De UE e federalistas decepcionados... a 31 de Maio de 2016 às 16:11

----- União? Pergunte se faz favor: União?

(-por F. Louçã, 27/5/2016, blogues.publico.pt)

A Áustria escolheu por uma unha negra o presidente que não é o homem da extrema-direita. O país de Freud e de Reich, de Mozart, Haydn, Schubert, Mahler, Strauss e Klimt, de Godel, Wittgenstein e Von Neumann, de Viena capital da Europa,
esse é o país que dá hoje metade dos votos a uma figura de um partido nascido da saudade da invasão pelas tropas nazis (e já não é o primeiro susto que a Áustria nos prega).
Se este é o resultado da fragilidade do regime democrático, da decadência das suas políticas sociais, do medo dos refugiados e da perturbação criada pela guerra fria de baixo nível nas fronteiras da Rússia,
então é caso para nos questionarmos sobre a sobrevivência da própria política europeia, porque ela é um dos factores principais desta desagregação.

Quanto ao discurso, nem vale a pena cuidar disso. Como lembrou Teresa de Sousa, para já passou o susto e portanto as instituições europeias tratarão de esquecer o assunto o mais depressa possível – até à próxima.
Entretanto, forças afins da extrema-direita dominam ou participam nos governos da Polónia, Hungria, Dinamarca, Finlândia e Holanda.

Mas, se isto é o susto, o que dizer da normalidade?
No Reino Unido, o primeiro ministro conservador ajusta contas dentro do seu partido e com a direita nacionalista convocando um referendo a nada menos do que a participação na União Europeia.
Em França, o presidente do Partido Socialista provoca o tumulto popular com uma lei que forçaria a precarização do trabalho, como já o tinha feito Matteo Renzi em Itália.
Na Grécia, o parlamento aprova medidas de austeridade para serem aplicadas se não resultarem as medidas actuais, um novo pacote de austeridade, numa lei à condição que pelo menos deixa claro o caminho que é imposto ao país. (e que o governo grego já veio dizer que não consegue cumprir/impor)
Esta é a normalidade. Não se faz portanto ideia do que vem a seguir. O normal já é o assustador.

Repare-se na negociação entre a Comissão Europeia e Cameron.
Para facilitar o discurso do chefe conservador, Juncker e os seus comissários concederam-lhe restrições aos direitos dos trabalhadores europeus em Inglaterra:
as enfermeiras portuguesas (e todos os outros) perderão o abono de família para os seus filhos.
Ou seja, na dificuldade – criada pelo jogo político de Cameron –, o argumento para ficar na União Europeia é que as suas regras deixem de se aplicar quando se trata de pessoas.
Isto é a normalidade europeia nos dias que correm.

Talvez por isso, as palavras dos federalistas decepcionados são das mais lúcidas que podemos ler sobre a Europa (como é o caso, entre nós, de Viriato Soromenho Marques).
Acreditavam numa convergência, acreditavam em mecanismos comuns, acreditavam em políticas dirigidas, acreditavam em cooperação
e sai-lhes Schauble e Cameron, Juncker e Hollande.
Mas, ao reconhecerem o problema com a franqueza de quem defende os seus pontos de vista, traçam o retrato do medo que a União vai suscitando.
Não são os únicos a perceberem que o risco para Portugal se chama Comissão Europeia e Banco Central Europeu.

Entendemo-nos.
Quando Bruxelas nos repete a palavra União já não quer dizer nada.


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