De Heróis, Valores, Populismo e Panteão a 14 de Janeiro de 2014 às 10:36

Eusébio e a democracia pop

por Daniel Oliveira, 9/1/2014


Não faz sentido ter um Panteão e não ser conservador ou até mesmo elitista quanto à sua função. Ou achamos que o Panteão é um "museu de mortos", como definiu Miguel Sousa Tavares, e não queremos lá os nossos heróis, ou consideramos que é, como recordou Henrique Monteiro num texto que subscrevo na íntegra , o lugar para adorarmos todos os nossos "deuses". E então temos critérios muito restritivos. E o critério é determinado pelo olhar que temos sobre a nossa própria história e o que queremos, como comunidade, que dela se imortalize. Ou seja, o nosso museu de mortos, o nosso templo de todos os deuses, terá de ser o retrato do nosso ideal de Nação, ela própria uma idealização de valores e supostas verdades históricas.

Não se trata, portanto, de medir a importância de Eusébio, que a overdose mediática desta semana deixou clara. Nem sequer da sua relevância. Trata-se de saber o que é que a sua trasladação para o Panteão pretende dizer de nós. Que ideal de Nação a sua presença ali representa. Não é por ter sido um grande jogador, um grande português ou um grande benfiquista que essa trasladação é defensável. Se essa é a justificação, parece-me muitíssimo mais justo e até mais bonito fazer o que propôs Miguel Sousa Tavares: ter Eusébio na capela do Estádio da Luz.

Se a questão fosse a importância de Eusébio, seria difícil justificar a ausência, no Panteão, de Egas Moniz, José Saramago, Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Vitorino Nemésio, Natália Correia, Sophia de Mello Breyner, António Sérgio, Álvaro Cunhal ou Sá Carneiro. Fico pelos nomes referidos pelo Henrique Monteiro , a que acrescento o que mais me choca: Aristides de Sousa Mendes. Exatamente pelo valor moral que a sua história transmite e não pela sua relevância nacional. Tem de haver uma justificação política, cultural ou histórica que nos leva a juntar Eusébio a tão curta lista de "deuses". É que, para além dos cenotáfios de figuras a que ele nunca se poderia comparar, quase só existem escritores e Presidentes no Panteão.

Houve justificação para lá pôr Óscar Carmona e Sidónio Pais. Erradas, do meu ponto de vista. Mas corresponderam ao olhar que o poder político de então tinha da Nação e queria passar para o povo. Houve outra justificação para lá ter Humberto Delgado, que não era escritor nem foi Presidente. Correspondia a um gesto de justiça contra uma fraude eleitoral e uma homenagem aos que combateram a ditadura. Até a presença de Amália, muito mais discutível, pode ser defendida pela ponte que conseguiu fazer entre a cultura erudita e a cultura popular tradicional, juntando o fado a grandes escritores. Sem reduzir a sua grandeza como futebolista, a trasladação de Eusébio parece-me corresponder a um outro critério: o da popularidade. Dirão que é o critério democrático. Eu respondo que a coisa é mais complicada. A popularidade é fugaz (mesmo que dure décadas), enquanto as representações de supostos "valores nacionais", em democracia e fora dela, pelo menos aspiram a ser perenes.

O equívoco está bem representado na afirmação de Mozer, ao comparar Eusébio a Nelson Mandela. Mandela é um marco na história duma nação. Representa valores facilmente identificáveis e que os sul-africanos querem que subsistam muito tempo depois da sua morte: a começar pela igualdade e pela liberdade. Eusébio, no papel que desempenhou na sociedade portuguesa, não corresponde a nenhum dos valores centrais que nos dão o sentimento de pertença a uma comunidade. Deu-nos alegrias, não nos deu a liberdade nem mudou a nossa história. O paralelo entre os dois é fácil de identificar: morreram no último mês e os funerais tiveram direito a grande cobertura mediática. Este é o tempo e o modo em que a memória coletiva hoje trabalha.

É obviamente discutível o meu ponto de vista sobre a ida de Eusébio para o Panteão. Há dezenas de argumentos contrários a estes e igualmente aceitáveis. Só que, quer estes quer os opostos, quando estamos a falar da fixação da imagem que queremos ter do nosso próprio País, exigem tempo de maturação (que dará distanciamento, não obrigatoriamente objetividade). Por isso, tal como recordou Henrique Monteiro, se exigiam cinco anos de espera para tomar esta decisão. E foi mudado para um ano, ...


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