7 comentários:
De Nelson Mandela a 6 de Dezembro de 2013 às 09:31

. Um líder que derrotou os racistas (do "apartheid" da África do Sul) mas recusou a vingança e mostrou que o poder não é eterno.

.O legado: A vida de um africano que nunca se cansou de lutar por uma sociedade mais justa e foi um exemplo para o mundo.


De Mandela e os 'crocodilos' a 6 de Dezembro de 2013 às 15:09
Quando era difícil estar do lado de Mandela
(-por D.Oliveira, Arrastão, 6/12/2013)
...
... o Presidente da República português, Cavaco Silva, enviou uma mensagem de condolências ao seu homólogo sul-africano, Jacob Zuma, pela morte de Nelson Mandela.
Nela, recorda Mandela como "figura maior da África do Sul e da História mundial" e o seu "extraordinário legado de universalidade que perdurará por gerações".
E, acima de tudo, a sua "coragem política" e "estrutura moral". O habitual.

É da estatura moral e de coragem política que quero falar.
Estávamos em 1987, e o mundo pressionava a África do Sul para libertar Nelson Mandela. Um homem que o Departamento de Estado norte-americano considerava "terrorista" e que Portugal não via com especial simpatia.
Por essa altura, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou, com 129 votos a favor, uma resolução de solidariedade com a luta do ANC e dos sul-africanos, que incluía um apelo para a libertação incondicional de Mandela.
Alguns, poucos, países estragaram a festa, faltando com o seu voto.
Um deles foi os Estados Unidos, então presididos por Ronald Reagan. Outro foi o Reino Unido, que tinha ao leme a amante da democracia e da liberdade, Margaret Thatcher.
E o outro foi Portugal, que tinha como primeiro-ministro o mesmíssimo Cavaco Silva que hoje se comove com as "verdadeiras lições de humanidade" do homem que, por pressão internacional, saiu, sem rancor, de 20 anos de cativeiro sem a ajuda de quem hoje tanto celebra o seu legado.

Ontem, Ana Gomes recordou outro episódio. Quando a antiga diplomata estava em Genebra, houve, em 1989, uma votação das Nações Unidas sobre as crianças vítimas do apartheid.
As instruções que vieram de Lisboa, do governo de Cavaco Silva, foram, mais uma vez, para votar contra. E foi esta, em geral, a posição portguesa.

Bem sei que havia, como ainda agora há, uma enorme comunidade portuguesa na África do Sul.
Tal como hoje, em Angola, isso, ou os nossos interesses comerciais imediatos, ou as relações estratégicas,
ou qualquer outra posição interesseira, foram sempre razão última para a nossa diplomacia jogar pelo seguro e calar a sua solidariedade com quem sofre.
Postura com que muita gente concorda. Estão no seu direito.
Escusam é de, no dia em que os heróis se finam, fazer telediscos comentados sobre a coragem de quem nunca mereceu a sua solidariedade.

O que é irónico é ver o mesmo homem que desalinhou com quase todo o mundo no momento em que Mandela precisava da nossa voz, vir, neste momento, falar da coragem política, da estatura moral e das lições de humanidade de Mandela.
Como se viu em 87, nem nascendo mil vezes as poderia aprender.


De Apoio à Luta de Libertação e opositores a 6 de Dezembro de 2013 às 15:33
A libertação de Mandela e o fim do Apartheid. Como? Por quem?

(-por Francisco, 6/12/2013, 5Dias)

Mandela foi transformado num santo secular, uma figura elogiada e venerada de forma quase universal…

Agora… Esta unanimidade só tomou forma após a sua libertação e a queda do Apartheid.
Antes disso era bem diferente.
Como aqui e aqui já foi referido, Cavaco, Thatcher e a direita em geral, consideravam Mandela um terrorista, queriam-no na prisão e, de facto, não queriam o fim do Apartheid.

Mas Mandela acabou por ser libertado e o Apartheid derrotado. Como? Por quem?

Não foi por vontade da direita que liderava a contra-revolução conservadora dos anos 80, pelo contrário, esses não só hostilizavam Mandela como armavam os seus inimigos.

Se Mandela foi libertado deve-o à própria luta dos Sul Africanos que combateram o Apartheid e às campanhas de solidariedade internacional dos anos 80…
E sobre isso o que nos diz o próprio Mandela? Uma das suas primeiras visitas internacionais após a saída da prisão, em 1990, foi a Cuba.
Nessa visita Mandela interpela Castro:
“A nossa amiga Cuba ajudou a treinar o nosso povo, deu-nos recursos para continuar a luta, treinou médicos de soldados.”

O apoio Cubano aos movimentos de libertação Africanos foi um factor decisivo na derrota do imperialismo e colonialismo.
Cuba enviou centenas de milhar dos seus filhos para África como Soldados, Médicos, Professores, Técnicos, etc…
Em final dos anos 80, já com a queda do muro à espreita, apesar das reticências Soviéticas, metade do exército Cubano estava em Angola.
Nessa altura dá-se a Batalha de Cuíto Cuanavale, a maior batalha travada em África desde a II Guerra Mundial, nessa batalha as forças Cubanas-MPLA derrotaram as tropas do regime racista da África do Sul e outros agentes do imperialismo (ler aqui e aqui).
Como resultado desta vitória as tropas sul-africanas retiraram de Angola, foi dada a independência à Namíbia e o Apartheid recebe um golpe mortal.

Assim se explica muito do como e do quem foi responsável pela libertação de Mandela e pelo fim do Apartheid.


De Não matem Mandela: Resistir à injustiça a 10 de Dezembro de 2013 às 10:28
Não matem de novo Mandela

(-por Daniel Oliveira, 10/12/2013, Arrastão e Expresso online)

A melhor forma de anular um homem, e em especial um político, é torná-lo consensual. Depois da morte física mata-se, pelo elogio desmesurado e vazio de conteúdo, a memória política. É isso e apenas isso que me irrita no kumbaia internacional em torno de Mandela, transformado numa personagem romântica de Hollywood, com a vida quase resumida ao apoio que deu à seleção nacional de Rugby e ao olhar bondoso dum velhinho simpático.

Mandela foi um revolucionário. Considerado um radical e um terrorista por grande parte do ocidente e pela generalidade da direita europeia. Isto quase até às vésperas de ser libertado - ou seja, durante quase toda a sua longa existência. Constou, por decisão da administração Reagan, na lista de terroristas do Departamento de Estado norte-americano. Não se enganavam ao não o verem como um moderado. Foi contra a linha tradicional de resistência passiva do ANC, influenciada pelo pensamento de Gandhi, que, também ele, vivera muitos anos na África do Sul. Defendeu e usou a violência, tendo dirigido o grupo armado próximo do ANC, que ele criara em 1961, depois do massacre de Sharpeville. O MK (Umkhonto we Sizwe, Lança de uma Nação) contou com enormes resistências do pacifista e líder histórico do ANC, Albert Luthuli, que já se tinha confrontado com Mandela, ao defender o ingresso de não negros no ANC, que aconteceria em 1954, através do Congresso do Povo. Foi também Mandela o obreiro da aliança que dura até hoje com Partido Comunista da África do Sul, importante para conquistar apoios do bloco socialista. E conseguiu algum, no plano financeiro, político e militar.

A opção de Mandela pela luta armada não resultou duma posição de principio ou dum temperamento bélico, assim como não foi uma posição de principio ou um temperamento conciliador que justificaram sua posterior política de apaziguamento. Foi por puro pragmatismo, ao perceber que o regime e as potências ocidentais seriam insensíveis à via pacifica de resistência, durante uma guerra fria que o deixava a ele do "lado errado da história" e fazia do regime do Apartheid um mal menor para uns EUA, eles próprios com pouca sensibilidade para temas como a igualdade racial. Por isso, aceitou que a guerra civil, sendo indesejada, poderia vir a ser inevitável. E que teria como aliados internacionais aqueles que estavam dispostos a sê-lo.

Depois de 27 anos de prisão, Mandela não se deixou cegar pelo rancor, que aparentemente desconhecia. Essa é talvez a sua mais admirável qualidade humana. Mas seria bom não simplificar estas coisas. Não é apenas por um espírito vingativo que as mudanças nas sociedades degeneram em violência. Nem por descontrolo ou falta de visão. É também, e quem o escreve é um pacifista, porque a paz, e não apenas a guerra, tem um preço. Se assim não fosse, não encontraríamos um homem bom e justo com uma arma na mão. E a história está cheia deles.

Por causa da escolha da via do apaziguamento e reconciliação (apenas possível porque a queda do muro de Berlim tornava Mandela aceitável aos olhos do ocidente), o fim do apartheid não correspondeu ao fim da segregação social, da miséria, da violência, da criminalidade e da desigualdade extrema. Na realidade, pouco as atenuou. Porque aceitar que a estrutura social não se alterava radicalmente era a única forma de impedir uma reação da minoria branca. E era a única forma de travar as aspirações de milhões de negros, apenas alcançáveis, pelo menos numa geração, por uma autêntica revolução social necessariamente violenta. Só a autoridade histórica de Mandela, que nascia da sua luta, dos anos de prisão e da sua radicalidade - e não de ser um velhinho bondoso -, podia travar as alas mais radicais do ANC (de que ele fizera parte). Muitos elogios ao espírito de reconciliação de Mandela ignoram que para haver reconciliação é preciso ter havido luta. Só negoceia quem combateu. Só modera quem teve a coragem de ser radical quando a realidade contra a qual lutava era radicalmente injusta. E que autoridade de Mandela para, aos olhos dos que então se libertavam do apartheid, ser o pai dessa reconciliação eram as suas credenciais de vigoroso combatente.

A verdade é que o apaziguamento implicou ...


De Não matem de novo Mandela a 10 de Dezembro de 2013 às 10:51
...
... A verdade é que o apaziguamento implicou cedências, e o preço foi bem alto: não se rompeu com a injustiça social do passado.
Não digo que tenha sido errado. Parece-me mesmo que era a única solução sensata. Mas preferia que não se reduzisse esta escolha tremenda às qualidades humanas de quem sabe perdoar. Esta capacidade é necessária, mas não é suficiente nem prevalece sobre tudo o resto. Mandela fez, antes de tudo, uma escolha política que, sendo na minha opinião acertada, teve grandes custos e era pelo menos discutível.

E estas escolhas tiveram também um preço político.
Só era possível manter este rumo com um ANC coeso, sob a batuta moral e simbólica de Mandela, que foi apadrinhando as sucessivas lideranças, sem grande intervenção nas suas escolhas fundamentais. Graças a essa tutela de Mandela, o ANC manteve, de facto, o peso que antes tinha, com raras dissidências que acabaram por se revelar pouco relevantes.
O resultado foi que à ditadura do apartheid sucedeu um sistema partidário em que apenas um partido ambiciona a vitória e onde tudo se decide nas suas violentas lutas intestinas.
E isso contribuiu de forma decisiva para que permanecessem os níveis de corrupção que o ANC não só não combateu como deles se alimentou e que salpicam de lama quase todos as principais figuras da organização. À velha elite branca juntou-se uma elite negra que orbita em torno do ANC e que dele se serve.

Sobre esta transição, aconselho vivamente um documentário de Jihan El-Tahri (trailer no início). A realizadora libanesa é autora de outros documentários sobre o envolvimento cubano em África - demasiado simpático para Havana, na minha opinião - e um excelente trabalho sobre a Arábia Saudita.
Em "Behind the Rainbow", El-Tahri, que parece ter simpatia por Mandela, abandona as imagens românticas e faz uma análise política rigorosa da África do Sul e da história do ANC. São relatados os conflitos e tensões no interior do ANC, mesmo antes da prisão de Mandela. Conflitos que acabariam por desaguar, mais recentemente, na vitória de Jacob Zuma, que era visto como um "radical" dentro do movimento.

O filme é denso, contraditório e sem respostas fechadas. Tudo ao contrário do enjoativos panegíricos que tenho lido sobre Mandela. É que nenhum panegirico é merecido, porque reduz o homenageado à sua própria caricatura. Jihan El-Tahri faz o esforço contrário. Não sei mesmo se não se torna, na vontade de ser rigorosa, demasiado severa com Mandela, que quase acusa de demissão na fase de consolidação da democracia, entregando de forma acrítica o poder a um Thabo Mbeki, tratado, com toda a justiça, como o padrinho da nova elite negra, que não parece ser mais sensível ao sofrimento dos sul-africanos mais pobres do que era a elite branca.

Justa ou injusta, a realizadora contraria um olhar sobre a África do Sul que se fica sempre pela questão racial e pelo risco de guerra civil. Recorda-nos que, como em todo o lado, há outras esferas do confronto político.
Começando pelo esfera social, onde os mesmos debates que aqui temos são centrais:
desigualdade, distribuição da riqueza, direitos sociais, papel do Estado e do mercado. Isto num país que vive numa desigualdade extrema.
E a diferença entre um político e um líder religioso, é que o político, tendo de lidar com estas escolhas práticas, nunca pode aspirar, se quer agir, à santidade.

Na África do Sul, porque a vida continuou depois do fim do sistema formal de segregação racial, quando o mundo suspirou de alivio por ali não ter havido um banho de sangue, algumas escolhas que Mandela fez, e outras tantas que não fez, foram determinantes. E quase todas esbarraram com o mais difícil de todos os dilemas políticos: devemos aceitar a desigualdade extrema para ter a paz ou temos a obrigação de escolher a guerra para conquistar a justiça? Resumir estas escolhas à bondade de um homem, despindo-o de todos os dilemas morais e cálculos políticos, é pura e simplesmente infantil.

Pode parecer o contrário com este texto, mas tenho por Mandela uma infinita admiração que não divido, na mesma dimensão, com nenhum político vivo. Mas ela baseia-se na paixão pela política, que tem sempre uma dimensão ética e moral, mas que nunca se fica por aí. Não no desprezo pela ação política, ...


De Político combatente negociador pragmátic a 10 de Dezembro de 2013 às 10:57
Não matem de novo Mandela

(-por Daniel Oliveira, 10/12/2013, Arrastão e Expresso online)
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...
... Pode parecer o contrário com este texto, mas tenho por Mandela uma infinita admiração que não divido, na mesma dimensão, com nenhum político vivo. Mas ela baseia-se na paixão pela política, que tem sempre uma dimensão ética e moral, mas que nunca se fica por aí. Não no desprezo pela ação política, típico em quem procura santos e heróis românticos entre governantes. Mandela foi um homem bom e, pela sua combatividade e contenção, foi e será sempre um herói. Mas foi um herói político. Fez escolhas difíceis e discutíveis. No momento em que o ANC era frágil e não contava com o apoio do ocidente, escolheu a violência quando outros teriam preferido manter a linha pacifista. Quando o poder lhe estava quase nas mãos, escolheu o apaziguamento contra os que queriam correr todos os riscos para combater o legado social e económico do apartheid (e não apenas ou sobretudo para se vingarem), de que só uma pequena elite negra se viu livre.

As escolhas que fez tiveram muitas vantagens e grandes custos. Todos imaginam os rios de sangue e de ódio, tão comuns por aquelas e por outras paragens, se Mandela tivesse seguido o caminho oposto ao do apaziguamento. Mas também não podemos ignorar que o apaziguamento se pagou com uma interminável "guerra civil" de baixa intensidade, através do crime e da violência inerentes à desigualdade extrema. E na degradação moral de grande parte dos líderes do ANC (com Mandela de fora, como exemplo raramente seguido), mergulhados num sistema onde apenas uma pequena elite dirigente vive fora dum apartheid social ainda vigente.

O que interessa é saber que Mandela não foi uma estátua. Foi uma pomba e um falcão, foi um combatente, um negociador, um calculista e um pragmático. O que me custa, em quase tudo o que tenho lido e ouvido sobre ele, é o assassinato da sua vida e da sua história. Como se a política se resumisse à escolha entre o bem e o mal. Como se Mandela tivesse sido apenas um homem bom. Ao contrário do que pensam os cínicos, há muitos homens bons no mundo. O que é raro é, como Mandela, terem a coragem de dispensar a santidade e preferirem a política, esse mundo "sujo" repleto de escolhas perigosas e gestos calculados.


---- Este texto é uma versão muito alargada do que escrevi para a edição especial do Expresso sobre a morte de Nelson Mandela.




De Unir, Mobilizar e Lutar !!! a 10 de Dezembro de 2013 às 11:11
Mandela, Passos Coelho e ignorância crassa
(ou a tentativa de "lavagem" e apropriação de um Exemplo de Líder Político)
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...(sabem que) Mandela defendeu a luta armada contra o apartheid (racismo segregacionista e oficial do regime da Rep.da África do Sul) desde de 21 de Março de 1960, data em que ocorreu o Massacre de Sharpeville, e que em 1961 passou a comandante do braço armado do Congresso Nacional Africano (CNA) até ser preso?

Em Junho de 1980, Mandela enviou ao CNA, da prisão onde se encontrava, a seguinte mensagem:
«Unam-se! Mobilizem-se! Lutem!
Entre a bigorna que é a ação da massa unida e o martelo que é a luta armada devemos esmagar o apartheid!».

Entendidos?

(-Joana Lopes, 6/12/2013, http://blog.5dias.net/)


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