangsters; e UE-Ucránia a 6 de Dezembro de 2013 às 17:05
-----5/12/2013

No melhor liberal aparece o cartel

A banca dos anos noventa não queria que os poderes públicos regulassem a sua excelentíssima actividade, sempre na iminência de provocarem um «risco sistémico» que o terceiro-estado pagaria .
Há leis anti-cartéis, mesmo na Comunidade Europeia, porque fora o Moedas e o Maçães os governantes de todo o mundo conhecem as tentações de manipulação dos mercados pelos liberais.
Desta vez o foco da manipulação estava nos entendimentos sobre as taxas de juro da Libor e da Euribor.
Dez enormes bancos foram investigados pela Comissão Europeia que multou 8, entre estes o Deutsche Bank, a Société General, o Crédit Agrícole, o britânico HBSC.

Esta foi a primeira decisão de sempre da Comissão Europeia contra infracções às leis da concorrência no âmbito da actividade financeira.
É um sinal, ou um álibi?


--------- 30/11/2013, josé medeiros ferreira, CortexFrontal

A derrota da UE na Ucrânia- Pagar para nada


Pagar para nada, podia ser o resultado das negociações para a associação com a Ucrânia, conduzidas do lado da UE pela Comissão Europeia.
Desde 1991 que Bruxelas paga para seduzir Kiev a separar-se da união aduaneira com a Rússia.

Sobretudo desde 2010 o esforço financeiro da Comissão, do BEI, do Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento, foi enorme, ao mesmo tempo que o FMI desembolsava sem barulho e sem muitas condições somas cada vez maiores que agora quer reaver.
A Rússia aparece aqui como a vencedora pública desse torneio de guerra económica quente, mas que nos dá o pulso ao estado de falta de rumo da UE, e do verdadeiro tamanho dos seus
dirigentes tão implacáveis com países como a Grécia e Chipre, e imprevisíveis com a Irlanda.

Como o governo de Portugal não se queixa, não se deve rever nesse mau-trato de «burro mirandês»...


De pior governo? a 5 de Dezembro de 2013 às 20:45
Vamos la a ver se nos entendemos: Pior governo?
Mas qual é o pior governo? O que criou a dívida ou aquele que mostra alguma inepcia em reduzir ou eliminar a dívida? Alguém tem dúvidas que o pior é aquele que crou a dívida?


De Desgoverno rapazolas neolib incompetents a 5 de Dezembro de 2013 às 16:01
Os imberbes fanáticos de Passos Coelho

(-por Daniel Oliveira, 3/12/2013)


À volta de Pedro Passos Coelho há algumas figuras menos conhecidas mas com muita influência num impressionável e pouco ilustrado primeiro-ministro. Os seus dois assessores políticos mais próximos foram, até à última remodelação, Miguel Morgado e Bruno Maçães. Dois jovens bloggers que passaram pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica (onde dividiram, em 2001, nos seus mestrados, o orientador João Carlos Espada, olheiro da jovem fauna liberal) e foram promovidos pela fundação do Pingo Doce, que se dedica ao mecenato ideológico desta direita. Sem qualquer experiência política relevante, Morgado e Maçães são conhecidos pelo seu particular fanatismo ideológico. E terão sido muitas vezes determinantes para a linha discursiva de Passos Coelho.

Bruno Maçães, muito menos sofisticado do que Miguel Morgado, escreveu no Expresso Online , no Diário Económico e num blogue de direita. Justiça lhe seja feita: nunca escondeu a sua alma radical. Fã de Sara Palin - que "representa o melhor da democracia americana" -, recebeu a troika e a austeridade de braços abertos. Escreveu assim, poucas semanas depois da assinatura do memorando de entendimento: "Devemos ao FMI os primeiros tremores num regime que, em rigor, se revelou ainda mais estático e avesso à mudança que o regime anterior a 1974. Neste aspecto, temos vindo a refinar o imobilismo. Esperemos que a intervenção externa, numa ou noutra forma, seja para durar, que não termine sem a profunda democratização do regime por que esperamos e da qual começávamos a desesperar. 'Grandes são essas esperanças de Portugal, etc, etc'". Não deixa de ser assustador pensar que alguém que espera que uma intervenção externa no seu país "seja para durar" venha a ser um dos principais assessores políticos do primeiro-ministro desse mesmo país? Dá para perceber algumas tiradas de Passos, que tomamos por "infelicidades".

Mas o rapaz tem pérolas melhores. Em Outubro de 2007, no Diário Económico: "Estudos com alguma qualidade mostram que a correlação entre o coeficiente médio de inteligência num país e o seu produto per capita ou crescimento económico nas últimas décadas é extraordinariamente elevada. Hong Kong ilustra bem a relação estreita entre inteligência e crescimento. Portugal não é excepção." Como não falta sentido de missão ao jovem assessor, resolveu oferecer o seu "génio político" a um país tão carente de neurónios e assim contribuir para erradicação do flagelo da estupidez nacional, atenuando o incómodo que tantas vezes o assaltou: "há alturas em que me convenço que as pessoas à minha volta não são particularmente brilhantes" . E foi por altruísmo que Bruno saiu da sombra e, para dividir com a plebe a sua genialidade ainda repleta de acne juvenil, saltou, na última remodelação, para secretário de Estado dos Assuntos Europeus.

Foi nesta qualidade que Maçães participou numa mesa redonda sobre "governância económica e crise europeia", em Atenas. Ao responder a alguns jornalistas gregos, causou estupefação com o total alinhamento das suas posições com as da Alemanha, coisa sem paralelo nos governos de qualquer país intervencionado ou que apenas esteja a experimentar a crise do euro de forma mais aguda. Ao ponto dos jornais gregos o terem apelidado de "alemão".

Como já tinha dito em Portugal, Maçães reafirmou que não vê grandes vantagens em alianças entre Portugal e a Grécia, Espanha, Itália ou até França. "Ficámos verdadeiramente desiludidos, porque tínhamos a expectativa de encontrar um amigo da periferia europeia que se revelou um rigoroso académico sem qualquer solidariedade com um país com problemas semelhantes ao seu" , disse ao jornal "i" um dos jornalistas que confrontou Maçães com o resultado do encontro entre François Hollande e Enrico Letta. Encontro onde os dois líderes trabalharam na coordenação de esforços para um contraponto à posição alemã e para defender a criação de mais instrumentos europeus contra a crise. O diário "Tea Nea" escreveu, em editorial, que o secretário de Estado português era "mais troikano que os troikanos", por chegar ao ponto de rejeitar mais tempo para os países intervencionados executarem as reformas exigidas pelos credores internacionais. ...


De Sabujos d'interesses contra AliançaSul a 5 de Dezembro de 2013 às 16:10
----- Gang de troikanos ou Desgoverno de rapazolas neoliberais incompetentes

Os imberbes fanáticos de Passos Coelho

(-por Daniel Oliveira, 3/12/2013)
...
...
... Já o diário "E Kathimerini" descreveu-o como "mais alemão do que os alemães", pelo seu fanatismo em torno da "disciplina fiscal".

Não é a primeira vez que governantes portugueses causam, noutros países intervencionados, espanto pelo seu obediente e desconcertante alinhamento com as posições alemãs.
Já na Irlanda um jornalista tinha, na televisão, chamado "ministro da troika" a Vítor Gaspar.
Não se trata aqui de qualquer má vontade para com os alemães. A Alemanha tem os seus interesses próprios.
Apesar de achar que tem faltado a Merkel a visão para perceber que o rumo que está a seguir irá destruir o projeto europeu, posso compreender que defenda os interesses específicos do seu país.
Afinal de contas, esta crise tem permitido que a Alemanha se financie a custo zero e o euro, tal como existe, significou um impulso extraordinário para a sua economia.
Teve o efeito exatamente oposto nas economias periféricas, como se vê pelos défices e excedentes comerciais acumulados dum lado e do outro na última década.

O que espanta gregos e irlandeses, mas também italianos, franceses e espanhóis, é a postura do governo português, em permanente defesa de posições que são contrárias aos seus próprios interesses.

Não sei se o governo procura estar do lado dos vencedores, mesmo quando eles seguem um caminho que só pode prejudicar as economias mais pequenas, para tentar receber umas migalhas como agradecimento.

Isso explicaria a ausência de Passos Coelho na conferência que, em Setembro de 2012, juntou em Roma Antonis Samaras, Enda Kenny, Mariano Rajoy e Mario Monti.
Portugal espera a proteção alemã na hora de todas as decisões e não gosta de ser confundido com quem possa dar um sinal, tímido que seja, de insubordinação.
Curiosamente, como se tem visto por várias vezes, incluindo na recente aprovação de apoios comunitários para medidas contra o desemprego (que não nos incluiu) ou em todos os processos negociais relativos ao memorando de entendimento, tal estratégia não tem tido grandes resultados.
Quem espera esmolas e não procura aliados não tem grande poder negocial.


A outra possibilidade é que esta posição seja convicta.
Que o fanatismo ideológico pese mais do que a ponderação dos interesses nacionais.
Como todos os extremistas, seguem a cartilha e consideram que qualquer ponderação política que os desvie da sua pureza ideológica é um sinal de fraqueza.
A completa ausência de experiência política dos jovens ideólogos mais próximos de Passos - que estes puros verão como vantagem sua - ajuda à infantilidade e à insensatez.
Infantilidade visível na reação do secretário de Estado a estas notícias, colocando no twitter uma provocação, em inglês, à imprensa grega:
"The Greek left calls me "German". Oh no!" (um dos jornais que o criticou está próximo do PASOK, que faz parte da coligação governamental).

É natural que, por essa Europa fora, esta imberbe pandilha cause admiração e espanto.
Como se pôs um país que está a viver uma das piores crises da sua longa história nas mãos destes aprendizes?
Esse é o mistério que nem os portugueses conseguem explicar muito bem aos que, como nós, por essa Europa fora, vivem tempos difíceis.

Publicado no Expresso Online


De Salazar e gang neoliberais a 5 de Dezembro de 2013 às 18:09
A moral de desobedecer

«Salazar afastou-nos da política. Alegava que percebíamos pouco ou nada dos enredos que determinavam o processo histórico. Para cumprir o projecto serviu-se do sarrafo e do cantochão: da violência e do servilismo cúmplice da Igreja católica. Calafetou-nos com a censura, a polícia, uma escola com esquadrias implacáveis, o temor religioso que nos imbecilizava, a criação de uma clique paralisante e ignara; e a colocação, nos postos de comando e de poder, de serventuários inescrupulosos. Leitor de Maurras, de Sorel e de Gobineau, cujo Les Plêiades absorvera, entusiasmadíssimo, na juventude, conhecia muito bem o que desejava. "Sei o que quero e para aonde vou", dissera, num tom ameaçador que passou despercebido, mesmo aos homens da Seara Nova.
...
...

Esta caracterização tem semelhanças, nada abusivas, com o político actualmente no poder. É apenas uma verificação histórica. Acontece um porém: Salazar era culto e bom manejador da língua. Frequentador, com mão diurna e mão nocturna, dos padres António Vieira e Manuel Bernardes, consumia pelo menos 36 horas a redigir os discursos mais importantes. O que nos calhou agora é aquilo que tem provado à exaustão. Mas a consciência antidemocrática é comum aos dois. Por muito que este encha a boca com a palavra "democracia", ele e sua prática são quase um sacrilégio, enquanto o outro só a proferia raramente e, claro!, para a escarmentar.

Somos responsáveis por um e por outro. Muito respeitadores por quem nos desrespeita, nos violenta e nos agride com mentiras e omissões, os nossos protestos quedam-se na obediência à estrutura "orgânica", por natureza cumpridora e legalista. Cito Cornelius Castoriadis (ao qual voltarei, em breve, porque estou a relê-lo): "...a honestidade, o serviço de Estado, a transmissão do saber, a obra feita (...) vivemos em sociedades nas quais estes valores se tornaram, com pública notoriedade, irrisórios e em que apenas importa a quantidade de dinheiro que se mete no bolso, de qualquer maneira, ou o número de vezes que se aparece na televisão."

Os episódios ocorridos na escadaria do Parlamento, e na "invasão" de quatro ministérios, representam veementes censuras ao recalcamento que este Governo nos aplica. O direito à desobediência impõe-se, quando o poder cria formas e estimula métodos contrários aos princípios das próprias noções de convivência social.» [DN]

Autor:
Baptista Bastos.,


De ENVC- negociata ruinosa do desgoverno a 5 de Dezembro de 2013 às 15:46
Há lodo no cais dos Estaleiros de Viana

por Daniel Oliveira, 4/12/2013, Arrastão.

Há coisas impossíveis de explicar. E, no entanto, alguém terá mesmo de o fazer. Alguém terá de explicar como pode receber o Estado uns miseráveis 7,05 milhões de euros, em troca da subconcessão dos terrenos, infraestrturas e equipamentos dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, até 2031, sem qualquer benefício público e financeiro visível.

O Estado gastará 30 milhões para despedir 609 trabalhadores e pôr o dinheiro que falta no fundo de pensões.
Como o Expresso explicou, são 23 milhões de prejuízo só com esta parte do negócio. Livra-se de algum problema? Aparentemente, não.
Como se trata duma subconcessão e o Estado continua a ser o único acionista, fica com passivo. São 281 milhões.
E, caso Bruxelas venha a decidir contra Portugal, terá de devolver os apoios públicos dados aos estaleiros entre 2006 e 2011. São mais 181 milhões.
E há o ferrie Atlântida, recusado pelo dono da obra e que, estando em tribunal, pode custar 57 milhões. Mais o meio milhão que custa, todos os anos, por estar no Alfeite.

Resumindo, o Estado fica com todos os problemas e todos os encargos para si, manda mais de 600 trabalhadores especializados para o desemprego e perde uma empresa estratégica para o país.
Tudo isto em troca de 7,05 milhões. 415 mil euros por ano. 34 mil euros por mês. Pouco mais de 1100 euros por dia.

Para a opção por esta subconcessão, que em tudo parece ser ruinosa para o Estado, o ministro da Defesa usou como argumento uma decisão da Comissão Europeia, que impediria o Estado português de apoiar os Estaleiros e que obrigaria à devolução dos tais 180 milhões euros. Isto seria o resultado de uma averiguação da Direcção-Geral da Concorrência da União Europeia.
Acontece que a dita avaliação ainda está a decorrer. O eurodeputado João Ferreira divulgou uma resposta, a 22 de novembro, do comissário Joaquín Almunia, em que este explica que a decisão ainda não está tomada.
Descoberta a mentira, o ministro veio explicar que não podíamos esperar pela decisão, que poderia demorar anos nas instâncias europeias.
O governo antecipar uma decisão mais do que discutível da Europa, depreendendo que ela será negativa para os interesses portugueses, e usar isso como argumento para um negócio ruinoso é coisa que nunca pensei assistir.

O outro argumento é as despesas para manter os estaleiros. Aguiar-Branco fez ontem um relatório de horror sobre o buraco que é a empresa (ignorando, claro, que pelo menos os três últimos anos são responsabilidade sua). E, ao mesmo tempo, anuncia que a Martifer vai contratar 400 trabalhadores. 400? Não, a Martifer diz que serão mil. Que tem encomendas e parcerias por todo o mundo. E eu fico baralhado.

Se o governo acredita que a empresa pode viabilizar os estaleiros é porque acredita que eles são viáveis?
Se todo este mundo radioso é possível com o subconcessionário, porque é que é impossível com uma administração nomeada por si? É o governo a confessar a sua própria incompetência?
A que o fez preferir deixar os trabalhadores parados durante mais de dois anos a garantir matéria prima e equipamento para dar resposta às encomendas dos navios asfalteiros para a Venezuela (pelas quais já recebeu adiantamentos) que permitiriam viabilizar uns estaleiros que foram, em 2008, responsáveis por 0,2% do PIB nacional?

Resumindo:
ou o governo não acredita nas promessas que a Martifer anda a fazer, e está a enganar os portugueses,
ou acredita que os estaleiros ficarão muito melhor servidos por esta empresa.
O que é estranho, já que a a Martifer tem uma experiência muito reduzida e recente na construção naval.
As suas áreas são as da construção de infraestruturas em aço ou alumínio e os solares fotovoltaicos. Na construção naval têm como curto currículo dois ferries para a Transtejo, duas embarcações de turismo para a Via D'Ouro e um navio-hotel de 80 metros de comprimento, estando em construção mais dois pequenos cruzeiros fluviais.
A léguas de quase todas as empresas que mostraram interesse pelos estaleiros e, já agora, do próprio historial da ENVC, a única verdadeira empresa de construção naval em Portugal, com décadas de encomendas nacionais e para exportação. Não se conhece qualquer...


De Há lodo no cais dos Estaleiros de Viana a 5 de Dezembro de 2013 às 15:51
-------- ENVC- negociata ruinosa do desgoverno

Há lodo no cais dos Estaleiros de Viana

(-por Daniel Oliveira, 4/12/2013, Arrastão. e Expresso online)
...
...
... Não se conhece qualquer carteira de encomendas que permita à Martifer fazer as promessas que hoje faz.
E a empresa acumula todos os anos prejuízos crescentes e tem uma dívida de 378 milhões.
Um passivo maior do que o dos próprios estaleiros.

Mas o facto de haver apenas um candidato a esta subconcessão, tendo sido o outro (a AK russa) excluído por ter visto indeferido o pedido de mais dez dias para complementar a documentação necessária,
e do presidente da Câmara de Viana do Castelo garantir que várias empresas mostraram interesse em viabilizar os estaleiros
chegaria para travar este processo até todos os esclarecimentos serem dados.

Negócios deste género, ainda mais com condições tão más para o Estado e para o interesse público, não se fazem com apenas um candidato e tantas coisas mal explicadas.
Não se fez, por exemplo, e pelas mesmíssimas razões, a privatização da TAP.
O que não era bom com Relvas não passa a ser aceitável com Aguiar-Branco.

Publicado no Expresso Online


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