De Culpas da UE, da Grécia e do NeoLiberali a 2 de Julho de 2015 às 16:42
Da Europa e da Grécia
( Diogo Serras, 02.07.15,http://jugular.blogs.sapo.pt/ )

1- Desde o início da crise que se sabia que a situação da Grécia era insustentável, no sentido de não existir uma política com hipóteses de sucesso que não partisse de uma profunda reestruturação da dívida existente;

2 - andámos todos (Europa e os anteriores governos gregos) a tentar enganar toda a gente, adiando um problema que obviamente se tornaria cada vez maior;

3 - a destruição da economia grega (e aqui, lamento, são indiferentes considerações sobre a justiça dessa destruição face a opções passadas - como o aldrabar das contas públicas) teria, claro, consequências sobre a coesão social e o sistema político grego;

4 - isso foi, aliás, visível na ascensão ao poder do que costumamos chamar esquerda radical;

5 - a característica específica desta esquerda radical é que a teoria económica está do lado deles. Nem as depressões resolvem nada dos problemas da economia, nem criam qualquer dinâmica de crescimento a seguir. Não é como senão tivéssemos exemplos históricos suficientes sobre isto;

6 - tivemos portanto um governo grego eleito na premissa de que vai terminar com o programa de ajustamento e reestruturar a dívida grega, negociando com a Europa. E uma Europa que, claro, não admite perder a face relativamente a tudo o que defendeu - e não funcionou - nos últimos 5 anos;

7 - ainda que esta equação fosse quase impossível de resolver, é preciso dizer que as duas partes não se comportaram à altura. Estou longe de simpatizar com a retórica e atuação do Syriza, que não ajuda propriamente em nenhuma mesa de negociações. Mas culpo mais a Europa, que tem uma responsabilidade diferente - para além de ter errado depois de sistematicamente avisada, insistindo com os programas de austeridade expansionista em puro frontloading;

8 - o referendo é uma tremenda irresponsabilidade? Claro. Todas as imagens que nos chegam são de um país em colapso e, não menos importante, não se entende o que vai ser referendado ou as consequências do sim ou do não; é-me, de qualquer forma, claro que o Syriza não poderia assinar um acordo que vai frontalmente contra as razões por que foi eleito.

9 - É esta a suprema ironia do comportamento das instituições europeias nos últimos anos: 1º advogam um desastre económico e social como única forma de salvação. Para logo depois, quando as eleições demonstram exatamente esse desmoronar da sociedade grega, quererem demonstrar, sejam quais for as consequências, que um governo de esquerda radical não conseguirá nem um pouco das suas propostas eleitorais;

10 - o caminho a partir daqui parece-me ser entre o mau e o péssimo. A saída desordenada da Grécia do euro, via colapso do sistema financeiro, tem uma probabilidade elevada. Mas aconteça o que acontecer este é um golpe fundo na União Europeia. E não estamos, cada vez mais longe disso, numa altura em que estes golpes podem sarar e não correr o risco de infetar todo o corpo;

11 - no fim, ninguém sai bem disto. Cada parte apenas se enterra mais fundo nas respetivas trincheiras, tirando todo o espaço à capacidade de assumir que a Grécia está cada vez mais perto de ser um Estado falhado. E que construirmos uma Europa efetivamente unida não pode passar pelo reforço continuo aos discursos extremistas e nacionalistas, venham estes de que lado for do espetro ideológico.


De Des-Re-Construção Europeia. a 2 de Julho de 2015 às 17:26

A desconstrução europeia

(-João Cardoso Rosas, 2/7/2015, http://economico.sapo.pt/noticias/a-desconstrucao-europeia_222422.html#.VZRRh47bf4k.twitter )

O que foi a União Europeia?
Foi sem dúvida uma construção feliz nas suas fases primeiras e mais cautelosas, procurando criar interdependências económicas e políticas que prevenissem um novo conflito em larga escala como tinham sido a Segunda Guerra Mundial e a Grande Guerra.

Assim foi com a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, o Euratom, depois ainda a Comunidade Económica Europeia e a construção do "mercado único" para pessoas, bens e serviços.
Tudo mudou, como reacção ao final da guerra fria (e queda do Muro de Berlin, e reunificação alemã),
com a transformação deste processo cooperativo numa espécie de proto-estado europeu
com consideráveis perdas de soberania por parte dos estados-partes e sem qualquer controle democrático digno desse nome.
Foi assim a partir (dos Tratados) de Maastricht, depois com Amesterdão, Nice e o Tratado de Lisboa.

A ideia de que a democraticidade desta mudança fundamental da natureza da construção europeia estava garantida pelo papel dos parlamentos nacionais na cedência de soberania,
ou pelas competências do Conselho e do Parlamento Europeu, foi uma estória para criancinhas.
Não existe democracia sem demos (Povo/ representação/eleição directa dos povos europeus para as instituições europeias: Comissão, Conselho, Eurogrupo, ... e plenos poderes para o Parlamento Europeu), e o demos europeu é coisa que "nunca foi vista nem tida por verdadeira".

A escalada do desastre atingiu o seu ponto máximo com a criação do euro.
O euro foi criado como mais um arrojado passo em frente, esquecendo o que se ensina ao estudante de Teoria Política no primeiro ano da universidade sobre
a conexão necessária entre a moeda e a soberania, ainda mais relevante em contexto democrático.

Sem excessiva surpresa para quem conhece os efeitos perversos do decisionismo político, o passo mais arrojado para criar a união redundou em DESUNIÃO.
O que visava a coesão gerou maior DESIGUALDADE entre os países.
O que tinha como objectivo "amarrar" a Alemanha à Europa traduziu-se na consagração do predomínio alemão.
A Grécia é apenas um caso de um processo mais vasto de perda de relevância dos países do sul e, em especial, da França.

O grande desafio da minha geração foi o da construção europeia.
Mas tudo isso acabou com a crise do euro - escrevi-o aqui no Verão de 2011 - e está cada vez mais acabado.
O grande desafio para a nova geração será o de tentar desconstruir a União Europeia e torná-la algo de menos ambicioso,
numa espécie de regresso às origens, sem que isso provoque demasiada confrontação na Europa, ou mesmo a guerra.

A tarefa é ciclópica, será preciso mudar o paradigma, incomodar milhares de tecnocratas e sobretudo políticos cuja razão de ser - e rendimentos - advêm da União Europeia tal como existe hoje, etc.
Mas o processo de desconstrução europeia é inevitável e o país melhor preparado para liderá-lo é a Grã-Bretanha, uma vez que sempre manifestou um saudável cepticismo em relação ao construtivismo continental.


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