Quarta-feira, 19.08.09

A  entrevista concedida por Ferro Rodrigues, no passado fim-de-semana, ao "Expresso" eriçou o histórico Manuel Alegre. Melhor: deve ter eriçado muito mais gente, mas só o deputado-poeta se deu ao trabalho de traduzir em palavras o pensamento dos "camaradas". Em traço grosso, Ferro defendeu que, no caso de o seu partido vencer as eleições legislativas sem maioria absoluta (cenário bastante provável), deve procurar fazer uma coligação com o PCP ou com o Bloco de Esquerda, virando-se para o PSD apenas e só se as duas primeiras tentativas saírem frustradas. Alegre respondeu-lhe com o óbvio: como comunistas e bloquistas já disseram não estar interessados no "negócio", o ex-secretário--geral do PS está a propor a reedição do bloco central.

Como se sabe, Ferro Rodrigues não está sozinho. Figuras gradas da democracia como Jorge Sampaio, Mário Soares e Cavaco Silva já abordaram o tema. A própria Manuela Ferreira Leite, que começou por dizer que só passando ao estado de "doida" (sic) aceitaria trabalhar com Sócrates no Governo, foi amenizando a linguagem, ao ponto de nos confundir. Quer ou não quer? Aceita ou não aceita?

O mais provável é que não queira e não aceite. Por uma simples e prosaica razão: Sócrates e Ferreira Leite odeiam-se cordialmente. O que os separa, na atitude, no pensamento e na forma de agir é muito mais forte do que aquilo que eventualmente os pudesse unir. Eles sabem disso. Eles sabem que um acordo PS/PSD duraria pouco, muito pouco tempo. Eles sabem que as consequências para o país de uma rápida crise pós-eleições seria devastadora. Nem um nem outro estão disponíveis para carregar esse ónus durante o resto das suas vidas.

Deste cenário só há duas saídas. Ou o PS se coliga com o PCP e com o BE, ou Sócrates e Ferreira Leite cedem o passo a quem se consiga entender. A primeira possibilidade é um susto: o país não pode dar-se ao luxo de ter no Governo quem lute ainda hoje pela nacionalização da Banca e de empresas consideradas estratégicas, como a Galp, a EDP ou a PT. Acresce que, no caso do Bloco, o partido deixaria de ter graça e perderia a hipótese de usar diariamente a demagogia. Ou seja: daria um passo em direcção ao abismo.

Resta a segunda possibilidade. O país chega, depois das legislativas, a um impasse que obriga Cavaco Silva a intervir. Sócrates e Ferreira Leite não cedem. PS e PSD procuram novos líderes. É neste quadro que devem ser lidas intervenções como as de Ferro Rodrigues ou do seu apaniguado Paulo Pedroso. É neste quadro que devem ser lidas intervenções e posicionamentos de "barrosistas" como Nuno Morais Sarmento. Paulo Portas assiste a tudo sereno. À espera que lhe caia um naco de poder no colo. [Jornal de Notícias, Paulo Ferreira]



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Quarta-feira, 05.08.09

Num país com uma taxa de pobreza que nos devia envergonhar colectivamente, há quem tenha dificuldade em definir o que é ser rico. Paradoxalmente, nem por cá, nem na Europa a que pertencemos, há dificuldade em definir o que é ser pobre.

Nas sociedades democráticas e para além da ausência de níveis mínimos de subsistência que caracterizam a privação absoluta, a pobreza é um conceito relativo. Não por acaso, existe uma consagração estatística do risco de pobreza e, na Europa, pobres são todos os que têm rendimentos inferiores em 60% à mediana. Aliás, o leitor estará certamente recordado: cada vez que o Eurostat publica os dados sobre a taxa de pobreza na Europa, assistimos em Portugal a um movimento de indignação colectiva com a persistência e com a dimensão do fenómeno. A indignação é totalmente justa, mas não deixa de ser estranho que desapareça com a mesma intensidade com que surge. Na verdade, só somos capazes de definir quem são os pobres porque somos capazes de saber quem são os que têm rendimentos médios e, naturalmente, aqueles que são ricos. Acontece que, surpresa, em Portugal - o tal país com níveis intoleráveis de pobreza - hesitamos perante a necessidade de definir quem são, relativamente, os ricos.

Os números talvez ajudem. A linha de pobreza em Portugal encontra-se em redor dos 400 euros; o valor da pensão social é de 187 euros, que é também o referencial para o rendimento social de inserção; o salário mínimo está nos 450 euros e a mediana salarial em redor dos 700 euros. Temo dizê-lo, mas em Portugal, quem ganha 8 vezes a mediana só pode ser considerado rico. Não pode sequer ser considerado como estando próximo da classe média. Sintomaticamente, se olharmos para os rendimentos brutos declarados para efeitos de IRS (ano 2006), apenas 4,4% dos agregados portugueses se encontravam no escalão correspondente a um rendimento mensal em redor dos 5 mil euros. Bem sei que os rendimentos declarados têm inúmeros problemas, mas ainda assim são um indicador fiável e não vejo como seja possível pensarmos que menos de 5% da população forma a classe média. Na verdade, vejo: não fazendo a mínima ideia do que são, de facto, os rendimentos dos portugueses.

Perante isto, não só há quem não consiga definir o que é rico, como, pasme-se, defende que o sistema fiscal não deve servir para corrigir disparidades de rendimentos. Manuela Ferreira Leite, com a sensibilidade social que a caracteriza, tem a peculiaridade de fazer a quadratura do círculo: hesita na definição do que é ser rico e acha que o sistema fiscal nada tem a ver com o assunto. Tudo isto tem uma vantagem, torna as escolhas mais claras. Até porque não há linha de demarcação tão nítida entre esquerda e direita como a defesa da progressividade do sistema fiscal. Isto é, colocar o sistema fiscal também ao serviço da justiça social, logo da promoção da equidade entre ricos e pobres. [Diário Económico, Pedro Adão e Silva]


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Sábado, 01.08.09

O Estado Novo deixou na sociedade portuguesa a vergonha de assumir que se é de direita. E os partidos não fogem a isso.

Numa democracia pluralista, a direita é tão importante como a esquerda. Aliás, uma não teria sentido sem a outra. É claro que o espaço político dos regimes pluralistas é mais complexo que a visão simplificada que esta dicotomia permite: há muitas direitas e muitas esquerdas. Mas a questão essencial a ter aqui em conta é que cada um dos lados da dicotomia necessita do outro. Apesar desta evidência, em Portugal a maioria das pessoas de direita continua a ter vergonha de se afirmar como tal. O leitor faça a seguinte experiência: pergunte a alguns amigos se se consideram de direita ou de esquerda. Muitos darão respostas do tipo "não me situo nessa dicotomia", ou então "a dicotomia esquerda/direita está ultrapassada". Aqueles que assim responderem serão, quase infalivelmente, de direita. Com efeito, o receio das pessoas de direita de se identificarem como tal é tão grande que isso as leva a negar a própria dicotomia esquerda/direita, apesar de toda a gente a usar. Isso deve-se, provavelmente, à vinculação da direita portuguesa ao Estado Novo e à necessidade que ainda sente de desmentir essa identificação. Nos países socialistas, após a queda do Muro de Berlim, passou-se muitas vezes o contrário: aqueles que eram de esquerda, para não se afirmarem como tal e se afastarem da herança do "socialismo real", diziam frequentemente - e alguns ainda dizem - não ser de esquerda nem de direita.

Uma outra forma de verificar a vergonha que a direita tem da sua própria posição política consiste em atentar nos nomes dos partidos desse lado do espectro parlamentar, gerados no pós-25 de Abril. A força política situada mais à direita intitula-se partido do "Centro Democrático" e, como se isso não bastasse, também "Social", o que não anda muito longe de "socialista".

O partido mais representativo da direita portuguesa, o partido de Ferreira Leite, chama-se "Social-Democrata", ou seja, tem a designação habitual dos partidos da esquerda socialista na Europa.

O discurso corrente dos partidos da direita mantém e alimenta o mesmo tipo de equívoco. É certo que Paulo Portas em algumas ocasiões se afirmou conservador e procurou ligar essa identificação ideológica a causas específicas, como os combates contra o rendimento mínimo ou a despenalização da IVG. Porém, a maior parte das vezes os dirigentes do CDS, e sobretudo os do PSD, têm um discurso que, por ignorância ou desonestidade intelectual, esconde o seu conservadorismo de base e insiste na linguagem enganadora da "social-democracia", do "liberalismo" ou do "centrismo". Note-se que no PSD é fácil encontrar pessoas que se situam numa direita extremamente conservadora, por vezes com posições mais radicais que as do CDS. Mas dificilmente o reconhecem e em nenhuma ocasião o explicitam. Também ao nível do discurso corrente, a direita portuguesa tem vergonha de si mesma. [ i , João Cardoso Rosas]


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Quinta-feira, 30.07.09

Cavaco Silva referiu-se, no ano 2000, às despesas do Estado como um monstro incontornável. Quando o PSD está no poder o monstro cresce mais, em média, do que quando o PS está no governo. Quando o PS e o PSD tiveram maioria absoluta, o monstro cresceu menos.



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Domingo, 19.07.09

O Governo de Sócrates foi um dos mais progressistas que já tivemos desde o 25 de Abril. O progresso efectivo não depende de simples declarações ideológicas, nem de repetir à exaustação a palavra esquerda, e muito menos, de se insistir em soluções passadistas, tantas delas, testadas e que demonstraram ineficácia e perversidade.

Muita desta gente que não se cansa de repetir que é de esquerda e que é preciso mais esquerda defende afinal ideias e soluções que são claramente conservadoras e mesmo reaccionárias. Há um problema óbvio com este esquerdismo maníaco-obsessivo que à falta de ideias novas insiste nos pregões antigos. Ora, ser progressista não é um anúncio, é uma atitude. Para se ser de esquerda não basta dizê-lo, é preciso defender ideias progressistas.

Este Governo foi particularmente progressista em duas áreas fundamentais. No desenvolvimento tecnológico e na criação de políticas sociais assentes numa cultura da cidadania e da responsabilidade.

As sociedades evoluem a par da evolução tecnológica. É esta que impulsiona os novos modos de existência, a melhoria das condições de vida, a libertação social. Nunca em Portugal se deu um salto qualitativo tão decisivo neste domínio. Os portugueses entendem agora as vantagens de se envolverem com os novos meios tecnológicos, já que isso os torna mais activos, mais capazes, mais autónomos, mais aptos para construir as suas próprias vidas. Ao contrário do que prognosticaram os habituais pregadores da desgraça, é impressionante como tanta gente adquiriu novas competências nestes últimos anos. Tanto os jovens como os mais velhos.

Há menos de uma década poucos imaginavam serem capazes de manipular um computador, trabalhar com uma folha Excel, enviar um email. Basta pensar num célebre debate televisivo em que Guterres admitia que não sabia o que era um email e Paulo Portas afirmava, com aquele orgulho típico dos ignorantes, que ainda escrevia à mão. Ou, na dificuldade que José Magalhães teve em convencer os seus colegas deputados que o Parlamento devia ter um site.

Hoje Portugal exporta tecnologia. Hoje Portugal consegue fabricar um computador. Hoje Portugal é um exemplo nas tecnologias energéticas.

Foi graças a uma geração progressista, parte dela representada no actual governo, que esta importante revolução se operou. Sempre com as críticas, as piadinhas ignaras, a oposição enraivecida, daqueles que se dizem muito de esquerda e, claro, também de parte substancial da nossa tacanha direita.

Noutro domínio, o das políticas sociais, foram igualmente dados passos gigantescos. A esquerda comunista e bloquista defende que uma boa política social é dar dinheiro aos pobres.

Ou seja, não andam longe da caridade. Ora uma verdadeira política social é aquela que cria novas condições de vida, novas oportunidades, acesso a saberes e competências. Nunca se fez tanto neste domínio.

Estas políticas foram acompanhadas de uma nova postura no que respeita à cidadania, direitos e responsabilidades individuais. Por um lado impondo uma muito mais transparente e competente relação entre instituições e cidadãos. Na protecção contra os abusos das empresas, nos direitos dos consumidores, na melhoria de produtos e serviços, na informação prestada, nos deveres dos organismos públicos, na diminuição da burocracia. Os portugueses habituaram-se a protestar, são hoje mais conscientes dos seus direitos. Mas também das suas responsabilidades. A tão odiada avaliação dos professores mais não é do que a transformação de uma sociedade habituada à inércia e à incompetência, para uma outra em que se reconhece o mérito, a qualidade e, até, a ambição. O igualitarismo nivelado pela mediocridade, tão ao gosto do esquerdismo, não é de todo progressista. É altamente injusto.

Os portugueses são hoje, genericamente, mais prudentes nas estradas, mais atentos ao consumo excessivo do álcool, mais civilizados no reconhecimento das diferenças e dos direitos dos outros. Claro que ainda existe muita gente bruta e primitiva, mas importa perceber, a cada momento, se estamos a caminhar para melhor ou não. O progresso é isso.

Este Governo foi progressista na medida em que fez o País andar para a frente nas suas capacidades, direitos e responsabilidades. Promoveu importantes alterações, de facto e de mentalidade, na forma como nos organizamos colectivamente e nos comportamos individualmente.

Não vejo esse mesmo ímpeto nas propostas do esquerdismo. Vejo sim o medo de existir e um sistemático impulso de retrocesso anti-progressista. Mesmo com a boca cheia de esquerda.

[Leonel Moura, Jornal de Negócios]



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Quinta-feira, 16.07.09

 

O texto de Manuel Caldeira Cabral publicado no Jornal Negócios  é interessante e elucidativo sobre o nosso sistema partidário.

Efectivamente, Caldeira Cabral tem razão quando escreve que os partidos cumprem muitas vezes o que prometem. Sucede que no espírito das pessoas e, principalmente, nas oposições espera-se que os resultados de qualquer acção governativa sejam imediatos ou quase instantâneos, o que, naturalmente, nunca pode acontecer e, além disso, que produzam a felicidade ou a perfeição e resolvam todos os problemas das pessoas ou da sociedade. Em todo o tipo de reformas e acções como na educação, saúde, reforma do Estado, energias renováveis, avanço tecnológico, investigação científica, nova oportunidades, etc., etc. os resultados vão aparecendo e só anos depois se sente o que foi alcançado.

Portugal sofreu grandes transformações nas últimas décadas e de tal modo que há quem considere não serem necessárias mais obras e mais reformas e isso é perigoso porque um novo governo pode chegar ao poder sem aspirações, sem vontade para continuar a trabalhar e sem trabalho andaremos todos para trás. Trabalhar, em termos políticos, é fazer coisas e nenhuma delas é a solução miraculosa para todos.

Portugal tem tido, sem dúvida, bons governos que fizeram muito e alguns empresários competentes, mas poucos. O governo actual continua a apostar no conhecimento a todos os níveis; dos jardins escolas ás universidades e às novas oportunidades para adultos. Há quem critique por haver licenciados desempregados, mas a economia não é suficiente dinâmica para absorver toda a gente porque falta sempre algo. Se há muitos psicólogos, sociólogos e cientistas políticos, não há serviços públicos e empresas para empregar todos esses licenciados. Nas engenharias e muitas ciências, com excepção da biologia, a maioria dos licenciados encontra emprego. De qualquer modo, nada pode ser feito para um resultado imediato e, menos ainda, para criar o paraíso que, de resto, nunca foi prometido por partido algum. Apenas as oposições dizem que os governos prometeram o paraíso.

 

Texto de Manuel Caldeira Cabral:

Os partidos têm de apresentar propostas no caminho para o poder. Só assim se pode conhecer as suas intenções. Só comprometendo-se poderão romper a inércia dos interesses instalados e fazer mudanças. Só com propostas mobilizadoras poderão atrair novas pessoas para a arena política.

A ideia de que as promessas feitas em período eleitoral não são cumpridas é todos os dias repetida na televisão. A voz popular que é colocada na reportagem é sempre a que diz: "prometem, prometem… mas depois não cumprem nada". Mas será que isto é verdade? Que tal olhar para o passado recente?

A verdade é que, se olharmos para as propostas que Cavaco Silva fez há mais de 20 anos, quando se candidatou pela primeira vez a primeiro-ministro, é fácil encontrar pontos que ainda hoje estão por cumprir. Cá está o "prometem, prometem…"

Será justo dizer isso? Eu penso que não. O programa político apresentado então por Cavaco Silva colocava forte ênfase na construção de infra-estruturas, e a construção de auto-estradas avançou muito na altura. Colocava também ênfase no sector privado, e fizeram-se privatizações; salientava reformas que nos aproximassem do modelo europeu, e muito foi feito nesse sentido. A governação de Cavaco foi no sentido das propostas apresentadas.

O mesmo se pode dizer de Guterres. Propôs mais diálogo, a paixão pela educação, mais participação, mais apoios sociais, a regionalização e colocou mais meios no sistema de ensino, expandiu o ensino superior e o pré-primário, instituiu o rendimento mínimo garantido, abriu a possibilidade de haver referendos e fez um referendo sobre a regionalização. Guterres comprometeu-se também a manter o rumo para a entrada na moeda única, e o País entrou.

Por outro lado, Guterres não fez algumas reformas estruturais de que o País precisa. Mas não as fez, nem teve condições para as fazer, exactamente porque não as colocou como o centro do seu programa político. Ou seja, para o bem e para o mal, Guterres cumpriu o projecto político que apresentou.

O mesmo se pode dizer do actual governo. Colocou como bandeira o choque tecnológico, assumiu o compromisso de reequilíbrio orçamental, a vontade de fazer reformas na saúde, na educação e na administração pública. Penso que ninguém contesta que houve reformas importantes na administração, com um forte avanço dos serviços online, na desburocratização de importantes aspectos da relação entre cidadão e empresas e o estado, que houve um aumento do investimento, quer público, quer privado, na investigação científica, ou que se levou a cabo um importante programa de reformas na educação e saúde. Estas reformas são polémicas, fortemente apoiadas por alguns e contestadas por outros. Mas só foram realizadas porque havia o compromisso de as fazer.

Será que afinal os governos portugueses cumpriram as linhas principais do que tinham proposto em campanha? Isto, para muitas pessoas, é uma enorme surpresa. Mas a realidade sugere exactamente isso!

Deve então afirmar-se que, eventualmente, é apenas o proliferar de propostas e promessas nos programas que leva ao embaraço de haver casos de incumprimento. Será então que a frugalidade de propostas e compromissos é a solução? Perante uma opinião pública céptica, a frugalidade é, sem dúvida, um bom conselho. No entanto, não é uma receita que garanta nada.

Lembro que o governo recente que mais se afastou do prometido foi exactamente o que menos prometeu. Com uma campanha centrada na proposta de diminuição dos impostos para estimular a economia (o choque fiscal) e no equilíbrio das contas públicas (do País de tanga), o(s) governo(s) PSD-CDS não fizeram nem uma coisa nem outra, provando que prometer pouco não significa cumprir uma maior proporção.

É importante o compromisso com propostas. Sem estas, os partidos estariam a pedir um cheque em branco aos eleitores, sem se comprometerem jamais conseguirão vencer a inércia das corporações e da administração pública. Além disso, as ideias e bandeiras dos partidos vencedores ganham força na sociedade como objectivos e tornam-se exigências junto de quem governa. Por fim, se os partidos não atraírem pessoas com base em propostas e programas, só vão atrair pessoas com base em interesses, o que não é a melhor via para a necessária renovação da classe política.

A conclusão é simples. Esteja atento às propostas dos partidos em campanha, pois há uma grande probabilidade de que estas venham a ser cumpridas. Isso pode ser bom, ou mau, dependente do que acredita ser o melhor para o País. Mas é provavelmente o que vai acontecer.

 


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Publicado por DD às 22:27 | link do post | comentar | comentários (4)

Domingo, 05.07.09

1. Antes das eleições europeias, procurei manter um panorama actualizado e comparativo das sondagens que foram saindo. De acordo com o clamor público as sondagens enganaram-se redondamente. Também foi isso que me pareceu. Não partilho a suspeição de um propósito deliberado de distorção dos resultados. Inclino-me mais para a intromissão de um ou vários factores não previstos ou insuficientemente valorizados. Este aspecto central das sondagens não deve contudo fazer desaparecer por completo outros aspectos da sua divulgação.

Digo isto, a propósito dos célebres empates técnicos que regressaram agora nas notícias de alguns meios de comunicação social sobre os resultados da mais recente sondagem da Eurosondagem, dirigida á eleições legislativas.

De facto, recentemente foi difundida um resultado em que era atribuída uma vantagem de 1,3% ao PSD relativamente ao PS, e foi essa a notícia. Nesta segunda sondagem, o PS surge 2,1% à frente do PSD, o que para alguns meios de comunicação social foi designado por empate técnico. Basta esta comparação para se intuir para que lado estão a torcer esses órgãos de comunicação social. É uma subtil parcialidade talvez inócua, mas não deixa de o ser.

2. Quanto ao conjunto dos resultados em si próprios (PS: 35,1% - PSD: 33,0%- CDU: 9,7%-BE: 9,6%CDS-PP: 7,4%), para além da inversão de posições entre os dois partidos mais votados, há três considerações que me parecem relevantes. Em primeiro lugar, a soma do BE e do PCP desce ligeiramente, fixando-se nos 19,3%; em segundo lugar, a soma dos partidos de direita continua na casa dos 40%; em terceiro lugar, os três partidos de esquerda mantêm-se na casa dos 54%. Ou seja, as transferências de intenções de voto parecem ocorrer principalmente dentro de cada um dos dois blocos.

Por isso, o PS tem que declarar desde já que, em coerência com o que tem sido a agressividade do PSD, em face do seu Governo, e dada a demarcação essencial quanto à sua política, que tem assumido a Drª F. Leite, não viabilizará qualquer governo de direita. E assim ficará claro que a referida senhora tem muito poucas hipóteses de vir a ser primeira-ministra após as próximas eleições.

De facto, se assim for, como aliás não pode deixar de ser, sob pena de fragmentação do PS, a Dama de Cinza só formará governo se a direita tiver maioria absoluta, ou se o BE e o PCP viabilizarem um governo minoritário de direita, o que me parece improvável e politicamente suicida para qualquer desses dois partidos.

[Rui Namorado, O Grande Zoo]



Publicado por JL às 12:40 | link do post | comentar | comentários (7)

Sábado, 04.07.09

A única coisa que Manuela Ferreira Leite prometeu aos portugueses é que ia realizar sempre uma política de verdade, sobretudo ia sempre falar a verdade aos seus concidadãos. Não durou muito tempo a única promessa da líder do PSD após a vitória nas eleições europeias. Questionada sobre os negócios ruinosos que fez para o País quando ministra de Estado e das Finanças, Manuela Ferreira Leite, sem nenhum pudor, negou o seu papel activo na venda da rede básica de telecomunicações à Portugal Telecom, por 365 milhões de euros.

Mesmo depois de terem sido distribuídos aos jornalistas documentos escritos – actas do Conselho de Ministros de 2002 – assinados por Manuela Ferreira Leite com preâmbulos classificando a operação de venda "uma medida muito boa de gestão financeira do Estado", mesmo depois de tudo isso, a líder do PSD, embrulhada nesta teia para enganar os portugueses, continuou a afirmar que aquilo não era uma decisão sua. Hoje só Manuela F. Leite acredita nessa farsa. Objectivamente, o que fez Ferreira Leite? Mentiu, mentiu repetidamente, e não teve sequer a dignidade de vir pedir desculpa aos portugueses por actos que deitam por terra a máscara de "rigor" e de "verdade" que afivelou para as eleições de Setembro. Quem mente desta maneira quase ou nunca fala verdade.

Os portugueses que vão votar para escolher quem deve governar Portugal têm que ir vendo, ouvindo, avaliando quem oferece mais garantias para conduzir os destinos do País. Esqueçamos as mentiras de Ferreira Leite. Avaliemos a questão da governação por outro prisma. A líder do PSD, até hoje, não foi capaz de dizer uma só palavra sobre as soluções que tem para o País, de apresentar propostas alternativas às do Governo actual em nenhuma área. Limita-se a dizer que vai mudar tudo. Acaba com o TGV, acaba com o novo aeroporto, acaba com todas as decisões tomadas na área da Educação, acaba com as soluções da ministra da Saúde, acaba com os investimentos nas áreas tecnológicas, enfim... acaba com tudo. Mas o que é mais grave é que Manuela Ferreira Leite, nesta versão ‘caterpillar’, acaba com tudo mas não diz o que vai fazer depois de acabar com tudo.

Como é que o povo português pode entregar o seu voto a uma dirigente que ou não sabe o que vai fazer, ou esconde dos portugueses a política que vai adoptar? Não há memória de, em democracia, aparecer alguém a querer ser primeiro-ministro com um programa de trabalho contido num só ponto: destruir, destruir, destruir. E depois como vai ser?

[Emídio Rangel, Correio da Manhã]


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Publicado por JL às 10:46 | link do post | comentar | comentários (1)

Quarta-feira, 01.07.09

O país atravessa um momento político, económico e social particularmente sensível, porque vive um período eleitoral, porque está ainda numa situação de recessão económica, porque o desemprego ainda não dá sinais de recuperar.

Ora, se este enquadramento explica um ambiente mais tenso entre os líderes partidários, também exige um comportamento político irrepreensível do Presidente da República. Mas Cavaco Silva não tem ajudado.

O Presidente fez um comunicado inédito... para responder a um comentador. Marcelo Rebelo de Sousa é um dos mais influentes opinion makers do país, eventualmente o mais influente, perspicaz e certeiro na análise, mas Cavaco Silva é o Presidente da República. Ora, não é possível nem aceitável que Cavaco Silva esteja a centrar a sua intervenção política neste registo, numa espécie de ‘vou abrir uma excepção para falar...", porque, às tantas, as excepções estão a tornar-se uma regra e a gerar ruído desnecessário. E obrigam a comunicados como este.

No comunicado, pouco comum, Cavaco garante que não abriu qualquer precedente e não ‘julgou' os antigos administradores do Millennium bcp num processo judicial que está em curso. O Presidente garante que se limitou "a falar da importância da estabilidade do sistema financeiro para o crescimento económico dos países e sobre as reuniões do Conselho Europeu e do G20, em Londres, sobre a estabilização do sistema financeiro internacional". E terá sido neste sentido que abordou a questão da transparência e dos valores éticos nos negócios.

O problema é que Cavaco Silva aceitou responder a uma pergunta directa sobre o caso BCP - aliás, na mesma intervenção pública também falou do negócio da PT e da TVI - e, sendo um político experiente e sagaz, deveria saber que as suas respostas só poderiam ter tido a análise que tiveram: o Presidente deixou uma crítica implícita a Jardim Gonçalves e ao resto da equipa do BCP, o que motivou o comentário de Marcelo.

A verdade é que, contrariamente ao que foi durante anos a sua cartilha em matéria de intervenções públicas, os últimos meses têm mostrado um Presidente demasiado interventivo, até quando está em visitas oficiais e de Estado ao estrangeiro.

Os portugueses têm demonstrado um apego grande à figura do Presidente da República, e isso ficou claro, por exemplo, quando Cavaco Silva discordou frontalmente de José Sócrates e do PS no Estatuto dos Açores. Mas esse respeito e reverência, até, estão sustentados na ideia de que o Presidente da República é um foco de estabilidade, um farol de responsabilidade, acima dos políticos e dos partidos. E Cavaco Silva arrisca perder este estatuto especial.

[António Costa, Diário Económico]



Publicado por JL às 21:19 | link do post | comentar

A “avozinha” e seus netitos querem que os portugueses acreditem na sua, repetitiva, ideologia neoliberal serôdia que empurrou Portugal, a Europa e o mundo para a crise em que nos encontramos, ao mesmo tempo que promete rasgar todos os avanços e reestruturações administrativas que toda a gente de bom senso, incluindo o próprio PR, achava necessárias.

Então, esta avozinha, acha que os portugueses já se esqueceram da sua (des)governação, como ministra das finanças cavaquista, período em que preciosamente divulgou e praticou a cultura da subsídio-dependência, isto é da dependência da sociedade ao Estado (alguma sociedade, precisamente os seus apaniguados) como forma de “partilha” das benesses vindas de Bruxelas?

E da (des)governação do seu netito, Santana, em Lisboa? Ainda ninguém (sobretudo os credores) esqueceu as dívidas que ele deixou por pagar, dos credores a bater à porta dos paços do concelho, das obras paradas, da cidade paralisada, etc., etc.

Ò “avozinha”, os portugueses andam descontentes, são muito críticos e exigentes, mas não andam assim tão distraídos, nem tão esquecidos a pontos de cometerem o grave erro de colocar na governação quem acha que a democracia deve ser suspensa para serem tomadas medidas de destruição do Estado social em que vivemos.

O actual governo, no seu ímpeto reformista, fez coisas menos boas e exigiu em demasia às classes médias e pobres, comparativamente ao que impôs às grandes fortunas, mas, também, toda a gente sabe que o PSD nada faria de melhor. Por isso e, ainda que sem maioria absoluta, o governo socialista será escolhido, quanto mais não seja, por oposição a um governo ultra-liberal que quer fazer desaparecer a segurança social, entregar a saúde aos privados, que quer acabar com o Estado, e com tudo o que ele representa numa sociedade própria de uma Europa promotor da igualdade social e democrática.

Contudo, e para que os portugueses possam optar, por uma via de esquerda, o PS e os seus, respectivos, responsáveis têm, obrigatoriamente, que mudar as trajectórias dos seus comportamentos, sob pena de serem co-responsáveis pela, hipotética, deriva direitista. O Parido socialista tem de se habituar a colocar na agenda política as questões sindicais (CGTP, UGT e Independentes), as questões do trabalho/desemprego e, concomitantemente, a distribuição da riqueza, versos, prémios de gestão chorudamente distribuídos.

A propósito de “prémios” as notícias mais recentes vindas a publico, referem que entre 1999 e 2006 foram distribuídos 291 Milhões, um verdadeiro escândalo num país onde há pessoas a sobrevir com pouco mais de 200,00€ por mês. Não esquecer que a maioria destas benesses foram cair, direitinhas, nas mãos de alguns dos amigos do “Cavaco de Boliqueime” e há quem diga que até financiaram a campanha eleitoral do actual Presidente.

Um governo PS tem obrigação, pela sua própria natureza, de explicar concisa, clara e competentemente, todas as medidas que toma. Mais deve toma-las em dialogo permanente franco e aberto, com convicção e sem desvio de rumo face ao programa eleitoral sufragado pelos eleitores.

A ideologia e correspondentes valores de esquerda não podem confundir-se com as ideias neo-liberais da direita. Havendo clareza de ideias o povo não terá duvidas de escolha. E essa clareza e prática que é exigida ao PS e a quem o represente.



Publicado por Zé Pessoa às 00:26 | link do post | comentar | comentários (2)

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