De Destruir a UE ou reformular os Tratados. a 2 de Julho de 2015 às 13:08
A crise da Grécia pode destruir a UE
(-Ana Gomes, 30/6/2015)

A crise na Grécia não é só económica, nem só grega: é a mais grave crise política da União Europeia.
Com consequências mundiais tão aterradoras que alarmam Rússia e China. E o Presidente Obama, bem lembrado do que implicou em 2008 a bancarrota de um só banco e não de um país, não larga o telefone da Senhora Merkel para a convencer a não dar ouvidos ao perigoso Dr. Strangelove que ela tem nas Finanças e que há meses vem defendendo e organizando o Grexit - a saída da Grécia do euro.

As reviravoltas dramáticas a que assistimos na ultima semana neste processo de negociação, com um Estado que representa menos de 2% do PIB da UE, espelham a falta de uma liderança política com sentido estratégico, nesta UE sob hegemonia alemã: basta citar o grande filósofo alemão Jürgen Habermas que há cinco dias escrevia no "Le Monde" um artigo intitulado "Porque é que Angela Merkel está errada na Grécia " sublinhando que "o escândalo dentro do escândalo é o modo como o governo alemão entende o seu papel de liderança. A Alemanha é devedora, pelo estímulo à sua recuperação económica, da qual ainda hoje beneficia, da sabedoria das nações credoras que, no acordo de Londres de 1953, perdoaram metade da sua dívida". Nota ainda que o fundo da questão não é o embaraço moral, mas a essência politica: "As elites políticas na Europa não devem mais esconder dos seus eleitores as alternativas colocadas por uma união monetária incompleta. São os cidadãos, e não os bancos, que devem ter a palavra final em questões existenciais para a Europa".

Mas os governos europeus, Comissão e BCE não estão nem aí: no princípio da semana passada, Comissão e Conselho da UE trombeteavam que o acordo com a Grécia estava por horas. Logo veio o FMI fazer exigências inaceitáveis para os gregos e seguiram-se mais manobras para humilhar o governo do Syriza - que, apesar de ter poucos amigos em Bruxelas, pareceu aplicar-se a fazer ...mais inimigos!

Encurralado com propostas que sabia incompatíveis com o mandato que lhe conferira o povo grego e que mais enterrariam a Grécia porque não resolviam a impagável dívida, Tsipras entendeu devolver a palavra ao povo e anunciou o referendo. No sábado, o Eurogrupo, reunindo os ministros das Finanças - mas certamente com poucos adultos na sala (para usar a imagem da Sra. Lagarde) - expulsava ilegalmente o ministro das Finanças grego, retaliando! Os líderes políticos europeus têm medo do exercício da democracia: já é o segundo referendo que rejeitam na Grécia. Agora que o Parlamento grego foi por diante e o aprovou, tudo farão para condicionar pela chantagem e pelo temor o voto do povo grego.

O governo de Tsipras, compreensívelmente, recusou aceitar dos credores (cujas ameaças fizeram desaparecer dos cofres gregos cerca de 40 mil milhões de Euros só neste ano) um balão de oxigénio para pagar até hoje, 30 de junho, 1.600 milhões de € ao FMI . A dívida pública da Grécia é 200 vezes maior. Os gregos estão fartos de ver dinheiro que entra num dia, para sair no dia seguinte, com destino aos mesmíssimos credores, enquanto o povo amarga e a Grécia não sai da recessão e cada vez se endivida. É compreensível e racional que depois de 5 anos de fracassos de programas da troika - tal como o que foi imposto em Portugal- os gregos queiram seguir por outro caminho. É natural que depois de perderem 40 por cento do nível de vida, de atingirem 25 por cento de desempregados (e 50 por cento de desemprego nos jovens), os gregos tenham a ambição de construir uma nova economia num país devastado. Eles sabem - tal como nós portugueses tambem sabemos - que isso não se consegue só com mais cortes e mais austeridade. O Siryza não é responsável pela corrupção reinante, pela disfuncionalidade do estado grego, nem pelas reformas da Troika falhadas. O Syriza quer fazer reformas e tem legitimidade democrática para isso. Mas a UE alemã quer afastar Tsipras do poder, tal como antes afastou Papandreou, levando a destruição do Pasok.

Tsipras propôs, por exemplo, cortar nas despesas da Defesa. A Troika e o Eurogrupo rejeitaram. A Grécia tem a terceira !!! maior despesa militar entre os 28, em parte por causa de 4 submarinos vendidos pela Alemanha e de vários navios de guerra vendidos pela França,


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