13 comentários:
De (de) Formar a opinião pública e Cidadãos a 4 de Junho de 2015 às 15:58

A formação da opinião pública

(14/5/2015, Harmódio, https://enclavept.wordpress.com/


As pessoas gostam de acreditar que a sua opinião sobre política, economia e assuntos sociais é baseada só e apenas nos factos. Há algo de “nobre” em acreditarmos que somos neutros face a assuntos que desconhecemos mas que quando nos explicam os factos somos capazes de tomar uma decisão justa mas sem paixões inflamadas. Mas em que medida é que nos conseguimos (ou queremos) realmente distanciar de tudo o que nos rodeia para tomar uma decisão neutra? Até que ponto conseguimos sequer obter informação correcta sobre todos estes temas? Até que ponto estaríamos de facto dispostos a levar esta linha de questionamento sem temer o que pudéssemos encontrar?

"Raros são aqueles que decidem após madura reflexão; os outros andam ao sabor das ondas e longe de se conduzirem deixam-se levar pelos primeiros." - Séneca—
“Raros são aqueles que decidem após madura reflexão; os outros andam ao sabor das ondas e longe de se conduzirem deixam-se levar pelos primeiros.” – Séneca

Seremos de facto neutros à partida face a todas as questões? Dizer que sim implicaria que a) não temos qualquer experiência prévia que influencie a nossa decisão e b) somos imunes ao meio onde nos movimentamos e às opiniões que vemos circular à nossa volta. Se a primeira condição é uma impossibilidade empírica e relativamente fácil de aceitar a segunda já obriga a algum grau de introspecção. Todos nascem num determinado contexto que é determinado pelas condições e preferências daqueles que nos rodeiam de forma directa ou indirecta. Logo não há uma neutralidade inicial, existe sim uma predisposição, maior ou menor consoante o grau de independência do individuo face ao grupo (familiar, social, profissional), para aceitar posições e opiniões que coincidam com que aquilo que o nosso meio considera válido. Conseguimos aceitar que grande parte da nossa visão do mundo é determinada sem qualquer contributo nosso? Conseguimos pensar em nós mesmos como sendo, em grande medida, seres racionais que apenas absorvem valores e opiniões que alguém antes colocou à nossa frente? Ou seja, conseguimos abdicar da nossa crença que somos seres com um elevado grau de autodeterminação?

"Logo que, numa inovação, nos mostram alguma coisa de antigo, ficamos sossegados. " - Friedrich Nietzsche—
“Logo que, numa inovação, nos mostram alguma coisa de antigo, ficamos sossegados. ” – Friedrich Nietzsche

Poder-se-á dizer que a nossa visão e opiniões não são apenas formadas pelo meio em que por casualidade nos encontramos. Que existe um processo mais activo de recolha de informação por parte do individuo e que esse processo é que em última análise determina de facto aquilo que pensamos e defendemos. Será mesmo assim? Para entender bem a questão e os processos internos e externos que ela implica é preciso olhar para dois elementos diferentes. Em primeiro lugar é preciso verificar se a informação que pesquisamos sobre qualquer tema tem suficiente força emocional para se sobrepor às “nossas” posições originais. Neste ponto temos que introduzir na nossa análise um pouco de “matemática emocional”. É preciso “calcular” o conjunto de benefícios que são acumulados quando aceitamos a opinião do meio e aqueles que podem ser acumulados quando se adopta uma visão dissonante da maioria – este modelo comportamental tem uma base realista e como tal pressupõe que a maioria (mas não todos) tende a adoptar, consciente ou inconscientemente, o traje ideológico/social/político que mais o beneficie quer em termos de aceitação pelos seus pares quer em termos de ganhos materiais concretos. Dizer que sim ao que o nosso meio nos transmite (filtrando adequadamente a informação que vamos recolhendo) trás consigo benefícios tangíveis. Dentro do nosso grupo já que passamos a ser vistos como alguém que “entende das coisas”, que é ponderado e moderado, que entende o que é a realidade e consequentemente seremos levados mais a sério. Além de garantir uma boa integração a concordância indica também a quem mantém o sistema a funcionar (seja qual for o sistema) que estamos disponíveis para defender o status quo, que não iremos abanar demasiado o barco, que seja qual for a realidade empírica estaremos disposto a ignorá-la e seguir os ditames que ...


De (de) Formar opinião, alienar e iliteraci a 4 de Junho de 2015 às 16:05
A Formação da Opinião pública
(-Harmódio, https://enclavept.wordpress.com/2015/05/14/a-formacao-da-opiniao-publica/ )
...
...
... seja qual for a realidade empírica estaremos disposto a ignorá-la e seguir os ditames que nos transmitem. Por outro lado dizer que não ao que nosso meio nos transmite coloca-nos à margem dos nossos pares já que em maior ou menor grau as nossa posições serão diferentes, terão nuances, serão mais excêntricas. Em suma: sairão dos limites do curral intelectual. É fácil ver para que lado a balança de ganhos pende.

"The aim of public education is not to spread enlightenment at all; it is simply to reduce as many individuals as possible to the same safe level, to breed and train a standardized citizenry, to put down dissent and originality. " - H.L. Mencken—
“Conformity—the natural instinct to passively yield to that vague something recognized as authority.” – Mark Twain

Existem aqueles que apesar de tudo têm ainda integridade suficiente para reconhecer que o que lhes é transmitido pelo meio poderá não estar correcto ou ser mesmo pouco ético. Poderão mesmo resistir activamente ao que os seus pares lhe transmitem como “verdade”. Nesse caso este cidadão íntegro terá que partir numa demanda por nova informação. Tem que procurar histórias, interpretações e análises que correspondam de facto ao que ele experiencia. E aqui entramos no campo da capacidade individual de recolher e filtrar a informação que não é transmitida por laços sociais directos – especificamente aquela informação que não deriva de contacto pessoal e nesta categoria estão as tvs, os jornais, os livros, os blogues, etc. Estamos em águas familiares em que sabemos que é preciso questionar muito seriamente a posição e credibilidade dos criadores e divulgadores de informação. Isto torna-se especialmente urgente em países como Portugal que promovem uma cultura de endogamia mal encoberta em quase todas as posições de produção de conteúdos. É preciso estar alerta face a contaminações da informação por interesses pessoais, familiares, amizades de longa data entre outras formas de influência indevida. Dado o reduzido número de informação disponível em língua portuguesa e estas limitações à credibilidade da pouca informação que existe é caso para dizer que quem se limite ao material em português verá os seus horizontes tão severamente limitados que a sua demanda por explicações que fujam ao controlo do nosso meio social, político e económico se torna impossível.

Pascal - truth quotesNo fim desta pequena análise do nosso contexto e das nossas características pessoais podermos acreditar que, nas presentes condições, existe uma verdadeira opinião pública interessada em estar informada? Os indícios que discutimos parecem apontar precisamente para o oposto. Não é do interesse do cidadão questionar o que lhe é transmitido. Em muitos casos não lhe será sequer possível construir qualquer narrativa alternativa para que vê. O que fazer com esta conclusão? Devemos começar por admitir perante nós próprios que os termos em que actualmente se discute a nossa sociedade não são nossos. São um legado sobre o qual, individualmente, não temos qualquer controlo. Daí a frustração que muitos poderão sentir ao ver a estagnação das respostas oficiais apresentadas pelos grupos considerados como socialmente válidos (que possuem status, que são “levados a sério”, que possuem os recursos para recompensar socialmente). Que a procura por respostas que fujam a essa estagnação é acima de tudo algo que tem que partir do individuo. Que esse individuo terá que ser motivado por algo mais que apenas uma lógica de custo-benefício. Terá que possuir a inclinação pessoal para a acção ética. Trata-se de um processo heróico, uma verdadeira demanda épica que requer indivíduos com um conjunto de aspirações pouco comuns apesar de serem mais necessárias que nunca. Só saindo dos moldes pré-fabricados poder-se-á encontrar qualquer tipo de verdade e acima de tudo de justiça. O leitor terá coragem para tanto?

----: Absolvição Moral, Cidadania, Colaboracionismo, Conformismo, Controlo de Informação, Hierarquização Social, Introspecção, Justiça, Narcisismo Colectivo, Opinião Pública, Passividade Popular, Responsabilização, Servilismo, valores societais,


De Manif 100mil : assusta mídia e centrão. a 8 de Junho de 2015 às 16:45
O que é que nos surpreende na Marcha apagada?
(8/6/2015, por Ricardo M Santos, M74)

O que é que ainda nos surpreende quando não vemos a gigantesca marcha de sábado nos media?
Não entendam mal, que subscrevo linha por linha o artigo do Filipe. Mas, para quem já anda nisto há algum tempo, e nem precisa de ser muito, não é de estranhar.
É de denunciar, de divulgar, é verdade que já nos deixa um bocadinho tristes e revoltados. Deve ser por isso que ainda há quem diga que parámos no tempo, porque ainda temos a força necessária para nos indignarmos. E, às vezes, vamos buscar forças sei lá onde.

Não há partido com património de luta que se aproxime, sequer, do PCP. Nos anos do fascismo não eram os que estiveram no Coliseu no mesmo dia em que estivemos na rua que davam o peito às balas. Eram os pais de alguns deles, ao que consta.
Naquela altura, o bloqueio ao PCP era legal e oficial. Obrigatório.
Depois da Revolução de Abril, deixou de ser.
Com o 25 de Novembro passou a ser oficioso.

Os meios de divulgação do PCP são os que sempre foram, adaptados aos novos tempos - estando nós parados nele, não deixa de ser paradoxal.
É o passa palavra, é o esclarecimento, é contar como foi, como queremos que seja e como tem de ser, para que este cantinho deixe de estar como está.
É o Avante! que fica na mesa do café, o discurso no local de trabalho, as conversas com os amigos, que deixam transparecer aquilo que somos.

Como no século passado, onde estamos parados, os media livres e democráticos continuam a bloquear-nos porque não podia ser de outra forma.
Uma manifestação de 1.000 pessoas por causa do padre da freguesia abre um noticiário, uma com 10.000 na Grécia também.

Uma manifestação com 100.000 em Portugal, com gente de todo o país que pagou a viagem do seu bolso não pode abrir noticiários, porque mete medo.

É um facto que mete medo, assusta.
Já imaginaram 100.000 pessoas que saem à rua com um calor tórrido, fazem centenas de km de autocarro para afirmarem os seus ideais?
Claro que assusta.
Assusta os que não podem permitir que se pense diferente do que nos é dado a engolir todos os dias, depois de bem mastigado, em quase tudo o que é informação.

Claro que às vezes nos chateia, outras entristece. Vivemos numa democracia formal que estigmatiza aqueles que abraçam a livre participação num partido quando se generaliza que todos eles, os partidos, estão numa crise profunda e precisam de se reinventar e tudo o resto que sabemos.

Chateia, entristece, mas já foi ontem.
Hoje, cada um de nós que lá esteve e outros que não puderam ir, contaremos como foi grandiosa
mas já estamos na luta quotidiana que é um dever de todos.
Se a tarefa fosse fácil, não éramos comunistas.
---------

A arte de desinformar

(7/6/2015, filipe guerra, http://manifesto74.blogspot.pt/2015/06/a-arte-de-desinformar.html#more )

Portugal não é um país com muita população. Assim, os grandes iniciativas de massas, com dezenas e centenas de milhares de pessoas são fenómenos raros e por isso mesmo alvo de grande atenção mediática.
Num breve exercício de memória, podemos recordar grandes acontecimentos e celebrações desportivas, manifestações do movimento sindical e de outros movimentos sociais, alguns eventos religiosos, santos populares, grandes concertos e espectáculos musicais com artistas internacionais de renome. Haverá mais um ou outro exemplo, mas não muitos mais.
E, com excepção das grande manifestações sindicais, estes acontecimentos são alvo de grande divulgação e atenção mediática, antes, durante e depois de terem lugar.

A Marcha Nacional A Força do Povo, ocorrida ontem e promovida pela CDU, segundo a sua organização teve a participação de cerca de 100 mil pessoas.
Não discutirei este número, não tenho essa intenção ou objectivo, pois, tendo participado nesta Marcha, em nenhum momento consegui ver o seu início e o seu fim devido à sua magnitude. Mais importante do que a precisão científica de um número final, importa sublinhar a sua dimensão humana e impacto político.

Eu gostaria de referir que sou de uma região longe de Lisboa. Onde o PCP não tem a implantação que precisava para melhor intervir, e onde a CDU não tem nenhum deputado ou sequer vereador eleito, tão pouco qualquer maioria em Junta de Freguesia.
E desta regiã


De Mídia a Desinformar/ manipular. a 8 de Junho de 2015 às 16:50
http://manifesto74.blogspot.pt/2015/06/a-arte-de-desinformar.html#more

...
...E desta região, saíram cerca de 700 democratas para a Marcha. Portanto, fica claro que, não sendo esta Região uma excepção positiva à regra, a Marcha foi uma iniciativa com muita, muita gente.

Se iniciativas desta dimensão humana são raras, com a natureza de apoio político são ainda mais raras. Nas últimas largas décadas, as únicas iniciativa de dimensão e natureza semelhante foram as marchas do PCP em 2008 e da CDU em 2009.
Ou seja, a marcha de ontem foi singular e seria expectável que sob qualquer critério com o mínimo de razoabilidade tivesse uma cobertura noticiosa relevante. Mas não foi nada disso que aconteceu...

RTP empurra para a frente
O Telejornal da RTP não considerou que a Marcha fosse motivo de abertura, pelo contrário, empurrou-a para o mais tarde que conseguiu.
Assim, apenas 20 minutos após o seu início veio a primeira de duas curtas peças sobre a Marcha. A ordem cronológica do Telejornal até à Marcha foi, a abrir o caso Sócrates, depois Passos sobre Sócrates, incêndio em fábrica de tintas, convenção do PS, lesados do BES, iniciativa de PSD e CDS(repescada, pois tivera lugar no dia anterior), novamente a convenção do PS(só sobre a convenção do PS foram mais de 6 minutos), e eis que, finalmente, a CDU.

As duas peças juntas, as tais que apenas ao fim de 20 minutos a RTP apresentou, tiveram os tempos somados de 3 minutos.
Em nenhuma das peças houve qualquer plano panorâmico sobre a Marcha,
apenas imagens focadas sobre quem estava em palco ou pequenos grupos de manifestantes.

Na segunda peça houve um breve roda-pé sobre o número de autocarros(que rapidamente saiu de imagem),
nas duas peças houve 3 entrevistas a participantes, não se tendo feito qualquer referência aos números da organização sobre o total de participantes.
Apenas se soube que a Marcha "reuniu várias gerações".

Na SIC, a estrela foi a Branquinha
A SIC conseguiu fazer um pouco pior que a RTP, conseguiu ridicularizar-se ainda um pouco mais.
O Jornal da Noite da SIC também empurrou a Marcha da CDU mais para a frente, abriu com o caso Sócrates, seguiu para a convenção PS e, ao fim de 9 minutos, lá chegou uma única peça sobre a Marcha.

A primeira imagem da peça, o primeiro impacto, que a SIC dá da Marcha é a de uma cadela a beber água, seguem-se mais 40 segundos com a cadela a beber água e/ou em acrobacias rumo ao colo do dono, e ainda uma entrevista ao dono onde o telespectador fica a saber que a branquinha "é um cão espectacular que veio da rua", dos 4 minutos totais que durou a peça da SIC, os primeiros 40 segundos foram passados nisto.

Após o destaque a Branquinha, uma imagem positiva da cabeça da Marcha, a que se seguiram diversas entrevistas aos participantes,
o que não teria mal nenhum desde que não se entendesse que esses grandes planos individuais seriam instrumentais para esconder tudo o resto que se passava à volta, como de facto aconteceu.
Seguindo esta linha de encobrimento, a SIC colocou em imagem na peça um momento em que o grande plano é uma Praça dos Restauradores mal composta e com a Marcha ainda por chegar.

De resto, mais do mesmo, nenhuma perspectiva panorâmica sobre a Marcha e da intervenção de Jerónimo de Sousa tivemos 31 breves segundos(a Branquinha teve 40 segundos de atenção).
Nenhuma referência ainda ao número de participantes da organização, ou outros por tentativa de aproximação.
O telespectador limitou-se a ouvir que foram milhares...o que conjugado com as imagens exibidas permitiria eventualmente concluir que não estariam muitos milhares.

A TVI não foi a pior
A TVI seguiu um critério semelhante ao da RTP e SIC. Contudo com algumas diferenças que é justo referir.

Devido à final da Liga dos Campeões de futebol, o Jornal das 8 começou às 19:00. Cronologicamente, a sua sequência de abertura foi(e a esta hora ainda não havia notícias de Sócrates) a final da Liga dos Campeões, o incêndio na fábrica de tintas, a convenção do PS, iniciativa de PSD e CDS(tal como a RTP, também foi repescar uma iniciativa já do dia anterior), e finalmente a Marcha numa peça de apenas cerca de 2 minutos.

A peça da TVI destaca-se das peças da RTP e SIC apenas por dois motivos, foi a única que, pelo menos, tentou dar uma imagem panorâmic


De Mídia«Marcha Nac. a Força do Povo» a 8 de Junho de 2015 às 16:59
( http://luminaria.blogs.sapo.pt/alienar-manipular-apostar-e-1060897?view=2873889#t2873889 )...
...
...
... (a TVI ) pelo menos, tentou dar uma imagem panorâmica que reflectisse dentro do possível a dimensão da Marcha e
foi a única que citou o número de manifestantes referido pela organização.
Os seus breves 2 minutos assim até nem pareceram tão maus, e terão permitido ao telespectador ter uma ideia da dimensão da Marcha.

----Em relação aos jornais de Domingo dia 7, zero.

Nos quatro principais jornais generalistas de hoje, Domingo dia 7 de Junho, nenhum faz qualquer referência de capa sobre a Marcha de ontem.
O Público deu a sua fotografia de capa a um "caçador de tesouros" e é o único jornal que faz uma breve, mas errónea no conteúdo, referência ao "líder do PCP".
Ao que parece no desenvolvimento da notícia d'O Público lá vem a fúria, a aldrabice e a cegueira costumeiras.

Creio que estes encobrimentos e desaparecimentos da Marcha Nacional A Força do Povo,
nas várias deturpações publicadas, pelo estilo, natureza e forma, pelo método e conteúdo,
não serão mera azelhice ou coincidência, falta de atenção ou de pessoal de serviço.

Antes reflectem opções políticas e ideológicas dos proprietários económicos da comunicação social, ou proprietários fácticos das suas linhas editoriais,
colocando-as ao serviço dos grandes grupos económicos,
intoxicando e subvertendo o papel e função da comunicação social.

Quem paga, manda.
Quem tem o poder, manda.
E as eleições vêm aí.
A CDU, o seu projecto e a sua força humana são incómodas, são para desaparecer,
por forma a que tudo siga como até agora. Pensarão eles.

--------------
P.S.-
a Marcha da CDU observada pela perspectiva da televisão venezuelana TeleSur aqui
( http://x.vindicosuite.com/click/fbfpc=1;v=5;m=3;l=401071;c=776283;b=3368032;dct=https%3A//www.youtube.com/watch%3Fv%3DrSpVJcX4Img )

P.S.2-
para que não haja qualquer mal-entendido, gostava que ficasse claro que gostei de ouvir tudo o que os camaradas e amigos presentes na Marcha disseram e como disseram aos órgãos de comunicação social (as suas motivações são as minhas).
Estamos na Luta !


De Alienar e deformar História e Ciência. a 16 de Junho de 2015 às 12:53
Resposta às perguntas do Canal de História

(15/6/2015 por António Santos, M74)

«Será isto uma prova da existência de uma raça pré-histórica de gigantes?» corte para animação em 3d «E terão esses gigantes construído... as pirâmides do Egipto?!» imagens de arquivo de pirâmide sob efeitos de pós-produção de filme barato de terror «E será que os lendários gigantes não eram seres humanos deformados, mas extra-terrestres vindos do espaço?» sequência rápida de fotografias de obras de arte antiga, de várias civilizações...

Tantas perguntas, tão poucas respostas, diria Brecht. Acabo de assistir a isto no National Geographic Channel. Podia ser só má televisão, mas é muito mais do isso, é a liberdade de fazer as mais absurdas e perigosas perguntas, a despeito de milhares de anos de respostas dadas, pensadas e trabalhadas, intoxicando as futuras gerações com fumos digitais da formidável nova idade das trevas.

Os canais de televisão estado-unidenses que antes passavam documentários, hoje passam reality shows. Onde antes se podia ouvir historiadores, agora apre(e)nde-se sobre camiões, armas e outras curiosidades. Alguns exemplos revestem-se de óbvia transcendência cultural, dizendo mais sobre a sociedade em que vivemos, que volumes de sociologia: apenas sobre prisões, temos, actualmente, a liberdade de escolher entre «Mulheres atrás das grades», «Presos no estrangeiro», «Prisões americanas», «Fugas da prisão», «Prisões de alta segurança» e «Prisões: bastidores». Mas, ponto de ordem à mesa, se eventualmente parecer trocista esta singela ideia, de ter a liberdade de escolher o programa sobre prisões, desenganemo-nos... que os tipos que mandam nisto têm mais inteligência que sentido de humor.

Afinal que sociedade livre é esta, que vive obcecada por estar presa? Entretanto, nestes mesmos canais, são zero os programas sobre literatura. É que dá-se que o formato do reality show evadiu-se, já há mais de uma década, dos matadouros de inteligência onde eram guardados, assaltando de supetão toda a televisão e a internet das massas. E como as consequências desta transformação vão muito além do óbvio, debrucemo-nos sobre alguns exemplos vívidos. O reality show não se compadece de método, nem estudos nem tampouco pode aguardar por conclusões científicas: exige permanentemente mais acção e novas descobertas, sempre e agora. Em virtude desta pressa, os programas sobre a vida selvagem que antigamente nos mostravam o resultado, longamente arquitectado de semanas de estudo e trabalho de campo, reclamam agora uma violação, violenta e imprevisível, da ordem das coisas: onde estava o documentário onde se observava a vida de uma serpente, insuspeita da presença das câmaras, agora assiste-se (sim, assiste-se) a um marialva que perturba a serpente no seu habitat natural, forçando-a a engoli-lo vivo, num fato especial produzido para o efeito, para gáudio ou náusea do público. A ciência dá lugar à aventura e o cientista cede passagem ao explorador, normalmente um labrego simpático com indisfarçáveis matizes jingoistas.

O reality show, por outro lado, não tem quaisquer pretensões históricas ou científicas, embora fale de história e de ciência. É apenas entretenimento, esgrime num sorriso amarelo. E isso dá-lhe o direito de mentir, deturpar, confundir e alienar-nos a todos. Vejamos outro exemplo: quem experimentar, a qualquer hora do dia, passar a correr entre o National Geographic, o Canal de História ou o Discovery Channel, entre outros possíveis, encontrará certamente pelo menos um programa sobre compras e vendas. Num, compram-se antiguidades que são, depois, vendidas em segunda mão, noutro, seguimos o quotidiano de uma família que opera uma loja de penhores, noutro ainda, acompanhamos o trabalho das pessoas que compram armazéns repletos de coisas perdidas ou abandonadas. À superfície, pode parecer que isto terá pouco de ideológico, para além do claro endeusamento do dinheiro e do insinuado fetiche com o comércio, mas, novamente, é muito mais do que isso. É que, surpresa das surpresas, os protagonistas destes reality shows comentam as coisas que compram e vendem, dão apontamentos históricos, tecem comentários políticos e procuram resumir tudo, de Darwin à revolução francesa passando pela URSS, em burlescas aulas de 4 a 10 segundos.

À medida q.


De Alienar... é intencional, é política... a 16 de Junho de 2015 às 12:56
Resposta às perguntas do Canal de História

(15/6/2015 por António Santos, M74)
...
...
À medida que o capitalismo retira ao ensino público todas as faculdades democráticas e culturais dispensáveis à produção, são, progressivamente, estes veículos os principais formadores ideológicos, filosóficos e históricos das massas. Que defesas tem um adolescente que, ligando o CANAL DE HISTÓRIA, escute um «autor» a dizer-lhe que Hitler teve contacto com extra-terrestres? Que contraditório tem o documentário que explica que o holocausto aconteceu por uma qualquer mania, crença ou desgosto pessoal de Hitler? Que televisão protege a História que o Canal de História destrói?

E desiludam-se os que acham que este efeito «dica da semana» só se debruça politicamente sobre a História recente. Voltemos ao exemplo anterior: o National Geographic dá palco a dois «investigadores» dos EUA, por sinal de origem portuguesa, que «investigam», sempre num registo «em directo», a possibilidade de uma fabulosa raça de gigantes ter construído algumas estruturas em pedra com muitas centenas de anos. A premissa é simples (e semelhante à das pirâmides terem sido construídas por extra-terrestres): os povos não-europeus e não-brancos nunca poderiam ter construído semelhante coisa, não tinham os conhecimentos nem a inteligência que, nesse tempo, só os brancos europeus detinham. E assim, a partir da falsificação de História tão longínqua quanto o Antigo Egipto, reforça-se e legitima-se o poder da classe dominante.

Reality shows sobre prospectores de ouro, pescadores de atum e motoristas de pesados, documentários sobre extra-terrestres, nazis em bases lunares e monstros mitológicos escondidos nos esgotos: é este o conhecimento que o capitalismo quer para as massas; é com esta História que os donos dos meios de produção nos querem esmaecer; é nesta nova era medieval que nos querem cegar. Destruir o capitalismo, até à sua última estrutura, não é apenas o interesse dos trabalhadores de todos os países, é o interesse vital do nosso milenar património de ciência conhecimento e da própria inteligência humana.


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