Ucrânia : entre U.E., Rússia e os interesses de oligarcas e capital plutocrata

A Ucrânia,  ponto nevrálgico da Europa  (-por JMC Pinto, 5/12/2013, Politeia)

 
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A defesa e a conquista de posições geoestratégicas  (militares, políticas e económicas: recursos e mercados)
     A Ucrânia, mesmo antes da URSS, já era um ponto nevrálgico da Europa. Se muitos não deixam de sublinhar que a velha Rússia nasceu na Ucrânia, em Kiev, também não é menos verdade que durante fases importantes da sua história, nomeadamente durante o domínio territorial dos latifundiários polacos e lituanos, se aproximou da Europa de leste, que se opunha aos russos e ao expansionismo do Império czarista para Ocidente, acabando, todavia, por ser os cossacos, que se rebelaram contra a servidão polaca, a restituir a Ucrânia ao seio da “mãe”Rússia, com excepção da Galícia que, na partição da Polónia do séc. XVII, ficou para o Império Austro-Húngaro até ao fim da Primeira Guerra Mundial.    A fracassada intervenção soviética na Polónia, logo depois da vitória da Revolução, acabou por ditar uma nova partilha do que é hoje o território ucraniano:   a parte Ocidental foi incorporada na Polónia, tendo o centro e o leste constituído a República Socialista Soviética Ucraniana, integrada, em 1922, na URSS.
     Foi na Ucrânia que os “brancos” travaram as principais batalhas contra os “vermelhos” na sequência da eclosão da Revolução de Outubro e foi também na Ucrânia que as potências da Europa ocidental mais tentaram combater a revolução bolchevista.
     Assegurada a vitória das forças revolucionárias, foi na Ucrânia que a batalha económica pelo domínio da terra foi mais brutal e mais trágica e voltou a ser na Ucrânia, um pouco mais de uma dezena de anos depois, que Hitler depositou as maiores esperanças na derrota da URSS. O colaboracionismo ucraniano, nomeadamente da Ucrânia ocidental, constituía para os alemães um exemplo que esperavam ver seguido em todo Cáucaso e mesmo nas zonas mais remotas da parte europeia da URSS, principalmente no sul do Volga.
     A brutalidade nazi e a incapacidade de os alemães se relacionarem com os povos do leste, a não ser como “untermenschen” ("sub-pessoas"/ escravos), impediram que aquela política fosse posta em prática com um mínimo de credibilidade. O colaboracionismo, apesar de extenso em determinadas zonas ocidentais, não era minimamente credível.
    Estaline, ciente do importante papel geoestratégico que a Ucrânia desempenhava para a URSS, não teve dúvidas em exigir nas negociações com os aliados, o deslocamento das suas fronteiras para ocidente, sendo a Polónia compensada, também a ocidente e à custa das fronteiras da Alemanha, com um território sensivelmente idêntico ao perdido a leste.
    Mais tarde o optimismo voluntarista de Krutschev na fidelidade da Ucrânia aos ideais do socialismo foi ao ponto de, num rearranjo de fronteiras entre os Estados que compunham a URSS, lhe ter atribuído a península da Crimeia!
    A verdade é que mal a URSS “desabou” e a Ucrânia – que sempre teve assento na ONU, juntamente com a Bielorrússiadeclarou a sua independência, logo as “operações de charme” do ocidente recomeçaram. A primeira e mais aparatosa, de que pouca gente já hoje se recorda, ocorreu, em 1992, em Washington, tendo como pretexto a segurança das centrais nucleares ucranianas.  Meio mundo – ou mais – foi convidado para participar nessa conferência cujo objectivo era demonstrar a grande boa vontade com que o Ocidente se propunha ajudar a Ucrânia num domínio particularmente sensível.
    Depois aconteceu o que se sabe:   acentuaram-se na Ucrânia as divisões entre o ocidente, mais próximo da Polónia e sempre sob o olhar atento da Alemanha, e o leste muito mais chegado à Rússia. Os americanos chegaram mesmo a ter um presidente da Ucrânia com nacionalidade americana – como, de resto, aconteceu noutros ex-Estados da URSS – e a Ucrânia esteve a um passo de integrar a NATO e chegou mesmo a “fazer o estágio” para tentar integrar a União Europeia.
    A firme oposição da Rússia de Putin, o termo do mandato de George W. Bush, a eleição de Obama e a vitória de Viktor Ianukovicht desencorajaram os ânimos “integradores” do Ocidente e amorteceram o “colaboracionismo” ucraniano. 
    A União Europeia, todavia, não desistiu. Numa jogada geoestratégica de grande envergadura negociou com a Ucrânia um Tratado de associação que lhe permitiria dominar economicamente o mais importante território da Europa de leste a troco das conhecidas “ajudas” de integração, que são, como se sabe, o preço que a UE está disposta a pagar para aniquilar o aparelho produtivo dos novos aderentes ou associados.
    Acontece que a Rússia, parcialmente restaurada na sua força e beneficiando do relativo abrandamento do expansionismo americano a leste, ergueu a voz, ameaçou economicamente a Ucrânia e exigiu a retractação do acordo já negociado com Bruxelas, pronto, ao que parece, para ser assinado na cimeira de Vilnius.
    Esta jogada da União Europeia tem a sua face mais visível nos esforços voluntaristas da Polónia, da Lituânia e da Suécia, mas só um cego não vê que este grande movimento em direcção ao leste tem a matriz política da Alemanha. Se saísse vitorioso, permitiria restaurar, em paz através da dominação económica, o que a bestialidade nazi tentou, sem êxito, à força.
     Em conclusão:     noutros tempos, não muito recuados, a defesa ou a conquista de posições geoestratégicas importantes na Europa poderia ser muito vantajosa para milhões e milhões de pessoas que apenas vivem do seu trabalho.
    Hoje, tudo isto não passa de um confronto entre oligarcas que enriqueceram à custa de um dos roubos mais descarados da História e o capital plutocrático que não pára de se expandir  à custa do esmagamento dos salários, da precariedade do trabalho e da limitação, primeiro, e, quando possível, extinção dos direitos sociais.
    Esta“guerra”, portanto, não é nossa, embora, em última instância, seja preferível tê-los separados e conflituantes do que unidos sob o domínio de um deles.       (--- já postado em 16/12/2013)
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     Contra o modelo neo-liberal que favorece os ricos, destrói pessoas e países  
 Cleptocracia  - governo de/por ladrões (+corruptos e nepotistas)  (-por F.Castro, 21/5/2011)
 
... Os motinsprotestos em curso ... reforçam as “teses” que expus nesse texto. Uma delas é que a UE, longe de ser um qualquer escudo contra a ameaça fascista, é na verdade a geradora dessa mesma ameaça e, inclusive, chega a ser aliada no terreno de movimentos neo-nazis, e medidas "legais"anti-democráticas ...
 (e de partidos de direita ultra/ neo-Liberais, incentivados e apoiados financeira e logisticamente por UE e USA e Rússia :  serviços secretos, partidos e fundações conservadoras/direita, bancos,  corporações multinacionais, mídia, ...  atentados e ameaças pessoais e de sanções e interferências militares) ...
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     O "espaço vital" alemão é-nos fatal   (-por F.Fernandes, DN, 27/2/'14)

  Que importa que alguém tenha dito uma frase famosa sobre as repetições da história (primeiro, tragédia... depois, farsa... blá-blá-blá...)?   O que conta é que a história repete os erros. Dava jeito aprender isso, o facto, e não memorizar a frase. Dava jeito, por exemplo, para saber o que se passa na Ucrânia. Já vimos o filme e não foi há muito tempo. A Jugoslávia teve o azar de se atravessar num conflito de interesses entre a Alemanha e a Rússia. Esta estava, então, ferida e a outra aproveitou para debicar. A Jugoslávia perdeu logo a Eslovénia e a Croácia, sobre as quais a Alemanha se sentia com antigas pretensões.

     A Europa seguiu a patroa (então, ainda incipiente) alemã e, numa guerra sem inocentes, demonizou só um lado: a Sérvia, a aliada russa, foi apresentada como a culpada única. Não foram só bombas que lhe lançaram, mas o anátema. 

    Os intelectuais europeus que se insurgiram contra esta forma esguelha de olhar foram apontados como cúmplices: o francês Patrick Besson e o austríaco Peter Handke, escritores, e o cineasta bósnio Emir Kusturica passaram quase por criminosos de guerra.

    Agora, a mesma patroa alemã, já com poderes reforçados, vai pelo mesmo caminho na Ucrânia. Esta já se divide (a Crimeia parte) como há 20 anos a Jugoslávia e a explicação volta a ser sem nuances: os maus são os pró-russos. E aquela frase inicial é ingénua.  Isto não vai acabar em farsa, mas numa tragédia maior: a Europa está a perder a Rússia.

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    A guerra dos drones   da alta finança, mídia e medo    (OJumento, 27/2/2014)

  ...     Uma boa parte da guerra fria era feita com o argumento da liberdade ao mesmo tempo que as rádios e televisões prometiam hamburgers e jeans aos cidadãos dos países do Leste. Agora acena-se com mais democracia para derrubar democracias e mandam-se membros de governos ocidentais participar em manifestações e incentivar à guerra civil.

    Para fazerem ao Iraque ou ao Afeganistão o mesmo que fizeram à Síria os países ocidentais perderam milhares de soldados e gastaram milhões, para destruir a Síria, desorganizar a Líbia, lançar a confusão no Egipto e atirar a Ucrânia para a guerra civil os EUA e a Europa não gastaram um tostão e não perderam um único soldado. Usaram um drone chamado manifestações e usaram a democracia ou o que restava de democracia para promoverem ditaduras, para destruírem países ou para lançarem povos na guerra civil.

    O cinismo do Ocidente nunca foi tão longe e aquilo que já se tinha visto na Jugoslávia estendeu-se a uma boa parte do mundo, a Europa já não envia tropas, não tem nem dinheiro nem coragem, agora manda jornalistas, televisões e discursos falsamente democráticos. A Alemanha já não constrói o seu terceiro Reich com invasões militares, agora acena com ajudas financeiras para promover guerras civis e derrubar os regimes que se opõem à sua expansão, já perdeu o medo da União Soviética e com a nova estratégia leva a guerra às fronteiras da Rússia.
    Esta estratégia cínica que consiste em usar a democracia como campo de batalha usando as promessas de dinheiro e a comunicação social como drones já destruiu países, está atirando a África para a confusão e agora promove guerras civis nas fronteiras da Rússia, estimulando o ódio aos russos, usando o medo em relação a estes como se fez no passado em relação aos judeus. A Europa está no mau caminho e isto só pode acabar muito mal.


Publicado por Xa2 às 07:42 de 26.02.14 | link do post | comentar |

25 comentários:
De O q. realm. está em jogo na Uc.? a 13 de Março de 2014 às 12:59
(JMCPinto, 6/3/2014, Politeia)
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A Guerra Fria acabou com a vitória das forças capitalistas sobre o socialismo. A Queda do Muro e a desagregação da União Soviética simbolizam e corporizam essa vitória muito mais eloquentemente do que qualquer outro acontecimento.
Os 15 Estados que recobraram a independência com o fim do modelo federal soviético tornaram-se capitalistas, Rússia inclusive, como qualquer outro existente no lado do campo até então adverso.

Nesses Estados, o processo de APROPRIAÇÃO dos bens antes colectivizados traduziu-se, em todos eles, num verdadeiro SAQUE, o mesmo tendo acontecido, posto que em proporções diferentes e mediante um processo de mascaramento jurídico, nos demais Estados antes integrantes do Pacto de Varsóvia.

Até neste processo há interessantes semelhanças entre uns e outros, entre os de lado de cá e os do lado de lá, já que tanto nuns como noutros o capitalismo foi precedido de um processo de acumulação primitiva que lhe permitiu depois consolidar-se.
Com a diferença de que no Leste esse processo foi mais rápido, porque o capital estava mais à mão e já constituído, carecendo apenas de mudar de dono e de sentido.

Então, se há tantas semelhanças porquê o conflito. Bem. Os dois sistemas estavam altamente militarizados e armados, tendo cada um deles a respectiva aliança militar, também elas com áreas demarcadas de actuação e com princípios comuns:
qualquer ataque a um membro da respectiva aliança seria considerado como um ataque a todas as demais partes.

Então, se havia dois blocos antagónicos e um deles se extinguiu, tendo deixado de o ser, deixou de haver blocos antagónicos, não havendo igualmente razão para que se mantenham as respectivas alianças militares, uma vez que a ameaça (decorrente do confronto de dois sistemas antagónicos) deixou de existir.
E assim aconteceu a Leste. O pacto de Varsóvia extinguiu-se. Mas a Oeste a NATO não se extinguiu. Pelo contrário, ampliou-se, tanto no número de membros, como no seu campo de actuação.

A NATO é hoje composta por 28 Estados, quando antes - durante a Guerra Fria – tinha apenas 16 membros. Dos 12 novos que agora a integram 10 pertenciam ao Pacto de Varsóvia, quer como Estados independentes, quer como repúblicas federadas da União Soviética e 2 eram neutrais (ou estavam integrados numa federação neutral – a Jugoslávia).

Se de um lado o bloco se dissolveu e do outro se ampliou indo toda essa ampliação no sentido de nele integrar ou tentar integrar aqueles que antes pertenciam ao Pacto de Varsóvia com excepção da Rússia e (até ver) das ex-repúblicas federadas da União Soviética situadas na Ásia (Cazaquistão, Quirguistão, Uzbequistão, Turquemenistão e Tadjiquistão), é perfeitamente natural, que a Rússia como primeiro e mais importante grande país saído da URSS se sinta cercada por uma política que visa situar na periferia das suas fronteiras (no Báltico, no centro, no leste e no sul europeu, e ainda no Cáucaso) uma poderosíssima aliança militar que só pode ter como inimigo potencial aquele grande país que nela não está integrado – a Rússia.

E quanto mais o cerco se aperta, maior é o reflexo de defesa que o cerco provoca. Daí que quando se fala em expansionismo seja necessário definir com rigor quem realmente se expande.
Quem se expande é quem por reflexo de defesa procura romper ou impedir o cerco ou quem pretende levar a sua influência financeira, económica e militar a áreas onde nunca antes estivera?

E a situação agrava-se particularmente pelo facto de todos conhecido de cerca de metade da Ucrânia ser russófila, ou seja, uma parte quase equivalente a metade do território em que a população ou fala predominantemente russo ou é mesmo de origem russa.

O que se passou na Ucrânia demonstra que o chamado mundo Ocidental – os Estados Unidos e os seus satélites da União Europeia- parece ter perdido completamente a noção das realidades e das proporções, estando sempre pronto, a correr atrás de uma multidão que grite democracia e direitos disto e daquilo,
independentemente de quem grita e de quaisquer que sejam as consequências para quem vai atrás de quem grita, desde que aquele contra o qual se grita já esteja previamente diabolizado pela propaganda ocidental.
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De o q. realm. está em jogo? a 13 de Março de 2014 às 13:03
[- E a nós, o que interessa ? )
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...E foi isso o que se passou na Ucrânia, melhor, em Kiev. Uma multidão de ucranianos pró-ocidentais, com predomínio de ultranacionalistas xenófobos, principalmente em relação à Rússia, e outra extrema-direita de matiz nazi-fascista (que, como se sabe, está longe de constituir uma novidade na Ucrânia), com completo desprezo pela opinião e posição de outra metade do país, instigada pelo “mundo livre”, tomou o poder e pretendeu impor a sua lei a todo o território. Os instigadores foram imediatamente atrás destes acontecimentos, homologando o golpe e ignorando o resto do povo. Em princípio, o agrément do Ocidente teria sido suficiente para “legitimar” o assalto e recolher dele os devidos proveitos se não se desse o caso de ali ao lado estar a Rússia.


E agora estão à vista as consequências dessa marginalização. A Rússia ocupou posições no terreno e não vai sair delas sem que o equilíbrio seja restabelecido. E apenas três vias se abrem: a guerra, a divisão da Ucrânia ou sua federalização com ampla autonomia das partes, sendo esta última a única forma de assegurar na Ucrânia uma convivência entre todos sem tentações hegemónicas, com respeito recíproco das partes, capaz de abrir o caminho a uma verdadeira democracia.


Esta solução, sendo a mais justa e razoável, é também a única que realmente interessa e convém a quem não tem uma visão imperialista do mundo e das relações internacionais. E ao contrário do que diz o comentador a soldo que a RTP mandou para Kiev, sob a falsa capa de repórter, aos russos não interessa um pretexto para impor uma solução militar. A quem esse pretexto interessa é à extrema-direita ucraniana na esperança de envolver o Ocidente numa perigosíssima disputa militar, pretexto que só ainda não conseguiu urdir por geograficamente se encontrar muito afastada das forças russas.


E também não vale a pena estar a exigir a retirada das forças russas da Crimeia sem simultaneamente aceitar e impor a deposição do governo em funções em Kiev, porque uma coisa não vai acontecer sem a outra. A busca de uma solução diplomática exige equilíbrio e sentido das realidades. Para haver eleições com o governo fascista no poder em Kiev e hostil à Rússia e aos russos, também as eleições do outro lado da Ucrânia terão de se fazer sob a protecção dos russos.


Por isso, o mais prudente é acordar o novo modelo constitucional ucraniano numa base de equilíbrio e respeito recíproco, garantindo na diferença a unidade do país.


(por JM Correia Pinto, 6/3/2014, Politeia)


De Anatomia d1 Golpe... - Franc.7/3/14 a 12 de Março de 2014 às 09:32
------ A situação na Crimeia está "resolvida", a grande batalha é pelo resto da Ucrânia, nomeadamente o sul e o leste.

Existem múltiplas forças no terreno, com diferentes programas, métodos e interesses. Existem actores locais e internacionais. Como em qualquer situação deste género, existe uma componente trágica, na acepção hegeliana da palavra …
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E se acontecesse em Portugal?

O Nuno Ramos de Almeida fez há uns tempos um interessante exercicio sobre a situação ucraniana. Consistia em fazer uma descrição tipica dos mainstream sobre o que se passa a leste, sem referir nenhum denominador, chegando á conclusão que a situação prévia aos motins (oligarguias corruptas, governos mono-colores, falta de legitimidade democrática, ausência de apoio popular), facilmente poderia ser a situação portuguesa (quem diz portuguesa, pode facilmente nomear a grande maioria dos países europeus com programas de ajustamento hardcore ou softcore).

Nesta mesma linha de raciocinio, gostaria de explorar esta ideia de um “e se acontecesse em Portugal”, transpondo alguns pontos da situação ucraniana. Em alguns pontos pode ser caricatural, mas creio que pode ser um exercicio interessante.

Imaginemos que ontem a manifestação dos agentes de segurança tinha descambado, um sector mais extremista tinha conseguido convencer uma esmagadora maioria dos manifestantes e tinham subido a escadaria. Não contentes com esta “conquista”, entravam portas adentro da Assembleia da Republica e ocupavam-na. Criavam barricadas, exigiam a demissão do Governo. Imagine-se também que alguns dos mais activos ocupantes tinham ligações à extrema direita (tinhamos que imaginar que a nossa extrema direita tinha mais de dois neurónios e consguia organizar-se). Se as exigências iniciais começavam com a exigência da queda do governo, com o arrastar da situação, vários lideres europeus de partidos extremistas visitavam o nosso país. Vários ministérios eram ocupados. No terreiro do Paço, amontoam-se carros em chamas, barricadas com pneus e outro entulho.

Dirigentes da Frente Nacional e do Aurora Dourado fazem discursos junto com dirigentes do PNR perante uma multidão. Sindicalistas e comunistas começam a ser perseguidos. No Porto, o edificio na Avenida da Boavista tem barricados vários camaradas, perante as tentativas de invasão reiteradas. Um pouco mais abaixo, numa transeversal à Avenida da Boavista, a sinagoga é incendiada e saqueada. Outras sedes de partidos são invadidas. Passos Coelho é deposto, o Palácio de Belém também se encontra sob a guarda de milicias de extrema direita. Cavaco foge para a Quinta da Coelha. Os partidos na Assembleia da Republica são obrigados a eleger um novo governo. Mário Machado é designado como secretário de estado da Administração interna. Até chegarmos aqui, muita gente se juntou. Muitos determinados em que o governo caísse, deixaram-se guiar pelo PNR. Houve snipers de milicias a matar civis e policias na Avenida da Liberdade, houve ordem do governo para disparar sobre manifestantes.

Acampamentos ciganos são desmantelados em Barcelos e os residentes são levados por uma multidão em furia. O Bairro da Bela vista é patrulhado diariamente por milicias e os suspeitos (basta serem pretos) são espancados e obrigados a recolherem-se em casa. Os novos governantes são eleitos numa assembleia popular com skinheads armados a observar a assembleia. Membros das milicias entram e saem do Parlamento com total à vontade, dando indicações aos partidos de quem aceitam e de quem não aceitam. Exige-se a ilegalização do PCP em primeira instância, mas muitos defendem a ilegalização de todos os partidos. Cavaco foge para Espanha e pede asilo ao Rei Juan Carlos. A quinta da coelha é aberta ao publico e torna-se local de peregrinação…

Bem sei que é uma caricatura, e por ventura redutora (essa é uma caracteristica das caricaturas) mas se pensarmos se tivesse acontecido em Portugal, com os nossos actores politicos e com as nossas cidades, talvez a nossa perspectiva do que se passa na Ucrânia fosse um bocadinho diferente.

Dito isto, é preciso perceber que existem dois grandes campos em conflito, com todas as contradições inerentes a cada um desses campos. De um lado está a junta fascista de Kiev, suportada por gangs neo-nazis, oligarcas, a Nato e a UE, q...


De Nazis matam e chegam ao Poder Kiev a 6 de Março de 2014 às 18:25
Os snipers que mataram polícias e civis em Kiev estariam por conta do actual poder
(6/3/2014,PuxaPalavra

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Letónia, Urmas Paet, na sequência da sua visita a Kiev, em 25 de Fevereiro, durante os confrontos da Pçª Maidan, informou Catherine Ashton, Alta Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança e Vice-Presidente da Comissão Europeia, de que

"há agora uma convicção cada vez mais forte de que por detrás dos atiradores furtivos [que mataram polícias e civis] não estava Yanukovich mas alguém da atual coligação". "Toda a evidência mostra que foram os mesmos atiradores furtivos que mataram pessoas de ambos os lados, polícias e civis", da Praça Maidan. Segundo outra fonte, reproduzida a seguir, o MNE da Letónia disse que "é muito preocupante que as novas autoridades não queiram investigar isto"

Catherine Ashton reagiu à informação dizendo que "Bem,... isso é, isso é terrível" acrescentando que isso é matéria para investigação"
Este diálogo telefónico entre Paet e Ashton foi objecto de fuga para as redes sociais. Quem ficou incomodado com a fuga desmentiu mas o ministro dos Negócios Estrangeiros da Letónia, confrontado com o texto do telefonema confirmou-o.

(Notícia completa,* mais abaixo, neste post em Inglês, obtida aqui: http://rt.com/news/estonia-confirm-leaked-tape-970/ )
___________________

Outra fonte com vários vídeos sobre a situação política na Ucrânia [http://www.larepublica.es] diz sobre o mesmo assunto o seguinte:

"Funcionarios del Servicio de Seguridad ucranianos interceptaron la conversación telefónica en la que los políticos intercambiaban sus impresiones sobre los recientes acontecimientos en Ucrania.
Cuando abordaron el uso de la fuerza durante las protestas, Paet [Urmas Paet, MNE da Letónia] ofreció información que confirma los rumores de que los francotiradores fueron contratados por los propios líderes de Maidán.
Según el ministro de Estonia, las pruebas que le mostraron evidencian el hecho de que tanto los manifestantes como los agentes de la Policía fueron asesinados por los mismos francotiradores.

“Es preocupante el hecho de que la nueva coalición no quiera investigar el asunto y ahora se hace más evidente que detrás de los francotiradores no estaba [Víktor] Yanukóvich, sino que había personas de la nueva coalición”, agregó.
_____________________

* Estonian foreign ministry has confirmed the recording of his conversation with EU foreign policy chief is authentic. Urmas Paet said that snipers who shot at protesters and police in Kiev were hired by Maidan leaders.
Paet told RIA-Novosti news agency that he talked to Catherine Ashton* last week right after retiring from Kiev, but refrained from further comments, saying that he has to “listen to the tape first.”
“It’s very disappointing that such surveillance took place altogether. It’s not a coincidence that this conversation was uploaded [to the web] today,” he stressed.
“My conversation with Ashton took place last week right after I returned from Kiev. At that time I was already in Estonia,” Paet added.
Paet also gave a press conference about the leaked tape on Wednesday, saying that the dramatic events in Kiev, which resulted in people being killed, must become the subject of an independent investigation.
The Estonian Ministry of Foreign Affairs also issued a statement on its website, saying that the recording of the leaked telephone conversation between Paet and Ashton is “authentic.”
The phone call took place on February 26 after Estonia’s FM returned from his visit to Ukraine, which took place soon after the end of street violence in Kiev, the ministry added.

“We reject the claim that Paet was giving an assessment of the opposition’s involvement in the violence," the statement stressed, adding that the FM was only providing an overview of what he had heard during his Kiev visit.
RT has contacted Ashton’s spokesperson, Maja Kocijancic, who said “we don’t comment on leaked phone conversations.”
The US government declined to comment on the leaked phone conversation between EU foreign affairs chief Catherine Ashton and the Estonian foreign affairs minister.

State Department spokeswoman Jen Psaki said she had nothing to say on the issue, ITAR-TASS reported. However, ..


De Nazis (+neoLiber+milícia+máfia) no poder a 6 de Março de 2014 às 18:30
Paulo Moura entrevista os líderes do movimento nazi ucraniano
(5/3/2014, PuxaPalavra)
Artigo de Paulo Moura, em Kiev, no Público de 2014-03-04:

"O Sector Direito, cujo líder a Rússia quer julgar por incitamento ao terrorismo, defende uma sociedade em que todos andam armados, decidem tudo a nível local, votando de braço no ar, sem leis escritas nem partidos políticos. Não depõem as armas, enquanto não o conseguirem.

Vários líderes do Sector Direito sentam-se à volta de uma mesa, para explicarem ao PÚBLICO as linhas mestras da sua ideologia e programa. “Até aqui foi a fase dos combates, agora entrámos na fase política”, reconhece um deles, nome de código Lamco, sem um grande entusiasmo. Uma comissão encarregada de redigir o programa político ainda está numa fase muito embrionária. O que não é preocupante porque, para o Sector Direito, quanto menos regras escritas houver, melhor.
À porta da sede do partido, no 7.º andar do edifício da câmara municipal de Kiev, está pintada uma gigantesca cruz suástica. Para que ninguém entre enganado. Depois, por todos os aposentos, há símbolos nacionalistas e nazis pintados nas paredes com spray.
Os activistas do Sector Direito, que é uma confederação reunindo vários movimentos de extrema-direita, andam de um lado para o outro, assistem a reuniões, ou passam horas sentados ou deitados em colchões estendidos no chão, ouvindo música em alemão, sempre de botas militares, coletes à prova de bala, capacetes, balaclavas ou máscaras. Há escudos metálicos empilhados nos corredores, prontos a serem levantados rapidamente, há bandeiras vermelhas e negras, as cores dos nacionalistas ucranianos durante a Segunda Guerra Mundial, comandados por Stepan Bandera.
“Não vamos depor as armas até à vitória final”, declara Lamco, que é comandante de um grupo armado e é advogado. E quando diz “vitória final” refere-se ao regime político defendido pelo Sector Direito, a que ele chama uma “democracia em rede”.
Sentado à luxuosa secretária que terá pertencido a algum alto funcionário municipal, e sempre acariciando um cacetete negro, o comandante Lamco explica: “As comunidades de base é que tomam as decisões. Será um sistema idêntico ao que vigorou durante o Rus de Kiev, no século IX . Nessa altura, éramos um dos países mais poderosos do mundo.” [O Rus de Kiev é o primeiro reino eslavo fundado no espaço que é hoje ocupado pela Ucrânia e a Rússia europeia.]
Esse sistema, a que ele chama “a verdadeira tradição europeia”, é uma espécie de democracia directa e guerreira, que “não tem nada a ver com o fascismo". "É um sistema descentralizado. As comunidades tomam as decisões quanto aos assuntos que lhes dizem respeito, como acontece na Suíça.”
Mecheslav e Granislov (também nomes de guerra) são os coordenadores operacionais a nível nacional do Sector Privado. Deixam Lamco falar porque ele, como advogado, integra a comissão do programa político. Mas por vezes parecem não concordar com ele. “Será um sistema descentralizado, mas com um Estado muito forte”, diz Mecheslav, um jovem muito alto e magro, fardado de preto, de olhos azuis e faces encovadas. “A nossa ideologia é o centrismo ucraniano”, declara. “Não é nazi. Será algo único. Ninguém acredita que a revolução é possível, mas é. A tradição leva à inovação.” E acrescenta: “A Ucrânia tem a oportunidade de fazer a primeira revolução correcta do mundo.”
Granislov, fardado de verde, cabelo rapado e os músculos do rosto ininterruptamente premidos para parecer um duro, lança uma pergunta retórica: “Porque estão todos com medo do nacionalismo? Eu amo o meu país. Têm medo disso? É verdade que eu odeio os meus inimigos, porque amo o meu país.”

Partidos para quê?
Lamco retoma a exposição teórica: “O Governo central só controla a Ciência, a Medicina e o Exército. O resto é decidido a nível local. Tudo o que é política, Justiça.” O sistema tem algumas características que não são negociáveis: “As votações são feitas de braço no ar, não por voto secreto. Para que cada um seja responsável pelo seu voto. Eleições secretas eram necessárias no século XX, porque as pessoas viviam com medo. Agora já não precisamos disso.”
Outro princípio importante: “Não haverá leis escritas. Apenas uma lei geral, uma Constituição. O resto será decidido de acordo com a tradição e o bom senso.”
...


De Nazis (+neoLiber+milícia+máfia) no poder a 6 de Março de 2014 às 18:34
Paulo Moura entrevista os líderes do movimento nazi ucraniano
(5/3/2014, PuxaPalavra)
Artigo de Paulo Moura, em Kiev, no Público de 2014-03-04:

"O Sector Direito, ...
...
...
Mais um ponto importante do programa: “Toda a gente terá o direito de usar armas. Exigimos esse direito. Uma nação sem armas é uma nação escrava. Veja-se o que aconteceu na Ucrânia: o Governo tinha armas, as pessoas não, e deu no que deu.”
Outra regra: “Não haverá partidos políticos.” Os partidos são a fonte de toda a corrupção, representam interesses estranhos à nação… começa Lamco a explicar, mas Granislov puxa-lhe pelo braço. Parece que não há um consenso sobre a tema, no seio da organização. “Não teremos um regime de partido único, como os fascistas”, promete Mecheslav. “Mas não haverá propriamente partidos…” continua Granislov. E perante a insistência para que definissem uma posição, Lamco irrita-se: “Partidos, partidos, porque está tão obcecado com isso? Esse assunto não tem importância. Avance para a próxima pergunta.”
Claramente preocupados em não deixar a impressão de que são fascistas, os coordenadores apressam-se a dizer que defendem uma imprensa livre, e que respeitarão as minorias étnicas da Ucrânia. “Não haverá agressão a outros grupos. Todas as minorias nos apoiam”, diz Mecheslav. “Os conflitos na Ucrânia foram sempre criados artificialmente.”
O líder político do partido, Dmitro Iarosh, foi, no entanto, citado várias vezes como tendo proferido declarações anti-semitas e anti-russas. Já depois desta entrevista, o Comité de Investigação da Rússia, o mais importante organismo de investigação criminal de Moscovo, geralmente chamado "o FBI da Rússia", anunciou que vai acusar Iarosh de ter incitado a actos terroristas na Rússia. O crime pode levar até sete anos de prisão, e, caso o líder da extrema-direita ucraniana seja condenado, num julgamento in absentia, o seu nome será colocado numa lista internacional de procurados pela Justiça.
“Nós estamos em estado de guerra”, diz Granislav. “Temos armas suficientes para tomar o poder, mas não as usamos agora, para que não digam que somos fascistas. Não vamos destruir o sistema num só dia. Vamos mudá-lo aos poucos, enfraquecendo-o, para que os estragos não sejam demasiado elevados.”
Os coordenadores dizem ter realizado sondagens segundo as quais mais de 50% dos ucranianos os apoiam. “Estiveram connosco nas barricadas, acredito que também estarão connosco no projecto político. Foi o Sector Direito que começou a revolução. Estivemos lá desde o princípio. Devemos ser nós a conduzir o país a partir de agora.”
Interrogado sobre o destino da metade da população ucraniana que não os apoia, Granislov respondeu: “Vamos mudando a consciência dos ucranianos. Se agora 50% estão connosco, quando conquistarmos o poder serão 100% a aplaudir a nossa acção.”


# posted by Raimundo Pedro Narciso


De Contra imperialismoFinanceiro e Nazi-Fas a 3 de Março de 2014 às 12:58
“Nunca nos renderemos àqueles fascistas de Kiev” – O imperialismo e o nazi-fascismo não passarão na Ucrânia!

(-Março 1, 2014 por Francisco , 5Dias)

Logo após os gangs neo-nazis apoiados pela CIA e pela União Europeia terem tomado o poder em Kiev, houve manifestações anti-fascistas no sul e leste da Ucrânia, sobretudo na Crimeia. Num artigo do Guardian um desses manifestantes anti-fascistas dizia “nunca nos renderemos àqueles fascistas de Kiev“, na revista Time um outro dizia “em caso algum aceitaremos ser governados pela escumalha Nazi que anda de um lado para o outro em Kiev com suásticas nazis“. Tive medo que fosse só “conversa”, felizmente não é. Passada uma semana e com os acontecimentos a sucederem-se em catadupa torna-se cada vez mais claro que os Nazis não tomarão o controlo da Ucrânia, quanto muito ficarão com um enclave a noroeste pobre e sem acesso ao mar…

Em primeiro lugar é importante não cair em fantasias quanto à natureza da direcção que tomou o controlo nas ruas de Kiev e no ocidente do país. São gangs neo-nazis, simpatizantes do movimento nacionalista que se aliou a Hitler na segunda guerra mundial, são os herdeiros da escumalha que se alistou nas divisões Ucrânianas das SS e colaborou com o Holocausto. O recentemente formado “governo” Ucrâniano é o espelho disso mesmo (aqui, aqui e aqui) com conhecidos fascistas nomeados ministros e tomando conta de importantes sectores do aparelho de estado. O papel das milícias e partidos fascistas na recente “revolução nacional”, ou contra-revolução, está extensamente documentado (aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui ou aqui).

Há quem diga “sim há Nazis mas não são a maioria”… quem diz isso ou é ingénuo ou quer esconder a realidade. Claro que as centenas de milhar que protestaram contra o regime corrupto e gangsterista de Yanukovich não são na sua maioria Nazis… também os milhões que votaram em Hitler em 1933 não queriam todos a “solução final“, os milhares de populares que saudaram a entrada de Gomes da Costa em Lisboa a 28 de Maio de 1926 também não seriam todos a favor da instauração de um regime ditatorial que durou 48 anos… A questão não é saber se os Nazis são a maioria numérica, é saber se controlam ou não as assembleias e se serão, ou não, decisivos na influência das decisões que realmente importam. Se têm a capacidade, ou não, de dirigir e controlar a multidão. Infelizmente, a ponta de lança nos protestos contra o regime de Yanukovich foram os nazis e infelizmente, foram eles que controlaram muito do que foi o desenrolar dos acontecimentos (este episódio é bem revelador), é de lembrar que houve várias tentativas de chegar a um acordo e muitas delas foram rompidas pelos protestos nas ruas encabeçados pelos Nazis. Neste momento os nacionalistas do Svoboda e as milícias nazis do “sector de direita” ainda não têm o controlo total, mas se nada for feito em breve é isso que acontecerá…

O Yanukovich saíu de cena e ninguém chora por isso, mas chegados a este ponto a questão fulcral é barrar o ascenso ao poder dos Nazis, ora do terreno vêm sinais muitíssimo animadores nesse sentido.

Sábado por todo o leste e sul do país decorreram grandes manifestações contra os Nazis (ver também aqui ou aqui). No mapa abaixo estão sinalizados os vários locais onde houve protestos pró-russos e contra o novo poder nacional-fascista apoiado pelo imperialismo que tomou conta de Kiev.
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De Renascem Mov. FASCISTAS na Europa a 28 de Fevereiro de 2014 às 12:11
Renascem os Movimentos Fascistas na Europa

(Divulgado por Alfredo Barroso no FB)

O EXEMPLO DA UCRÂNIA E O RENASCER DOS MOVIMENTOS FASCISTAS NA EUROPA
- por Eric Draitser, 20/2/2014

A violência nas ruas da Ucrânia é muito mais do que uma manifestação da ira popular contra um governo. É, ao invés, simplesmente o exemplo mais recente da ascensão da mais insidiosa forma de fascismo que a Europa já viu desde a queda do Terceiro Reich.
Os últimos meses assistiram a protestos regulares da oposição política ucraniana e seus apoiantes – protestos ostensivamente em resposta à recusa do presidente Yanukovich de assinar um acordo comercial com a União Europeia, encarado por muitos observadores políticos como o primeiro passo rumo à integração europeia. Os protestos foram razoavelmente pacíficos até 17 de Janeiro, quando manifestantes armados com paus, capacetes e bombas improvisadas desencadearam uma violência brutal sobre a polícia, atacando edifícios governamentais, batendo em quem fosse suspeito de simpatias pelo governo e provocando destruição generalizada nas ruas de Kiev. Mas quem são estes extremistas violentos e qual é a sua ideologia?
A formação política conhecida como «Pravy Sektor» («Sector Direita») é basicamente uma organização chapéu para um certo número de grupos ultra-nacionalistas (ler: fascistas) incluindo apoiantes dos partidos «Svoboda» («Liberdade»), «Patriotas da Ucrânia», «Ukrainian National Assembly – Ukrainian National Self Defense» (UNA-UNSO) e «Trizub». Todas estas organizações partilham uma ideologia comum que, entre outras coisas, é veementemente anti-russa, anti-imigrantes e anti-judia. Além disso, partilham uma reverência comum pela chamada «Organização de Nacionalistas Ucranianos», liderada por Stepan Bandera, a que pertenciam os infames colaboradores dos nazis que combateram activamente contra a União Soviética e cometeram algumas das piores atrocidades durante a II Guerra Mundial.
Apesar de forças políticas ucranianas, oposição e governo, continuarem a negociar, uma batalha muito diferente está a ser travada nas ruas. Utilizando a intimidação e a força bruta, mais típica dos «Camisas castanhas» de Hitler ou dos «Camisas negras» de Mussolini do que de um movimento político contemporâneo, estes grupos conseguiram transformar um conflito sobre política económica e alianças políticas do país numa luta existencial pela própria sobrevivência da nação que estes chamados «nacionalistas» afirmam amar tão ardentemente. As imagens de Kiev a arder, as ruas de Lvov cheias de brutamontes e outros exemplos assustadores do caos no país, ilustram sem sombra de dúvida que a negociação política com a oposição do Maidan (a praça central de Kiev e centro dos protestos) já não é a questão central. É, antes, a questão de apoiar ou rejeitar o fascismo ucraniano.
Pelo seu lado, os EUA lançaram-se no apoio à oposição, sem considerar o seu carácter político. No princípio de Dezembro de 2013, membros do «establishment» dirigente dos EUA, tais como John McCain e Victoria Nuland, foram vistos no Maidan a apoiar os manifestantes. Entretanto, quando o verdadeiro rosto desta da oposição se tornou evidente, os EUA e a classe dominante ocidental e sua máquina dos «media» pouco fizeram para condenar o levantamento fascista. Ao invés disso, os seus representantes encontraram-se com representantes do «Sector Direita» e consideraram que não constituíam uma «ameaça». Por outras palavras, os EUA e seus aliados deram aprovação tácita à continuação e proliferação da violência em nome do seu objectivo final: a mudança de regime.
Numa tentativa de arrancar a Ucrânia da esfera de influência russa, a aliança EUA-UE-NATO aliou-se - e não é a primeira vez que o faz - com fascistas.

Como se sabe, durante décadas, dezenas de milhares de pessoas na América Latina foram fietas desaparecer ou foram assassinadas por forças militares fascistas armadas e apoiadas pelos Estados Unidos. Os «mujahideen» do Afeganistão, que depois se transformaram na Al Qaeda, uma «rede» também ideologicamente reaccionária e extremista, foram organizados e financiados pelos Estados Unidos com o objectivo de desestabilizar a Rússia. Há, igualmente, os
penosos exemplos da Líbia e, mais recentemente, da Síria, onde os EUA e seus aliados financiam jihadistas ...
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De A ameaça Fascista e neoLiberal d Finança a 28 de Fevereiro de 2014 às 12:15
. Há, igualmente, os penosos exemplos da Líbia e, mais recentemente, da Síria, onde os Estados Unidos e seus aliados financiam e apoiam extremistas jihadistas contra um governo que se recusa a alinhar com os EUA e Israel. Há aqui um padrão perturbador que não tem sido compreendido por observadores políticos: os Estados Unidos a fazerem causa comum com extremistas de direita e fascistas para obterem ganhos geopolíticos.
A situação na Ucrânia é profundamente perturbadora porque representa uma conflagração política que poderá muito facilmente dilacerar o país, menos de 25 anos depois de se tornar independente da União Soviética. Contudo, há outro aspecto igualmente perturbador na ascensão do fascismo naquele país – ele não é um caso único.

Ameaça fascista por todo o continente europeu

A Ucrânia e a ascensão do extremismo de direita não pode ser vista, muito menos entendida, isoladamente. Deve, ao invés, ser examinada como fazendo parte de uma tendência crescente através da Europa (e na verdade do mundo) – uma tendência que ameaça os próprios fundamentos da democracia.
Na Grécia, a austeridade selvagem imposta pela «troika» (FMI, BCE e Comissão Europeia) arruinou a economia do país, levando a uma depressão tão má, se não pior, do que a Grande Depressão nos Estados Unidos nos anos 1930. É com este pano de fundo de colapso económico que o partido «Aurora Dourada» cresceu até se tornar o terceiro maior partido político do país. Perfilhando uma ideologia de ódio, o «Aurora Dourada» – efectivamente um partido nazi que promove o chauvinismo anti-judaico, anti-imigrante e anti-feminista – é uma força política que o governo de Atenas considerou ser uma grave ameaça ao próprio tecido da sociedade grega (NR) . Foi esta ameaça que levou o governo a ordenar a detenção dos membros da direcção do partido, depois de um nazi do «Aurora Dourada» ter esfaqueado um «rapper» anti-fascista. Atenas ordenou uma investigação ao partido, embora os resultados desta investigação e o respectivo processo permaneçam pouco claros.
O que torna o «Aurora Dourada» uma ameaça tão insidiosa é o facto de, apesar da sua ideologia nuclear ser nazi, a sua retórica anti-UE e anti-austeridade atrair muita gente, numa Grécia economicamente devastada. Tal como muitos movimentos fascistas no século XX, o «Aurora Dourada» transforma em bodes expiatórios os imigrantes, os muçulmanos e os africanos, responsabilizados por muitos dos problemas que os gregos enfrentam. Em circunstâncias económicas terríveis, tal ódio irracional torna-se atraente, como se fosse uma resposta à questão de como resolver problemas da sociedade. Na verdade, apesar de líderes do «Aurora Dourada» estarem presos, outros membros do partido ainda estão no Parlamento, ainda concorrem a cargos como à presidência do Município de Atenas. Embora uma vitória eleitoral seja improvável, nova demonstração de força nas eleições tornará muito mais difícil a erradicação da ameaça fascista na Grécia.
Se este fenómeno estivesse confinado à Grécia e à Ucrânia, não constituiria uma tendência continental. Contudo, infelizmente, vamos assistindo à ascensão, embora menos abertamente fascista, de partidos políticos de extrema-direita por toda a Europa. Na Espanha, o Partido Popular, no governo e pró austeridade, avançou com leis draconianas para restringir as manifestações e a liberdade de palavra, aprovando e fortalecendo, ao mesmo tempo, tácticas policiais repressivas. Em França, o partido da Frente Nacional, de Marine Le Pen, que publicamente faz dos imigrantes muçulmanos e africanos os bodes expiatórios da crise conquistou aproximadamente 20 % dos votos na primeira volta das eleições presidenciais. Analogamente, na Holanda, o Partido pela Liberdade – que promove políticas anti-muçulmanas e anti-imigrantes – cresceu a ponto de se tornar o terceiro maior partido no Parlamento. Por toda a Escandinávia, partidos ultra-nacionalistas, outrora totalmente irrelevantes e obscuros, são agora actores significativos em eleições. Estas tendências são no mínimo, muito preocupantes.
Também deve ser salientado que, para além da Europa, há um certo número de formações políticas quase-fascistas que são, de uma maneira ou de outra, apoiadas pelos Estados Unidos.
O golpe de direita que derrubou os governos do Paraguai e ...


De Fascismo/Totalitarismo neoLiberal e Fina a 28 de Fevereiro de 2014 às 12:18
Renascer dos Movimentos Fascistas na Europa

O EXEMPLO DA UCRÂNIA E O RENASCER DOS MOVIMENTOS FASCISTAS NA EUROPA
- por ERIC DRAITSER *
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...O golpe de direita que derrubou os governos do Paraguai e das Honduras foram tacitamente e/ou abertamente apoiados por Washington no seu objectivo aparentemente infindável de suprimir a esquerda na América Latina. Naturalmente, também deveria ser lembrado que o movimento de protestos na Rússia foi encabeçado por Alexei Navalny e seus seguidores nacionalistas, que adoptam uma ideologia racista e anti-muçulmana que encara imigrantes do Cáucaso russo e de outras antigas repúblicas soviéticas como inferiores aos «russos europeus». Estes e outros exemplos pintam um retrato muito feio de uma política externa norte-americana que tenta utilizar a adversidade económica e a reviravolta política para estender a hegemonia dos EUA por todo o mundo.
Na Ucrânia, o «Sector Direita» retirou a luta política da mesa de negociação para o transformar em combate de rua, numa tentativa de cumprir o sonho de Stepan Bandera – uma Ucrânia livre da Rússia, de judeus e de outros cidadãos encarados como «indesejáveis». Animados pelo apoio contínuo dos EUA e da Europa, estes fanáticos representam uma ameaça mais grave para a democracia do que Yanukovich e o seu governo pró-russo. Se a Europa e os Estados Unidos não reconhecerem esta ameaça, ainda embrionária, quando o fizerem poderá ser demasiado tarde.

(NR) É muito discutível que o actual governo de Atenas tenha esse entendimento. A sua atitude é, antes, de conivência passiva e omissão. Forças policiais gregas pouco ou nada fazem para reprimir o «Aurora Dourada», só actuando em casos extremos.

(*) Analista geopolítico independente residente em Nova York.


De Da Prisão para a $Servitud€ , troika$ ?! a 27 de Fevereiro de 2014 às 10:17

"Ucrânia: da prisão para a liberdade condicional"


«Viver debaixo da bota russa não é, como tão bem sabem os ucranianos, pera doce.
Mas a sua chegada à Europa, pela mão de gente em quem só por muita candura se podem depositar grandes esperanças democráticas, será um momento interessante de observar.
Confesso que até eu fui surpreendido com a crueza com que as instituições europeias, o FMI e os Estados Unidos deram as "boas vindas" aos ucranianos.

A Ucrânia está em pré-bancarrota. Os créditos prometidos por Moscovo eram tudo o que lhe sobrava. Tem de pagar, ainda este ano, 13 mil milhões de dólares aos seus credores e a Rússia ia emprestar 15 mil milhões. A primeira tranche já tinha vindo.
A nossa amiga Standard & Poor's explicou que sem o dinheiro russo o colapso é certo. Agora os russos estão hesitantes.
Fossem os ucranianos como alguns portugueses isso devia ter chegado para comerem e calarem. Afinal de contas, quem paga a factura impõe a sua vontade e só um louco enfrenta quem lhe empresta dinheiro.
Mas foi comovente ver quem trata como irresponsáveis os que aqui não querem trocar crédito por dignidade aplaudir a coragem do povo ucraniano na luta pela sua independência.

Porque a divida são os tanques e as ogivas nucleares do século XXI, mudar de aliados significará, para a Ucrânia, mudar de credores. E os novos candidatos já explicaram ao que vinham.

Ainda o fumo dos pneus se via na Praça da Independência e já o FMI (e Olli Rehn, que logo fez coro com Christine Lagarde) explicava que só verão os dólares se fizerem "reformas económicas".
Pode ser que estivesse a falar do combate à corrupção e aos oligarcas, o que seria uma autêntica revolução nas prioridades do FMI.
Mas cheira-me que as reformas são as outras. As do costume. Ainda mais apetecíveis num país com a importância económica e estratégica da Ucrânia. Traduzido:
passem para cá os vossos "ativos" que nós vos ligamos à nossa máquina de crédito.

Ainda a polícia e os paramilitares da oposição estavam frente a frente, atrás das suas barricadas, e já o Departamento de Estado dos Estados Unidos pedia um governo "tecnocrático, de unidade nacional".
Um governo não eleito semelhante aos que existiram na Grécia e em Itália.
E, pedindo-se que sejam tecnocratas e não políticos, acho que não sou bruxo se depreender que objetivo é que sejam estes a começar as tais reformas.
Os ucranianos já fizeram a sua parte, ao pegar fogo a Kiev. Não me digam que agora também querem eleger o governo e decidir as reformas que se fazem? Deixem isso para os técnicos.
Lá como cá, como na Grécia ou como em Itália, as eleições servem apenas para confirmar decisões inevitáveis. E apenas depois das decisões serem tomadas.

Esta forma de fazer as coisas é melhor do que violenta dominação russa?
Os bancos que sugam os recursos públicos dos países europeus são menos assustadores do que as máfias e os oligarcas?
Sim, claro. Mas convenhamos que é fraco o consolo para quem arriscou a vida em nome da democracia e da independência.» – Daniel Oliveira, no Expresso.

Actualização:
O populismo no seu pior, a extrema-direita nas suas sete quintas.
Os ucranianos preparam-se para escolher os ministros do novo Governo pelo método braço no ar/palmas,vaias na praça principal de Kiev ao final da tarde de hoje. Resultados aqui.

http://opaisdoburro.blogspot.pt/ 26/2/2014


De Governo de "Vontade Popular" da Praça a 27 de Fevereiro de 2014 às 10:23

Governo de “vontade popular” na Ucrânia tem tarefa monumental

João Ruela Ribeiro e Paulo Moura (em Kiev)
26/02/2014 -Público


Novo governo combina figuras próximas de Timochenko e líderes dos protestos. Os próximos tempos irão dizer se a democracia da Maidan funcionou.


Não deverá haver muitos governos na história da democracia cuja aprovação esteja dependente dos apupos ou palmas de uma multidão. Mas esse é pelo menos o método que os manifestantes da Praça da Independência quiseram utilizar para a formação do seu executivo, que terá tarefas gigantes pela frente. A primeira foi já nesta quarta-feira, perante a Maidan.

Como sempre, foram muitos os nomes referidos, uns mais plausíveis que outros, é certo. Em Kiev, o ambiente revolucionário que animou a Praça da Independência nos últimos meses parece estar para ficar. E mais: serão princípios revolucionários que vão guiar a agenda política dos governantes, a começar pela própria origem do gabinete de ministros.

A Praça Maidan preparava-se para uma longa jornada que começou ao início da noite com o anúncio de que o líder da oposição Arseni Iatseniuk iria encabeçar o executivo. A partir daí, foram anunciados vários nomes, alguns mais consensuais do que outros. Certas nomeações foram vaiadas por grupos inteiros, como foi o caso do novo ministro do Interior, Arsen Avakov. De uma forma geral, o novo governo de unidade nacional combina várias personalidades próximas de Iulia Timochenko e figuras que se notabilizaram durante a contestação.

Iatseniuk tratava-se de uma escolha que muitos antecipavam, na medida em que alia a experiência de passagens por governos anteriores com a legitimidade de ter sido um dos rostos da contestação. Iatseniuk liderou o partido Pátria durante a prisão de Iulia Timochenko e acompanhou de perto os protestos dos últimos meses.

Poderá ser um bom sinal para os próximos tempos, uma vez que muito do futuro da Ucrânia vai depender das negociações internacionais para a obtenção de um resgate financeiro. Para além de uma experiência como ministro da Economia, Iatseniuk era visto como um dos líderes políticos da oposição mais fiáveis. Estando agora fora da corrida à presidência, a nomeação de Iatseniuk pode abrir caminho à possível candidatura de Timochenko.

Na Economia deverá ficar um académico, Pavlo Sheremeta, fundador e reitor da Faculdade de Economia da Universidade Kiev Mohila. Uma das áreas mais sensíveis, as Finanças, ficará a cargo de Oleksander Schlapak, que foi chefe de gabinete do ex-Presidente Viktor Iushenko, que foi eleito na sequência da Revolução Laranja. Schlapak tem pela frente a difícil situação financeira da Ucrânia, cujas necessidades de financiamento para os próximos dois anos ascendem a 25 mil milhões de euros e que convive com uma desvalorização quase diária da moeda.

A escolha para os Negócios Estrangeiros recaiu em Andri Deshchitsia, que foi embaixador na Finlândia. A sua experiência diplomática no país nórdico poderá indicar que a gestão nas relações exteriores de Kiev irá privilegiar a integração europeia, sem contudo alienar totalmente Moscovo, à semelhança do que é feito pela Finlândia.

Durante a tarde, o Conselho da Maidan – o órgão deliberativo informal formado durante os protestos – esteve a escolher alguns nomes para outros cargos. Andrei Parubi, ex-deputado do Pátria e um dos líderes da contestação, foi proposto para secretário do Conselho Nacional de Segurança e Defesa, tendo como vice o líder do Sector Direito, Dmitro Iarosh.

A confirmar-se a indicação de Iarosh, esta seria uma decisão potencialmente polémica. A entrega de uma posição de destaque ao líder de uma organização paramilitar de extrema-direita e que utilizou abertamente meios violentos durante os protestos pode despertar reservas, sobretudo nas regiões do Leste do país.

Outra nomeação emanada das ruas foi a de Dmitro Bulatov, que esteve à frente do movimento AutoMaidan, para a pasta da Juventude e Desporto. Bulatov foi raptado no final de Janeiro, tendo reaparecido uma semana depois com indícios de ferimentos graves. O activista contou que foi levado por um grupo de homens para uma mata, onde foi espancado e crucificado.

Democracia directa
A rua soberana conseguiu, desde logo, adiar o anúncio da formação do governo.
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De Democracia Directa (da praça capital)?! a 27 de Fevereiro de 2014 às 10:27
Democracia directa

A rua soberana conseguiu, desde logo, adiar o anúncio da formação do governo. Inicialmente previsto para terça-feira, a contestação da Maidan em relação ao rumo que as negociações no Parlamento estavam a decorrer falou mais alto e a nomeação passou para quarta-feira.
E foi a rua a indicar o método de escolha:
a democracia directa, ao estilo da antiga cidade-Estado de Esparta, como descreveu ao PÚBLICO um dos líderes dos manifestantes, Andrei Parubi.

Não obstante as diferenças que possam existir entre as realidades de uma cidade da Antiguidade de 25 mil habitantes, totalmente vocacionada para a guerra,
e um país moderno com uma população de 45 milhões, a justificação para o método referido por Parubi está em sintonia com o sentimento dominante nas ruas de Kiev.

Em parte são os receios de que se repita o desenlace da Revolução Laranja de 2004 – que acabou por substituir uma classe política dominada pelos oligarcas por outra demasiado parecida – que dominam os anseios pela democracia directa.
Mas há também a necessidade de reconhecer que a revolução da Maidan foi dirigida sobretudo pelas ruas, que não hesitaram em apupar e criticar os líderes políticos e que precipitaram a queda de Viktor Ianukovich.

Basta, contudo, olhar para os desafios que os novos governantes da Ucrânia terão pela frente para se concluir que juntar instabilidade governativa à situação crítica do país podia ser o pior a acontecer neste momento.
É o próprio Parubi que nota ser possível que um governo seja aclamado pela Praça e, “horas depois” venham 30 mil pessoas derrubá-lo.

Crise económica, integração europeia, relações com Moscovo e manutenção da integridade territorial serão os principais temas que vão ocupar o novo governo.
Ao mesmo tempo que têm de tentar redefinir a posição da Ucrânia no mundo, os novos governantes têm que assegurar que não perdem a legitimidade que, por agora, a rua parece confiar-lhes.

http://www.publico.pt/mundo/noticia/governo-de-vontade-popular-na-ucrania-tem-tarefa-monumental-1626340


De "Democracia" sob Medo, armas e $$€€ a 27 de Fevereiro de 2014 às 10:53

Democracia directa feita à maneira
( http://maquinaespeculativa.blogspot.pt/search/label/9.%20Polis )

«Vamos eleger o Governo por democracia directa, como em Esparta» - declara ao Público um dos "operacionais" da revolta ucraniana (o Público chama-lhe «o líder "de facto" da revolução ucraniana», mostrando como estão baratas as palavras hoje em dia).

O tal Sergei Parubi dita o esquema básico:
«Quem quiser pode lançar nomes, de pessoas que conheça, personalidades prestigiadas e sem ligações à política, como reitores de universidades.
A cada nome, o povo vai votar de braço no ar, ou aplaudir e gritar.
Os nomes que obtiverem mais gritos serão os eleitos.»

Isto passa-se na Praça Maidan.

A coisa começa entre confrades, como explica o Público:
«Da parte da manhã, reunir-se-ão as 40 unidades de autodefesa, os chamados Sotnia, que incluem todos os participantes nos combates.
São, segundo Parubi, cerca de 5 mil pessoas, organizadas por especialidades, desde comunicação e design até acção militar directa ou patrulha de ruas.
Alguns Sotnia foram agrupados por afinidades ideológicas, como é o caso dos extremistas de direita Sector Direito.
Outros por características de estilo e tradição, como os Cossacos.»

Entretanto, coisa estranha para uma "democracia" tão directa, afinal há níveis de decisão:
«As ideias destas reuniões serão levadas depois, às duas horas da tarde, à reunião do Conselho de Maidan, que inclui, além dos representantes dos Sotnia, personalidades relevantes da sociedade civil.
É aí que serão criadas as propostas que depois, às sete horas, serão levadas ao palco, onde os presentes poderão ainda propor outros nomes.»

Há uns pormenores que escapam. Por exemplo, quem define o que são " personalidades relevantes da sociedade civil"?

Entretanto, sabe-se lá por quê numa "democracia directa", o Parlamento (pré-"revolução") entre em jogo:
«Só depois de o Governo ter sido aprovado no palco da Maidan, será levado ao Parlamento para aprovação.»

Mas tudo tem uma explicação (?!?!):
«A hipótese de a câmara dos deputados reprovar a lista dos novos ministros não se coloca.
Neste momento, o Parlamento obedece cegamente à Maidan, seja, como sugere Parubi, porque está em sintonia com os seus ideais, seja por puro medo.»

Ora bolas, então a "democracia directa" incorpora um mecanismo bem conhecido: o MEDO.
Não duvido de que assim seja. É bem conhecido esse ingrediente de certas formas de "democracia".
Eo medo não cai do céu, é produzido:
«O edifício do Parlamento está cercado pelas unidades de autodefesa da Somooborona, designadamente as mais radicais, a quem são distribuídas as missões mais difíceis, que exigem bons armamento e treino militar.»
Isto ajuda a compreender o espírito da "democracia directa".

Claro, isto pode simplesmente transformar-se numa palhaçada. Diz o tal "líder de facto" (já começámos a compreender o que isso significa):
«É impossível prever, ou imaginar. É uma experiência que nunca se fez. E, claro, comporta muitos riscos.
Pode acontecer que às sete horas 30 mil pessoas estarão aqui aclamando um governo, e, horas depois, outras 30 mil virão aqui derrubá-lo.»
30 mil de cada vez? Mas quantos milhões tem a Ucrânia? Ora, lá está outro ingrediente destas "democracias".

Quase a terminar, o texto do Público reza assim: «Às 19 horas, 17h em Portugal, o palco vai formar um Governo.» É isso mesmo.

Pronto, meus caros defensores da "democracia directa": quando se entusiasmarem, pensem nestes exemplos concretos que o refrão pode tomar.

--xx---

O primeiro exemplo concreto dos perigos de uma 'democracia direta' pode provavelmente ser encontrado aqui: http://en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_Arginusae.
E note-se que os generais foram condenados à morte de forma inconstitucional (porque os Gregos tinham leis, contrariamente a estes senhores na Ucrânia), mas
a votação da sua condenação e execução foi avante porque a oposição à mesma foi calada pelo MEDO de que a pena capital fosse igualmente aplicada a quem se opusesse à dita votação...
Infelizmente, não há uma página portuguesa sobre isto...
Arriscando o lugar comum, eu diria que aquela citação de Santayana sobre
« aqueles que esquecem o passado estarem condenados a repeti-lo»,
é mesmo muito apropriada aqui...


De Apoiantes, contras, porquê, mídias, ... a 26 de Fevereiro de 2014 às 10:39
O que se passa na Ucrânia – fascismo contra fascismo? (várias perspectivas e fontes)

(-20/2/2014, por João Labrincha, http://blog.5dias.net/ ),

Uma guerra fria ou até guerra real entre Rússia e União Europeia / Estados Unidos da América estão iminentes?

A escolha que se coloca aos ucranianos é entre fascistas pró-Rússia e fascistas pró-UE/EUA?

Protestos que começaram genuinamente estão a ser aproveitados pelas grandes potencias para instaurar um regime autoritário piloto na Ucrânia, que possa ser replicado na União Europeia?

Já começou a guerra civil ? Quem está a apoiar as milícias fascistas? São genuínas as novas milícias comunistas?

Aqui deixo algumas perspectivas, fazendo a ressalva de que já estamos a viver uma guerra de propaganda e, por isso, não me responsabilizo nem subscrevo nenhuma das fontes abaixo citadas. Tirem as vossas conclusões como eu estou a tentar tirar as minhas. E, se quiserem, deixem nos comentários outras fontes.
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Na Ucrânia, fascistas, oligarcas e a expansão ocidental estão no coração da crise

(tradução do artigo de Seumas Milne no Guardian, no folha.uol.com.br) http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2014/01/1405049-opiniao-crise-na-ucrania-envolve-fascistas-oligarcas-e-ocidente.shtml

“Já estivemos aqui antes. Nos últimos meses os protestos de rua na Ucrânia foram descritos na mídia ocidental de acordo com um script bem ensaiado. Manifestantes pró-democracia batalham contra um governo autoritário. Os manifestantes exigem o direito de participar da União Europeia. Mas o presidente russo Vladimir Putin vetou a oportunidade deles terem liberdade e prosperidade.

É uma história que ouvimos de uma forma ou de outra, de novo e de novo — por exemplo na revolução Laranja da Ucrânia, uma década atrás. Mas essa história tem uma relação muito tênue com a realidade.”

“Você nunca saberia pela maioria das reportagens que nacionalistas de extrema-direita e fascistas estão no coração dos protestos e dos ataques aos prédios públicos da Ucrânia. Um dos três principais partidos de oposição liderando a campanha é o partido direitista antissemita Svoboda, cujo líder Oleh Tyahnybok alega que uma “máfia judaica de Moscou” controla a Ucrânia. Mas o senador dos Estados Unidos John McCain estava feliz ao dividir um palanque com ele no mês passado em Kiev.”
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Carlos Carapeto diz:
Fevereiro 20, 2014 às 11:40 pm
Já conhecia parte desta informação que o João aqui coloca,

O que se está a passar na Ucrânia faz parte dos objetivos do dominio global por parte do imperialismo.

Nada tem a ver com direitos humanos, democracia ou coisa que se pareça. É o retorno ao nazi/fascismo.

Os dirigentes do imperialismo deixaram cair a mascara de vez, aliaram-se e dão apoio de toda a ordem a forças assumidamente neonazis. Isto não vem de agora, começou nas Republicas Bálticas e tem vindo a alastrar-se a outros países da região. E nós (comunistas e a esquerda em geral) infelizmente só agora começamos a abrir os olhos.

O que está a acontecer na Ucrânia neste momento parecendo que não, diz-nos muito respeito a nós também.
Há muito que pessoas bem informadas vinham alertando que tinha chegado a hora de mover uma campanha de desacreditação e denuncia sobre o desastre social, económico, de desenvolvimento e civilizacional que representou a restauração do capitalismo nos antigos países Socialistas.

Se estivéssemos mais atentos aos dois grandes levantamentos populares na Albânia, sufocados com a participação das tropas da NATO. À repressão desencadeada contra os dirigentes mineiros da Roménia. Aos julgamentos e perseguições que os responsáveis por os protestos populares na Bulgaria têm sido vitimas. Às leis repressivas em vigor por toda a Europa de Leste contra os comunistas, sindicalistas e intelectuais de esquerda. No entanto e em contrapartida reabilitam-se e condecoram-se antigos membros das SS Waffen em cerimonias publicas com a participação dos mais altos dirigentes desses países.
...
Yanukovich (oligarca, corrupto, ladrão, ...) e Putin (...), não estão do meu lado, no entanto reconheço que são um travão às pretensões do imperialismo (financeiro/corporativo) na ansia do domínio global .
É nosso dever impedir POR TODOS OS MEIOS que o capitalismo/imperialista consiga o controlo global da humanidade.
...


De Ucrânia, Rússia e UE /EUA a 26 de Fevereiro de 2014 às 14:44
26 de Fevereiro de 2014


A Ucrânia, a UE e a Rússia

(por AG , 26/2/2014, CausaNossa)

"O que se joga na Ucrânia, está para além dela.
É também a relação da UE com a Rússia.
Não se trata de instigar a Ucrânia a escolher entre a Europa e a Rússia:
tanto a Ucrânia, como a UE, têm de viver e conviver com a vizinha Rússia.
A UE - e os EUA - não podem é, de modo nenhum, aceitar que Putin putinize à força, contra a sua vontade, os ucranianos".

Este é um extracto do meu comentário no "Conselho Superior" na ANTENA 1 de 25.2.2014. O texto integral pode ler-se na ABA DA CAUSA aqui: http://aba-da-causa.blogspot.fr/2014/02/a-ucrania-ue-e-russia.html
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Kiev, Ucrânia, Europa

( por AG )
A 18 de Fevereiro, escrevia eu:

"Estou para escrever sobre a Ucrânia desde que vim de Kiev, no final de Janeiro, como membro de uma delegação do Parlamento Europeu que falou com os principais actores no conflito.
Tardei em escrever por me custar transpor para papel o pessimismo com que regressei:
pesava-me a suspeita de que, com o fim dos Jogos Olímpicos de Sochi, viria o enfrentamento violento, de tal modo as posições estavam extremadas e irredutíveis, facultando a Putin pretextos para intervir...
Enganei-me apenas no "timing":
na noite em que finalmente escrevo, os Jogos ainda prosseguem, Putin degusta a extravagância olimpicamente, mas Kiev já está há horas a arder..."

O texto integral está na ABA DA CAUSA, aqui http://aba-da-causa.blogspot.fr/2014/02/em-kiev-ucrania-europa.html


De Equilibrar o «castelo-de-cartas ex-URSS» a 26 de Fevereiro de 2014 às 15:13
---- A Ucrânia (tal como outros países da ex-URSS) está muito "russificada" (história, língua, religião, demografia/etnia, migrantes, ... inter-dependências económicas, militares),
especialmente na parte Leste e a sul, a península da Crimeia -- cedida pela Rússia à Ucrânia em tempos da URSS, onde está a importantíssima base militar e esquadra naval russa de Sebastopol, + as vivendas e zonas turísticas de veraneio no 'mediterrânico'/Mar Negro, ... -- e a Rússia já deu a entender que pode exigir a 'devolução' da Crimeia se ...

-- A Rússia quer manter o seu 'protectorado' sobre a Ucrânia, tanto política e militar, como cultural e economicamente (mercado e bens agrícolas/cereais, ... ).
-- A Ucrânia depende imenso da energia/gás russo e tem elevadíssimo défice/dívida relativamente à Rússia, ...
-- existe também o perigo geoestratégico do puzzle ex-URSS em «castelo de cartas»:
afastando-se um país, não irão atrás a Moldávia (fronteira SW da Ucrânia, já com um problema de separatismo na russa «república da Transdniestria», ...), e o "barril de pólvora" das repúblicas do Caucaso, e as federadas/autónomas repúblicas da Ásia central e extremo oriental ?!

Zé T.


De Estados e nacionalidades à volta da Rúss a 3 de Março de 2014 às 12:20

NA PERIFERIA DA RÚSSIA

UM APONTAMENTO SOBRE A QUESTÃO DAS NACIONALIDADES NA URSS E SUAS SEQUELAS
( Politeia, 2/3/2014)

Lenine desconfiava do chauvinismo e do imperialismo russo e tinha-o permanentemente presente na questão das nacionalidades. A questão das nacionalidades foi das mais discutidas nos primórdios da Revolução de Outubro, durante e depois da Guerra Civil. Antes da constituição da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e já depois de as potências da Europa ocidental terem abandonado o território do antigo Império Russo, em finais de 1919, o Comité Central e o Politburo do Partido Bolchevique, dando cumprimento, por um lado, às promessas de autodeterminação dos povos oprimidos e temendo, por outro, que as potências regionais da Europa oriental e da Ásia ocidental (Turquia, Finlândia e Polónia) fossem instrumentalizadas para atacar o comunismo soviético na periferia do território herdado do Império dos Czares, criaram em 1919 os Estados soviéticos independentes da Ucrânia, da Letónia e da Bielorrússia e em 1920 o Azerbaijão, a Arménia e a Geórgia, integrados na Federação Transcaucasiana, embora já antes, em 1918, Estaline tivesse redigido os decretos de reconhecimento das independências da Estónia e da Lituânia.


Contrariamente ao que por vezes se tenta fazer crer, em alguns destes novéis Estados não havia antes da sua constituição fronteiras naturais ou étnicas definidas. O Azerbaijão, por exemplo, nunca tinha existido e outros por terem oscilado de dependência também tinham complicações fronteiriças que se mantêm até hoje. Por outro lado, embora houvesse um sentimento nacionalista em muitas regiões da periferia do Império, ele era mais de recusa do chauvinismo russo do que propriamente de um verdadeiro desejo de independência, além de que em alguns desses territórios a presença russa era muito forte e mesmo naqueles onde a etnia nacional era demograficamente dominante a sua cultura era russófila, como era o caso da Bielorrússia e da Ucrânia.


O problema das nacionalidades mesmo sem ser tratado no contexto de uma revolução profundamente transformadora das estruturas económicas e mentais, como era o caso da Revolução de Outubro, tinha histórias e experiências diferentes no ocidente e no oriente europeu. No Ocidente europeu dominava o Estado nação, mesmo quando a nação era feita pelo Estado, enquanto a experiência do Império Austro-Húngaro e do Império Otomano era a de grandes extensões territoriais constituídas por agrupamentos nacionais relativamente autónomos.


Por haver histórias diferentes a ocidente e a leste e também por se estar na presença de uma situação revolucionária nova que herdava um império gigantesco, é que a questão das nacionalidades foi discutidíssima nos primórdios da Revolução de Outubro e continuou a ser uma questão nevrálgica durante toda a existência da União Soviética, apesar de alguns, menos avisados, a partir de certa altura terem suposto que a questão das nacionalidades estava superada.


A primeira grande questão que se pôs a propósito do estatuto constitucional daquele imenso território herdado do czarismo foi a de saber como estruturar politicamente a ligação entre a Rússia e os territórios cuja autonomia ou a independência haviam sido reconhecidas pela Revolução.


Estaline, Comissário do Povo para as Nacionalidades, pretendia, à semelhança do que já estava negociado com a Ucrânia, incorporar as novas repúblicas na federação russa como repúblicas autónomas, unificando, sempre que a situação o justificasse, a gestão centralizada de determinados sectores, como os transportes, por exemplo. A primeira ideia foi, portanto, a de constituir uma imensa federação no seio da Rússia. Mas o Comité Central opôs-se a essa orientação. Lenine entendia que as concessões constitucionais arbitradas nos primeiros tempos da Revolução tinham de ser mantidas. A própria Ucrânia, segundo Lenine, não poderia ser incorporada como república autónoma. Estaline foi cedendo gradualmente, tendo começado por aceitar uma União das novas repúblicas com a Federação Russa, mas essa construção ainda não correspondia à ideia de Lenine e de outros para os quais o chauvinismo russo continuava a constituir potencialmente um factor de adulteração dos princípios socialistas. Para a corrente dominante


De império, Revol. URSS, Fed.Russa, histór a 3 de Março de 2014 às 12:25
...
...Para a corrente dominante era essencial que as novas repúblicas entrassem na nova “construção constitucional” em pé de igualdade com a Federação Russa. Ou seja, era preciso demarcar fronteiras à Rússia, tal com se demarcavam à Ucrânia, à Bielorrússia e a todas as demais repúblicas.

É conveniente que se diga antes de prosseguir que a própria criação das repúblicas autónomas no seio da Federação Russa não foi despida de controvérsia. A entrega do poder aos grupos étnicos autónomos (Bashkirs, Tártaros, Kirgiz, Chuvash, Vots, Finlandeses Carelianos, etc., etc.) não agradava aos russos que se sentiam reduzidos a uma espécie de cidadãos de segunda...onde antes eram de primeiríssima categoria. Só mesmo a profunda ignorância e uma propaganda de terceira categoria pode fazer crer que a Revolução não fez um esforço gigantesco para melhorar as condições de vida dos não russos, como qualquer historiador digno desse nome obviamente confirma.

O objectivo dos bolcheviques era destruir o velho Império e os seus mitos coloniais sem contudo criar uma miríade de Estados separados ou fomentar uma desagregação que seria fatal para a sorte da Revolução. Só que não havia modelo nem paradigma, num mundo ainda dominado pelos impérios coloniais geograficamente contínuos ou descontínuos não havia nada que pudesse ser copiado. Era preciso inventar tudo. Criar tudo de novo. E é então na sequência das profundas e demoradas discussões atrás referidas e das negociações com os representantes das novas repúblicas que em 31 de Dezembro de 1922 é assinado o tratado de constituição da URSS composta pela Rússia, a Ucrânia, a Bielorrússia e a Federação Transcaucasiana, que englobava o Azerbaijão, a Geórgia e a Arménia.

A situação mais complexa e a mais difícil de resolver e que levou mesmo ao grande conflito entre Lenine, já muito doente e quase no fim da vida, e Estaline, foi a questão da Geórgia, das relações do Partido Bolchevique com os comunistas da Geórgia.

Os georgianos pretendiam que a Geórgia entrasse na União Soviética como estado autónomo, em igualdade com a Ucrânia e com a Bielorrússia. Estaline entendia, principalmente por razões geoestratégicas, que não havia razões para desmembrar a Federação Transcaucasiana, argumentando em defesa da sua tese (para efeitos externos) com os laços de solidariedade que se tinham criado entre os povos do Cáucaso durante a Guerra Civil e a guerra contra as potências estrangeiras. Na realidade, Estaline temia a influência da Turquia e a sua instrumentalização pelas potências ocidentais na desagregação de uma zona tão nevrálgica e simultaneamente tão vulnerável como a do Cáucaso.

Lenine, apesar de sempre distinguir entre o nacionalismo do opressor e o do oprimido, acabou por dar razão a Estaline nesta questão, convencendo os georgianos a aceitar a sua entrada na União integrados na Federação Transcaucasiana. Mas o Cáucaso que sempre foi e continua a ser até hoje uma fonte de complicações tinha outros problemas para resolver. Por um lado, havia os enclaves azeris no território da Arménia e os enclaves arménios de Nagorno-Karabakh no Azerbaijão. E tanto o Azerbaijão como a Arménia queriam a integração desses territórios, apesar da descontinuidade geográfica, nas respectivas repúblicas. Por outro, no que respeita à Geórgia, havia o problema da Ossétia do Sul e da Abkasia que se recusavam integrar a República da Geórgia, contrariando a vontade dos comunistas georgianos que queriam que aqueles territórios fizessem parte da nova república. Além de que no Cáucaso do norte havia ainda para complicar mais as coisas a presença dos Cossacos do Cáucaso que não aceitavam ficar na dependência da Federação Transcaucasiana nem ceder as terras que tinham conquistado nos tempos dos czares aos seus ancestrais proprietários.

Para cativar os muçulmanos, não apenas os do Cáucaso, mas também os da longa franja meridional da Rússia, e retirar argumentos ou pretextos à Turquia para intervir ou instabilizar o Azerbaijão, as pretensões do Azerbaijão foram satisfeitas para desagrado da Arménia. Vê-se agora, em consequência da desagregação da URSS, que a questão, como é óbvio, não ficou resolvida com essa cedência, tendo desde o fim da década de 80 até meados da de 90 havido sérios confrontos entre arménios e azeris ...


De Na periferia da Rússia ... (Politeia) a 3 de Março de 2014 às 12:29
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Para cativar os muçulmanos, não apenas os do Cáucaso, mas também os da longa franja meridional da Rússia, e retirar argumentos ou pretextos à Turquia para intervir ou instabilizar o Azerbaijão, as pretensões do Azerbaijão foram satisfeitas para desagrado da Arménia. Vê-se agora, em consequência da desagregação da URSS, que a questão, como é óbvio, não ficou resolvida com essa cedência, tendo desde o fim da década de 80 até meados da de 90 havido sérios confrontos entre arménios e azeris pelo controlo do território que continua a ser maioritariamente habitado por arménios. O enclave é hoje uma das Repúblicas do Cáucaso não reconhecidas pela comunidade internacional, podendo a todo o momento num contexto de crise voltar a deflagrar o conflito entre as duas partes.

No que toca à Geórgia, Estaline, que conhecia a região e os seus problemas melhor que ninguém, dadas as suas origens, não estava de acordo com as pretensões dos comunistas georgianos. Sabia que tanto a Abekásia como a Ossétia tinham histórias, culturas e até línguas diferentes das da Geórgia, além de que via na teimosia georgiana um perigoso sintoma nacionalista que urgia contrariar. Depois de uma relativa humilhação pública sofrida num comício em Tbilisi, em que teve como resposta às suas palavras um profundo silêncio em contraste com os aplausos generosos tributados a um orador menchevique que concordava com o ponto vista dos comunistas georgianos, Estaline resolveu a questão a seu modo: substituiu os camaradas georgianos que se opunham às suas teses por outros georgianos que as aceitavam.

Foi este acto que levou a um grande conflito com Lenine e ao pedido de instauração de um inquérito disciplinar, não apenas a ele, mas a todos os que o acompanharam na “questão georgiana”, que depois, com o agravamento da doença de Lenine e subsequente morte, acabou por não dar em nada.

Os métodos usados por Estaline na “questão georgiana” eram politicamente condenáveis, mas hoje a moderna historiografia, nomeadamente a Ocidental, tende a dar-lhe razão quanto ao fundo. De facto, a Abkasia e a Ossétia não são georgianas.

O pior é que com o andar dos tempos, principalmente a partir da década de trinta, as belas palavras de Estaline sobre o fomento da língua, dos costumes, da cultura dos povos das novas repúblicas como único meio de tornar o socialismo cativante para as nações antes submetidas ao jugo dos czares foram ficando gradualmente cada vez mais afastadas da prática e, ao que parece, por puro cálculo político, Estaline voltou a dar um papel de grande destaque aos russos na condução de toda a União, não obstante a manutenção de uma retórica que poderia indiciar o contrário.

Estaline era um político muito hábil e também um grande estadista, mais do que um revolucionário. Muita gente pensa que quando se usa a força como argumento não é preciso saber actuar politicamente. É falso. A manutenção no poder daquilo que hoje é comum chamar-se um ditador exige tanta perícia politica como a continuidade no poder por via dos chamados procedimentos democráticos, quaisquer que sejam os meios de coerção à disposição. Sem consenso, nenhum governante se aguenta, variando obviamente a extensão desse consenso em função das características e da cultura política de cada povo. E Estaline cedo terá percebido que um Estado com a extensão da URSS, cuja maior fatia era constituída pela Rússia milenar, não poderia ser governado por um “estrangeiro”, apesar das profundas mudanças de mentalidade que a Revolução tinha em vista alcançar, se esse “estrangeiro” não desse provas inequívocas de identificação com o essencial da “alma russa”. Talvez por isso, nos momentos de descontracção, em jantares privados ou até públicos depois de estabelecida a convivialidade do anfitrião com os convidados, Estaline não se coibia de a si próprio se identificar “como um asiático georgiano russificado”. Com esta definição dizia tudo: anti-ocidental, oriundo de uma das novas repúblicas independentes e de cultura russa.

Mas não foi apenas a concessão de um exagerado papel de destaque aos russos na condução da União que caracterizou a governação de Estaline a partir da década de trinta, foi também um abrandamento ou mesmo a subversão dos princípios com que nos primórdios da Revolução fora tratada a questão


De Ucrânia--> "normalizar", dividir, domina a 3 de Março de 2014 às 12:35
...
...Revolução fora tratada a questão das nacionalidades, porventura por supor que afastadas as primitivas “dissidências” não se correriam doravante os mesmos perigos de ressurgimento do “nacionalismo pequeno-burguês” que antes estavam permanentemente presentes. E assim a sua política oscilou entre medidas de grande brutalidade, como a transferência forçada dos tártaros, e a aceitação de posições que antes havia terminantemente recusado, como a inclusão da Ossétia do Sul e da Abkásia na Geórgia.

Mais tarde, Khrushchev, por razões difíceis de explicar, salvo as que resultam do seu irreprimível voluntarismo, resolveu integrar a Crimeia na Ucrânia como “prenda” pelo 300.º aniversário da unificação da Rússia e da Ucrânia. A Crimeia, terra por onde no decurso de séculos passou muita gente do Oriente e do Ocidente dada a sua privilegiada situação estratégica e que politicamente foi estando ao longo da sua história sob diversos domínios, foi incorporada no Império Russo em fins século XVIII.

Estrategicamente situada entre o Mar Negro e o mar Azov, ligada à Ucrânia por um istmo e separada da Rússia por um estreito, a Crimeia, russificada pelos czares e herdada já russa pela Revolução, dominantemente povoada por russos, foi palco de violentes batalhas durante a II Guerra Mundial, na sequência da qual foram deportados em 1944 os Tártaros da Crimeia, que todavia não eram etnicamente dominantes. Neste quadro, a sua integração na República Socialista e Soviética da Ucrânia, em 1954, não tinha qualquer justificação, salvo o facto irrelevante, do ponto de vista das nacionalidades, de constituir geograficamente uma espécie de apêndice do território ucraniano.

Exactamente por se tratar de um território sem cultura e sem tradições ucranianas, mas antes de fortíssima influência cultural e demográfica russa, se torna pouco compreensível a decisão de Khrushchev. O facto de ele ter vivido desde muito novo na Ucrânia, em Donetsk, nada poderá explicar já que tal circunstância, em qualquer contexto, seria absolutamente irrelevante para o efeito em causa; também não se vislumbra qual a racionalidade de uma decisão colegial que aliás só poderia dar lugar a novas mexidas num xadrez complexo e sempre muito sensível como era o das fronteiras e territórios das repúblicas federadas; como último ratio poderá aventar-se o facto de a integração constituir uma espécie de dádiva ao Partido Comunista da Ucrânia retribuível com o apoio à posição de Khrushchev no Kremlin – uma posição que, como se sabe agora, nunca esteve muito consolidada.

Seja como for, a verdade é que para além das naturais dificuldades e problemas geoestratégicos levantados pela desagregação da URSS que afectam em primeira linha a actual Federação Russa, como parte principal dessa “herança” e grande potência mundial, nomeadamente no plano militar, essa desagregação não deixou ainda de suscitar desde há mais duas décadas a velha voracidade das potências europeias pelo alargamento das suas áreas de influência e a tentação hegemónica dos Estados Unidos nos quatro cantos do mundo. Por outro lado, para além dos problemas levantados pela própria desagregação e da recomposição de forças que ela originou, há ainda os problemas resultantes das “questões mal resolvidas” que ressurgem em momentos de crise com inusitada ferocidade como é agora o caso da Crimeia e também já foi num passado recente o da Abkasia e da Ossétia do Sul, além do de Nagorno-Karabakh

E ninguém pode esperar, principalmente com base nos “procedimentos” recentemente usados na Ucrânia, que uma grande potência como a Rússia assista impassível ao desenrolar de acontecimentos da maior importância na proximidade das duas fronteiras, que afectam os seus interesses nacionais e a sua segurança, sabendo-se que esses mesmos acontecimentos, para além das razões endógenas que os ditaram, estão sendo aproveitados e instigados por outros países para defesa dos seus próprios interesses e conquista de posições geoestratégicas.

As coisas são como são e um dos fenómenos q não pode nem deve ser desprezado nos tempos q correm, por mais q se pense o contrário, é problema nacional q tende sempre a sobrepor-se às demais considerações, não passando a defesa de posições ideológicas, como aquelas q o Ocidente invocava durante a G.Fria e ...


De inimigos e/ou falsos ... a 28 de Fevereiro de 2014 às 09:34

IMPORTANTE É IDENTIFICAR O INIMIGO

Estava longe, muito longe, quando os últimos, e até agora mais significativos, episódios da batalha de Kiev pela conquista da Ucrânia tiveram lugar e nem sequer tive oportunidade de participar no debate que por cá se ia fazendo.

Limitei-me a acompanhar o desfile, em uníssono, das declarações que as televisões do “mundo ocidental” iam registando de Cristina Lagarde, de Durão Barroso, de John Kerry, de Obama, de Merkel, do secretário geral da NATO, do primeiro ministro polaco, dos “investidores de Wall Street, das agências de rating, enfim, da “Família”. E se por acaso não soubesse o que se passava teria ficado elucidado. Só estranhei que naquele coro de aplausos faltasse a voz do “Lampião” tanto mais que a “Maria Bonita” também andava feita tonta pelas praças de Kiev a falar de democracia…

Concluindo: a grande ameaça à democracia na Europa vem da União Europeia, ponta de lança do capital plutocrático, que não hesita em aliar-se aos herdeiros dos colaboracionistas de Hitler e a bandidos de profissão para integrar no domínio plutocrático dos seus mandantes mais uns milhares de quilómetros quadrados.


Por isso, hoje, perante a fragilidade das forças de esquerda, incapazes de se recompor da derrota sofrida nas últimas décadas do século passado, tudo o que se oponha ao neoliberalismo e à plutocracia do capital financeiro é estrategicamente positivo, mesmo quando protagonizado por forças de direita, pela razão muito simples de o dano causado por estas forças conservadoras aos ideais de esquerda ser incomparavelmente menos grave e muito menos duradoiro que o infligido pela forças que a União Europeia (e, obviamente, os Estados Unidos) representam, já que estas forças encerram no seu bojo a destruição por muitos, muitos anos, da ideia de democracia…como todos os dias se comprova e infelizmente se consolida apesar de esse inexorável movimento nem sempre ser compreendido pela generalidade das pessoas.

-por JM Correia Pinto , Politeia, 25/2/2014


De Russia:perseguição aos 'offshores' e ... a 16 de Dezembro de 2013 às 15:04

O humanismo de Putin

(Sol, 16 de Dezembro, 2013por Nuno Escobar de Lima)

Expectativas sobre alcance da amnistia presidencial variam entre os 1.300 e os 100 mil abrangidos.

No discurso que assinalou o 20.º aniversário da Constituição, Vladimir Putin anunciou uma perseguição aos paraísos fiscais, a construção de 25 milhões de metros quadrados em habitações para a classe média e uma “Rússia sem aspirações hegemónicas” apesar dos 510 mil milhões de euros reservados para a indústria militar durante a próxima década.
O que o Presidente russo não referiu foi a proposta de amnistia que apresentou à Duma na segunda-feira como uma “acção de carácter conciliatório” que “enfatiza o humanismo do Estado”. A proposta não foi tornada pública e sabe-se apenas que a iniciativa será votada até ao final do ano num Parlamento controlado pelo partido do Presidente. Com prisões habitadas por figuras da oposição, músicos críticos do regime e activistas da Greenpeace, restam as diferentes interpretações de quem já teve acesso ao texto.

Segundo Vladimir Vasilyev, vice-presidente da Duma, serão à volta de 25 mil os abrangidos: “Cerca de 1.300 serão libertados, 17.500 terão perdoadas as penas suspensas e serão retiradas as acusações em seis mil processos”. Num dos seus últimos textos noticiosos, já depois de Putin ter anunciado o seu fim na segunda-feira, a agência estatal Ria Novosti previa que “o número de pessoas que podem ser libertadas estará entre as 50 mil e as 100 mil”.

Confirmando a expectativa de ver 1.335 actuais detidos a receber ordem de libertação, os conselheiros presidenciais para os Direitos Humanos mostram desilusão: “Esta proposta tira-nos a oportunidade de aliviar as tensões sociais”, afirmou Igor Pastukhov, lembrando que o número representa apenas 0,5% dos actuais detidos em todo o país. Já Lyudmila Alexeyeva, que se demitiu do cargo de conselheira por discordar com a política de Direitos Humanos de Putin, afirmou que fica “feliz por cada um dos libertados” mas “gostaria de ver uma amnistia para todos os presos políticos”.

Chegará o humanismo de Putin para libertar as duas artistas das Pussy Riot detidas desde a actuação na Catedral de Moscovo? “Espero que sim”, afirma a advogada Irina Khrunova. Se não houver perdão para o “vandalismo” de que são acusadas, poderão ser incluídas no grupo de mães detidas por ofensas menores. O grupo de activistas da Greenpeace detidos em Setembro após um protesto contra a exploração de petróleo no Árctico também poderá ver as acusações retiradas, segundo Mikhail Fedotov, outro conselheiro presidencial.

Quem não deverá ter a mesma sorte é o antigo oligarca transformado em opositor do regime, Mikhail Khodorkovsky. O primeiro-ministro Medvedev explicou que a amnistia “não abrangerá crimes financeiros”.

nuno.e.lima@sol.pt

Tags: Vladimir Putin, Internacional, Rússia


De Expansionismo Alemão a Leste e Sul... a 16 de Dezembro de 2013 às 11:19
A era alemã em Kiev

(-por D. Oliveira, Arrastão, 16/12/2013)


Nas visões maniqueístas do que se passa na Ucrânia, teremos dois campos:
dum lado o campo ocidental, pró-União Europeia e obviamente democrático, do outro o campo pró-russo, anacrónico e, claro, antidemocrático.
Como sempre as coisas são um pouco mais complicadas. A divisão entre o leste e o oeste, entre os mais próximos a Rússia e os mais ligados ao resto da Europa, é histórica e, vale a pena dizê-lo, nem sempre permite leituras muito românticas da realidade. O nacionalismo atirrusso (anterior à prórpia URSS) ucraniano teve, na II Guerra Mundial, por razões que a bárbara história do estalinismo pode ajudar a compreender, momentos pouco gloriosos. Basta recordar que foi dado, pelo anterior presidente, o "eurpeísta" Viktor Yushchenko, o título de "herói da Ucrânia" a Stepan Bandera, líder histórico do nacionalismo ucraniano que manteve um colaboracionismo declarado e activo com os ocupantes nazis enquanto isso foi da sua conveniência.

O que espanta é que a história da Europa, repleta de ressentimentos e ódios, ainda deixe espaço para histórias da carochinha.
Foi, aliás, comovente ver Durão Barroso manifestar o seu profundo incómodo com as cargas policiais em Kiev (que também me indignaram) depois de quase todos as capitais dos países em crise na Europa terem sido varridas, nos últimos três anos, à bastonada sem um "ái" da Comissão Europeia.

Uma das principais figuras na oposição ao presidente "pró-russo" Viktor Ianukovich é o pugislista Vitali Klitschko, provável candidato às próximas presidenciais.
A sua fortíssima ligação a Angela Merkel é sobejamente conhecida. Viveu nove anos na Alemanha (é, aliás, lá que paga os seus impostos), há um ano participou no congresso da CDU, em Hanover, e a sua Aliança Democrática Ucraniana para a Reforma (formada em 2010 e já membro observador do PPE) tem recebido, segundo o Der Spiegel, apoio financeiro, logístico e de formação política dos conservadores alemães.
O anterior ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Guido Westerwelle (do FDP), encontrou-se mesmo, em Kiev, na cimeira da OSCE, com os manifestantes não tendo mantido qualquer contacto com o governo do país anfitrião, naquilo que foi justamente lido como uma evidente interferência na vida interna da Ucrânia.

É absolutamente compreensível que uma parte razoável dos ucrânianos se queira ver livre do CERCO russo (e da sua união aduaneira), que ABUSA dos parceiros e usa da chantagem para os vergar (por exemplo, através de RUINOSOS contratos de fornecimento de gás).
Ainda assim, as posições "pró-europeias" e "pró-russas" dividem o país em partes quase iguais.

E Portugal será um dos últimos países europeus a poder olhar para a Alemanha como um parceiro incapaz de comparáveis tropelias
. Isto apesar de Rui Machete, num momento de humor, ter protestado contra as pressões russas sobre os ucrânianos.
Ser pressionado, pelo governo alemão, pela Comissão Europeia, pelo regime angolano ou seja por quem for, é coisa que apenas queremos reservar para nós próprios.

O meu conhecimento sobre o assunto não me permite ter uma posição clara sobre a situação ucraniana, mas permite-me garantir que são a Alemanha, e não essa ficção que damos o nome da União Europeia (com uma ténue relação com um projeto europeu em que nos empenhamos há quase três décadas), e a Rússia que estão a jogar os seus INTERESSES na Ucrânia.
Que uma e outra se vão imiscuindo nos assuntos internos daquele país por mero interesse económico.
E que não estamos a assistir a uma revisitação dos velhos confrontos da GUERRA fria mas apenas a um confronto ECONÓMICO entre a Alemanha (que quer o acordo de parceria) e a Rússia (com a sua união aduaneira) que também se assiste, por exemplo, na Moldávia (onde a maioria da população está do lado das pretensões russas).

Das duas uma: ...


De Guerra económica e alargam. UE. a 16 de Dezembro de 2013 às 11:26
A era alemã em Kiev

(-por D. Oliveira, Arrastão, 16/12/2013)
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...

Das duas uma:
ou acreditamos que assistimos em Kiev a uma luta entre forças democráticas apoiadas por Bruxelas (que se tem esquecido desse combate na Hungria, que faz parte da União)
e as forças antidemocráticas comandadas por Moscovo, e estamos obrigados a um gesto de solidariedade,
ou percebemos que valores bem mais baixos ali se jogam.
E, não depositando nós a esperança do futuro da democracia europeia nas mãos da senhora Merkel e dos fantoches que ela vá inventando, resta-nos o mais puro dos pragmatismos:

PORTUGAL não tem, como qualquer país periférico europeu, NENHUM interesse na continuação do ALARGAMENTO da União Europeia para leste.

A paz da Europa também não ganha nada com a intensificação do domínio alemão em regiões de influência historicamente russa.
Porque é a isso mesmo que estamos a assistir:
enquanto Merkel verga, através do euro, a Europa ocidental,
vai conquistando a Europa oriental aos russos.
E, como devíamos já ter aprendido, nunca é boa ideia um só país concentrar tanto poder na Europa.

Quem julgue que o "europeísmo" e a "democracia" têm alguma coisa a ver com este filme ainda não percebeu bem o que se está a passar na Europa.
Serei insuspeito, por o que já escrevi sobre a tenebrosa figura, de qualquer simpatia por Vladimir Putin (ele mesmo, quando os inimigos eram os perigosos muçulmanos, vendido há uns anos como um democrata), mas sei em que momento estamos na história da Europa.
Por cá, entrámos definitivamente na era alemã. E é isso mesmo que se joga em Kiev.

Publicado no Expresso Online


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