De Neoliberal e integração Negativa a 28 de Maio de 2014 às 17:03
A abstenção como sucesso
João Galamba, 26 Mai 2014.

Mesmo tendo escrito este artigo antes de saber o resultado final das eleições, há algo que se pode dizer sem grande margem de erro:
o entusiasmo e a participação dos eleitores nas eleições para o parlamento europeu, que nunca foram famosos, não estão a aumentar, antes pelo contrário.

Quando as eleições de pouco ou nada servem para alterar o rumo da política europeia, este resultado torna-se inevitável.
Mas nem todos vêem o desinteresse e a desmobilização dos cidadãos como algo necessariamente negativo.

No seu artigo "The Economic Conditions of Interstate Federalism", publicado em 1939, Friedrich Hayek defende que uma ordem internacional pacífica e estável tem de ser uma união entre Estados que limite ao máximo a capacidade de intervenção de cada estado no funcionamento do mercado, anulando a maioria dos instrumentos nacionais de política económica, sem no entanto criar a nível supra-estadual quaisquer mecanismos de intervenção substitutivos.
Hayek defendia aquilo que na gíria ficou conhecido por processo de integração negativa, que, na prática, corresponde à
criação de uma ordem liberal federal que neutraliza a capacidade das instituições democráticas de interferirem no funcionamento dos mercados.

O famoso défice democrático não seria, para Hayek, uma degenerescência, mas sim um dos objectivos estratégicos de todo este processo.

Para Hayek, o consenso keynesiano e social-democrata que marcou a política europeia do pós-guerra, e que esteve na base da construção e aprofundamento do chamado modelo social europeu, tinha de ser desmantelado e substituído por um outro, de cariz essencialmente liberal.
Olhando para os desenvolvimentos da União Europeia desde finais dos anos 80, sobretudo desde Maastricht, é difícil não concluir que Hayek ganhou em toda a linha e que
o projecto europeu é hoje, na sua essência, uma máquina de liberalização das economias e das sociedades europeias.

O manietamento (crescente) dos Estados nacionais, o esvaziamento dos poderes económicos e orçamentais dos parlamentos,
o príncipio da concorrência (sobretudo fiscal) entre Estados, um banco central independente e sem qualquer mecanismo de escrutínio democrático,
a ideia de que o Estado Social e os direitos dos trabalhadores são um entrave ao desenvolvimento e crescimento económico;
enfim, tudo isto corresponde a uma utopia liberal que, tragicamente, tem vindo a ser institucionalizada na Europa e que se impõe sob o signo da necessidade.

Numa entrevista recente à jornalista Teresa de Sousa, Vítor Gaspar - que sabe do que fala - reconheceu a influência das ideias de Hayek no processo de construção da UEM e diz mesmo que
esse caminho, o defendido por um dos pais da contra-revolução neoliberal, "é precisamente o caminho que estamos a seguir na Europa".

Quando o objectivo é esvaziar a democracia, o desencanto e a alienação dos cidadãos não são defeito, são feitio.
Bem vindos ao deserto da pós-democracia.

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De Eurocracia e governança neoliberal a 29 de Maio de 2014 às 12:29

Europeísmo

«O grande problema da União Europeia é que andou depressa de mais do ponto de vista burocrático e da "governança", e devagar de mais do ponto de vista democrático e da legitimidade política. Cavou-se deste modo um abismo entre, por um lado, os seus burocratas e os seus líderes e, por outro lado, os seus povos.

O europeísmo procurou ser a ideologia optimista deste abismo, mas o seu colapso está hoje bem à vista. Trata-se de uma espécie de ideologia sem política, tão vaga como ilusória, mas que foi distraindo os europeus das transformações de fundo que ocorriam no mundo e punham cada vez mais em causa o seu status. (...)

A ideologia europeísta acabou deste modo por conduzir ao facto de, quanto mais Bruxelas pesa na Europa, menos a Europa pesa no mundo. (...) Depois das eleições de domingo passado, o risco desta inércia mantém-se – mas o mundo vai continuar a mudar, com todos os seus naturais imprevistos.»

Manuel Maria Carrilho , via http://entreasbrumasdamemoria.blogspot.pt/ , 29/5/2014


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