Agências de 'rating', suas avaliações, ... e outras interessadas...

O mistério dos ratings: como uma empresa pode ser “downgraded” e “upgraded” em simultâneo    (-C.Teixeira, Visão, 13.11.2015)

  No dia em que a única das quatro grandes agências mundiais de rating que coloca a dívida portuguesa num patamar acima de “lixo” vai rever a sua avaliação – (veio a manter o mesmo rating e “estável”) –, contamos-lhe aqui como estas agências podem reger-se por critérios, no mínimo dúbios, quando efetuam as suas análises.

      A história, contada por Stephen J. Lubben, na página de negócios da edição online do New York Times (NYT), explica como a Fitch – uma das grandes do rating mundial – atribuiu, em simultâneo, notas tão díspares à Chesapeake Energy Corporation, que é atualmente a 12ª maior produtora de petróleo e gás nos EUA.

    Na semana passada, a Fitch, ao fazer a revisão do rating da Chesapeake, decretou um aumento do risco de “default” no crédito, baixando a nota em um nível, de BB para BB-, o que na prática significa um “downgrade” da capacidade (já de si frágil) desta empresa em pagar as dívidas aos seus credores em geral. Em simultâneo, fez um “upgrade”, de BB para BB+, da nota que atribuiu à capacidade da empresa em pagar os empréstimos contraídos junto… da banca.

     O colunista do NYT recorda que o “downgrade” até se percebe: a indústria do petróleo e do gás tem sido particularmente afetada pela descida mundial dos preços, prejudicando o balanço das empresas do setor. Justificando a revisão em baixa, a Fitch admite que o fez devido “às previsões de que o cash flow, a liquidez e os níveis de alavancagem venham a deteriorar-se em relação à avaliação anterior”. Mas então, porque é que o mesmo não se aplica aos créditos da banca?

A explicação parece residir num empréstimo em particular – uma linha de crédito, com características especiais, aberta há cerca de um ano no valor de 4 mil milhões de dólares -, entretanto renegociado, que confere aos bancos prioridade na cobrança da sua dívida – em relação, por exemplo, aos obrigacionistas – em caso de falência ou de reestruturação da dívida da empresa energética. Essa exceção terá levado a Fitch a fazer o “upgrade” dessa responsabilidade específica, ao mesmo tempo que fazia uma revisão em baixa em relação ao restante passivo da Chesapeake.

Embora a justificação possa fazer sentido, a duplicidade de critérios não deixa de causar estranheza. Mais: põe a nu a forma como muitas empresas aceitam relacionar-se com os seus diferentes credores, protegendo os mais fortes (credores seniores) em detrimento dos mais fracos (credores juniores) caso venham a passar por dificuldades. E também como as agências de rating pactuam com estes esquemas.

 

----- Note-se que as agências de rating são pagas pelas empresas e estados que analisam/ avaliam ... e geralmente têm como accionistas grandes bancos, seguradoras, bolsas, corretoras, empresas financeiras e de consultoria ... i.e. além de se fazerem pagar muito bem, também são partes interessadas (logo com falta de isenção) nas avaliações que atribuem !!!   e são 'sensíveis' a 'lobbies' e a políticas (preferindo as neoliberais às social-democratas)...!!   (algo semelhante se passa com muitas empresas de 'estudos' e 'consultoria', economistas e 'thinktanks' ...)

 

-----  Outra vez o espectro das agências de "rating"    (-F.Galope, Visão, 12.11.2015 )

    A  canadiana DBRS, única agência de “rating” que não classifica a dívida pública portuguesa como “lixo” fará, dia 13/11/2015, uma nova apreciação dos títulos nacionais (dívida portuguesa)*. Uma descida da classificação cortará ao País o acesso ao financiamento do Banco Central Europeu (BCE).

    Ainda que a atual nota das obrigações nacionais seja baixa, a DBRS classifica-as um grau acima de “lixo” – isto é, (ainda) não as considera como especulativas, ou seja aplicações de alto risco.  Um corte no “rating” por parte desta agência pode ter efeitos nefastos para Portugal, numa altura em que o Presidente, Cavaco Silva, ainda está a ouvir as “personalidades” sobre a formação de um novo Executivo. Com a demora, mantém-se a incerteza quanto a quem virá formar um novo Governo.

    Por enquanto, a DBRS é a única agência de avaliação de risco de dívida que confere um grau de “investimento” à República Portuguesa, não a classificando como “lixo”, como é o caso da Moody's, Fitch e Standard and Poor's.

     Qualquer país do euro, para ser apoiado pelo Banco Central Europeu, através da aceitação da sua dívida como colateral nas operações de financiamento da banca ou através do programa de expansão quantitativa, tem de ter uma nota melhor do que “lixo” em, pelo menos, uma dessas quatro agências. Quer isso dizer que, se a DBRS baixar a nota a Portugal, o País deixará de ter acesso a esses mecanismos do BCE. O que será um péssimo início para um novo Governo.

-- * (a DBRS veio a manter o mesmo rating e “estável”).



Publicado por Xa2 às 08:20 de 22.11.15 | link do post | comentar |

1 comentário:
De Empresas de serviços sem escrúpulos. a 26 de Fevereiro de 2016 às 12:29
A Moody’s que os pariu

(25/02/2016 por João Mendes )


As agências de rating
(são empresas de serviços que vendem a Estados/governos e a outras empresas, ... colaborando no marketing/propaganda de deitar abaixo ou de valorizar a imagem das entidades que "estudam/analisam" e avaliam ... com "economês"),
sabemos, assemelham-se a mercenários (e subsidiárias) do mundo financeiro, focadas em servir quem lhes paga salário no final do mês e nem minimamente interessadas na situação real da economia mundial.
Vai daí sobem e cortam ratings conforme lhes convém.
E nada melhor para ilustrar a bandalheira que impera nestas instituições do que o triplo A com que a Moody’s classificou o Lehman Brothers, poucas horas antes do colapso.
Mas, gostemos ou não, enquanto optarmos pelo caminho dos carneiros esta gente continuará a decidir por nós.

Acontece que o regime neoliberal, ao serviço do qual se encontram os partidos com assento parlamentar da direita nacional, tende a ter em elevadíssima consideração tudo o que estas entidades macabras verborreiam.
Afinal de contas, elas fazem parte integrante do esquema.
Mas os pequenos e médios vassalos acabam por sofrer as consequências, ainda que sempre servis e sem protestar muito.
Quando a Moody’s cortou o rating de Portugal em 2011, Pedro Passos Coelho sentiu “um murro no estômago“ e deixou-se ficar prostrado aos pés dos senhores do dinheiro.
Os funcionários do seu ministério das Finanças bem tentaram dizer que a agência teria ignorado o impacto das medidas de austeridade impostas mas de nada lhes valeu.
O rating foi cortado e as perspectivas eram de novos cortes no médio prazo.

Mais recentemente, quando a coligação de direita foi relegada para uma situação minoritária em São Bento, a Moody’s voltou à carga,
avisando que um governo sem apoio maioritário no Parlamento complicaria a implementação das medidas estruturais em curso.
Mas quando a solução à esquerda foi encontrada e as suas intenções de acelerar a devolução de rendimentos e redistribuir a carga fiscal foram reveladas, o ministério da propaganda apressou-se a anunciar a catástrofe.
Isto, claro, se a “geringonça” sobrevivesse para apresentar um orçamento sem que o PCP roesse a corda.

Mas nada parece correr bem na corte ressabiada de Pedro Passos Coelho.
É a geringonça que insiste em fazer história, são os juros da dívida que teimam em não colaborar, é a Comissão Europeia que, apesar de governada pelos seus comparsas, deixa o OE16 passar e agora vêm estes malucos da Moody’s dar nota positiva ao OE16,
estimando um crescimento da economia portuguesa situado nos 1,6%, ligeiramente abaixo das previsões optimistas do governo mas bem acima da futurologia dos profetas da desgraça afectos ao anterior regime, e ainda têm a ousadia de afirmar que a aprovação do documento afasta a possibilidade de eleições antecipadas.
Pobre direita radical.


P.S. Alguém viu por aí o novo e inevitável resgate anunciado pelo Abominável César das Neves?


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