Ser progressista

O Governo de Sócrates foi um dos mais progressistas que já tivemos desde o 25 de Abril. O progresso efectivo não depende de simples declarações ideológicas, nem de repetir à exaustação a palavra esquerda, e muito menos, de se insistir em soluções passadistas, tantas delas, testadas e que demonstraram ineficácia e perversidade.

Muita desta gente que não se cansa de repetir que é de esquerda e que é preciso mais esquerda defende afinal ideias e soluções que são claramente conservadoras e mesmo reaccionárias. Há um problema óbvio com este esquerdismo maníaco-obsessivo que à falta de ideias novas insiste nos pregões antigos. Ora, ser progressista não é um anúncio, é uma atitude. Para se ser de esquerda não basta dizê-lo, é preciso defender ideias progressistas.

Este Governo foi particularmente progressista em duas áreas fundamentais. No desenvolvimento tecnológico e na criação de políticas sociais assentes numa cultura da cidadania e da responsabilidade.

As sociedades evoluem a par da evolução tecnológica. É esta que impulsiona os novos modos de existência, a melhoria das condições de vida, a libertação social. Nunca em Portugal se deu um salto qualitativo tão decisivo neste domínio. Os portugueses entendem agora as vantagens de se envolverem com os novos meios tecnológicos, já que isso os torna mais activos, mais capazes, mais autónomos, mais aptos para construir as suas próprias vidas. Ao contrário do que prognosticaram os habituais pregadores da desgraça, é impressionante como tanta gente adquiriu novas competências nestes últimos anos. Tanto os jovens como os mais velhos.

Há menos de uma década poucos imaginavam serem capazes de manipular um computador, trabalhar com uma folha Excel, enviar um email. Basta pensar num célebre debate televisivo em que Guterres admitia que não sabia o que era um email e Paulo Portas afirmava, com aquele orgulho típico dos ignorantes, que ainda escrevia à mão. Ou, na dificuldade que José Magalhães teve em convencer os seus colegas deputados que o Parlamento devia ter um site.

Hoje Portugal exporta tecnologia. Hoje Portugal consegue fabricar um computador. Hoje Portugal é um exemplo nas tecnologias energéticas.

Foi graças a uma geração progressista, parte dela representada no actual governo, que esta importante revolução se operou. Sempre com as críticas, as piadinhas ignaras, a oposição enraivecida, daqueles que se dizem muito de esquerda e, claro, também de parte substancial da nossa tacanha direita.

Noutro domínio, o das políticas sociais, foram igualmente dados passos gigantescos. A esquerda comunista e bloquista defende que uma boa política social é dar dinheiro aos pobres.

Ou seja, não andam longe da caridade. Ora uma verdadeira política social é aquela que cria novas condições de vida, novas oportunidades, acesso a saberes e competências. Nunca se fez tanto neste domínio.

Estas políticas foram acompanhadas de uma nova postura no que respeita à cidadania, direitos e responsabilidades individuais. Por um lado impondo uma muito mais transparente e competente relação entre instituições e cidadãos. Na protecção contra os abusos das empresas, nos direitos dos consumidores, na melhoria de produtos e serviços, na informação prestada, nos deveres dos organismos públicos, na diminuição da burocracia. Os portugueses habituaram-se a protestar, são hoje mais conscientes dos seus direitos. Mas também das suas responsabilidades. A tão odiada avaliação dos professores mais não é do que a transformação de uma sociedade habituada à inércia e à incompetência, para uma outra em que se reconhece o mérito, a qualidade e, até, a ambição. O igualitarismo nivelado pela mediocridade, tão ao gosto do esquerdismo, não é de todo progressista. É altamente injusto.

Os portugueses são hoje, genericamente, mais prudentes nas estradas, mais atentos ao consumo excessivo do álcool, mais civilizados no reconhecimento das diferenças e dos direitos dos outros. Claro que ainda existe muita gente bruta e primitiva, mas importa perceber, a cada momento, se estamos a caminhar para melhor ou não. O progresso é isso.

Este Governo foi progressista na medida em que fez o País andar para a frente nas suas capacidades, direitos e responsabilidades. Promoveu importantes alterações, de facto e de mentalidade, na forma como nos organizamos colectivamente e nos comportamos individualmente.

Não vejo esse mesmo ímpeto nas propostas do esquerdismo. Vejo sim o medo de existir e um sistemático impulso de retrocesso anti-progressista. Mesmo com a boca cheia de esquerda.

[Leonel Moura, Jornal de Negócios]



Publicado por JL às 00:10 de 19.07.09 | link do post | comentar |

1 comentário:
De Gratuitidades a 20 de Julho de 2009 às 11:41
Gratuitidades
“Hoje Portugal exporta tecnologia. Hoje Portugal consegue fabricar um computador.”
A) _ Exporta Tecnologia!!! Não será uma afirmação muito vaga para enganar papalvo? Dos países do mesmo campeonato de Portugal, qual é o que não exporta tecnologia? Todos exportam tecnologia. Se todos exportam, porque é que Portugal não haveria também de exportar? Mas serão as exportações portuguesas mais substanciais que as de outros países seus concorrentes? Parece que não e a prová-lo o aumento corrente da balança de transacções com o consequente agravamento do défice externo.

B) Fabricamos computadores”
Não será mais correcto afirmar: - montamos computadores? Como montamos automóveis, auto-rádios, ou, ou… , mas isso também faz o Vietname, por exemplo.
Em tempos, não muito afastados, até fabricávamos satélites, lembram-se?
Eu tenho consciência que o país não se desenvolve se tiver uma atitude negativista sobre tudo o que é nacional, mas não é com atitudes irrealistas de hiper-valorização, para consumo interno, dos seus produtos que lá vai. Nem Salazar procedia assim e a globalização não tinha a dimensão que hoje tem.
Quanto aos serviços, não há dúvida que foram introduzidas medidas para reduzir a burocracia, algumas de iniciativa governamental, outras, nomeadamente ao nível da protecção do consumidor, impostas pela EU ainda que se queiram apadrinhar como nacionais e não europeias. Mas quais os resultados práticos? Poucos! Esbarram sempre no PÉSSIMO e CARO desempenho da Justiça ou na arrogância e irresponsabilidade da Administração e governo de que destaco como paradigma o célebre “livro amarelo”.
Talvez esteja na altura de deixarmos de proceder como a avestruz e desenterrar a cabeça da areia e perceber que a iliteracia, que se fomenta, não garante a estupidez que alguns desejam. Os eleitores, muitos, são iletrados, mas não parvos.


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