De Abanar e mudar o sistema político a 28 de Maio de 2014 às 15:37
Os portugueses quiseram abanar o sistema político. Vamos a ver se isso foi entendido.

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1. Os partidos ditos do arco da governabilidade (PS, PSD e CDS) tiveram em conjunto um péssimo resultado, que obriga a reequacionar as condições de governabilidade do país e abre a porta à fragmentação do sistema político.
Se a lógica de resultados de domingo se transferisse para legislativas, PS, PSD e CDS, por exemplo, não teriam poder para fazer uma revisão constitucional sem um outro aliado, que poderia ter que ser Marinho Pinto, fazendo desse aliado o novo guardião da adaptação do regime a novos circunstancialismos.

2. A crise do sistema político que se veio juntar à crise económica e social e que varreu a Europa não provocou nenhum sismo em Portugal, mas gerou ventos fortes, criando duas novas forças políticas, ainda que ambas atravessadas por sérios problemas por resolver.
Como irá Marinho Pinto gerir a sua entrada na política pela via da mais desprestigiada das instituições parlamentares e da mais conotada com a inutilidade dos políticos contra a qual fez discurso?
Como irá o MPT gerir a sua transformação de partido ecologista em barriga de aluger de um Marinho Pinto tão nutrido de votos?

Como irá o Livre digerir a sua derrota, ainda que dando-lhe a possibilidade de aspirar a eleger deputados nas eleições legislativas?
Caminhará para o desaparecimento e reabsorção (como aconteceu recentemente com o MEP) ou encontrará um discurso que lhe permita solidificar-se e crescer?

3. O PSD e o CDS parecem estar a caminho de uma derrota anunciada que os apeará pelo menos da liderança do país.
Mas é patético que o PS pense que pode, a partir desta base e neste contexto, fazer uma campanha assente na reivindicação de uma maioria absoluta para a qual os portugueses definitivamente o não quiseram lançar.
Que plataforma oferecerá agora o PS aos portugueses?
O discurso moderado que todos percebem que antecipa o Bloco Central?
A tentativa de um governo solitário e fraco?
A ultrapassagem do Rubicão que implicaria uma parceria táctica com o PCP?
A reabsorção amigável ou hostil de Marinho Pinto?
(O Livre, para já, não tem força para ser variável significativa nesta questão).

4. Na minha leitura, os portugueses rejeitaram no domingo não apenas o PSD e o CDS mas também o governo de bloco central
que se afigura ainda o cenário mais provável (que não o que eu desejo) para manter o país governável.

Pode agora defender-se "outro" bloco central (dos '70'), mais alargado, como aquele movimento que uniu Bagão Félix, Ferreira Leite e João Cravinho no manifesto pela restruturação da dívida.
Ou pode ignorar-se que o PS perdeu no domingo o referendo ao seu rumo táctico na gestão da crise e seguir em frente.

5. Se o PS mantiver o rumo, parece-me que nasceu no domingo para Marinho Pinto e o Livre a oportunidade para se afirmarem
que o PCP e o BE desperdiçaram na gestão da crise, atirando o país para os braços de Passos Coelho.

Basta-lhes afirmar-se europeístas, mas contra a terapia da troika e o Pacto Orçamental
e posicionarem-se para querer ajudar um governo liderado pelo PS,
mas contra o bloco central e os vícios aparelhistas do partido que o conduziram a este imbatível poder interno sem força exterior.

Ou não foi isto que os portugueses disseram no domingo aos actores fundamentais do seu sistema político?


(- por Paulo Pedroso , 26/5/2014, http://bancocorrido.blogspot.pt/ )


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