De Ensino e Inv.: facilitismo e cruz.ideolo a 14 de Janeiro de 2014 às 14:58
Nuno Crato: o facilitismo e a cruzada ideológica

Há liceus históricos de Lisboa literalmente a cair e a escola pública conhece sucessivos apertos orçamentais, mas para o privado há sempre mais e mais dinheiro.

[André Freire, publico.pt, 08-01-2014]

Como outros da sua geração, o ministro da Educação e da Ciência (MEC), Nuno Crato (NC), passou pelo maoísmo e depois converteu-se às virtudes do neoliberalismo.
Coerentemente, o seu consulado tem sido marcado pelo favorecimento do ensino privado, subalternizando até as funções constitucionais para que foi investido:
“O Estado criará uma rede de estabelecimentos públicos de ensino que cubra as necessidades de toda a população” (art.º 75, CRP).
Mais: na oposição, nas suas atividades de divulgador “científico”, Crato apresentava-se, e era apresentado, como uma espécie de campeão da exigência e do rigor no ensino.

Porém, o facilitismo, a par do favorecimento de interesses privados, revelou-se em todo o seu esplendor em várias ações recentes da sua política científica, nomeadamente com o que se passou com a nomeação do Conselho Científico das Ciências Sociais e das Humanidades (CCCSH) mas também com a constituição de pelo menos um dos júris para a atribuição de bolsas de doutoramento e de pós-doutoramento.
Semelhante padrão é discernível no ensino secundário.

Antes de falar do se passou com o CCCSH, vale a pena fazer duas notas de contextualização recuperando aquilo que Diogo Ramada Curto (DRC) classificou como o “inverno da investigação” em humanidades e ciências sociais (PÚBLICO, 3/1/14),
e que de algum modo teria antecedido (casualmente?) o descalabro que se está a verificar com o consulado de NC.
Por um lado, trata-se de uma certa burocratização das funções de ensino e de investigação que não só sobrecarrega os docentes e investigadores
(relatórios de todo o tipo, extensos formulários para avaliação dos docentes e dos investigadores, preenchimento dos mesmos curricula vitae em vários formatos, extensos formulários para a avaliação dos cursos e dos centros de investigação, etc.)
como promove uma certa casta de administradores das instituições especializados nestas funções e que paulatinamente se desligam do ensino e da investigação.
Pessoalmente, creio que há vários elementos positivos nestas avaliações (veja-se o trabalho de avaliação dos centros de investigação por peritos nacionais e internacionais ou dos cursos superiores pela A3ES), sendo que, do meu ponto de vista,
o problema é mais o de um excesso de burocratização (multiplicam-se os extensos formulários, as duplicações dos mesmos, etc.),
de falta de consequências das avaliações (ausência de concursos para progressão na carreira, avaliação de desempenho sem consequências remuneratórias)
e de oportunidades para os mais jovens (e talentosos).
O segundo fator estrutural apontado por DRC para o “inverno da investigação” é a ênfase na bibliometria.
Concordo parcialmente. Ou seja, por um lado, há de facto um certo fetichismo bibliométrico:
seja pela desvalorização dos livros,
seja pela não inclusão de muitas revistas de qualidade nas bases internacionais,
seja pela desvalorização de publicações em línguas que não a inglesa,
seja pelo afunilamento (pelos “novos cães de guarda”) dos temas de investigação e publicação.

A desvalorização das publicações em português, em geral, e dos livros, em particular, é tanto mais grave quanto o português é uma língua de projeção internacional que devia ser defendida e promovida como tal (vide Mário Vieira de Carvalho, PÚBLICO, 29/12/13),
e a publicação dos resultados das ciências sociais em livro, nomeadamente na língua materna, é um elemento central de devolução do investimento que a sociedade faz nestas áreas.
Mas, por outro lado, a publicação em revistas internacionais com arbitragem científica anónima é uma das formas adequadas de internacionalização da investigação, introduz uma chancela de qualidade (que, não sendo a única, é uma chancela de grande valor),
assegura vastas audiências especializadas e, em regra, assegura uma certa imparcialidade na avaliação (double blind referee: avaliadores e avaliados desconhecem-se mutuamente),
permitindo precisamente evitar situações de favorecimento como algumas das que observamos no CCCSH.

A direita tem em regra ...


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