Sexta-feira, 09.11.12

Carta aberta a Isabel Jonet,

     Não pude deixar de ficar chocada com as suas declarações em como «devemos empobrecer» e que «não podemos comer bife todos os dias» e «que vivemos acima das nossas possibilidades».

     O boletim do INE (Balança Alimentar Portuguesa 2003-2008)[1] lembra-nos que a dieta dos Portugueses está cada vez menos saudável. A fome, escreveu um dos seus maiores estudiosos, o médico e geógrafo Josué de Castro, pode ser calórica ou específica, isto é, pode-se comer muitas calorias e mesmo assim ter fome. Hoje os reis são elegantes e os pobres gordos, num padrão histórico inusitado. Os Portugueses estão a comer uma quantidade absurda de hidratos de carbono. O consumo de papas aumentou 7% com a crise, com consequências graves para a saúde – diabetes, doenças degenerativas, obesidade – porque se trata de açúcares simples. As pessoas alimentam-se apenas de forma a garantir a energia necessária para continuarem a produzir. Sentem-se saciadas, mas manifestam carências alimentares de vitaminas, nutrientes, sais minerais e proteínas de qualidade. Os Portugueses têm uma alimentação hipercalórica – média de 3883 kCal por dia – pobre em peixe e carne, proteínas de origem animal, essenciais, porque são de digestão lenta e indispensáveis ao sistema nervoso.

     O peixe era um dos raros alimentos na viragem do século XIX para o século XX que os pobres comiam mais que os ricos. Agora, o peixe chega à lota e é imediatamente colocado em carrinhas de frio em direcção à Alemanha e à Suíça, embora umas caixas fiquem na mesa dos ricos e do Governo que a senhora defende. O mesmo começou a passar-se  com os medicamentos – o paraíso das exportações é um inferno para quem vive do salário e empobrece.

     No Norte da Europa os trabalhadores foram convencidos a comer «sandes» ao almoço para aumentar a produtividade e quase só a alta burguesia tem acesso a restaurantes. Comer de faca e garfo nos países nórdicos é fine dining.     ...

     Com o aumento das rendas, diminuição dos salários, perseguição da ASAE e saque fiscal, os restaurantes populares fecham portas na mesma proporção que aumentam as filas do Banco Alimentar.

     A fome é um problema cuja origem reside única e exclusivamente no sistema capitalista. Hoje, há tecnologia, terras e conhecimento para que o homem não esteja dependente das vicissitudes Natureza para se alimentar. É aliás isso que distingue o homem dos outros animais, domar a Natureza, através do trabalho, e superar o reino da necessidade, isto é, comer todos os dias e poder compor música ou escrever um livro. Isso é a liberdade.

     A fome em Portugal deve-se única e exclusivamente a escolhas políticas pelas quais a senhora é co-responsável, com a sua defesa da política de «empobrecimento». A fome deve-se:

  1) à manutenção de salários abaixo do limiar de subsistência, abaixo do cabaz de compras, o que torna os sectores mais pobres dependentes das instituições que os alimentam;

  2) ao encerramento de fábricas, empresas e aos despedimentos para elevar a taxa de lucro na produção;

  3) ao desvio de investimentos para a especulação em commodities, entre elas, grãos;

  4) à deflação dos preços na produção, ou seja, se não obtêm uma taxa média de lucro que considerem apetecível, as empresas de produção de alimentos preferem não produzir.

     Mas a fome deve-se ainda a um factor mais importante tantas vezes esquecido, a questão da propriedade da terra. Enquanto mercadoria produzida para gerar lucro, a produção de alimentos deve render um lucro médio ao proprietário da produção semelhante ao lucro alcançado na indústria. Para além desse lucro médio temos que arcar também com a renda da terra (um pagamento inaceitável por aquilo que a natureza nos deu de borla). É também essa renda responsável pela existência de subsídios à produção. Porque a agricultura é menos produtiva do que a indústria, a renda da terra é subsidiada. Com a crise do crédito, esses subsídios diminuem e o preço dos alimentos dispara até preços incomportáveis. Por isso, sem emprego e expropriação de terras (reforma agrária) sob controle público, a fome só irá aumentar.

     Quem percorre Portugal percebe também que se aqui há fome não é por falta de terras, máquinas ou pessoas para trabalhar. Em Portugal, 3 milhões de pessoas são consideradas oficialmente pobres. Produzimos uma riqueza na ordem dos 170 mil milhões de euros (PIB português que poderia ser bem maior não fosse a política de desemprego consciente do governo) e temos de “empobrecer”?! Para onde vai este dinheiro, dona Isabel Jonet? 170 mil milhões de euros produzem os Portugueses juntos e não podem comer bife?

     As tropas de famintos são uma mina de ouro para as instituições que vivem à sombra do Estado a gerir a caridade: os nossos impostos, em vez de serem usados para o Estado garantir o bem-estar dos que por infortúnio, doença ou desemprego precisam (solidariedade), são canalizados para instituições dirigidas sobretudo pela Igreja católica (caridade). A solidariedade é de todos para todos, a caridade usa a fome como arma política. Por isso nunca dei um grão de arroz ao Banco Alimentar contra a Fome. A fome é um flagelo, não pode ser uma arma para promover o retrocesso social que significa passarmos da solidariedade à caridade(zinha).

     A sua cruzada, dona Isabel Jonet, lembra infelizmente os tempos do Movimento Nacional Feminino e as suas campanhas de socorro «às nossas tropas». As cartas das «madrinhas de guerra» e os pacotes com «mimos» até podiam alegrar momentaneamente o zé soldado, mas destinavam-se a perpetuar a guerra. Os pacotes de açúcar e de arroz do seu Banco Alimentar aliviam certamente a fome das tropas de destituídos que este regime, o seu regime, está a criar todos os dias. Mas a senhora e as políticas que defende geram fome, não a matam.

     (-por Raquel Varela, historiadora, coordenadora do livro Quem Paga o Estado Social em Portugal? (Bertrand, 2012)

 (-por Quino, via Sérgio Lavos)

Veja o video «P'rà sopa dos pobres» [deputada interpelando o ministro da solidariedade...]


Publicado por Xa2 às 09:28 | link do post | comentar | comentários (5)

Terça-feira, 03.01.12

Boxing day, ou o júbilo do capital , por Ana Mafalda Nunes

      O conceito ”boxing day” ('dia de encaixotar' e porque não 'dia de esmurrar'...?!) aparece em Inglaterra algures na Idade Média e das trevas . Ao 26º dia de Dezembro as classes altas encaixotavam as sobras da luxúria natalícia e doavam-nas aos criados e aos pobres. Enquanto a plebe se deleitava com a folga e os restos, os senhores celebravam o Santo dia do Estêvão e da abertura das caixas de esmolas, pavoneando-se em jogos, corridas de cavalos, caçadas, etc.
    É certo que os tempos que mudam, fazem também mudar a aparência das tradições. Hoje nem a caridade é o que parece, nada se oferece, apenas se troca ou se vende. Nos nossos dias, é o povo quem engorda as caixas dos Senhores. A obscura origem das coisas permanece… sempre o capital, que como um polvo alastra e estende os tentáculos para fora das fronteiras de origem.
    Na maior parte dos países anglófonos, Boxing day é sinónimo de folga, também conhecido como feriado dos bancos, o descanso da extenuante actividade de extorsão bancária. A tradição dos jogos mantém-se, é o ponto alto da liga Inglesa, do desporto milionário, que gera milhões batendo todos os recordes do ano em audiências televisivas. E é ainda o dia dos restos, que não se dão, as grandes cadeias comerciais promovem chorudos descontos, ou sob outro ponto de vista, margens de lucro menores, como chamariz para estimular o consumo e escoar os excedentes.
    Ora, o nosso país que sofre de imunodeficiência consumista, não tardou a contrair a febre do “dia do caixote” que pode também ser “black Friday”, ainda que a data não coincida, ou como diria o papa na homilia da hipocrisia, consumerist delirium (delírio consumista). Esta tarde, a ver pelas filas para o estacionamento e pelo corrupio nas portas do castelhano corte inglês, cheguei, sarcasticamente, a questionar se teria havido uma tolerância de ponto de ultima hora, ou se teria soado a sirene do fim da crise e eu não teria escutado... afinal, tratava-se da celebração do júbilo do capital, o derradeiro culminar do consumismo barrigudo, de barbas brancas e barrete vermelho.  
......................
     O fim do sinal analógico e a transição para a Televisão Digital Terrestre (TDT), que começa a 12 de Janeiro e acaba a 26 de Abril, não podia calhar em pior altura. Muitos dos portugueses que não têm televisão por cabo e compraram o seu aparelho antes de 2009 - geralmente os que têm menor folga financeira, onde se incluem muitos idosos - terão de pagar um aparelho descodificador. São 77 euros mais IVA, com reembolso de 22 euros pela PT para os pensionistas com menores rendimentos e algumas pessoas mais desfavorecidas.
  Uma coisa chocante para os senhores da ANACOM: 55 euros é muito dinheiro para quem tenha reformas abaixo dos 300 euros ou para quem esteja desempregado. Pior: quem tenha um televisor sem tomada de interface SCART ou HDMI terá mesmo de comprar uma televisão nova ou um modulador de sinal RF, não comparticipado. E não podemos esquecer todos os que vivem nas zonas não cobertas pela TDT (cerca de 13% da população) que terão de usar o satélite.
    Não ponho em causa as vantagens da TDT para a modernização do sector (e de libertar espectro radio-eléctrico para outras actividades). Mas elas não se farão sentir, de forma evidente, para a maioria dos consumidores. O sinal poderá ser melhor mas continuarão, apesar da despesa, a ter direito aos mesmíssimos quatro canais do costume. 
    Se a transição tecnológica não traz serviços novos e relevantes porque têm de ser os cidadãos a pagá-la?
Parece, a quem tenha alguma noção das situações dramáticas que se vivem, no meio desta crise, por este país fora, que esta é uma despesa prioritária para as famílias? Se obrigam as pessoas a isto não seria normal darem-lhes qualquer coisa em troca? Um exemplo: se já pagamos a RTP nos nossos impostos não seria uma boa solução aproveitar as potencialidades da TDT e oferecer no pacote gratuito os restantes canais da televisão pública (como fazem vários outros países)? Porque temos de pagar duas vezes (nos impostos e na subscrição por cabo) a mesma coisa?


Publicado por Xa2 às 20:05 | link do post | comentar | comentários (1)

Quinta-feira, 23.12.10

Popotas e Leopoldinas

Circulam na internet campanhas contra as campanhas da Popota (Modelo) e Leopoldina (Continente), duas personagens usadas pelas duas grandes redes de distribuição na disputa do mercado da caridade  natalícia a que se associam alguns órgãos de comunicação social, designadamente televisões.
É evidente que Belmiro está muito pouco preocupado com as vendas do disco da Leopoldina. Cada cliente que consiga atrair - através das crianças que são alvo da campanha de marketing - a uma das suas lojas nesta quadra, deixará nas caixas registadoras muito mais do que os trocos que serão entregues a título de caridade a um qualquer hospital.

Estamos perante campanhas pouco transparentes, nem sequer se sabe em nome de quem o dinheiro vai ser entregue: se a título de doação dos clientes das lojas do Modelo/Continente ou se a título de mecenato por parte destas duas grandes redes de distribuição com os consequentes benefícios fiscais. Os sites das empresas nada dizem quanto a este ponto.

A verdade é que este país está cheio de Popotas e Leopoldinas, responsáveis pelo desvio de muitos milhões de euros de receitas fiscais através do recurso aos truques da caridade, do mecenato e, pior ainda, da infinidade de Fundações que se multiplicam como cogumelos.

O que se passa com as Fundações roça mesmo a pouca vergonha, não há ninguém que ganhe muito dinheiro e que não escape aos impostos recorrendo a operações em off-shores e que não crie uma fundação.
Poderíamos mesmo designar as off-shores como as Popotas e as Fundações como as Leopoldinas.

Quando um conhecido escritório de advogados cria uma fundação em nome da qual coloca o património imobiliário para depois os arrendamentos darem lugar a benefícios fiscais porque são tratados como doações à fundação ficamos a perceber a dimensão da ''beneficência'' que por aí vai.

O Jumento, 20.12.2010



Publicado por Xa2 às 00:10 | link do post | comentar | comentários (3)

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