De Autodeterminação e dir.Hum, vs Globaliza a 6 de Janeiro de 2014 às 14:34
A autodeterminação, lembram-se?
(por JOSÉ MANUEL PUREZA, 3/1/2014)

Talvez o efeito maior do momento neoliberal da longa globalização tenha sido o anátema quase total lançado sobre o valor político da autodeterminação. E talvez o efeito maior da atual crise desse momento seja, em quase todas as regiões do mundo, o retorno a esse valor.

Os dois lados da ambivalência política da globalização - feita quer de integração dos mercados financeiros quer de mundialização das lutas pelos direitos humanos - juntaram-se, a partir da década de oitenta,~
na produção de um discurso crítico da soberania dos Estados, remetida para a categoria de resíduo político.
Vivemos os últimos trinta anos sob o manto dessa desconsideração dos Estados e das suas soberanias, tidas como obstáculos quer ao pleno funcionamento dos mercados quer ao pleno cumprimento de padrões de boa governação amigos dos direitos e da dignidade.

O resultado foi a súbita desvalorização do conceito de autodeterminação no debate político internacional.
O que fora a grande referência dos movimentos de libertação do pós-guerra, animando uma geração de lutas que mudou por inteiro o mapa do mundo, saiu quase totalmente de cena,
castigada ora por supostamente camuflar situações de estatalidade inviável, ora por servir de bandeira a mobilizações desalinhadas com o primado do mercado mundial.
Tomando esse alinhamento como critério, louvou-se efemeramente a retórica de autodeterminação presente nas revoltas ocorridas no Leste europeu ou no mundo árabe, ao mesmo tempo que se eliminava a palavra - e o seu conteúdo político transformador - do vocabulário aplicado à América Latina ou a África, por exemplo.

Para preencher esse vazio alguns crentes na regulação do momento neoliberal da globalização sugerem a hipótese de um constitucionalismo global.
E, generosos, põem no centro desse constitucionalismo global a uniformização de um catálogo de direitos fundamentais e dos cânones do Estado de direito.
Sucede, porém, que a vida não lhes dá razão.
O constitucionalismo global efetivamente existente, não o dos livros e das conferências mas o da política concreta que está aí, é afinal o da constitucionalização do próprio neoliberalismo.
Veja-se, no espaço da União Europeia, o valor constitucional prático que se pretende conferir à "regra de ouro" do equilíbrio orçamental para a atirar quer
contra os governos que decidam seguir uma orientação de intervenção contracíclica, por exemplo, quer
contra os próprios tribunais constitucionais nacionais.
Veja-se, em escala mais ampla, o que resultará da aprovação da Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (vulgo, tratado de comércio livre entre a União Europeia e os Estados Unidos),
com os investidores (como a Monsanto, a Philip Morris ou a Microsoft)
a poderem processar os governos nacionais diante de um tribunal ad hoc
se estes adotarem legislações nacionais que aqueles considerem prejudiciais para a sua liberdade de negócios.

Este constitucionalismo global efetivo que rouba toda a autonomia - incluindo a de determinar o conteúdo das leis - aos Estados e aos povos que eles é suposto representarem
é por isso mesmo um ataque letal à democracia.

A Europa do Sul está a trazer de volta a autodeterminação para o centro da política.
Porque é aqui e agora que os efeitos do discurso encantatório da integração política e económica se estão a exibir em toda a sua perversidade.
Aqui, integração e perda da autodeterminação estão a ser sinónimos e os dois estão a significar austeridade sem fim e desdém da democracia.
Unir os povos do Sul da Europa para resgatar a nossa autodeterminação contra o constitu- cionalismo global ordoliberal que nos amarfanha é hoje um imperativo da democracia.
Essa é a questão essencial das próximas eleições europeias.


De Austeridade p. 80 a 98%, + riqueza p.1%. a 7 de Janeiro de 2014 às 10:47
"Austeridade": tirar aos pobres e dar aos multimilionários
(-por R.Narciso, PuxaPalavra, 21/12/2013)

A política de austeridade imposta na UE pela Alemanha a Portugal, e outros "países do sul" resume-se na essência a :
salvar os bancos e o sistema financeiro em geral, à custa dos cidadãos suas vítimas. Mas não de todos os cidadãos.
À custa principalmente (da classe média e ) dos mais pobres, poupando ou aumentando as fortunas dos mais ricos.

Aconselho-vos o livro de Mark Blyth, "A AUSTERIDADE - A História de uma ideia perigosa" e como aperitivo o vídeo em http://youtu.be/E1Kzp5EVUWg.
Mark Blyth calcula em cerca de 3 triliões de euros, à escala global, o buraco gerado pelo sistema financeiro internacional em consequência da sua desenfreada e aventureira ação de agiotagem, com as super alavancagens e a criação de produtos financeiros cada vez mais sofisticados e fora de controlo para sugar dinheiro.

A política de austeridade representa uma monstruosa transferência de riqueza dos que menos têm para os que têm mais e
sem que sirva sequer os objetivos que oficialmente se propões atingir, antes agravando-os como se vê em Portugal, com a dívida do Estado a crescer a par do agravamento da austeridade e do empobrecimento.

A política de austeridade imposta a Portugal pela Alemanha através da União Europeia, que controla, através do Eurogrupo que domina, através do BCE em que manda, está a levar o país aceleradamente ao desastre.
Isso não seria possível se o governo de Passos Coelho/Paulo Portas amparado por Cavaco Silva não se tivesse assumido - traindo quem o elegeu - como representante dos credores, como defensor dos interesses dos "mercados".
Se este governo legitimado pelo voto não tivesse perdido a legitimidade ao contrariar tudo o que prometeu se este governo não se tivesse revelado
uma espécie de capataz de interesses estrangeiros, de Merkel, do FMI, dos credores e agiotas internacionais, a situação seria diferente apesar dos constrangimentos da União Europeia.
Apesar do contexto europeu adverso não é indiferente ter um governo que defenda Portugal e os portugueses ou
um governo como o destes "cipaios" que querem ir além da Tróica, cujo sentido da dignidadede nacional é o de se colocarem ao nível dos empregados do BCE, da UE ou do FMI e de possivelmente aspirarem a uma confortável recompensa dos seus tutores logo que corridos pelos portugueses do governo.


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