Terça-feira, 21 de Julho de 2009

O arranjinho apadrinhado por Manuel Alegre foi o mais rude golpe na sólida estratégia de Pedro Santana Lopes.

É inequívoco que a esquerda ganha muito com o acordo de Helena Roseta com António Costa para a Câmara de Lisboa. Por mais que Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã protestem e resistam, a verdade é que o arranjinho apadrinhado por Manuel Alegre foi o mais rude golpe, até ao momento, na sólida estratégia que Pedro Santana Lopes tem em marcha para regressar à autarquia da capital.

O PS é o principal beneficiado, claro. Mas, se a nível local nada podia ser mais perfeito, no plano nacional o consenso conseguido por António Costa aumenta ainda mais a pressão sobre José Sócrates. Não só porque alguém na sua posição teria sempre de demarcar-se do Governo para cativar o eleitorado à esquerda do PS, mas também porque Costa sempre esteve pouco disponível em ajudar Sócrates além do essencial. E agora menos ainda, depois de o primeiro-ministro ter perdido o estatuto de invencível na derrota das europeias.

A encruzilhada estreita-se, assim, para José Sócrates. Os caminhos da esquerda são convidativos mas, como se tem visto, implicam concessões muito elevadas às correntes alegristas. Os do centro, que conduziram o PS à maioria absoluta, têm agora no renascido PSD um concorrente à altura. Pelo meio, há ainda a crise internacional e a investigação do caso Freeport, variáveis imprevisíveis que podem desequilibrar as contas das legislativas a qualquer momento.

Se António Costa foi o único que saiu a ganhar em todas as frentes - até arrebanhou para a lista Fernando Nunes da Silva, o coordenador do estudo do ACP que arrasou o plano de mobilidade camarário -, Helena Roseta hipotecou muita da confiança conquistada junto da opinião pública desde que se desfiliou do PS.

O aparecimento dos independentes no panorama político nacional foi muito positivo para a nossa democracia. Pena que nenhum deles seja capaz de manter durante muito tempo uma verdadeira independência. Ainda no DN de 1 de Abril, Helena Roseta garantia: "Quem me quiser apoiar livremente que o faça, mas não vou sentar-me à mesa de negociações com ninguém. Quero manter a nossa autonomia." Está bem que era dia das mentiras, mas, em política, inversões de discurso tão bruscas costumam ser fatais. Mesmo quando se tem para trás um percurso positivo como o de Helena Roseta enquanto vereadora da Câmara de Lisboa.

[Rui Hortelão, Diário de Notícias]



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