Corrupção e tirania .vs. anti-pobreza, anti-neoliberalismo e populismo

               Ainda Chávez    (-por Sérgio Lavos, Arrastão)

     Um artigo de Owen Jones no insuspeito The Independent"Hugo Chávez tirou milhões da pobreza - e mesmo os seus adversários disseram que ganhou eleições forma justa e limpa
      Se queremos aprender alguma coisa sobre direitos humanos na Venezuela antes de Hugo Chávez, basta googlar "Caracazo". É preciso ter um estômago forte. Em 1989, o então presidente Carlos Andrés Pérez ganhou as eleições apoiado por uma feroz base opositora das ideias de mercado livre: o FMI era uma "bomba de neutrões que matava pessoas, mas deixava os edifícios intactos", dizia ele. Mas após ter chegado ao palácio presidencial, deu uma dramática volta de noventa graus, implementando um programa de privatizações e aplicando uma terapia do choque neoliberal. Com a liberalização do preço dos combustíveis, estes aumentaram brutalmente, levando os venezuelanos empobrecidos para as ruas. Soldados abateram manifestantes a tiro. Morreram até 3000 pessoas, uma contagem de mortos horrível se comparada com a do massacre da Praça de Tiananmen - num país com 43 vezes menos pessoas. 
    Foi o seu golpe falhado contra o assassino e cada vez mais corrupto governo de Pérez, em 1992, que lançou Chávez para a fama. Apesar de preso, Chávez tornou-se um símbolo para os pobres da Venezuela, há longo tempo a sofrer. Quando ganhou de forma esmagadora as eleições de 1998 com a promessa de usar o dinheiro do petróleo para ajudar os pobres, Venezuela era um desastre. O rendimento per capita tinha regredido até valores de 1960. Um em cada três venezuelanos viviam com menos de 2 dólares por dia. Os proveitos do petróleo estavam reduzidos ao mínimo.
     Ao longo dos próximos dias, vai ser repetido de forma sistemática que Hugo Chávez era um ditador. Um estranho ditador: desde 1998, houve 17 eleições e referendos no país. Podemos pensar que foram fraudulentos. Quando venceu por larga margem em 2006, o antigo presidente dos EUA, Jimmy Carter, esteve entre aqueles que disseram que ele tinha ganho de forma justa e limpa. Nas últimas eleições, em Outubro de 2012, Carter declarou que "posso dizer, a partir das 92 eleições que monitorizei, que o processo eleitoral na Venezuela é o melhor do mundo". Eu estive lá: podem pensar que eu sou como aqueles ingénuos esquerdistas ocidentais que visitavam as aldeias Potenkin na Rússia estalinista. Pertenci a uma comissão eleitoral verdadeiramente independente, composta por apoiantes e adversários de Chávez, que tinha sido anteriormente convidada pela oposição para supervisionar as suas eleições internas. Encontrámo-nos com importantes figuras da oposição que se manifestavam na rua contra Chávez, mas admitiram que viviam em democracia. Quando perderam as eleições, aceitaram a derrota.
     Justiça Social
     Na verdade, o próprio Chávez também teve de aceitar a derrota: em 2007, perdeu um referendo, e não protestou os resultados. Antes de ele chegar ao poder, milhões de venezuelanos nem sequer estavam registados para votar: mas campanhas massivas de recenseamento praticamente duplicaram o eleitorado. Há mais 6000 mesas de voto agora do que havia antes de Chávez. 
     Por outro lado, as credenciais democráticas de muitos dos seus adversários certamente são questionáveis. Em 2002, um golpe ao estilo de Pinochet foi tentado contra Chávez, e apenas foi evitado por causa de um levantamento popular. Os media privados em geral apoiaram e incitaram abertamente ao golpe: imaginem que Cameron era afastado do n.º 10 de Downing Street por generais britânicos apoiados e incitados por estações televisivas de notícias. Mas os media na Venezuela são dominados por privados, alguns dos quais fazem parecer a Fox News esquerdistas ternurentos. A televisão pode ser justamente acusada de favorecer o governo, e talvez por isso apenas tenha uma audiência de 5,4%. Dos sete maiores jornais nacionais, cinco apoiam a oposição, e apenas um é apoiante do governo.
     A verdade é que Chávez ganhou uma eleição após outra, apesar da muitas vezes viciosa hostilidade dos media, porque as suas políticas mudaram as vidas de milhões de venezuelanos que eram antes ignorados. A pobreza caiu de quase metade da população para 27,8%, enquanto a pobreza extrema baixou para quase metade. Seis milhões de crianças recebem diariamente refeições gratuitamente; o acesso aos cuidados de saúde gratuitos é quase universal; e os gastos com a Educação quase duplicaram em percentagem do PIB. O programa de alojamento lançado em 2011 conseguiu construir quase 350 000 casas, ajudando centenas de milhar de famílias que viviam em bairros da lata e casas degradadas. Alguns dos presumidos críticos estrangeiros deram a entender que Chávez efectivamente comprou os votos dos pobres - como se ganhar eleições em consequência de se ter criado maior justiça social fosse uma forma de suborno.
     Alianças
     Isto não significa que Chávez não possa ser criticado. A Venezuela já tinha uma alta taxa de criminalidade quando ele foi eleito, mas a situação piorou desde aí. Cerca de 20 000 venezuelanos morreram em crimes violentos em 2011: uma taxa de mortalidade inaceitável. Tanto como as drogas, a liberalização da posse de armas e a desestabilização provocada pela vizinhança da Colômbia, devemos culpar uma polícia fraca (e muitas vezes corrupta). Apesar de o governo estar a começar a constituir uma força policial nacional, o crime endémico é uma verdadeira crise. Quando falei com venezuelanos em Caracas, a assustadora falta de segurança foi um problema referido tanto por aliados como por adversários de Chávez. 
     E depois há a questão de algumas associações de Chávez a nível internacional. Apesar dos seus aliados mais próximos serem governos de esquerda da América Latina - quase todos defendendo Chávez de forma apaixonada das críticas oriundas do estrangeiro - ele também apoiou ditadores brutais no Irão, na Líbia e na Síria. Certamente prejudicou a sua reputação. É claro que no Ocidente não podemos acusar Chávez de consciência limpa. Apoiamos e armamos ditaduras como a da Arábia Saudita; o antigo primeiro-ministro britânico Tony Blair recebe 13 milhões de dólares da ditadura do Kazaquistão pelo seu trabalho. Mas a nossa própria hipocrisia não absolve Chávez da crítica.
     A chamada Revolução Bolivariana era demasiado dependente da reputação de Chávez, e inevitavelmente a sua morte levanta questões sobre o que irá acontecer no futuro. Mas não duvidemos: Chávez era o democraticamente eleito campeão dos pobres. As suas políticas tiraram milhões da pobreza e da mais abjecta miséria. Ele representou um corte com anos de regimes corruptos e com um sinistro desempenho na área dos direitos humanos. Os seus êxitos foram atingidos sob a ameaça do um golpe militar, a agressividade hostil da imprensa e fortes críticas internacionais. Ele provou que é possível resistir ao dogma neoliberal que exclui grande parte da humanidade. Ele será chorado por milhões de venezuelanos - e é difícil não entender porquê. " 

         Santo Chávez e o pecado do soberba     (-por D.Oliveira, Arrastão e Expresso online)

   Não vou aqui desenvolver sobre o complexo processo político venezuelano, com particularidades que a vontade de transformar Chávez num herói ou num vilão geralmente esquecem. Não vou falar da melhoria das condições de vida de muitos venezuelanos, do facto de 43% do orçamento do país ser para políticas sociais, da mortalidade infantil ter caído para metade, do analfabetismo ter sido drasticamente reduzido e da Venezuela ser, com o Equador, o país da América do Sul com a maior redução da taxa de pobreza entre 1996 e 2010.

     Não vou falar da corrupção e da nova elite "bolivariana" que, em torno de Chávez, enriqueceu às custas do novo regime. Nem da desastrosa política económica que não está a preparar a Venezuela para um futuro sem petróleo.

     Não vou falar de uma política que deu dignidade aos miseráveis, nem de um tresloucado populismo que partiu um País a meio. Não vou falar da justa resistência a um imperialismo que sempre tratou a América Latina como um quintal, pondo e depondo governantes, sugando os seus recursos e promovendo tiranetes. Não vou falar de amizades impensáveis com teocracias que nenhum homem de esquerda pode tolerar. Para além de conseguir aborrecer chavistas e antichavistas ao mesmo tempo, o que é sempre salutar, de pouco valeria neste momento. Aquilo de que quero falar, a propósito de Chávez, é de uma doença política, especialmente presente na América Latina, mas transversal a toda a vida política: o culto da personalidade.

    É habitual, em movimentos políticos, sobretudo movimentos políticos revolucionários (mas não só), substituir o corpo das ideias, abstrato e incompreensível para quem não tenha preparação política, pela personalidade de um só individuo, facilmente apropriável por todos. Quando se trata de alguém que já morreu, a coisa é menos grave: cria-se um herói cujas características são devidamente moldadas para servir uma causa. Quando essa pessoa é viva e tem poder, isso implica que o poder se concentra nas suas mãos e as ideias pelos quais um movimento político se bate dependem das idiossincrasias desse individuo. Concentrar a simbologia de um processo político num homem dá a esse homem um poder extraordinário. Na realidade, dá-lhe um poder absoluto. E se o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente. O mais sólido dos democratas - que Chávez não seria - transforma-se num ditador se nele concentrarmos todo o poder político.

     As intermináveis conversas de Chávez na televisão, o absurdo culto da personalidade que promoveu, a exposição de toda a sua vida pessoal, para uso político, a evidente paranoia que o levou a culpar tenebrosas forças pela sua doença, a forma como tentou eternizar-se no poder, fazendo por moldar a Constituição de toda uma nação às suas conveniências pessoais, tudo mostra um homem que olhava para si próprio como a encarnação da pátria e da sua revolução.

     Dirão que a América Latina é assim mesmo, como a direita poderia dizer que as ditaduras sanguinárias que por ali vingaram eram mais características culturais do que políticas. Mas o culto da personalidade está, como a Europa sabe, bem longe de ser uma particularidade latino-americana. É uma doença política. Uma doença contrária àquelas que devem ser todas as convicções da esquerda e de qualquer democrata. Porque o culto da personalidade limita o debate democrático, dando a um homem o poder da infalibilidade. Porque destrói o sentido critico, transformando todos os que participem no mesmo projeto político em meros seguidores de um iluminado e todos os que a determinado momento se lhe oponham em traidores. Porque, em vez de distribuir o poder pelo povo, o concentra ainda mais. Já não apenas numa classe ou num determinado grupo, mas numa só pessoa. Porque faz depender do bom-senso de uma só pessoa os bons resultados de um processo que deve ser colectivo. E é difícil alguém que concentra tanto poder não se embriagar com ele e manter a lucidez. Porque faz depender um País, um partido, uma revolução de uma só cabeça, sempre limitada na sua sabedoria, inteligência e até na sua esperança de vida.

     Não sei se o processo revolucionário venezuelano, ache o que se achar dele, sobreviverá a Chávez. Se sobreviver, talvez a sua morte, sempre lamentável no plano pessoal, seja uma boa notícia. E ficará provado que o chavismo era mais do que Chávez. Se não, é mais uma boa lição para todos os que, em democracia ou fora dela, na América Latina ou na Europa, continuam a acreditar em movimentos carismáticos. Sim, todas as religiões precisam do seu ícone. E a política simula sempre a religião - em vez da missa o comício, em vez do santo o mártir, em vez do altar o púlpito. Mas os ícones vivos, por terem vontade própria, são demasiado perigosos pelo poder que inevitavelmente concentram em si.

    Um movimento carismático transporta sempre em si, pela sua natureza, a semente da tirania. Na política devemos ter sempre a cautela de acreditar que os que lideram não são menos frágeis do que nós. E quem se reclama de movimentos emancipadores não pode, em simultâneo, colocar a sua vida nas mãos de um homem. Nem a sua, nem a de um povo.



Publicado por Xa2 às 07:57 de 07.03.13 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

Não aguentamos esta destruição ! ... vamos à manif. e à Luta !

Não, não aguentamos

         «Esta semana tivemos mais notícias do projecto de (re)engenharia social em que nos tornamos. Já vamos em praticamente um milhão de desempregados registados e umas largas dezenas de milhares que não arranjam coragem suficiente para ir ao centro de emprego dar o nome. Mais de metade destes nossos concidadãos já não recebem o subsídio de desemprego caminhando rapidamente para a miséria. Gente que não era sequer pobre há dois ou três anos. Homens e mulheres de classe média, na sua maioria entre os trinta e cinco e os cinquenta anos, com filhos, com casas para pagar, cujas perspectivas de voltar a trabalhar são muito ténues. Pessoas que cedo ou tarde trabalharão por quase nada, se essa sorte tiverem, tal será o desespero. Tudo gente a quem foi dito que se devem ajustar a um novo modelo social. Um que não tem contemplações com quem não for empreendedor, com quem não for especializado em indústrias transaccionáveis; aquele que não suporta piegas.
     Também ficamos a saber que quarenta por cento dos nossos rapazes e raparigas não conseguem começar as suas vidas profissionais. A mais bem qualificada geração portuguesa está condenada a emigrar. São, no fundo, uns privilegiados. Estes ainda podem zarpar para outros lugares. Como os seus avós, fogem à fome e como os seus avós partem não porque querem mas porque não há lugar para eles. Ficam os velhos, os que não podem fugir.
     Números, muitos números que o primeiro-ministro promete rever. Para já temos uma economia em recessão profunda, sem investimento, sem procura interna, com as exportações a diminuir e dentro em pouco com menos 4 mil milhões de euros a circular: ninguém percebe como raio não vão ser destruídos ainda muitos mais empregos que o previsto ou que milagre se dará para que a economia comece a crescer. As boas notícias são que lá para o segundo semestre o ritmo da subida do desemprego vai diminuir, ou seja, vamo-nos afundando mais devagarinho. Nessa altura o primeiro-ministro volta a rever a folha de cálculo.
      Os valores do desemprego correspondem a uma vontade política. Não da responsabilidade integral do Governo, que fique claro. Mas que o Governo abraçou de forma entusiástica as políticas que conduzem à recessão e ao desemprego, não há dúvidas.
      Todas as medidas que foram sendo tomadas e que vão continuar a ser terão sempre este tipo de consequências. No fundo, o Governo acredita que destruindo o actual tecido económico, provocando a maior recessão da nossa história recente, atirando milhões para o desemprego, dum momento para o outro e duma forma radical, resultará num país novo, dinâmico, exportador, empreendedor. Sem preguiçosos e sem os mandriões que viviam à custa dos subsídios de desemprego e dos rendimentos de inserção.
      Não é só uma revolução económica que está em marcha, é sobretudo uma revolução social. O Governo e os loucos europeus apostaram na revolução, no mais puro radicalismo ideológico (neo-liberal). Resolveram testar meia dúzia de princípios ideológicos colados com cuspo e decidiram tornar uma geração praticamente inteira num exército de inúteis, de gente dispensável, de pessoas que não encaixam, que viverão à margem.
      Só que uma comunidade não subsiste, não coopera, não prospera, dividindo os seus cidadãos em obsoletos e modernos, em velhos e novos, em úteis e inúteis, em funcionários privados e públicos, em empreendedores e não empreendedores. Quando destruímos a solidariedade entre os cidadãos, quando deixamos de ter objectivos comuns deixamos de ter uma comunidade no verdadeiro sentido da palavra. Uma sociedade onde um em cada quatro cidadãos não tem emprego (por enquanto), com pessoas que dentro em pouco não conseguirão subsistir por si próprias, em que as outras em grande parte viverão no limiar da pobreza, que expulsa do País uma geração, não é uma verdadeira comunidade.
      Num país com um exército de desempregados, minado pela pobreza, com as prestações sociais muito diminuídas, a democracia será apenas um detalhe sem importância. Pouco tempo sobreviverá.
    Quanto tempo ainda teremos? De quanto tempo mais precisará a Europa para perceber que está a destruir um país? De quanto tempo mais precisará Passos Coelho para entender que tem de inverter o rumo? Nós já temos pouco, muito pouco tempo.»
[DN], Pedro Marques Lopes.   


Publicado por Xa2 às 19:12 de 18.02.13 | link do post | comentar |

Neo-liberalismo : desigualdade, exploração, predação, ... manipular o poder

O  neoliberalismo  por  detrás  da  máscara     (-por Alexandre Abreu, Ladrões de B.)

Quando apodamos de "neoliberais" políticas como as deste governo, volta e meia lá surge quem invoque a etimologia da coisa para argumentar que medidas como o aumento da carga fiscal ou as sui generis nacionalizações da banca em que o Estado rói o osso e deixa a carne têm pouco ou nada de liberais e muito de intervencionistas, pelo que o epíteto "neoliberal" seria automaticamente descabido.   Entendamo-nos de uma vez, portanto:  
    independentemente da etimologia, laissez-faire económico é, quando muito, uma característica apenas secundária e amiúde dispensável do neoliberalismo. O que é absolutamente central é a predação do capital sobre o trabalho e a natureza, a expansão do privado à custa do comum, a prioridade ao lucro relativamente às necessidades humanas. O Estado e as suas possibilidades coercivas constituem, não um alvo a abater, mas um instrumento indispensável a mobilizar. Com extraordinário sucesso nas últimas décadas, acrescente-se.
     Naturalmente, a resistência, o desespero e a indignação resultantes da engenharia social neoliberal são em si mesmos geradores de tensões anti-sistémicas, pelo que outra característica essencial do neoliberalismo, aliás já sugerida no parágrafo anterior, é a intensificação do biopoder: vigilância, encarceramento, subjugação e controlo são, não por coincidência, características das nossas sociedades que têm progredido a par e passo com a intensificação da desigualdade, da exploração e  da predação dos recursos naturais. A figura em cima (retirada daqui) representa, lado a lado e para as últimas décadas, a evolução da percentagem do rendimento auferido pelo decil mais rico da população norte-americana e a da população "correccional" dos EUA (presos detidos e em liberdade condicional). Correlação não é causalidade, mas neste caso não é difícil identificar os nexos causais.
     É certo que o caso norte-americano tem bastante de excepcional, incluindo uma "guerra contra a droga" concebida na década de 1970 para deflectir o potencial anti-sistémico do movimento dos direitos civis ou o facto de se tratar do país com a maior população "correccional", em termos tanto relativos como absolutos, em todo o mundo. Porém, o padrão é universal. Quando no espaço de poucas semanas ficamos a saber que o peso dos salários na economia portuguesa está a aproximar-se de mínimos históricos, que a população prisional do nosso país tem vindo a bater recordes e que as dívidas à Segurança Social superiores a 3.500€ passaram a ser puníveis com prisão até três anos, torna-se mais fácil ligar os pontos e vislumbrar, por detrás da máscara, a verdadeira face do neoliberalismo tardio - também na sua versão portuguesa.


Publicado por Xa2 às 07:34 de 14.02.13 | link do post | comentar |

Fome e Desemprego vs. Caridade e Voluntariado

BANCO  ALIMENTAR:  A  ENGORDA  DA  IGREJA  CATÓLICA    (-por Serafim Lobato)

    Os meios de comunicação social dominantes e os piedosos moralistas defensores da especulação caritativa deram azo à sua veia "humanista", neste últimos tempos, enaltecendo o "trabalho" de uma entidade chamada Banco Alimentar contra a Fome por uma recolha "monumental" de produtos alimentares que, segundo os seus promotores, serão entregues a 2116 "instituições de solidariedade social" com quem aquele mantém "acordos".

De onde vieram os produtos? dos próprios contribuintes. Boa malha.
Chama-se isto "auto-abastecimento" para ser distribuído pelas "capelas".
     Porque não recorreu o Banco Alimentar aos dividendos dos accionistas dos bancos, aos chorudos lucros dos capitalistas para "ajudar" quem passa fome?
     É o Banco uma instituição idónea, independente? Não.  Os três directores executivos para o triénio de 2012-2014, são Isabel Jonet, José Manuel Simões de Almeida e Sérgio Augusto Sawaya, que foi até, há alguns anos atrás, administrador do Banco BPI (que curiosamente tem como principal accionista a catalã La Caixa, ligada à Opus Dei).

     Convém explicar, até com pormenor, qual a razão prática da inutilidade destes Bancos "moralistas", que são, apenas, instituições privadas, que não produzem riqueza,  nem fomentam o emprego produtivo, nem educam as massas populares para exigirem os seus direitos, que são deles próprios, porque fazem descontos, logo, pagam impostos.
     É função do Estado - e não de qualquer empresa privada, apelidada de de "solidariedade", ou de "caridade" - de prover o bem-estar dos seus cidadãos.
A chamadas Instituições de Solidariedade Social - na sua esmagadora maioria, imensamente esmagadora - estão sob controlo financeiro, político e social da Igreja Católica portuguesa. O dinheiro não provem da sua acção.    É o Estado que transfere os dinheiros públicos para os homens-fortes dessas instituições (IPSS, Misericórdias, e outras) os hierarcas religiosos, que dependem dos bispos.   E a dotação orçamental do Estado (OE), repito do Estado ultrapassou em 2011 os 1,2 milhões de euros. 
     Além do mais os utentes, nos casos dos lares, entreguem ainda até 80 por cento das suas reformas. Um duplo ganho para os cofres da Igreja Católica.
Do ponto de vista do progresso humano, da evolução societária, não podemos ser cúmplices das falsificações dos tipos de solidariedade colectiva social e das próprias relações sociais que atravessam todo o sistema da actividade humana. 
     É natural que numa situação de empobrecimento real da população, que busca, em primeiro lugar, a sobrevivência, as pessoas - e são em número elevado - pensem na sua "barriga" e na alimentação, ainda que mínima, e dos seus próximos.
Naturalmente, os apaniguados da caridade, como reacção, lançar-se-ão, como leões esfaimados, contra aqueles que denunciam os manipuladores da miséria, os hipócritas do bem fazer, encobertos com a perfídia de evitar que os instigadores do empobrecimento do povo, sejam apontados e severamente castigados.
     O Banco Alimentar contra a Fome (BACF) é "uma grande empresa e tem de ser gerido como uma grande empresa", confessa à revista da CIA norte-americana "Selecções Reader's Digest", numa entrevista conduzida por uma senhora chamada Anabela Mota Ribeiro à Presidente da Direcção da citada entidade, Isabel Jonet.
     Consultado o relatório do BACF de 2010, verifica-se que o grosso da distribuição de produtos se espalha, essencialmente, por "conferências vicentinas", "centros paroquiais", "centros sociais" e "associações", umbilicalmente, ligadas à Igreja Católica portuguesa.
     Naturalmente, o BACF tem, ao seu serviço, muitos voluntários, mas igualmente trabalha com "profissionalismo", ou seja há um sector que recebe dos "donativos" para seu favor. Como sempre, em instituições da Igreja Católica, os valores monetários são "enrolados", obscurecidos, como por encanto.
Vamos referir e enquadrar a parte a que isso diz respeito no relatório de actividades de 2010, que tem a assinatura principal de Isabel Jonet.
Circulam, portanto, produtos, mas também dinheiro - não sabemos quanto, porque o relatório não o divulga.
     "Em 2010, registou-se um grande acréscimo (19,7%) no total de produtos angariados relativamente ao ano anterior, resultante sobretudo da dotação orçamental extraordinária aprovada pelo Conselho de Ministros da UE para o Programa Comunitário de Ajuda a Carenciados (excedentes da União Europeia), em resposta à crise vivida na União Europeia e à qual Portugal não escapou", assinala o Relatório, ou seja a UE deu dinheiro ao Banco.
No mesmo relatório, pag. 12, são explanadas, em traços, largos, as contas, em dinheiro, repito, em dinheiro, que são "movimentadas", não sabemos como!!!, com os títulos gerais "Custos" e "Proveitos". Os primeiros, no total, ascendem, em 2010, a 17.500.303,38 euros, e os "Proveitos" somam 17.510.470,89 euros.

     Dos produtos, doados pelas grandes empresas, como Pingo Doce, SONAE, entre outras, recebem os "restos", bem como do MARL, ao fim do dia, ou seja quando se encontram, provavelmente, no limite do prazo de validade.
     Estamos perante uma domesticação grosseira das necessidades das pessoas carenciadas.   Roubam-se salários, roubam-se pensões, lançam no desemprego milhões de pessoas, e depois entregam o dinheiro a uns "seres morais" que, privadamente, com o dinheiro público e as doações populares, servem as refeições aos esfomeados.   O desprezo mais repugnante pela condição, a hipocrisia do falso moralizador que, hipocritamente, se intitula em salvador e em benfeitor.  ...



Publicado por Xa2 às 09:29 de 09.11.12 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

A comida (não) é uma arma: caridade .vs. solidariedade, trabalho e dignidade

Carta aberta a Isabel Jonet,

     Não pude deixar de ficar chocada com as suas declarações em como «devemos empobrecer» e que «não podemos comer bife todos os dias» e «que vivemos acima das nossas possibilidades».

     O boletim do INE (Balança Alimentar Portuguesa 2003-2008)[1] lembra-nos que a dieta dos Portugueses está cada vez menos saudável. A fome, escreveu um dos seus maiores estudiosos, o médico e geógrafo Josué de Castro, pode ser calórica ou específica, isto é, pode-se comer muitas calorias e mesmo assim ter fome. Hoje os reis são elegantes e os pobres gordos, num padrão histórico inusitado. Os Portugueses estão a comer uma quantidade absurda de hidratos de carbono. O consumo de papas aumentou 7% com a crise, com consequências graves para a saúde – diabetes, doenças degenerativas, obesidade – porque se trata de açúcares simples. As pessoas alimentam-se apenas de forma a garantir a energia necessária para continuarem a produzir. Sentem-se saciadas, mas manifestam carências alimentares de vitaminas, nutrientes, sais minerais e proteínas de qualidade. Os Portugueses têm uma alimentação hipercalórica – média de 3883 kCal por dia – pobre em peixe e carne, proteínas de origem animal, essenciais, porque são de digestão lenta e indispensáveis ao sistema nervoso.

     O peixe era um dos raros alimentos na viragem do século XIX para o século XX que os pobres comiam mais que os ricos. Agora, o peixe chega à lota e é imediatamente colocado em carrinhas de frio em direcção à Alemanha e à Suíça, embora umas caixas fiquem na mesa dos ricos e do Governo que a senhora defende. O mesmo começou a passar-se  com os medicamentos – o paraíso das exportações é um inferno para quem vive do salário e empobrece.

     No Norte da Europa os trabalhadores foram convencidos a comer «sandes» ao almoço para aumentar a produtividade e quase só a alta burguesia tem acesso a restaurantes. Comer de faca e garfo nos países nórdicos é fine dining.     ...

     Com o aumento das rendas, diminuição dos salários, perseguição da ASAE e saque fiscal, os restaurantes populares fecham portas na mesma proporção que aumentam as filas do Banco Alimentar.

     A fome é um problema cuja origem reside única e exclusivamente no sistema capitalista. Hoje, há tecnologia, terras e conhecimento para que o homem não esteja dependente das vicissitudes Natureza para se alimentar. É aliás isso que distingue o homem dos outros animais, domar a Natureza, através do trabalho, e superar o reino da necessidade, isto é, comer todos os dias e poder compor música ou escrever um livro. Isso é a liberdade.

     A fome em Portugal deve-se única e exclusivamente a escolhas políticas pelas quais a senhora é co-responsável, com a sua defesa da política de «empobrecimento». A fome deve-se:

  1) à manutenção de salários abaixo do limiar de subsistência, abaixo do cabaz de compras, o que torna os sectores mais pobres dependentes das instituições que os alimentam;

  2) ao encerramento de fábricas, empresas e aos despedimentos para elevar a taxa de lucro na produção;

  3) ao desvio de investimentos para a especulação em commodities, entre elas, grãos;

  4) à deflação dos preços na produção, ou seja, se não obtêm uma taxa média de lucro que considerem apetecível, as empresas de produção de alimentos preferem não produzir.

     Mas a fome deve-se ainda a um factor mais importante tantas vezes esquecido, a questão da propriedade da terra. Enquanto mercadoria produzida para gerar lucro, a produção de alimentos deve render um lucro médio ao proprietário da produção semelhante ao lucro alcançado na indústria. Para além desse lucro médio temos que arcar também com a renda da terra (um pagamento inaceitável por aquilo que a natureza nos deu de borla). É também essa renda responsável pela existência de subsídios à produção. Porque a agricultura é menos produtiva do que a indústria, a renda da terra é subsidiada. Com a crise do crédito, esses subsídios diminuem e o preço dos alimentos dispara até preços incomportáveis. Por isso, sem emprego e expropriação de terras (reforma agrária) sob controle público, a fome só irá aumentar.

     Quem percorre Portugal percebe também que se aqui há fome não é por falta de terras, máquinas ou pessoas para trabalhar. Em Portugal, 3 milhões de pessoas são consideradas oficialmente pobres. Produzimos uma riqueza na ordem dos 170 mil milhões de euros (PIB português que poderia ser bem maior não fosse a política de desemprego consciente do governo) e temos de “empobrecer”?! Para onde vai este dinheiro, dona Isabel Jonet? 170 mil milhões de euros produzem os Portugueses juntos e não podem comer bife?

     As tropas de famintos são uma mina de ouro para as instituições que vivem à sombra do Estado a gerir a caridade: os nossos impostos, em vez de serem usados para o Estado garantir o bem-estar dos que por infortúnio, doença ou desemprego precisam (solidariedade), são canalizados para instituições dirigidas sobretudo pela Igreja católica (caridade). A solidariedade é de todos para todos, a caridade usa a fome como arma política. Por isso nunca dei um grão de arroz ao Banco Alimentar contra a Fome. A fome é um flagelo, não pode ser uma arma para promover o retrocesso social que significa passarmos da solidariedade à caridade(zinha).

     A sua cruzada, dona Isabel Jonet, lembra infelizmente os tempos do Movimento Nacional Feminino e as suas campanhas de socorro «às nossas tropas». As cartas das «madrinhas de guerra» e os pacotes com «mimos» até podiam alegrar momentaneamente o zé soldado, mas destinavam-se a perpetuar a guerra. Os pacotes de açúcar e de arroz do seu Banco Alimentar aliviam certamente a fome das tropas de destituídos que este regime, o seu regime, está a criar todos os dias. Mas a senhora e as políticas que defende geram fome, não a matam.

     (-por Raquel Varela, historiadora, coordenadora do livro Quem Paga o Estado Social em Portugal? (Bertrand, 2012)

 (-por Quino, via Sérgio Lavos)

Veja o video «P'rà sopa dos pobres» [deputada interpelando o ministro da solidariedade...]


Publicado por Xa2 às 09:28 de 09.11.12 | link do post | comentar | ver comentários (5) |

Objectivo ultra-liberal: semi-escravizar trabalhadores e cidadãos

            O  boneco    [ I ]

      A forma mais eficaz de emagrecer é passar fome. A forma mais eficaz de passar fome é não ter com que comprar o que comer. Se a comida for importada as importações baixam. Se não se produzir comida, emagrece-se.
      A forma mais eficaz de passar frio é não ter fonte de aquecimento. A forma mais eficaz de passar frio é não ter com que comprar o combustível ou a energia para aquecer. Se a energia for importada as importações baixam. Se não se produzir energia, enregela-se.
      A forma mais eficaz de submeter é criar uma rede infinda de miseráveis. A forma mais eficaz de criar essa rede é empobrecer aqueles que nela se irão meter. Se não houver emprego haverá mão-de-obra disponível para recrutar a custo mínimo. Se houver precariedade, haverá mais a sujeitarem-se à semiescravatura.
      A forma mais eficaz de estar confortável é seguir uma ideologia fanática avisando que ela será implementada custe-o-que-custar. A forma mais eficaz de conseguir implementar essa ideologia é conseguir um bode expiatório externo para demonstrar a inevitabilidade do caminho único. Se não houver aceitação da ideologia fanática não haverá ordenados nem pensões. Se não houver submissão não haverá pão para malucos.
      Além da troica é a forma mais eficaz de conseguir as metas de empobrecimento. Custe o que custar é a forma mais eficaz de as impor. Ameaçar com o fim do mundo é a forma mais eficaz de chantagear.

      Substituir este Governo é a única forma eficaz de parar o fanatismo e a destruição total. Vai ter de ser, custe-o-que-custar.

      O Boneco [II] agora em Excell para que os amantes da Microsoft entendam melhor
Excell                          (-por LNT  [0.521/2012], A Barbearia)



Publicado por Xa2 às 13:48 de 23.10.12 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

Não sou Ateniense nem Grego, procuro ser cidadão do Mundo.

      Na  Grécia,  o  povo  é  quem  mais  ordena

por Daniel Oliveira

 Carta aberta aos Presidentes do Parlamento Europeu, da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu e do Fundo Monetário Internacional
... LEIA EM BAIXO OS SUBSCRITORES, E ASSINE AQUI .     ( Ver mais... )
 
 Portugal não é a Grécia, o Niger não é aqui
«Decca Aitkenhead (jornalista do The Guardian): Quando analisa as contas gregas e exige medidas que sabe podem significar que as mulheres não terão acesso à assistência no parto, que os doentes deixam de poder aceder a medicamentos que lhes salvam a vida, e que os idosos vão morrer sozinhos por falta de cuidados - deixa de pensar em tudo isso e concentra-se nas contas?
Christine Lagarde (directora-geral do FMI): Não, penso sobretudo nas crianças da escola de uma pequena aldeia no Niger, que apenas têm duas horas de escola por dia e que partilham, cada três, uma cadeira, felizes por estar a aprender. Tenho-as no meu pensamento o tempo todo. Porque acho que elas precisam ainda mais do que as pessoas em Atenas. (...) Sabe que mais? No que diz respeito a Atenas, eu também penso naquelas pessoas que estão sempre a tentar fugir aos impostos.
DA: E pensa mais nesses do que naqueles que estão a lutar pela sua sobrevivência, sem emprego nem serviços públicos?
CL: Penso em todos por igual. E acho também que todos têm que se ajudar colectivamente. (...) Pagando os seus impostos. Sim.
DA: E os filhos deles, que não podem ser responsabilizados?
CL: Bem, os pais deles são responsáveis, certo? Por isso devem pagar os seus impostos.»
    Não era de certeza este o destaque que Christine Lagarde tinha em mente com a entrevista concedida ao The Guardian. A mensagem pretendida era seguramente outra («É tempo de pagar, não esperem complacência») e insere-se na estratégia de pressão que diferentes instituições internacionais (nomeadamente o FMI, BCE e Comissão Europeia) têm estado a exercer sobre a Grécia.
    Às portas de um acto eleitoral que pode conduzir o Syriza à vitória, estas instituições temem, sobretudo, que seja finalmente desmascarado o «bluff» com que tentam intimidar os gregos (como se estes não fossem, afinal, quem mais pode sair beneficiado desse desenlace), e com que procuram, simultaneamente, disfarçar as suas responsabilidades pelo fracasso da receita austeritária (o que implica manter a todo o custo a tese da culpa dos gregos pela ineficácia dessa terapia salvífica, apesar de a Grécia ter procurado cumprir os compromissos estabelecidos, num grau muito maior do que é comum pensar-se).

     Christine Lagarde sabe que o aprofundamento da recessão económica, a contracção dos serviços públicos e a degradação das condições de vida na Grécia constituem, acima de tudo, o resultado da austeridade imposta àquele país (e da qual o FMI é empenhado cúmplice). Foi aliás a própria instituição a reconhecê-lo recentemente e está aí, à vista de todos, o impacto da estratégia da troika no aumento galopante do desemprego: desde o início da intervenção, foram destruídos cerca de 600 mil postos de trabalho na Grécia (isto é, 600 mil cidadãos que não só deixaram de poder continuar a pagar impostos como passaram a ter que viver de subsídios de desemprego, entretanto encolhidos e emagrecidos).

   O falhanço consecutivo das optimistas previsões macro-económicas fixadas é, aliás, uma das mais sintomáticas evidências da fraude intelectual que constitui a doutrina austeritária e que a realidade trata constantemente de demonstrar (em Janeiro do corrente ano, por exemplo, as receitas fiscais gregas diminuíram cerca de 7% face a Janeiro de 2011, quando se previa que aumentassem cerca de 9% nesse período).

     E Christine Lagarde sabe também, melhor que qualquer comum mortal, que a «ajuda» internacional à Grécia é essencialmente canalizada para o sistema financeiro nacional e internacional (sendo por isso reduzido o montante que é colocado à disposição do Estado grego).

Surpreende-se com o aumento da fuga ao fisco? E tenta emendar a mão, dizendo que pretendia referir-se, com as suas declarações, à necessidade de cumprimento das obrigações fiscais, sobretudo pelos mais favorecidos? (os banqueiros, armadores, especuladores e grandes empresários, as multinacionais  e as transações financeiras ?!!

    Deveria então consultar, por exemplo, um estudo da própria Comissão Europeia, que reconhece que as medidas de austeridade induzem um agravamento das desigualdades sócio-económicas nos países sujeitos a curas de ajustamento como as que o FMI continua a defender.
    Para lá de tudo isto choca, evidentemente, a insensibilidade de Lagarde perante situações como a de pais que se vêem forçados a deixar os filhos em instituições de solidariedade (ou abandonados nas ruas), de mães que tentam acalmar bebés que choram, dando-lhes água para substituir o leite que não podem comprar, ou crianças que desmaiam durante as aulas por não terem comido.

    Quando é preciso invocar o exemplo do Niger, como faz Lagarde, para tentar desvalorizar o drama social e humano em que a Grécia se encontra, estamos certamente conversados quanto aos efeitos devastadores que decorrem da aplicação da receita austeritária a um país europeu, não estamos?  

   



Publicado por Xa2 às 19:42 de 15.06.12 | link do post | comentar | ver comentários (4) |

Pobreza, desemprego e más políticas na U.E.

Um Sorriso ... amarelo ?!

 

    Com tendência para continuar a subir, segundo o Eurostat, o desemprego atingiu os 14,8%, ficando Portugal logo atrás da Espanha e da Grécia, ao nível da Irlanda (ler aqui). Com cálculos rigorosos, de onde sejam extraídos estágios e trabalhos precários, não ficaremos longe dos 20% e este cenário, efectivamente dramático para as condições de vida dos cidadãos, exige uma intervenção política urgente, incontornavelmente assente na real orientação social da economia.
    A verdade é que o tempo da austeridade "cega", centrada na mera lógica da contabilidade financeira, não pode continuar a prolongar-se sob pretexto algum... além disso, a Europa já não tem (nem pode ter!) argumentos para impôr aos Estados que a integram o sacrifício das suas populações, sob pena do total desmantelamento da sua fragilizada arquitectura política... e mais do que isso, da eclosão de uma gravissima crise social de que a contestação e a violência são apenas um dos lados da moeda, no contexto da emergência generalizada da pobreza...


Publicado por Xa2 às 07:59 de 14.03.12 | link do post | comentar | ver comentários (9) |

Implosão económica e social ?

Classe média está em risco de “implosão”  (-por Graça B.Ribeiro, Público, 29.1.2012)

Num ensaio que esta semana chega às bancas, o sociólogo Elísio Estanque analisa a ascensão e declínio dos segmentos sociais que hoje estão rotulados como "os novos pobres".

Sociólogo diz que políticos deviam estar mais preocupados com "a possível implosão" da classe média 
    Quando entram no Gabinete de Apoio ao Sobreendividado da Deco, a primeira pergunta que as pessoas fazem é:    "Esta conversa fica só mesmo entre nós?" A resposta - "sim" - é essencial para o prosseguimento do diálogo.
    Algumas têm os vencimentos penhorados e já cortam na própria alimentação, mas fora daquelas quatro paredes agem como se nada tivesse mudado, mesmo junto de familiares e de amigos. Fazem parte de uma classe média "doente" e "em declínio", tema do ensaio do sociólogo Elísio Estanque que avisa que "os poderes políticos deviam estar mais preocupados com a possível implosão da (ex-)classe média do que com a sua eventual manifestação nas ruas".
    No seu escritório, na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, o investigador do Centro de Estudos Sociais folheia um jornal. Pode ser o do dia, o da véspera ou o da semana anterior, "não interessa", diz - "Todos os dias há algo de novo: o acordo de concertação social, o anúncio de uma nova vaga de excedentários na função pública, o abandono da universidade pelos estudantes, as novas vagas de desemprego, o aumento das taxas moderadoras, a desmontagem do Estado Social – está tudo a acontecer de uma forma extraordinariamente rápida e intensa", comenta. Aponta o livro editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, que este fim-de-semana chega às bancas com o título «A Classe Média: Ascensão e Declínio», e admite: "Se fosse hoje, provavelmente trocaria o termo "declínio" por "queda"".
    No ensaio, Elísio Estanque vai para além da sistematização teórica. A segunda parte do livro é dedicada às particularidades do caso português, no que respeita "à célere e pouco sustentada ascensão da classe média" e também à forma como ela "agora se desmorona, de maneira igualmente rápida e abrupta, na sequência do "empurrão" da crise e das medidas de austeridade".
    O ponto de chegada do sociólogo é uma classe média " fraca e ameaçada de ‘proletarização’"; o ponto de partida de uma sociedade "que em escassas dezenas de anos passou de predominantemente rural a marcadamente urbana". Os dados são objectivos: a população activa no sector primário encolheu de 43,6 por cento em 1960 para 11,2 em 1991 e a do sector terciário cresceu, no mesmo período, de 27,5 para 51,3 por cento.
    O peso da classe média - "que até 1974 era absolutamente residual", nota o investigador – resulta, na sua perspectiva, de vários factores conjugados. Refere-se à progressiva generalização da frequência do ensino superior que se reflectiu na proliferação das profissões liberais; e também ao crescimento do sector público, que vê como o principal canal de mobilidade ascendente para as classes trabalhadoras, graças às políticas centradas em áreas como a Educação, a Saúde, a Justiça ou a Administração Pública.
    A afirmação do Estado Social e os fenómenos de litoralização do país e de concentração urbana são outros dos factores que na sua óptica "se viriam a mostrar decisivos quando, após a instabilidade dos anos 80, Portugal entrou numa espécie de euforia política e económica", acentuada pela entrada de fundos da Comunidade Europeia.
    Despido da fundamentação teórica, o retrato é quase caricatural. Elísio Estanque fala dos grupos instalados nas periferias urbanas que alimentam a ambição de ascensão social tendo como termo de comparação o mundo rural, contingente e precário da geração dos pais. Considera que aqueles grupos, ao conquistarem empregos "limpos", que imaginavam estáveis e seguros, acreditaram estar, "desde logo, confortavelmente instalados na classe média". É neste contexto, analisa, que se dá o "casamento" que o investigador considera "fatal": a ânsia daqueles grupos de adoptarem padrões de vida europeus, modernos e urbanos coincide com o florescer do mercado do crédito.
    "Não responsabilizo especialmente as pessoas, do ponto de vista individual. Não tenho dúvidas de que se tratou de um programa de facilitação do crédito estrategicamente montado, planeado e orientado por parte da própria banca", comenta Elísio Estanque. Considera que as consequências, "que hoje estão à vista", "foram agravadas, por um discurso político que, ao invés de ter um teor pedagógico e preventivo, instigou ao consumo e ao progressivo endividamento". São inúmeras as testemunhas directas dos acontecimentos de que fala o investigador, algumas delas colocadas em postos de observação privilegiados. É o caso de Natália Nunes, responsável pelo Gabinete de Apoio ao Sobreendividado (GAS) desde que aquele foi constituído, em 2000.
    Recorda-se de que os primeiros consumidores a pedirem auxílio à DECO tinham recorrido ao crédito para comprar casa, carro, mobílias, computadores ou electrodomésticos". Hoje a situação é diferente: de uma forma genérica, diz, as pessoas não conseguem identificar o que as levou a pedir empréstimos. Por uma razão simples: "A maior parte das famílias tem cinco ou mais créditos, sendo que os mais recentes são contraídos para fazer face aos antigos...", explica Natália Nunes.
    Em 11 anos multiplicaram-se os pedidos de apoio ao GAS, que em 2000 deram origem à abertura de 152 processos, em 2010, a perto de três mil, e no ano passado a 4288. E Natália Nunes não hesita em situar as pessoas que hoje vivem as situações mais graves no grupo estudado por Elísio Estanque, a classe média. Do total de consumidores apoiados, 61 por cento têm idades compreendidas entre os 30 e os 50 anos; 45 por cento concluíram o ensino secundário ou universitário e a maior parte tem rendimentos superiores a 1500 euros por mês. São pessoas reais, que aparecem diluídas no ensaio de Elísio Estanque, enquanto membros de um segmento social que se tornou vítima da "progressiva redução dos direitos sociais e laborais, do consequente aumento da insegurança, do desemprego e das medidas de austeridade".
    No livro, o investigador fala desta classe média atribuindo-lhe "vivências de carácter bipolar", em que "um quotidiano depressivo se conjuga com técnicas de dissimulação e disfarce". Estanque chega a afirmar que o quadro roça "a patologia social", já que um grupo continua "a negar a todo o custo uma realidade, mesmo quando já mergulhou nela até ao pescoço".
    A descrição corresponde ao mundo em que se move, diariamente, o presidente da Caritas, Eugénio Fonseca. "As pessoas recusam-se a assumir a perda de status, aguentam muito para além do limite do razoável, procurando manter a aparência de um estilo de vida que já não são capazes de pagar. E quando finalmente nos procuram, a gravidade das situações é tal que ultrapassa, em muito, a nossa capacidade de intervenção", lamenta.
    Natália Duarte lida com o mesmo tipo de comportamento: "As pessoas pedem ajuda sob a condição de total confidencialidade. Escondem a sua situação dos vizinhos e até dos familiares que, temem, se afastariam se dela tivessem conhecimento", afirma. O presidente da Confederação Nacional das Instituições Particulares de Solidariedade Social (CNIPE), o padre Lino Maia, confronta-se com os mesmos problemas, mas sublinha que as pessoas sobreendividadas "preocupam-se, principalmente, com a iminência de as dificuldades afectarem os filhos, aos quais procuram proporcionar o mesmo estilo de vida que tinham antes, ainda que eles próprios estejam, já, a cortar na sua alimentação".
    As próprias instituições de apoio social têm vindo a ajustar protocolos para acolher estas pessoas, que na necessidade de ajuda e na situação de pobreza se somam aos sem-abrigo, mas têm um perfil muito diferente.
    "São professores, juristas, arquitectos, engenheiros", enumera Eugénio Fonseca. E não procuram apenas o que comer: "Pedem ajuda para pagar a renda, a água, a luz, as propinas dos filhos", completa Lino Maia. Deram origem a um novo conceito: o de pobreza envergonhada, e começaram há dois ou três anos a aparecer nos noticiários sob a designação de "novos pobres", falando sempre sob anonimato, com a voz distorcida, filmados ou fotografados de costas ou em contraluz. "Nesse aspecto, a situação piorou: hoje dificilmente se consegue que estas pessoas falem, mesmo nessas condições", diz Lino Maia.
    O que aconteceu? "As pessoas estão deprimidas", diagnostica o presidente da Caritas. Elísio Estanque hesita em falar de um grupo social "doente". Mas acaba por assumir a expressão, para designar "o estado de segmentos da população que em duas décadas alimentaram expectativas fortíssimas e legítimas de mobilidade social ascendente e que agora caem na pobreza, sem perspectivas de retornar, sequer, à posição anterior". "É doentia", considera, a forma "envergonhada, calada e silenciosa" como esta frustração está a ser vivida por aqueles que ao mesmo tempo "encenam uma normalidade que já não existe".
    "Quando falam dos perigos da conflitualidade social, os agentes políticos só pensam nas manifestações de rua. Esquecem que esta forma de sofrimento é uma outra forma de conflitualidade, muito mais corrosiva, muito mais destruidora da afirmação do sujeito na sua relação com os outros", alerta o sociólogo.
    Elísio Estanque considera que "não estão a ser devidamente avaliados os custos, a médio prazo, de uma sociedade doente, incapaz de responder às necessidades do país". Eugénio Fonseca, da Caritas, recorre à experiência de contacto com estes grupos, no terreno, para avisar que, "só do ponto de vista da saúde pública, os custos já serão tremendos". "Não há dados, não há estudos, ainda está tudo a acontecer. Mas temo bem, devido a alguns casos concretos que conheço, que estes "novos pobres", com qualificações superiores e sem perspectivas de recuperar o estatuto social perdido, sejam os responsáveis pelo engrossar das estatísticas do consumo de ansiolíticos e até de suicídios", avisa o presidente da Caritas.
    O próprio Elísio Estanque prepara um trabalho académico nesta área, centrado nestes segmentos "que caíram um ou dois degraus na pirâmide social". Afirma que não quer ser dramático e que "confia na capacidade da sociedade de se regenerar", mas em relação à forma como tal acontecerá não arrisca qualquer hipótese. Tem "poucas ou nenhumas dúvidas", no entanto, "de que as consequências serão gravíssimas no que respeita ao acentuar das desigualdades entre ricos e pobres" – "Nesse aspecto, não sei como é que se pode evitar um retrocesso".


Publicado por Xa2 às 13:34 de 30.01.12 | link do post | comentar | ver comentários (12) |

Desigualdade prejudica a sociedade e o desenvolvimento

Richard Wilkinson: o vídeo


   A que já fizemos referência aqui e no qual Wilkinson sugere que a prosperidade de um país decorre da existência de uma relação dialética - de mútuo benefício - entre crescimento económico e equidade social, contrariando assim as teses que defendem que o combate às desigualdades apenas pode ter lugar depois de se alcançar uma situação de crescimento da economia (coisa que, em regra, nunca é reconhecida, ficando sempre postergada para as calendas gregas).
    (Com um agradecimento à Joana Lopes, pela ajuda na colocação desta versão legendada em português, que a Iniciativa para uma Auditoria Cidadã à Dívida produziu).

    (-p



Publicado por Xa2 às 13:36 de 25.11.11 | link do post | comentar | ver comentários (2) |

Depois vieram buscar ...

- E tu ficas calado e quieto ?   - Até ser demasiado tarde ?!   ... chega de desculpas:  Levanta-te  e  Luta.

 

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Publicado por Xa2 às 07:40 de 23.11.11 | link do post | comentar | ver comentários (15) |

Greve e anti-demagogia

Aprender com a coragem de Yucheng

(-por Daniel Oliveira, Expresso online)

  Notícias recentes dão-nos conta que 700 trabalhadores chineses de uma fábrica de calçado desportivo, em Yucheng, que fornece a Nike e a Adidas, entraram em greve. Resistem a despedimentos e à redução dos seus já miseráveis salários. Foram, como é evidente, ferozmente reprimidos. Como se sabe, o impressionante crescimento económico da China não tem sido acompanhado por aumentos salariais proporcionais. A sua miséria serve para acumular riqueza em meia dúzia de mãos. 
   Estes trabalhadores suspeitam que se prepara uma deslocalização. Mesmo sendo trabalhadores muito baratos há ainda mais barato que eles num outro lugar do planeta. E esta "contenção salarial", como agora se chama à escravatura, é garantida por um regime totalitário que os mantém ordeiros e obedientes. Não faltará quem lhes diga que o risco que correm com esta greve, para além da prisão, é a da empresa ir mesmo embora. Que o melhor que teriam a fazer era comer e calar. Porque a vida é mesmo assim. 
   Esta greve, e tantas outras que, apesar da repressão, se vão multiplicando na China, é uma esperança para todos nós. A luta social dos chineses é o que mais facilmente pode travar a competição entre países para degradar a vida dos trabalhadores. E esta competição vem sempre com uma chantagem: ou aceitam, ou vão para o desemprego. E não falta quem tente mascarar isto de justiça global. Empobrecemos para os chineses viverem melhor. Chega então o memento em que os chineses ouvem o mesmo argumento: empobrecerão para outros quaisquer viverem melhor. Até, globalmente, vivermos todos pior. Menos os que lucram com esta concorrência pela miséria
    Os chineses que fazem greve são também uma lição. O risco que correm, ao fazer uma greve, é incomensuravelmente maior do que aquele que corremos. Por enquanto, ainda temos o direito à greve.
Podemos perder o emprego? Sim, muitos dos que estão na situação laboral que este governo sonha para todos nós - sem segurança nem contratos -, podem. Podemos perder uma promoção? Sim, podemos. É o preço que se paga pela coerência e coragem
    Cada um decidirá se vale a pena. Se a defesa da escola pública para os seus filhos, dos hospitais para si e para os seus pais vale o risco. Se a resistência ao assalto aos seus salários, às indemnizações por despedimento, aos subsídios de natal e de férias, às reformas para as quais descontaram e aos seus impostos vale o risco. Se o nosso futuro como comunidade e se a defesa do Estado Social que nos garantiu, apesar da nossa pobreza, uma vida um pouco mais digna (é comparar os números de há quarenta anos e de hoje) merece esta luta. Sendo certa uma coisa: se a greve de amanhã não se justifica, nenhuma outra se justificará. 
    O argumento contra a greve é sempre o mesmo. É sempre a mesma chantagem. Que ela só piorará a nossa economia. Que precisamos "é de trabalho". Aqueles que vivem à custa do nosso esforço, do nosso trabalho e dos nossos impostos contam com isso.
Contam os que esperam reduções salariais - que, como se vê pela China, nunca nos permitirão competir com ninguém, porque lá no fundo do poço há sempre quem receba menos para produzir mais - para aumentar ainda mais a desigualdade no mais desigual dos países europeus.
Contam os banqueiros, que fazem exigências ao governo para determinar as condições para receberem o dinheiro que os contribuintes pagarão com juros.
Conta o governo, que entre a troika e os banqueiros, tem de escolher a quem cede, sem nunca passar pela cabeça ceder a quem trabalha. Porque se quem trabalha não mostra o poder que tem não tem poder nenhum. Não conta na equação de governos avençados a interesses. Governos que só se lembram de onde vem a sua legitimidade em campanhas eleitorais. Campanhas onde nos prometem o que não tencionam cumprir
    Na vida, nada se consegue sem lutaTudo o que temos - do Serviço Nacional de Saúde à Escola Pública, do salário mínimo às férias e fins-de-semana - custou demasiado a muitos para desistirmos sem resistir. Foram criados porque os que vivem apenas do seu trabalho foram suficientemente corajosos para mostrar que sem eles não há paz social, não há produção, não há riqueza, não há lucro. Que eram e continuam a ser eles que criam a riqueza. De tempos em tempos isso tem de ser recordado. 
    Vivemos um momento histórico. Tudo está em causa. Os nossos direitos são tratados, por uma elite que vive numa redoma social, como privilégios. A nossa dignidade é tratada como um luxo. Não falta quem nos explique que é de cabeça baixa e em silêncio que sairemos desta crise. Cada um por si. Cada país por si, cada trabalhador por si, cada cidadão por si. Paralisados pelo medo que nos vendem em horário nobre. Nunca foi assim que nenhuma sociedade evolui. 
    A greve de amanhã não nos tirará da crise. Nem arruinará o País. Mas, se ela correr mal, é um sinal que damos. Um sinal de desistência e resignação. Na sexta-feira, se isso acontecesse, estaríamos todos mais desesperados, sozinhos e derrotados. Prontos para perder tudo o que conquistámos com muito mais esforço do que aquele que nos é pedido para esta greve. Às vezes, não trabalhar é a única forma de mostrar a quem tem poder que é do nosso trabalho que o seu poder depende. Espero, por isso, que corramos um décimo dos riscos que os trabalhadores de Yucheng correram. Pela mesma dignidade a que eles julgam ter direito. Quem falta nos momentos históricos não se pode queixar da história. Porque ela é feita por nós.


Publicado por Xa2 às 07:30 de 23.11.11 | link do post | comentar |

Absurdas contradições entre as realidades e as politicas

Estudo do Ministério do Trabalho afirma que o risco de pobreza é de 12% entre os trabalhadores portugueses e é 66,66% do risco de pobreza total, enquanto na Europa é de 8% e 5o%, respectivamente. Isto revela, bem, o que é a política dos baixos salários e o resultado do que foi o ano europeu do combate pela irradicação de pobreza, muito particularmente em Portugal.

A distribuição de rendimentos em Portugal - diz o mesmo estudo é das mais desiguais da Europa, apesar de se verificar uma diminuição entre 1995 e 2008.

As desigualdades salariais têm- se atenuado em Portugal desde 2005 diz ainda o dito estudo!

Entretanto na Concertação Social trabalha-se para novas medidas legislativas que empobreçam mais os trabalhadores como a diminuição das indemnizações por despedimento e fazendo pagar uma taxa para pagar o próprio despedimento!

Tudo em nome do realismo de Helena André que diz que é melhor fazer alguma coisa do que estar parado! Há coisas que mais valia estar parado do que caminhar para o abismo! A história dirá, embora os que vão sofrer na pele as medidas não comam livros de História!

Apoiado em A. Brandão Guedes [Bem Estar no Trabalho]



Publicado por Otsirave às 17:06 de 25.01.11 | link do post | comentar |

O fato usado do presidente

Três dias antes do Natal, assistia calmamente ao Telejornal da RTP1 quando vi a grande notícia da noite. Entre os atentados em Bagdade e as agências de rating, uma voz off anuncia o que as câmaras filmam: o presidente da maior empresa pública portuguesa a levar dois saquinhos de papel com roupa usada e um brinquedinho (usado) para uns caixotes de cartão, cheios de coisas usadas para oferecer no Natal. Fiquei comovida. Que imagem de boa pessoa, que gesto bonito: pegar num fatinho usado do seu guarda-vestidos que deve ter uns 200 e num pequeno brinquedo de peluche, e depositar tudo no caixote de cartão para posteriormente ser redistribuído? À administração da empresa? Não, a notícia explica que é para oferecer aos pobrezinhos, que estão a aumentar com a crise. A RTP, Telejornal à hora nobre, filma o comovente gesto. Em off, o locutor explica o sentido dizendo que alguém vai ter no sapatinho um fato de marca. Olhando para os sacos de papel, percebe-se que esse alguém também receberá umas meias usadas e talvez mesmo uma camisa de marca usada.

Primeiro, pensei que estava a dormir e um pesadelo me fizera voltar ao tempo de Salazar, à RTP a preto e branco ou à série da Rita Blanco «Conta-me como foi».

Mas não, eu estava acordada e a ver o presidente da EDP no Telejornal da RTP 1 (podem ver o filme na net) posar sorridente para as câmaras, a levar um saquinho a um caixote, que não era de lixo, mas de oferta. Por acaso, estava à porta da EDP a RTP a filmar o gesto. Iam a passar e filmaram, certamente, porque para os pobres os fatos em segunda mão de marca assentam como uma luva. Um velhinho num lar de Vila Real vestido Rosa & Teixeira sempre é outra coisa. Ou o homeless na sopa dos pobres com Boss faz outra figura, ou o desempregado com Armani numa entrevista do fundo de desemprego... Mentalidade herdada do Estado Novo, foi a minha primeira análise, teorizando imediatamente que os ricos em Portugal, os que recebem prémios de milhões em empresas públicas e ordenados escandalosos e que puseram o mundo e o país como se vê, são os mesmos com a mesma mentalidade salazarenta. Mas nem é verdade, pois, mesmo nesse tempo, as senhoras do regime organizavam enxovais novos nas aulas de lavores do meu liceu para dar no Natal aos pobres que iam nascer.

Tantos assessores de imprensa na EDP, tantos assessores na Fundação EDP, milhões de euros gastos em geniais campanhas de marketing, tantas cabeças inteligentes diariamente pagas para vender a imagem do presidente da EDP, tudo pago a preço de ouro, e não concebem nada melhor do que mandar (!?) filmar, no espaço do Telejornal mais importante do país, um gesto indigno, triste, lamentável, que envergonha quem vê. Não têm vergonha? Não coraram? E a RTP que critérios usa no Telejornal para incluir uma notícia?

Há uns meses escrevi ao presidente da EDP e telefonei-lhe mesmo, a pedir ajuda da empresa para reparar a velha instalação eléctrica, gasta pelo uso e pelo tempo, de uma instituição, onde vivem 40 adultas cegas e com deficiências e que têm um dos mais ricos patrimónios culturais do país. A instituição recebeu meses depois a resposta: a Fundação EDP esclarecia que esse pedido não se enquadrava nas suas atribuições. Agora percebi. Pedia-se fios eléctricos, quadros eléctricos novos e lâmpadas novas. Devia-se ter escrito ao senhor presidente da maior empresa (pública) portuguesa, com os maiores prémios de desempenho, cujo vencimento é superior ao do presidente dos Estados Unidos, para que oferecesse uma lâmpada em segunda mão, que ainda acendesse e desse alguma luz. Talvez assim mandasse um dos seus motoristas, com um dos geniais assessores de imprensa e um dos fantásticos directores de marketing, avisar a RTP (a quem pagamos uma taxa na factura da luz) para virem filmar a entrega da lâmpada num saquinho de papel.

2011 anuncia-se um ano duro para os portugueses e sê-lo-á tanto mais quanto os responsáveis pelo estado a que se chegou não saírem da nossa frente.

Zita Seabra [Jornal de Notícias]



Publicado por JL às 21:55 de 29.12.10 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

As vergonhas do Sr. Silva

O Presidente da República considerou que os portugueses têm de se sentir “envergonhados” por existirem em Portugal pessoas com fome, um “flagelo” que se tem propagado pelos mais desfavorecidos de forma “envergonhada e silenciosa”.

Se há alguém se se deva sentir envergonhado por haver quem passe fome em Portugal não são os portugueses, mas sim aqueles que nos últimos anos tiveram a responsabilidade de estar à frente do estado e nada fizeram para o evitar. Pior, impuseram políticas e soluções económicas que não só não evitaram a fome e a pobreza como contribuíram para o seu aumento. Quem lutou por menos direitos, menores salários e maior precariedade no emprego é que se deve sentir envergonhado pelas culpas que tem no cartório. Eu, não é vergonha que sinto por haver quem passe fome, mas uma vontade enorme de contribuir para o fim das acusas que a criaram, ou seja correr com a corja que se tem alimentado e engordado à custo do que devia ser distribuído por todos. Certamente que o Sr. Silva não se lembra dos que passam fome quando oferece os grandes banquetes com copos de cristal e talheres de prata, nem quando mostra satisfação pela realização de grandes cimeiras, como a da NATO que custou muitos milhões a Portugal. Certamente não era no problema dos que passam fome que pensa quando abraça os Dias Loureiros deste país. Vergonha devia ter quando recebe as confederações patronais e lhes sorri quando estes afirmam que as empresas não podem pagar mais 80 cêntimos por dia a quem recebe o ordenado mínimo.

Mas, realmente há uma coisa de que nós portugueses podemos e devemos ter vergonha, é a de termos como Presidente da República uma pessoa como o Sr. Silva. Disso tenho vergonha, muita vergonha.

[wehavekaosinthegarden]



Publicado por JL às 17:55 de 13.12.10 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

A Presidencial falta de memória

 

Cavaco Silva denuncia "flagelo" da fome em Portugal.

Seria bom recordar à data da fundação do Banco Alimentar Contra a Fome quem era primeiro-ministro e já agora, quem foi o chefe de governo que quando abandonou funções tinha uma taxa de pobreza de 23%, contra os actuais 18%.

Carlos Alberto [Rotunda da Anémona]



Publicado por JL às 00:10 de 12.12.10 | link do post | comentar | ver comentários (3) |

A Telenovela orçamentista

As delegações do PS e PSD encontram-se numa azáfama ciclópica, tanto quanto hipócrita é a afirmação do candidato Cavaco Silva que, dizendo não se intrometer porque não é seu tempo, sempre envia o seu, esse sim, recadinho encomendado por quem, efectivamente, detém os poderes.

Porque não negoceiam, estes senhores, a tomada de medidas estruturais de fundo que permitam e obriguem a uma maior produção de riqueza e a sua, concomitante, distribuição mais equitativa.

Paradoxalmente, em tempos de crescimento económico e de governações de centro-esquerda, aumentaram as desigualdades sociais, um dos sinais mais preocupantes da actual conjuntura, numa sociedade que é já a mais desigual da Europa. Em Portugal, entre 2006 e 2009 aumentou em 38,5% o número de trabalhadores por conta de outrem, abrangidos pelo salário mínimo (450 euros): são agora 804 mil, isto é, cerca de 15% da população activa. Em 2008, um pequeno grupo de cidadãos ricos (4051 agregados fiscais) tinham um rendimento semelhante ao de um vastíssimo número de cidadãos pobres (634 836 agregados fiscais). Se é verdade que as democracias europeias valem o que valem as suas classes médias, a democracia portuguesa pode estar a cometer o suicídio, afirma o sociólogo Boaventura S. Santos.



Publicado por Zurc às 15:50 de 25.10.10 | link do post | comentar | ver comentários (2) |

Desemprego é pobreza e aviltamento !

LICENCIADOS  DESEMPREGADOS  !

Leonor Paiva Watson (JN)

 

"São milhares os jovens licenciados desempregados e milhares os que enfrentam, depois, anos de precariedade. Para quem não estudou é, para a maioria, ainda pior, porque a precariedade ou a economia informal parecem as únicas respostas.

E isto é pobreza.

Os jovens são um dos grupos mais vulneráveis à pobreza. Dizem os especialistas que, se por um lado, são constantemente convidados e obrigados a consumir, por outro, não têm meios para o fazer.

 

A sua entrada na vida adulta, isto é, a sua autonomia face à família, é feita cada vez mais tarde e por tentativa/erro. "Saem de casa, mas acabam por regressar. Acreditaram, a dada altura, que já tinham alguma autonomia, designadamente laboral, e perceberam, depois, que não. Isto reflecte-se a outros níveis, designadamente ao nível da conjugalidade", avança o sociólogo e etnógrafo Luís Fernandes.

 

Os números do desemprego dispararam, chegaram ao valor histórico de 10%. Os jovens são dos grupos mais afectados. Nunca tanto se ouviu falar de precariedade, depois de pensarmos que esta era uma realidade do passado, de um passado onde não havia direitos.

Contratos a cinco dias, por exemplo, não são já novidade. E recibos verdes falsos são já uma constante (até na função pública).

Para não falar de horas extraordinárias que não são pagas e de bancos de horas que resultam em jornadas de dias de trabalho sem dormir.

Onde está o Estado social?" O Estado social transformou-se em neo-liberal.

 

A forma como os estados ocidentais organizam a sociedade proporciona tudo isto e enquanto continuarmos com estados neo-liberais será assim", aponta Luís Fernandes. Não poderia o Estado ser um regulador do mercado e não seu cego aliado?

Não poderia o capitalismo ser menos neo-liberal?

Não é esta uma opção que cabe exclusivamente aos estados?

A continuar assim, que futuro para os nossos filhos?

"Os jovens da classe média e classe média alta ainda têm os pais a ajudá-los, ou seja, não se nota tanto a precariedade a que estão votados. Mas quando eles forem pais, como vai ser?", questiona o sociólogo.

 

E os jovens das camadas mais desfavorecidas?

Aqueles que não estudaram, aqueles cujos pais já sofreram na pele a desindustrialização e que já foram excluídos da economia formal?

"Para esses jovens, o mundo do trabalho é uma miragem. Estão condenados a trabalhos desqualificados, com muito baixos salários, ou às economias informais. Para esses, a perspectiva é sempre de curto prazo. Não há futuro, não há planos, porque não há condições económicas para haver planos", responde.

A sociedade vai perdendo direitos progressiva e rapidamente e, ao mesmo tempo, "assistindo a um discurso económico e político que simula racionalidade", diz. Mas poderá ser racional aos olhos de alguém uma economia onde uma grande parte da sociedade está insatisfeita e incapaz de fazer frente às necessidades que o próprio sistema impõe? Será isto uma gestão racional das coisas? "

 

As consequências são dramáticas. O desemprego e a precariedade são problemas económicos e sociais muito graves. Os casos de depressão, só para dar um exemplo, aumentam e os custos disto - para a família, para o empregador, para o próprio sistema social, que vai acabar a pagar tudo - são enormes", exemplifica este sociólogo."

- por A.Brandão Guedes em 13:47 http://bestrabalho.blogspot.com/  , 2010.04.06



Publicado por Xa2 às 08:05 de 12.04.10 | link do post | comentar | ver comentários (5) |

Especuladores, neoliberalismo, mass media e ...

"Um trabalho divino"

[Alguns comentários ao ‘post’ de Francisco Oneto, em 29.3.2010 Ladrões de Bicicletas]

* Miguel Rocha:

...sei que também te chocou o artigo mas não é preciso tanta agressividade para disfarçar o incómodo que te gerou e atacares o mensageiro... és um gajo inteligente, pensa pela tua cabeça e não te vergues a determinadas visões feitas à priori...

B., epah, a tua abordagem é pragmática mas também é cínica...
B., eu não me considero de esquerda nem de direita... antes de tomar essa decisão tenho valores morais que é uma coisa que deixou de ser "fashion" há muito tempo, infelizmente...

Se declarações menos incendiárias que estas ("os especuladores estão a fazer um trabalho divino") fossem feitas há um século atrás, este editor do Financial Times tinha direito a ver a sua sede incendiada.

"Os especuladores estão a fazer um trabalho divino?"... quem fez um trabalho divino foram os governos ao salvarem o sistema financeiro mundial!
Mas alguém sabe quanto dinheiro os especuladores ganharam à conta do crescimento da bolha do subprime?
Mas está tudo louco?...ou será que eu e os gajos deste blogue é que são loucos por ainda terem valores morais?

Os especuladores que apenas querem-se tornar mais ricos através da desestabilização dos mercados e contribuem para a formação de bolhas e desaparecimento das mesmas contribuindo para desemprego e pobreza...são essenciais ao mercado??

Bom, estou a ver que a maioria dos mass media (detido, já agora, por GRANDES capitalistas) está a fazer um bom trabalho a lavar-nos o cérebro.

Veremos o que acontece se existir outra grande crise financeira num curto espaço de tempo...o governo já não os pode salvar...ou será que pode?

Cada vez mais me convenço que os políticos não estão do lado do povo...e as transferências entre Estado e empresas não advogam muito à moralidade destes...
O povo apenas tem influência numa fase do processo democrático...mas até essa fase o processo foi todo condicionado....

Cá para mim, o pessoal de Wall Street é completamente sociopata... e como modelos individuais de "sucesso" para o mundo inteiro... estão a tornar a população mundial sociopata...

Esquizofrenia completa:   

Wall Street, Goldman Sachs e agências de notação financeira (sim, sim) contribuem para o crescimento da bolha do subprime --> bolha rebenta, desvalorização devastadora da bolsa --> Estados transferem os custos da crise da esfera privada para a esfera pública --> Endividamento maciço dos países --> Agências de notação financeira (qual a credibilidade?) atribuem elevados riscos da dívida estatal não ser paga (com que base?) --> classe média baixa a absorver os custos da crise.
Mudanças? (em Portugal, UE, EUA, ONU, …?)  No change...at all..at all..at all...

Depois da próxima crise financeira e parafraseando os Mão Morta, só nos resta "sair para a rua e festejar de cocktail na mão"....resta saber qual deles ;)   …

* L. Rodrigues

Os produtos tóxicos foram criados pelas agência de ‘rating’ ao dar AAA+++ a produtos financeiros de risco elevado. É por isso que são tóxicos.
Se o rótulo fosse verdadeiro, não tinham feito mal a ninguém, a não ser talvez aos directamente envolvidos.
Que confusão para aí vai.

Quanto à imagem, ilustra perfeitamente o artigo.
Só o abutre sai mal disto tudo.
Ele limita-se a apanhar os restos enquanto os especuladores fazem a carnificina e lambem os ossos.

* lpb

Caro B.,
Embora não concorde com a vulgaridade da fotografia - estamos de acordo nisso -, acho que o ponto do Fransciso Oneto é válido. Assustadoramente válido. E o FT nem é dos piores.
Quanto à ideia de que o neoliberalismo é "bom" porque "promove" o investimento entre as várias economias, deixo aqui alguns links:
http://en.wikipedia.org/wiki/1997_Asian_Financial_Crisis
http://en.wikipedia.org/wiki/Hedge_fund
http://en.wikipedia.org/wiki/Collateralized_debt_obligation
http://en.wikipedia.org/wiki/Chicago_school_of_economics

Não sei o que os senhores deste blog fariam, se mandassem nos países ocidentais. Sei que não investiriam na precariedade e no condicionamento da economia mundial aos "business cycles" de conglomerados "too big to fail". Sei que não aceitariam transacções comerciais com regimes oligárquicos e genocidas. Também sei que não manteriam as mais-valias em bolsa e as "off-shore" ao abrigo de um sistema fiscal razoável e democrático (engraçado como este adjectivo assume um matiz ominoso e "comunóide", quando contraposto à suposta democraticidade de mercados tendencialmente monopolistas e oligopolistas).

Não, o neoliberalismo não promove o livre investimento entre as várias economias. Promove um quase-monopólio, e o capitalismo liberal só funciona por via de um quase-monopólio e CONTRA o tão propalado mercado. É uma doutrina sustentada por assunções teóricas sem base empírica e, mais grave, sem qualquer correlação com um aumento da eficiência económica, do bem-estar social ou subjectivo ou da justiça social.

Isto não quer dizer que a culpa da miséria na África seja do neoliberalismo. Não há culpas a aduzir, há causas necessárias e suficientes; pouco importa "quem" tem a culpa, o que interessa é "quem" precisa de soluções para problemas reais.

Um último ponto: os activos tóxicos existem pela incúria das agências privadas de rating e por predicados económicos absurdos, baseados numa lógica de acumulação material que promove a desigualdade e é economicamente ineficiente (mais uma vez, monopolista e oligopolista). Esta curta vale a pena:
http://vimeo.com/3261363

Ah... (1) eu invisto em África, através de microcrédito (sem juros, yey!) (2) as varinhas de condão só no Feiticeiro de Oz; no mundo real, a economia política do desenvolvimento está fundamentalmente errada e tem de ser revista. Se calhar, a "esquerda" até tem um contributo a dar.
...



Publicado por Xa2 às 00:05 de 01.04.10 | link do post | comentar | ver comentários (3) |

Uma sociedade de hipócritas, um país de pobres, um capitalismo selvagem...

 

Há quem afirme que o Subsidio de Desemprego em Portugal é muito generoso e que por via disso os desempregados se recusam a aceitar empregos oferecidos por “generosos” empresários. Vejamos então a generosidade do calculo e a «sacanagem» que está por detrás de tais afirmações.

O montante diário é igual a 65% da remuneração de referência e calculado na base de 30 dias por mês.

Ninguém pode receber mais de três vezes o IAS - Indexante dos Apoios Sociais, que este ano está fixado em 419,22 euros (o mesmo de 2009). Ou seja, o valor máximo que se recebe de subsídio de desemprego é 1 257,66 euros por mês. Ninguém pode receber mais mas menos pode. Para fazer as contas é preciso saber quanto ganhou em 12 meses (SB=salário bruto, prémios, horas extraordinárias). Se, nesse período, recebeu os subsídios de férias e de Natal, multiplique o seu salário base mensal por 14. Ora se o valor base de cálculo for menor, menos receberá de subsídio e, consequentemente, menor será o encargo da segurança social. Também aqui o Estado (governo) tira vantagens na precarização das relações de trabalho.

QUANTO RECEBE DE SUBSÍDIO SOCIAL DE DESEMPREGO

1. Beneficiários sozinhos: €335,38 (80% do IAS fixado para 2009) ou o valor da sua remuneração de referência líquida (o que for mais baixo).

2. Beneficiários com agregado familiar: €419,22 (100% do IAS fixado para 2009) ou o valor da sua remuneração de referência líquida* (o que for mais baixo).

*A remuneração de referência líquida é quanto a entidade empregadora declarou à Segurança Social que lhe pagou em média nos primeiros 6 meses dos últimos 8 (a contar do mês anterior àquele em que ficou desempregado) menos os descontos para a Segurança Social e os impostos.

PERÍODOS DE ATRIBUIÇÃO

O número de dias a que tem direito a Subsídio de Desemprego e Subsídio Social de Desemprego varia em função da idade e do número de meses com registo de remunerações no período anterior à data do desemprego.

Pelo exposto várias e diferentes conclusões se podem elidir, algumas aqui ficam:



Publicado por Zé Pessoa às 00:08 de 24.03.10 | link do post | comentar | ver comentários (9) |

Desigualdade Eterna ? Justiça e Paz
Justiça e Paz
 


A Comissão Nacional Justiça e Paz no seu mais recente documento evoca as palavras de Bento XVI: “A crise financeira que atingiu as nações industrializadas, as nações emergentes e as que se encontram em desenvolvimento, mostra de modo claro como os paradigmas económicos e financeiros que foram dominantes nos anos recentes têm de ser repensados”.

No entanto, constata a CNJP: “quanto mais o tempo avança, mais nítido se torna que algumas das causas da crise se estão reconstituindo e, com elas, os riscos contidos na situação anterior à crise. Vozes autorizadas têm alertado para a situação. Não é forçoso que, ao se libertarem da crise, os sistemas financeiros e económicos da maior parte dos países do mundo se vejam isentos de riscos idênticos aos que causaram os problemas que ainda não ultrapassámos… Entretanto, as instituições internacionais, cuja autoridade parecia gravemente abalada pela crise, avançam, uma vez mais, com o seu receituário habitual no sentido do reequilíbrio orçamental a todo o transe, e da redução dos custos salariais, nomeadamente com o salário mínimo, o controle das pensões, etc.”

São palavras corajosas, contra a corrente. São palavras sábias: “a crise deu visibilidade ao que não soubemos ou não quisemos ver, e seria uma oportunidade perdida se não tirássemos dela as lições que contém”.

 


Publicado por Xa2 às 00:05 de 09.03.10 | link do post | comentar |

Desigualdades sociais mantêm-se

Fosso entre ricos e pobres pouco mudou

Portugal está tão desigual agora como em meados dos anos 90. Nas últimas décadas, o país ficou mais rico, mas nem todos puderam beneficiar da melhoria das condições de igual forma. E o problema não é os pobres estarem mais pobres, mas os ricos estarem ainda mais ricos, trocando as voltas às tentativas de criar uma sociedade inclusiva e agravando-se o fosso entre uns e outros.

 

Olhando para a evolução dos indicadores, pouco mudou nas últimas décadas. Na verdade a desigualdade na distribuição da riqueza era tão grave em 2008 como em 1997. O coeficiente de Gini (que mede a distribuição dos rendimentos e que é tanto mais grave quanto mais próximo estiver dos 100) apurado para estes dois anos era de 36 por cento. Pelo meio, houve ligeiras oscilações: agravou-se entre 2001 e 2006, e depois reduziu-se ligeiramente, ficando sempre acima da média da União Europeia (29 por cento em 1997 e 30 por cento em 2008).

Os valores alcançados não orgulham ninguém e também não impedem que a realidade nacional saia mal no retrato quando se compara com o resto dos parceiros europeus. Portugal ocupa o segundo lugar, a par da Bulgária e da Roménia, na lista de países onde a distribuição dos rendimentos é mais desigual. Pior só mesmo a Letónia, que apresentava um coeficiente de Gini de 38 por cento em 2008. O resultado mais favorável verificou-se na Eslovénia, considerada o país mais equilibrado na distribuição dos rendimentos de todo o espaço europeu, com um coeficiente de 23 por cento.

 

" Se compararmos os índice dos últimos 20 anos, o que tem sido feito na redução das desigualdades é muito pouco. Isso tem a ver com a natureza da nossa desigualdade e com as políticas seguidas, mas que somos dos mais desiguais da União Europeia é inquestionável", alerta Carlos Farinha Rodrigues, um dos economistas que mais se têm dedicado ao estudo desta problemática em Portugal.

 

O motor da desigualdade

Um dos elementos que mais contribuem para a desigualdade são os rendimentos do trabalho. Apesar das melhorias registadas desde meados da década de 90, Portugal continua a ter dos mais elevados níveis de desigualdade salarial no contexto da União Europeia.

O indicador que mede a diferença entre o rendimento líquido recebido pelos 20% que detêm níveis mais elevados de rendimento e o recebido pelos 20% mais pobres tem estado sempre entre os mais altos da Europa.

Em 1995, o rendimento auferido pelos 20 por cento mais ricos era 7,5 por cento superior ao auferido pelos 20 por cento mais pobres. Passada mais de uma década, verificou-se uma ligeira melhoria com esse diferencial a chegar aos 6,1 por cento, mas Portugal continua a ser o terceiro país europeu onde a distribuição dos rendimentos do trabalho é mais desigual, muito próximo da Letónia e da Bulgária.

 

Na raiz deste problema está também, segundo Farinha Rodrigues, o elevado crescimento dos salários mais altos, uma tendência que se tem evidenciado nos anos mais recentes. "Portugal tem, em termos europeus, salários médios bastante baixos, mas não é difícil perceber que qualquer quadro de topo de uma empresa multinacional tem um salário que não é determinado pelo mercado português, o que gera factores de diferenciação muito grandes", exemplifica.

A este fenómeno há ainda que juntar outro, mas no pólo oposto:

os trabalhadores que não conseguem com o seu salário garantir condições mínimas de subsistência, o que contribui para o agravamento das desigualdades e dos indicadores da pobreza.

 

Pensões desequilibram

Há outros aspectos que também têm contribuído para a manutenção dos elevados níveis de desigualdade em Portugal. As pensões tendiam a reduzir a desigualdade, mas actualmente, fruto de várias políticas, há já pensões "extremamente elevadas", que acabam por desequilibrar os pratos da balança, como lembra o investigador do ISEG.

Carlos Farinha Rodrigues realça ainda que as ligeiras oscilações verificadas ao longo dos últimos anos ao nível da desigualdade são consequência do aumento dos recursos nas famílias mais pobres, fruto das políticas sociais lançadas pelo diversos governos. Contudo as políticas sociais têm uma capacidade limitada na redução das desigualdades, dado que não é esse o seu objectivo principal.

 

É por isso que há economistas que defendem que a redução das desigualdades exige "não somente a melhoria das condições de vida dos grupos sociais mais vulneráveis, mas igualmente uma distribuição mais justa de todos os recursos gerados pela sociedade".

Esta recomendação surge em oposição à dos que defendem que primeiro é preciso criar riqueza para depois a distribuir. Contudo, os dados mostram que o crescimento económico positivo não é, por si, uma garantia de que a distribuição dos rendimentos é feita de forma equilibrada.


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Publicado por Xa2 às 08:07 de 08.03.10 | link do post | comentar | ver comentários (8) |

Nada é natural
por João Rodrigues, ionline,18.1.2010   
      Dois apelos ao leitor :  faça uma doação, por exemplo à AMI, e informe-se sobre o Haiti.   Perceberá rapidamente que nada é mesmo natural.

      Quando somos confrontados com uma catástrofe, como a que ocorre no Haiti, podemos procurar esperança na reflexão do filósofo liberal Stuart Hampshire: a acção política tem ganho fôlego ao longo da história à medida que um número cada vez maior de problemas deixa de ser visto como uma simples catástrofe natural para passar a ser visto como um fracasso político, eventualmente remediável.
      Também um terramoto não é, para aquilo que conta mais - a morte e o sofrimento humano evitáveis -, uma simples catástrofe natural. A história recente do Haiti ilustra isto mesmo: um Estado falhado sob ocupação internacional que, tal como quase todos os países das Caraíbas, não escapou à pobreza gerada, em parte, por ser o pátio das traseiras dos EUA.
       Um outro filósofo, versado nos problemas do pós-colonialismo e da história do Haiti, Peter Hallward, escreveu na semana passada um artigo no "The Guardian" onde argumenta precisamente que a pobreza deste desgraçado país foi o legado de um brutal regime de exploração colonial e de opressão pós-colonial. Recorrendo à esperança frustrada do ex-presidente haitiano Jean-Bertrand Aristide, eleito pelo povo haitiano e deposto por golpes preparados em Washington, de que o Haiti passasse da "miséria absoluta para a pobreza digna", Hallward faz uma comparação esclarecedora: os furacões do ano passado, que passam desapercebidos por Cuba antes de serem mediatizados na Florida, quase não causaram, nestas duas áreas, mortes.

       No Haiti morreram centenas de pessoas. Antes do terramoto, mais de 80% da população haitiana estava desempregada, não existia serviço de recolha de lixo e só menos de 40% da população, que na sua esmagadora maioria vive em bairros de lata, tinha acesso a água potável.


       O Haiti depende agora totalmente da solidariedade internacional. Apesar da habitual cobertura mediática, a verdade é que os EUA são dos países desenvolvidos que menos percentagem da sua riqueza dedica à ajuda internacional, num padrão que foi recentemente identificado:

quando mais igualitários economicamente são os países desenvolvidos, maior é a sua simpatia internacionalista, traduzida na afectação de mais recursos para ajudar os outros, os que não são daqui (Richard Wilkinson e Kate Pickett, "The Spirit Level", Penguin, Londres, 2009).

       Podemos esperar mais dos países escandinavos ou de Cuba, um país de "pobreza digna", e da sua experiência na ajuda a vítimas de catástrofes por todo o mundo. Seja como for, é bom ver que EUA e Cuba convergem agora na mesma acção política.
        Resta-me fazer dois apelos ao leitor :   faça uma doação, por exemplo à AMI, e informe-se sobre o Haiti. Chegará rapidamente a uma conclusão singela:   nada é mesmo natural.
                   Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas



Publicado por Xa2 às 00:05 de 20.01.10 | link do post | comentar | ver comentários (4) |

Fim do trabalho ? 'Substitutos' em vez de cidadãos ?!
Para a compreensão da crise
Esta crise apresenta-se com uma dimensão de tal modo original, que tem deitado por terra a generalidade das explicações, quer no ponto de vista da interpretação quer no entendimento dos seus efeitos. Só agora se começa a observar algum acerto, surgindo as primeiras teses sustentadas a partir de olhares mais cuidados.

 

Esta crise apresenta-se com uma dimensão de tal modo original, que tem deitado por terra a generalidade das explicações, quer no ponto de vista da interpretação quer no entendimento dos seus efeitos. Só agora se começa a observar algum acerto, surgindo as primeiras teses sustentadas a partir de olhares mais cuidados.

 

Alguns Indicadores de referência O relatório do Parlamento Europeu, de Setembro último, refere que o flagelo da pobreza está a crescer na Europa. Este documento confirma o que há muito se receava:

a política social europeia não tem conseguido responder de forma eficaz ao problema da pobreza e das desigualdades sociais;

 

O último relatório da Organização Internacional do Trabalho (Outubro último) apresenta um conjunto de relevantes conclusões onde evidencia o progressivo alargamento do fosso entre os trabalhadores mais bem pagos e os menos bem pagos. É o dramático aumento das desigualdades sociais. Segundo a OIT tal é particularmente visível em países entre os quais Portugal, mas afecta também países antes considerados verdadeiros modelos de equidade social como a Dinamarca e a Suécia.

 

Um recente relatório da ONU diz que o mundo reflecte modelos de organização social que fracassam a cada dia. O reflexo é de um mundo onde os 20% mais ricos do planeta dividem 82% das receitas mundiais e os 20% mais pobres apenas têm acesso a 1,4% desses mesmos recursos. Os restantes 16,6% dos recursos são derramados pelos outros 60% que competem entre si pela sua pequena parte que lhes permita não serem pobres. Contrariando as tendências até há poucos anos, os índices indicadores de desenvolvimento humano, de pobreza e de desemprego agravam-se todos os dias. Os indicadores económicos que se vão publicando são piores do que os anteriores.

 

O que está a mudar? Começa a tornar-se evidente que nos aproximamos de uma grave seca de recursos financeiros em oposição a gente e máquinas demais para produzir de menos. Tudo parece indicar que a solução passa por refundar o trabalho. Mas como fazê-lo, em que bases e em que sentido?

Uma característica fundamental da modernidade é a centralidade do trabalho enquanto motor da vida societária, eixo da integração social, sentido para a vida pessoal, espaço privilegiado para a participação do cidadão no progresso material. Hoje é evidente o questionamento compreensível deste paradigma da centralidade do trabalho na integração social. Cresce a tensão entre a centralidade do trabalho e um mundo onde crescentemente se vai tornando descontínuo e reduzido. "O trabalho já não pode fornecer um uso seguro na configuração de definições de si, identidades e projectos de vida", diz Z. Brauman.

 

Existem diferentes olhares sobre o desemprego e o futuro do trabalho, sobre o papel do trabalho na socialização e vínculos sociais, sobre concepções de justiça, sobre a dimensão individual e comunitária e sobre a construção da sociedade.

 

Mas há olhares que com mais frequência se vão cruzando e confirmando a ideia de que a crise financeira e a crise económica são pequenos produtos de uma crise civilizacional sem paralelo que só agora começa a vir à tona, por líderes e dirigentes não terem sido capazes de fazer as interpretações dos sinais de mudança e aplicar reformas adequadas.

Não ouviram os avisos de sábios pensadores, investigadores e académicos que há muito vêm dando conta dos sinais dos tempos. Cresce a convicção de que as sociedades pós-crise ditarão modos de vida e um mundo muito diferente do conhecido. O modo e as razões que orientarão a nossa agenda de vida amanhã, terão pressupostos bastante diferentes dos de hoje.

Em parte dependerá de como se iluminar o caminho, ou seja, da capacidade e competência dos nossos líderes para interpretar e gerir os necessários processos de transformação. Mas dependerá também e muito, de processos e acontecimentos não controláveis. Pela primeira vez é uma crise de dimensão global. Ocorre num mundo em acelerada transformação onde as mudanças são tão rápidas que nem o cidadão médio consegue acompanhar.

Vivemos todos os dias fazendo opções e agindo desfasados do conhecimento que vai ditando as novas formas de entender a vida e os seus mecanismos de organização. Consequências:

Conflitos, políticas desadequadas ou fora de prazo, mais conflitos, crescendo a sensação de vivermos numa sociedade sem futuro, que nos virou as costas, onde um pequeno número de parasitas sugam recursos que são de todos.

 

Que fazer? Porque lidar com a pobreza é a maneira mais eficaz para lidar com a crise económica, o Fórum Social Mundial sustenta que para prevenir desemprego em massa e miséria a prioridade deve ser:  Investimentos produtivos, trabalho formal e protecção social.

 

Sendo evidente a substituição crescente do mundo do trabalho humano na produção de bens e serviços, pelo mundo da crescente inovação tecnológica, nesta fase de transição em que entrámos e porque o modelo de organização social que estruturou as actuais sociedades se centra no trabalho, importa continuar a investir no trabalho, alterando o seu quadro institucional para que mais pessoas tenham acesso. Entretanto um outro modelo de redistribuição dos recursos precisa-se urgentemente.

 

Diz Rifquin, à volta do qual se anima o debate sobre o drama do fim do trabalho, que os objectivos hoje colocados serão os de evitar a frustração e o descontentamento social e canalizar para os sectores mais socialmente activos, energias para preencher o vazio deixado pelo recuo ou incapacidade do Estado social. Aos sectores desprotegidos proporcionar canais de estabilidade social.

 

Aos que não conseguem por si próprios condições que lhes permitam um patamar mínimo de dignidade humana, o Estado deve assegurar os recursos básicos. Mas quem recebe a solidariedade do Estado não deve simplesmente viver no ócio. O Estado tem de criar mecanismos que permitam aos cidadãos apoiados serem parte positiva na sociedade.

 

O actual estádio civilizacional consolidou valores de humanidade que não podem ser perdidos… E os riscos são grandes. Nas crises anteriores o discurso apontava o Estado como o problema.

Hoje o Estado é a solução. Mas tem de chamar à mesa do debate em particular os especialistas das Ciências Sociais, mas todos os que ousem inovar pensamento, porque o pensamento tradicional está desajustado dos exigentes desafios que hoje se colocam.

 

Finalmente atenção ao papel central das novas gerações:

A serem deixados à deriva, como crescentemente vem acontecendo, serão uma perigosa energia negativa; devidamente integrados, proporcionando-lhes condições de realização pessoal e de futuro, serão os epicentros positivos dos abalos que aí vêm.


Três interrogações:

- Simples crise financeira?

- Grave crise económica?

- Ainda e só pré-crise social - prenúncio de uma crise civilizacional a anunciar convulsões sociais e profundas transformações sem paralelo com outras crises ocorridas nas sociedades humanas?

 

José António Cardoso, M ! C,  2.1.2010



Publicado por Xa2 às 00:05 de 08.01.10 | link do post | comentar |

III Encontro Nacional de Economistas

Nobre coloca dedo nas feridas da pobreza

Fernando Nobre, Presidente da Assistência Médica Internacional (ONG) afirmou, no Funchal, que a taxa de pobreza rondará os 40%, a incluir-se nesse número as pessoas com rendimento social de inserção e complemento social para idosos.

O médico, responsável máximo daquela ONG, afirmou, durante o terceiro Congresso Nacional dos Economistas, que decorreu na capital madeirense, que "Combater a pobreza é uma causa nacional" acrescentando, ainda, que uma análise mais profunda e incluindo as pessoas referidas, à situação poderá indicar que a taxa da pobreza em Portugal andará próxima dos 40%, se fossem tidos em conta os números dos que usufruem do rendimento social de inserção e do complemento solidário para idosos.

Face a estes números afirmou existir uma "uma pobreza estrutural no país acima dos 40%", declarando mesmo o: "Não aceito esta vergonha no nosso país".

Fernando Nobre rejeitou "as cirurgias plásticas para as mudanças no mundo" e sustentou que Portugal deve "redistribuir melhor a riqueza", para contrariar as situações que obrigam muitos jovens estarem a abandonar o país "porque perderam a esperança".

Contrariando a perspectiva defendida por Victor Constâncio e muitos outros responsáveis económicos e empresariais, pelou aos empresários para serem mais "inovadores e empreendedores", defendendo aumentos do salário mínimo nacional.

Sobre os factores que indiciam a conjuntura económica difícil, recusou existir razões para "ceder a paranóias", sublinhando ser necessário que as economias capitalistas sejam "prudentes", usem de bom senso e não embarquem em "cantos da sereia".

O presidente da AMI, na sua intervenção no III Congresso Nacional de Economistas, considerou "completamente intolerável" que exista quem viva "com pensões de 300 ou menos euros por mês", e questionou, frontalmente, toda a plateia se "acham que algum de nós viveria com 450 euros por mês?"

Numa intervenção acutilante, Fernando Nobre foi peremptório ao afirmar que não poder tolerar "que exista quem viva com 450 euros por mês", apontando que se sente envergonhado com "as nossas reformas".

Nobre visivelmente emocionado com o apelo que tenta lançar aos economistas presentes no Funchal, pediu mesmo que "pensem mais do que dois minutos em tudo isto". Para Fernando Nobre "não é justo que alguém chegue à sua empresa e duplique o seu próprio salário ao mesmo tempo que faz uma redução de pessoal. Nada mais vai ficar na mesma", criticou, garantindo que a sociedade "não vai aceitar que tudo fique na mesma".

O presidente da AMI, chegou mesmo ao ponto de “provocar” alguns jovens estudantes, no final da sua intervenção, aos quais apontou baterias citando para isso Sophia de Mello Breyner. "Nada é mais triste que um ser humano mais acomodado", citou, virando-se depois para os jovens e desafiando-os: "Não se deixem acomodar. Sejam críticos, exigentes. A vossa geração será a primeira com menos do que os vossos pais".

Fernando Nobre ainda atacou todos aqueles que "acumulam reformas que podem chegar aos 20 mil euros quanto outros vivem com pensões de 130, 150 ou 200 euros... Não é um Estado viável! Sejamos mais humanos, inteligentes e sensíveis".


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Publicado por Zurc às 15:17 de 23.11.09 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

A pobreza

Todos temos plena consciência que a pobreza é actualmente um daqueles flagelos que, atravessando sucessivas gerações, mais atormenta a humanidade por não permitir a satisfação das necessidades mais básicas do ser humano.

Com efeito, uma das terríveis consequências da pobreza é reconhecidamente a fome, uma tragédia que hoje em dia vem atingindo cada vez mais gente, mesmo em países considerados ricos e desenvolvidos.

Não será demais lembrar que outra das possíveis consequências da pobreza igualmente inquietantes, é a sua influência na formação da personalidade de cada cidadão atingido que, na sua condição de marginalizado, pode levar à alteração da estabilidade social e psicológica de toda uma comunidade.

Ninguém tem dúvidas que neste momento a pobreza não é já um fenómeno específico dos países pobres do chamado Terceiro Mundo, como certas zonas do Continente Africano e do Sudoeste Asiático, mas infelizmente uma catástrofe que afecta já milhões de cidadãos em todo o globo.

Equivale isto a dizer que a pobreza, vista à escala mundial, deixou de ser derivada apenas da falta de recursos de alguns países e passou paralelamente a ser uma clara consequência das políticas que têm sido levadas a cabo pelos governos e os agentes económicos mundiais.

Creio que toda a gente já entendeu que a luta contra a pobreza não tem sido a prioridade das prioridades de quem tem responsabilidades na condução dos destinos dos povos, já que não se lhes reconhece uma firme determinação em orientar as políticas sociais e económicas no sentido de uma mais equitativa e justa distribuição da riqueza produzida. Não basta a atribuição de subsídios, é preciso reorientar os sistemas económicos.

O que me parece claro, e agora face à crise mais ainda, é uma predominante preocupação com a competitividade das economias que, apostada sobretudo no aumento do volume dos negócios, relega para segundo plano a sua função social, condição indispensável para um combate eficaz à pobreza.

Naturalmente que não se espera nem se exige que o combate à erradicação da pobreza em cada país dependa unicamente da actuação dos seus governos.

Cabe também, e em larga medida, aos detentores dos meios de produção, as classes empresariais, que deveriam ter uma visão mais abrangente do seu papel e não se limitarem a exercer uma gestão empresarial unicamente orientada para a maximização dos lucros que depois só uns quantos privilegiados arrecadam.

Aqui bastaria para modificar este estado de coisas, uma mudança de atitude dos empresários, desses mesmos que à mínima dificuldade conjuntural não têm pejo nenhum em recorrer à única receita que conhecem, a dos despedimentos, uma das grandes senão a maior causa da pobreza mundial. Na realidade, não se vê que as graves consequências sociais do desemprego lhes tirem o sono.

É por razões como estas que se torna singular e surpreendente, ouvir agora os empresários (talvez fôssemos mais precisos se disséssemos o patronato, porque na realidade empresários dignos desse nome não há assim tantos) clamar por cada vez maior intervenção e ajudas do estado, desse mesmo estado que, em tempo de vacas gordas, despudoradamente consideravam como um estorvo às suas actividades.

No que a nós diz respeito, de modo nenhum contesto a intervenção “socorrista” do nosso estado. Mas também direi que apreciaria grandemente que o nosso governo, recentemente empossado, não esquecesse em momento algum a pobreza em Portugal e a elegesse como uma das suas principais bandeiras.

As estatísticas oficiais disponíveis apontam para uma taxa de pobreza em Portugal em redor dos 18% da sua população, mas há quem defenda, e provavelmente com razão, que se for analisada com mais rigor ela será bem mais elevada e tenderá a aumentar ainda mais.

Perante um horizonte destes tão carregado de nuvens negras e uma vez que temos a época Natalícia a aproximar-se a passos largos, julgo ter cabimento perguntar se o nosso governo já terá pensado bem na angústia e na indignação sentidas por muitos dos nossos concidadãos que, como toda a gente, gostariam de a celebrar condignamente mas estão irremediavelmente impossibilitados de o fazerem por absoluta falta de meios?

Já se terá dado conta de quão injusto e contrário ao espírito cristão, de que tantos por aí se reclamam, é a recusa dessa vivência festiva a tanta gente que a insensibilidade e a falta de escrúpulos (há quem torne as culpas à crise e só a ela) empurraram para as margens da sociedade?

Ainda muito recentemente num congresso dos economistas, Fernando Nobre, presidente da AMI e cidadão impoluto, chamava a atenção do auditório, em boa parte constituído por gente com responsabilidades no destino do país, para a pobreza que grassa em Portugal e considerava a situação vergonhosa e de todo inaceitável.

E avisava que se nada for feito, as próximas gerações inevitavelmente acusarão as actuais de lhes terem outorgado uma sociedade em perigo. Foram sem dúvidas palavras avisadas, só é pena que tenham caído em saco roto.

Tenho para mim que a pobreza com os níveis que já atingiu é uma condição social tremendamente injusta e difícil de explicar num Mundo de abundância como o actual, ainda que em crise.

E não tenho dúvidas em considerá-la como uma situação de tal modo chocante que só a consigo ver como geradora de tensões e sentimentos de revolta que, confesso, muito me admira sejam reprimidos em silêncio no interior de cada um dos que a sofrem.

C. Quintino Ferreira



Publicado por JL às 00:03 de 02.11.09 | link do post | comentar |

25 Euros de pobreza

O presidente da CIP entende que empresas continuam a precisar de apoios, pelo menos até 2011. Sobre o aumento do Salário Mínimo Nacional (SMN) em 25 euros, Francisco Van Zeller defendeu que, em 2010, esta retribuição não deve ser aumentada porque as empresas correm o risco de fechar.

É assim mesmo, o estado que continue a apoiar as empresas com o dinheiro dos nossos impostos que eles não podem dar uns miseráveis 25 euros (80 cêntimos por dia) a quem vive com 450 euros de ordenado mínimo. Se não podem então algo está errado porque eu não vejo faltar dinheiro para pagar dezenas ou centenas de milhares de euros aos administradores e gestores. Quando ouvimos que políticos trabalham para dezenas de empresas, (lembro-me do Nobre Guedes que para ser Ministro do Ambiente teve de abdicar de 30 cargos em empresas), e onde só devem ir quando o rei faz anos e recebem milhares de euros não podemos deixar de nos revoltar. Vão todos à merda e quem trabalha acorde e lute pelos seus direitos. Já basta desta pouca-vergonha. [wehavekaosinthegarden]



Publicado por JL às 19:53 de 31.10.09 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

Pobreza e má distribuição

A pobreza em Portugal não é uma questão de ajuda, é um mal endémico de má distribuição da riqueza, como aliás o é em todo o planeta.

Por mais ONGs que se criem, por mais ajudas que se prestem, não resolvem a questão e não passam de paliativos enganadores que, em grande parte das vezes, mantêm as situações vigentes e alimentam o ego de quem presta as ajudas na mesma exacta medida que se alimentam as ilusões dos ajudados.

A questão de fundo é outra, ou melhor dizendo, são outras, como sejam a responsabilização dos governos e dos cidadãos no reaprofundamento do chamado contrato social de modo a responsabilizar uns e outros face à construção de condições individuais e colectivas para um desenvolvimento económico e social, harmoniosamente sustentável.

A subsídio-dependência de uns, a ganância de outros, a corrupção de tantos, associadas à inoperância do Estado nas suas mais diversas vertentes forma um cocktail apropriado aos extremos paradoxais de descoesão social.

Os problemas em Portugal não se esgotam no desemprego ou no crescimento económico, são muito mais profundos e endémicos até atingirem o âmago do desaproveitamento de capacidades, do apego ao ócio e da anulação de vontades.

Assim será e continuará a sê-lo enquanto o país continuar a ter medo de existir como bem escreveu o filósofo José Gil.

Foi agora confirmado o que já se sabia que, pelo menos 40 mil idosos portugueses não têm capacidade financeira para comprar alimentos, concluiu um inquérito realizado pela Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor (Deco). De acordo com o mesmo estudo, o custo dos produtos alimentares é ainda uma das razões para que não consumam refeições mais saudáveis.

Segundo os dados do EuroBarómetro mais recentemente conhecidos são concordantes, em grande medida, com os apurados pela Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor (DECO) que assinala, na extrapolação dos resultados de um inquérito por si levado acabo, que existem pelo menos 40 mil idosos no país sem dinheiro para uma alimentação completa e saudável. O estudo que teve por base um questionário remetido em Fevereiro e Março de 2009 a uma amostra representativa da população entre os 65 e os 70 anos. Responderam ao inquérito 3.423 portugueses é divulgado na edição de Novembro da revista Proteste,

Dos inquiridos apenas um quarto indicou praticar uma alimentação saudável e setenta e seis por cento têm "hábitos alimentares pouco saudáveis, os quais pioram com o avançar da idade", afirma aquela associação. Os autores do estudo chegaram à conclusão de que três por cento dos inquiridos passaram fome na semana anterior ao lançamento do questionário.

Os autores sublinham, a "difícil situação económica e a falta de autonomia" dos idosos, e a "influenciam de forma negativa o que se come: mais de um quinto dos inquiridos indicou ter dificuldades financeiras".

Dulce Ricardo, autora do inquérito afirmou à Antena 1 que "a maioria não come a quantidade suficiente de vegetais, fruta e peixe. Contrariamente, existe um grande exagero no consumo de doces. Portanto, existem idosos que consomem mais de duas vezes por dia doces, quando se preconiza o máximo de uma vez por semana", frisou Dulce Ricardo.

"Sete por cento dos idosos admitiram não tomar o pequeno-almoço, o que também é muito mau para a sua saúde, dado preconizar-se o máximo de período nocturno de jejum de dez horas. Ao não tomar o pequeno-almoço, isso irá pôr em causa essas horas, irão estar muitas horas sem comer", acrescentou.

Os autores do inquérito consideram "urgente que se faça um levantamento das condições sociais em que vivem os idosos em Portugal".


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Publicado por Zé Pessoa às 00:01 de 28.10.09 | link do post | comentar | ver comentários (2) |

Rendimento mínimo garantido, rendimento máximo permitido

1. Infelizmente, a direita conseguiu rebaptizar o “rendimento mínimo garantido” como “rendimento social de inserção”. Pois do que se trata é mesmo de garantir um rendimento mínimo que, para além de tudo o mais, contrarie os efeitos não só sobre os próprios mas também sobre terceiros das formas extremas de pobreza. A começar pelos efeitos sobre os mais jovens da pobreza dos pais, independentemente das razões dessa pobreza, pois a esses jovens não podem ser assacadas responsabilidades, mesmo nos casos em que elas o podem ser aos pais. Numa sociedade mais justa, a lotaria moral das heranças sociais, a começar pela lotaria da família de nascimento, não deve fixar de uma vez por todas as oportunidades de vida de cada um.

2. E, já agora, por muito que tal repugne à direita que temos, muito neoconservadora mas pouco conservadora, muito neoliberal mas pouco liberal, o inverso também é verdadeiro. O rendimento mínimo garantido deve conviver com o rendimento máximo permitido. Não há razões sociais, económicas ou morais que justifiquem o crescimento exponencial dos rendimentos individuais sem um correspondente aumento da progressividade do imposto sobre esses rendimentos. Em primeiro lugar, porque não há sucesso individual que não beneficie dos recursos sociais que viabilizam a ampliação das capacidades individuais para agir. Depois, porque o incentivo economicamente desejável ao investimento e à reprodução alargada do capitalismo é contrariado quando não há limites à busca do rendimento máximo no curto prazo. E, finalmente, porque quando a desigualdade é extrema o sentido de justiça social é moralmente abalado.

3. Portanto, senhores Rui Rio e Paulo Portas, o problema-chave em Portugal não está no rendimento social de inserção, como clamam, mas na falta de um rendimento máximo permitido. Ou seja, na necessidade de uma reforma fiscal que acentue, e muito, a actual progressividade dos impostos sobre as pessoas individuais.

[O Canhoto, Rui Pena Pires]


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Publicado por JL às 00:03 de 09.10.09 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

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