9 comentários:
De Fanatismo, cinismo, vergonha, ... a 12 de Janeiro de 2015 às 12:24
Não, não acabou!
(CB Oliveira, 9/1/2015, Crónicas do rochedo)

Abatidos os três cidadãos franceses que não souberam dar valor ao facto de terem nascido num país livre, as notícias sobre os atentados dos últimos dias em Paris vão desaparecer dos telejornais dentro de dias.

Muitos dos que saíram à rua, deixarão de ser Charlie. No próximo atentado serão Big Ben, Moulin Rouge, Alexanderplatz ou outra coisa qualquer.
Como já foram Torres Gémeas, Atocha ou Metro de Londres

O que restará então na memória destes dias? O mesmo que restou dos atentados anteriores:
mais medidas securitárias, menos liberdade,
mais xenofobia, mais extrema direita, mais ódio e
mais espírito de vingança canalizados para o sentido errado.

Os males da Europa não estão no exterior e não é com medidas xenófobas e de redução das liberdades individuais, nem com gritos de "não temos medo" que se resolvem os problemas.

É dentro da Europa que os cidadãos, sejam franceses, alemães, gregos, ingleses, italianos, espanhóis ou portugueses devem procurar as causas destes actos de barbárie.
E encontrar medidas para os evitar, preservando um dos valores fundamentais da civilização ocidental: a Democracia, a Liberdade, a Justiça, ...

Continuar a tentar explicar apenas com causas externas os problemas que estão a corroer a Europa por dentro, é o mesmo que pensar que um móvel com caruncho pode ser restaurado apenas com uma pintura.

A história ainda não acabou. A avaliar pelo que fui ouvindo ao longo destes dias, penso mesmo que só agora tudo começou.
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Hollande emporcalhou a marcha de Paris


Mais de um milhão e meio de pessoas saiu à rua em Paris, contra o terrorismo e em defesa da liberdade de expressão.
A presença de Benjamin Netanyahu já era um insulto a todos os que se juntaram na Place da La République mas, em nome da união, ainda se aceitava.
Como também se aceita, por razões de segurança, que os políticos só tenham percorrido 500 metros do percurso.

Inaceitável é que no final Hollande tenha dado uma bofetada em todas as pessoas que desfilaram em Paris. Ao acompanhar Netanyahu à sinagoga Hollande hostilizou a comunidade muçulmana e, pior ainda, manifestou o seu apoio a um terrorista que manda atacar escolas e matar crianças inocentes.
Deu um sinal a todo o mundo de que o terrorismo pode ser aceitável ou, no mínimo, tolerado.
Tudo depende de quem o pratica.

VERGONHOSO!
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... o macabro acontecimento só está a ter tanto tempo de antena porque interessa a muitos políticos. Todos os dias há massacres e ninguém fala deles.
E são os políticos todos que lá foram, que mais reprimem a verdadeira liberdade de imprensa.

Se os magrebinos não tivessem sofrido tanto por causa da França e não fossem tão enxovalhados nos subúrbios de lata para onde os mandaram, talvez esses irmãos e outros descontentes e com veia de criminosos, não tivessem ido treinar para o Iémen, só porque tinham passaporte francês.
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Os lacaios mais acérrimos do (NeoLiberal) imperialismo financeiro , de braço-dado, transformaram a indignação dos Povos no mais repugnante dos terrorismos:
ALIENAREM CENTENAS DE MILHARES DE PESSOAS.


De Marcha inócua liderada por não democrata a 12 de Janeiro de 2015 às 12:35
CHARLIE
N'EST PAS
CHARLIE
(-JPP 11/1/15)
1. Este poderia ser um título do Charlie Hebdo se se mantiver o espírito dos assassinados. Eles seriam os primeiros a satirizar a sua própria morte e a gozar com o unanimismo que hoje sai à rua a seu pretexto e em nome de uma "liberdade de expressão" de que eles, no conjunto da sua vida, só conheceram porque a forçaram. O Hara-Kiri que o diga que, com o seu título provocatório depois da morte de De Gaulle, foi encerrado. "Bal tragique à Colombey: 1 mort" foi o título.

2. ... O sentimento de quem participa na marcha é de genuína revolta e é respeitável. Para além disso as pessoas gostam destes unanimismos e a mobilização maciça que é feita pelos media, cria quase um dever moral de participar. Mas a marcha de hoje já tem todas as ambiguidades que a tornará inócua e por isso mesmo perigosa.

3. À sua frente vão os homens e mulheres que estão a construir uma Europa não democrática, de Merkel a Passos Coelho,
que abandonaram qualquer ideia de uma Europa assente na solidariedade, que ajudaram a criar e a reforçar sociedades em que não há mobilidade vertical,
o único mecanismo que permite assegurar o melting pot, logo a integração de todos, os que cá estão e os que conseguem passar as aguas do Mediterrâneo sem morrer nelas.
Mas, pior ainda, fecharam os olhos aos problemas que coloca aos valores da nossa civilização "ocidental", ( e sei bem que todas estas palavras são ambíguas, mas servem),
a emergência de um Islão transformado num movimento político que assume exactamente esse carácter político ao combater esses valores.
É esse o seu conteúdo político e o resto é a sharia.

4. O "politicamente correcto" está em reduzir o problema desse Islão político às suas manifestações mais radicais, ao terrorismo da Al Qaida ou do ISIS, quando
é um problema societal e cultural que está muito para além disso.
E este "politicamente correcto", presente como um mantra bem intencionado repetido por todos, oculta os problemas para debaixo do tapete.
E debaixo desse tapete habita a Senhora Le Pen, que percebe muito melhor os problemas que são sentidos por milhões de franceses, os problemas de proximidade, os mais perturbadores, do que os discursos vazios de Hollande e os seus amigos europeus.

5. Alguns dirigentes muçulmanos, quase todos com a cabeça a prémio pelos fundamentalistas, são a voz da razão e moderação. Mérito deles.
Aliás, se o Rei e a Rainha da Jordânia participarem na marcha, é deles a maior coragem. Mas a verdade é que fora destas tragédias, dos atentados e assassinatos,
não é a comunidade muçulmana que sente como seu primeiro problema o assalto aos valores da democracia, e da liberdade feitos em nome da sua religião, mesmo nos países ocidentais.
Só uma minoria, muito minoritária, fala como deve falar e mesmo assim nunca falaram alto e bom som
pelo direito de se ser blasfemo numa sociedade livre, como não falam com clareza sobre a principal fractura civilizacional que separa o mundo ocidental das sociedades islâmicas,
o papel e condição da mulher.

6. A questão não está na religião em si, (embora do ponto de vista histórico, como se passou com o cristianismo, a autoridade interpretativa teológica mais forte no papado assim como no xiismo e menos no sunismo, tenha algum papel) mas
no modo como é vivida, entendida e controlada por imans, clérigos e dirigentes civis, universidades, escolas, instituições de beneficência, poderes e autoridades,
como não havendo separação entre estado e igreja, logo impondo ou legitimando padrões de comportamento na sociedade que ofendem a liberdade individual.
O problema é que mesmo nos casos em que a "primavera árabe" tentou democratizar as sociedades,
o que emergiu, como já acontecera na Argélia com a vitória eleitoral da FIS, foi uma enorme pressão para o retorno da sharia, e a punição dos infiéis.
O mesmo se passa nos países "libertados" dos seus ditadores pelo apoio ocidental, como a Líbia, o Iraque, ou a tentativa de derrubar Assad na Síria,
todos deram origem a sociedades onde ser-se ateu é correr um real perigo de morte,
e as mulheres se escondem debaixo de camadas de véus,
e o que aumenta é a Al Qaida ou o ISIS.

7. Ora em sociedades europeias em que comunidades muçulmanas crescem pela história colonial ou pela emigração ..


De Vítimas, TERRORistas e apoiantes. a 14 de Janeiro de 2015 às 12:08
Visita ao Curdistão iraquiano - 23 - discussões com líderes cristãos

(-por AG, 12/1/2015, http://causa-nossa.blogspot.pt/ )

No último dia, visitamos o Arcebispo Warda, da Diocese Caldeia de Erbil, com quem discutimos a desesperada situação das minorias no Iraque e especificamente no Curdistão (cristãs, mas também yazidis, shabbak, turcomanas, shiitas etc..), cruelmente perseguidas pelos salafistas do EI (estado islâmico/ Daesh).

Todos os dirigentes cristãos que foram nossos interlocutores durante esta visita consideraram
urgente a derrota militar dos terroristas e a reconquista de Mosul (e Kobane) e do território iraquiano e sírio
onde oprimem a população que ficou (incluindo a sunita, sujeita a impostos e extorsões, sem serviços básicos a funcionar, com o combustível a escassear e a preços exorbitantes).

Todos se interrogam porque europeus e americanos não fazem mais e melhor,
inclusivé no apoio militar, para ajudar os peshmergas a progredir
- mas não compreendem que aqui está a linha da frente do combate terrorismo que golpeou em Paris e golpeará noutras cidades europeias, se não for rapidamente derrotado aqui?

Todos pedem apoio humanitário urgente,
ajuda à reconstrução a prazo
e intenso apoio à reconciliação nacional e à governabilidade do "so called Iraq",
como condições indispensáveis para que o Iraque não se despovoe de ancestrais comunidades.

"Mais seis meses de ocupação terrorista e todos partirão,
ninguém das minorias acredita ainda ter futuro no Iraque,
ninguém terá qualquer esperança de poder voltar às suas casas e terras, que além de saqueadas, sabem estar a ser semeadas de bombas pelos terroristas...".
Todos pedem apoio político, diplomático e outro
para resgatar as jovens e crianças raptadas
e para levar ao Tribunal Penal internacional os criminosos e seus MANDANTES:

Todos apontaram o dedo a ideólogos, financiadores, organizadores e instigadores Sauditas, Qataris e apoio logístico e não só Turco aos jihadistas do chamado EI.

A Europa não podia ser mais vigilante e contundente, política e diplomaticamente?

Todos - e em especial os líderes cristãos - condenaram e pediram que parassem os programas de alguns países europeus privilegiando a concessão de vistos a famílias cristãs.
Além da discriminação inaceitável, isso contrariava os seus próprios esforços para preservar a presença dessas minorias no Iraque:
"Estamos a lutar titânicamente por uma dupla
sobrevivência nesta terra berço de civilizações:
a das pessoas e a das culturas pré-islâmicas".

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Visita ao Curdistão iraquiano - 3

(- por AG, 12/1/2015, Causa nossa)

Logo na primeira noite jantamos com membros do Conselho Legislativo do Iraque e do Parlamento Regional curdo.
A tragédia de Paris presente na cabeça e nas palavras de pesar de todos. Os colegas iraquianos a sublinhar que sabem o que é:
desde há anos sofrem de devastadores ataques terroristas. Agravados no Curdistão desde que o chamado EI capturou Mosul, em Junho passado.
Com muitos criminosos europeus nas suas fileiras a cometer barbaridades contra iraquianos e sírios,
incluindo decapitações, massacres, raptos de crianças e escravização de raparigas.

Nós na UE chamamos-lhes "foreign fighters", mas na realidade muitos são europeus, como os que atacaram o Charlie Hebdo.

É preciso compreender porque tantos jovens se radicalizam. Para o prevenir.
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De China NeoLiberal, totalitária,... a 12 de Janeiro de 2015 às 12:02
...a ascensão da Ásia Oriental à liderança económica do planeta.

Para esta ascensão gradual contribuíram a modernização e dinamismo económicos do Japão, que na verdade remontam à era Meiji do final do século XIX; o milagre económico dos vários "tigres", ou "dragões", asiáticos (Coreia, Singapura, Hong Kong, Taiwan) no pós-2ª Guerra Mundial; e mais recentemente o crescimento fulgurante das economias da Malásia, Indonésia, Filipinas e Tailândia (também conhecidos como os "pequenos tigres", ou "tiger cubs"). Mas o elemento mais preponderante de todos para explicar a inexorável deslocação para leste do centro de gravidade da economia mundial é, sem dúvida, a extraordinária transformação e expansão económica da China ao longo das últimas três décadas e meia.

Vários autores têm assinalado que a ascensão da China ao estatuto de maior economia mundial não tem nada de extraordinário, na medida em que vem apenas colocar um ponto final no breve interlúdio de pouco mais de um século, esse sim extraordinário, durante o qual a China não foi a maior economia mundial. Falamos aqui de dimensão absoluta, de produção total, e para isso é óbvio que a dimensão territorial e populacional da China é preponderante. Mas os trabalhos de historiadores económicos como Angus Maddison sugerem que a China se encontrava à frente da Europa mesmo em termos relativos, de produto per capita, até ao século XIV.

Claro que esta análise é algo enganadora, na medida em que o que teve lugar do século XIV em diante no Ocidente envolveu uma mudança qualitativa fundamental, em termos de organização social, face aos séculos e milénios anteriores: a emergência e expansão do capitalismo. Ora, é essa mesma emergência e expansão que, aplicada agora ao caso chinês, explica a re-deslocação para oriente do centro de gravidade da economia mundial nas últimas três décadas e meia. É uma história fascinante, que resiste às análises simplistas e desafia o maniqueísmo.

Trata-se da mais acelerada instância de expansão do capitalismo da história, em termos dos milhões de pessoas que passaram a ser sujeitas às lógicas do trabalho assalariado e da dependência do mercado para assegurarem a sua subsistência. Trata-se, também, do mais acelerado processo de redução de pobreza da história da humanidade: segundo algumas estimativas, 680 milhões de pobres a menos entre 1981 e 2010. Trata-se, ao mesmo tempo, de um processo que tem sido caracterizado por uma enorme desestruturação social; por um aumento brutal da desigualdade; pela maior migração em massa da história, do interior rural para as áreas urbanas concentradas sobretudo na faixa litoral sudeste; e pela extracção de recursos naturais e emissão de poluentes a uma escala gigantesca. E tudo isto no contexto de um regime político fortemente autoritário e repressivo.

Trata-se, no fundo, do pacto faustiano do capitalismo concentrado no tempo e no espaço: dinamismo das forças produtivas e expansão do bem-estar material sem precedentes, por um lado; violência estrutural, desigualdade social e devastação ambiental, por outro. Com a particularidade notável e porventura irónica deste processo extraordinariamente acelerado de expansão capitalista ter sido conduzido por um partido dito comunista. Pois a China que tem vindo a ser construída nos últimos trinta e cinco é tudo menos comunista, claro está, pelo menos se o controlo colectivo e democrático dos meios de produção contar como critério. Na China, esse controlo é maioritariamente privado ou, em alternativa, oligárquico - mas dificimente pode ser considerado colectivo e seguramente não pode ser apelidado de democrático. Pelo contrário: se o que define o neoliberalismo é a inexorável remoção das barreiras sociais à valorização do capital, então Deng Xiaoping, que em 1979 liderou este processo de libertação do génio capitalista da garrafa ao mesmo tempo que proclamava "enriquecer é glorioso", merece certamente um lugar ao lado de Reagan e Thatcher no panteão neoliberal.

Mas a história não acaba aqui, pois claro. À medida que tem vindo a tornar-se um epicentro do capitalismo, a China tem também vindo a tornar-se um palco central da luta de classes à escala mundial. De há alguns anos para cá, e apesar das restrições decorrentes do carác


De Quem nada tem a perder... Extremista a 12 de Janeiro de 2015 às 11:10


Jan


Pastoral, a resposta


por mariana pessoa




Aqui, o meu fellow cenas CRG defende que, face ao que afirmei aqui, "considerar que é potenciado largamente por falta de condições económicas é um salto lógico que não posso acompanhar".

Não precisas de acompanhar, até porque o que afirmei era que "o extremismo medra nas condições de austeridade", não defendi uma relação causa-efeito linear, nem o objectivo era o de minimizar a responsabilização individual destes actos. Dessa forma, não abdico do factor da tomada de decisão individual de quem adere a estes movimentos extremistas.

-----A questão, tal como descreveu e bem o nosso Sérgio Lavos, reside no facto de que a ascensão de movimentos e partidos explicitamente xenófobos está par a par com o aumento exponencial do desemprego,
criando espaço para o argumento de que há falta de emprego por causa dos imigrantes, paredes meias com o racismo e xenofobia.
Ora, nesse sentido, estamos a apontar para razões materiais para a ascensão de discursos radicais, colocando em causa a prevalência das sociedades democráticas no projecto europeu.
É só ver Le Pen (Direita francesa), que demorou apenas o tempo de descer uns degraus para propôr a suspensão do espaço Schengen, como se a estes terroristas, nascidos e criados em França, tivesse feito alguma diferença ter de mostrar o passaporte numa qualquer fronteira....

Assim sendo, custa assim tanto acreditar que as consequências sócio-económicas das políticas de austeridade que levaram a um aumento do desemprego estejam associadas a uma vida no ghetto, sem esperança e sem expectativas?
E que este vazio de futuro, assim percepcionado por quem não tem nada a perder, seja caldo de cultura perfeito para a disseminação de ideias extremistas?
Pelos vistos não - e a economia política tem-se dedicado a este assunto.

Está aqui um exemplo:
Blomberg, S., Hess, G., Weerapana, A. Economic conditions and terrorism. European Journal of Political Economy, Volume 20, Issue 2, June 2004, Pages 463–478
Abstract:
We explore the links between the incidence of terrorism and the state of a country's economy. Groups that are unhappy with the current economic status quo, yet unable to bring about drastic institutional changes, may find it rational to engage in terrorist activities. The result is a pattern of reduced economic activity and increased terrorism. In contrast, an alternative environment can emerge where access to economic resources is more abundant and terrorism is reduced. Our empirical results are consistent with the theory. We find that for democratic, high income countries, economic contractions lead to increased likelihood of terrorist activities.
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http://365forte.blogs.sapo.pt/o-odio-298594 -por Sérgio Lavos



De Causas do Ódio e extremismo a 12 de Janeiro de 2015 às 11:16
http://365forte.blogs.sapo.pt/o-odio-298594
O ódio (-por S.Lavos, 9/1/2015, 365forte)
...
... Vamos então desacelerar o tempo.
E pensar no momento em que um grupo de jovens franceses, descendentes de magrebinos (no caso do raptor do supermercado, descendente de imigrantes da África subsariana), decidiu matar jornalistas de uma publicação satírica e algumas pessoas num supermercado.
Ou então voltar atrás no tempo, e apanhá-los no momento em que tomaram contacto com algum clérigo radical do Islão que os conduziu ao caminho que agora percorrem.
Ou então ainda, capturá-los na adolescência, quando em qualquer escola dos subúrbios aspirariam talvez a ser mais do que acabaram por se tornar.
Poderiam ser os adolescentes que Abdellatif Kechiche retrata em A esquiva, perdidos entre os problemas normais daquela idade, tentando encontrar a normalidade enquanto ensaiam uma peça de Marivaux, um dos mais importantes dramaturgos do país que acolheu os seus pais.

Poderiam ser também os adolescentes problemáticos de O ódio, de Mathieu Kassovitz, jovens pressionados pela marginalidade dos subúrbios,
indecisos entre a vingança e a redenção, subúrbios onde as diferenças raciais e religiosas se esbatem, e onde um negro, um branco e um magrebino podem partilhar o mesmo ódio à polícia, à autoridade, ao país onde habitam - os laços que unem as pessoas podem ser negativos, tanto como podem ser positivos.
Pelo que vamos sabendo, os jovens que ontem e hoje levaram a violência a território francês poderiam ser estas personagens, estes desenraizados dentro do seu próprio país
que a determinada altura escolheram mal, e ouviram as palavras do clérigo radical que os acolheu e aceitaram o seu ódio e a sua razão envenenada.

Não, isto não é uma descupabilização do que fizeram:
o acto de matar é individual, parte de uma escolha.
E nem o clérigo mais radical, nem as condicionantes culturais dos assassinos, poderão desculpar este acto.
Mas precisamos de saber por que razão o caminho é percorrido, de que modo é que a radicalização destes jovens ocidentais (o ISIS tem conseguido recrutar combatentes de todas as partes do mundo) é feita, o que os leva ali.
A melhor maneira de combater a ascensão do radicalismo e a multiplicação de terroristas é EVITAR que os jovens imigrantes ou filhos de imigrantes achem mais aceitáveis os valores medievais e violentos do fundamentalismo islâmico do que os valores das democracias liberais
- entre eles, um dos mais sagrados, a liberdade de expressão, e outro, não menos importante, o laicismo do Estado, a separação entre lei e religião.
Será uma árdua tarefa que os governos ocidentais têm pela frente.
Mas compreender o Outro e as suas motivações é a maneira mais fácil, a única maneira que temos, de combater ideias, de impor os nossos valores - e neste aspecto, não sou um relativista:
não aceito que uma visão obscurantista do mundo seja colocada ao mesmo nível e olhada do mesmo modo que uma visão progressista.
Os assassinos foram carrascos, mas também foram veículo de ideias.
E não é a morte dos assassinos que vai apagar as ideias que os motivaram, que eles propagam.
A guerra (ela existe) combate-se neste campo.
Deixarmos de ser Charlie e passarmos a ser Dirty Harry não pode ser uma opção.


De islamofascismo, auto-censura e responsáv a 9 de Janeiro de 2015 às 11:20
Não, não somos todos Charlie Hebdo.

(8/1/2015,Rui Silva, M74)
...
Este post não é um ataque à expressão nem a quem a usa. É um convite à reflexão sobre o significado que a mesma tem, ...
Creio sinceramente que a maioria de nós não é "Charlie".
A maioria de nós cultiva o silêncio comprometido, "a minha política é o trabalho", "os gajos são todos iguais", "cada um sabe de si", não faço ondas que a maré pode levantar-se e eu afogo-me. Numa sociedade em que a liberdade de expressão é entendida pela metade - como a liberdade nos e dos media (e mesmo essa...), quase nunca como a liberdade de cada um dizer sempre e em todos os fóruns aquilo que pensa e sente sobre as coisas do mundo -, esta morre (suspende-se, se quiserem) à porta de uma série de instituições.
É hoje praticamente dado como adquirido que no local de trabalho não se fala de política; que dentro das empresas onde trabalhamos há assuntos de que não se fala, por "respeitinho" à corporação e/ou simples medo das represálias associadas ao questionamento de regras estúpidas, regulamentos e códigos obsoletos, discrepâncias medievais na distribuição de salários e "regalias".
Somos todos "Charlie" mas apenas quando nos convém. A prova-provada, aquela que nos confronta connosco próprios, acontece por exemplo sempre que furamos uma greve por medo das consequências associadas à participação na dita.

...O problema é que se não questionamos a forma como nos posicionamos neste debate sobre a liberdade de expressão, se não alargamos a nossa reflexão sobre o assunto à forma como o poder financeiro mantém ad eternum jornais deficitários que servem de megafone à sua mensagem padronizada,
quando simultaneamente asfixia projectos alternativos que muito poderiam contribuir para a diversificação das da informação e das perspectivas críticas sobre a realidade, se não questionamos a auto-censura a que permanentemente nos impomos,
ou se não procuramos compreender porque razão partilhamos até à exaustão nas redes sociais notícias fabricadas sem questionar fontes ou a sua credibilidade, então estaremos a desrespeitar a coragem daqueles que ontem morreram às mãos do islamofascismo financeiramente apoiado e militarmente alimentado por muitos daqueles que hoje choram lágrimas hipócritas.

Eu não sou Charlie, mas pode ser que um dia venha a ser. Quando tiver a coragem de assumir, plenamente e sem auto-censuras, sem medo de consequências (custe o que custar), aquilo que penso e sinto sobre as dores do mundo, sobre as dores dos humildes deste mundo.

Não, nós não somos todos Charlie (pode ser que um dia lá cheguemos). Infelizmente para nós, país que leva 38 anos a vergar a sua soberania, a sua liberdade e a sua dignidade aos ditames de oligarcas internos e externos, e que mesmo assim cala a imensa revolta que, em silêncio, alimenta dentro de si.

Não, nós não somos todos Charlie. O editorial do Público (que assumindo a forma desproporcionada como são tratados o atentado de Paris e aquele que no mesmo dia matou cerca de 30 pessoas no Iémen envergonha o jornal, a sua equipa e os muitos - bons - profissionais que por lá passaram) prova-o de forma cristalina. Está o Público (e o DN, o JN, o Expresso, o "i" e tantos outros...) a grande distância da liberdade que apregoa e afirma como característica do seu projecto editorial.

Nota: este é o momento de confrontar a União Europeia, a NATO e o governo francês em particular com as suas imensas e determinantes RESPONSABILIDADES no crescimento de uma nova "jihad" que agora (e uma vez mais) lhes rebenta nas mãos; é tempo de lembrar que em 2012 foram capturados na Síria cerca de duas dezenas de agentes secretos franceses que apoiavam no terreno o "Exército Livre da Síria", uma das facções da "jihad" que destruiu e destrói um dos únicos estados laicos da região; ... que em Abril de 2013 a União Europeia decidiu comprar às claras petróleo aos "rebeldes" que haviam tomado para si - e para o financiamento da sua "jihad" - poços de petróleo que pertencem na verdade ao povo sírio; ... que o governo francês foi um dos elementos chave no esforço de guerra da NATO na Líbia - um dos paraísos do novo jihadismo itinerante -, e que boa parte daqueles que hoje ameaçam vidas inocentes em todo o mundo fizeram nesse contexto de guerra a sua formação (para)militar.


De OTAN e transnacionis financia Terroris a 9 de Janeiro de 2015 às 11:39
--- No entanto, este atentado cheira a «Black Ops made in USA», nomeadamente a CIA, para tentar afundar ainda mais a credibilidade do presidente Hollande.
Antes deste atentado acontecer, não esquecer que a França, à última da hora, rejeitou a tomada de posição de Israel em reter verbas para a Palestina.
Também, outro atentado na Turquia tinha ocorrido um dia atrás. Porquê? A vacilação do primeiro-ministro turco perante a estrutura de poder em Washington, ao dialogar com o presidente russo e ao não querer prosseguir com a estratégia da Casa Branca, em relação à guerra na Síria.

...Pergunto eu quantos terroristas teriamos criado ca em Portugal se fossemos bombardeados como eles teem sido? Se vissemos os nossos filhos, pais, irmaos, vizinhos, (bem o meu talvez nao) a morrerem diariamente, as nossas escolas ou os nossos hospitais. Quantos nao se juntariam aos rebeldes? seriamos certamente muitos os "terroristas" certamente.

----Hugo Dionisio disse...
Excelente texto.
Vivemos num estado formalmente democrático e numa sociedade material e tendencialmente ditatorial. Tudo em resultado de um estado NEO-LIBERAL que prescindiu dos instrumentos democráticos fundamentais (propriedade dos meios de produção, comunicação...).
Parece muito? Não é. Hoje, quando muito, temos liberdade e pensar em metade das nossas vidas. Na outra metade, no trabalho, não temos. Já para não falar de que um candidato a emprego pode ver no seu Facebok uma barreira à sua contratação?
Meus amigos, não há democracias amputadas ou parciais. Há ou não há democracia e numa sociedade dominada pela propriedade privada, a democracia fica muito afectada pela falta de liberdade de expressão. Daí a democracia ser apenas formal.

A Líbia e a Síria tinham ditaduras medievais? Estranho, não tenho essa ideia. Medievais são as da Arábia Saudita, Emirados, Kwait, Bahrein e outros. à vista de outros, a Líbia e a Síria eram o paraíso progressista na terra. Essas continuam lá, já as outras... E depois vêm falar do enlevo dos progressistas. O progresso não é uma coisa abstracta, tem um ponto de partida.
Em relação ao que representam os jihadistas apoiados pelos EUA e pelo grande capital, o regime de Assad é progressista. Em relação aos nossos, não é! Mas ninguém diz que quer cá o Assad.
O que não quero é que se troque o seu regime por um pior, mais retrógrado e medieval. Neste momento, por isso, defender o Assad na Síria é ser progressista.
Porque a alternativa capitalista é o retorno da teocracia e, meu caro, a separação do estado e da igreja é um passo fundamental para o progresso, e nesse aspecto Assad garante-o. Aliás, O fascistóide contratado pela CIA Nuno Rogeiro, entrevistou o Monsenhor Bispo de Damasco (acho) dos cristãos da Síria e levou uma tareia das antigas... De que ele não estava à espera. Nem os cristãos querem a alternativa... Cristã!
Como lhe digo, progressista em abstracto é bom,, mas também é bom sê-lo em concreto!
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Em relação a este ataque que já teve as suas consequências (diversas mesquitas atacadas em França), ninguém fala dos ditos guerrilheiros do «ISIL» feridos e fotografados em hospitais de Israel, defronte de soldados e generais israelitas. Ninguém mais falou na cumplicidade turca e francesa com aqueles bandidos do «ISIL» que ainda lutam em Kobani e que até foram ajudados em armamento pela tal coligação construída pela NATO e os EUA. É certo que também não se falou do súbito afastamento do governo de Hollande daquele ministro estranho e maquiavélico, chamado Laurent Fabius, implicado numa venda de sangue contaminado com Sida para o Irão.
Também é certo saber que aqueles que estão à frente do governo francês, não são nenhuns anjos. Por isso, não admira muito este estado de situação no estado policial francês, um país xenófobo, bem como o comprovam os falecidos autores do Charlie Hebdo.
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... estratégia americana que era tornar a Síria numa espécie de Nicarágua, injectando guerrilheiros do tipo «contras» até que a situação pesasse mais do lado dos opositores a Assad. ...enquanto diziam estar a bombardear o «ISIL», estavam, de facto, a armá-lo e a deixar depósitos de armamento para que os terroristas o levantassem, como aconteceu em Kobani ...
...coligação americana e malfeitora transnacional... financiando terroristas ...


De Assassinos a 9 de Janeiro de 2015 às 10:48

“Ocidente assassina diariamente, sem ruído”

(7/1/2015, http://lamanchaobrera.es/willy-toledo-denuncia-doble-rasero-sobre-atentado-en-charlie-hebdo-occidente-asesina-diariamente/

El actor Willy Toledo ha denunciado en las redes sociales la hipocresía de políticos y grandes medios de comunicación en referencia al atentado perpetrado este miércoles contra la revista satírica francesa ‘Charlie Hebdo’, un ataque que ha acabado con la vida de doce personas.

Toledo, que ha querido dejar claro su respeto por las víctimas, ha criticado el doble rasero político y mediático que existe en función de quien comete las matanzas.
En un tweet publicado este mismo miércoles, el actor advierte: ”Occidente asesina diariamente. Sin ruido”, haciendo referencia a las guerras imperialistas llevadas a cabo por estos países en el mundo árabe y en otras regiones del planeta.

En otro comentario, Toledo añade que el Pentágono y la OTAN “bombardean y destruyen países enteros, asesinan a millones”.

En la última década, Estados Unidos y sus aliados de la OTAN, entre los que se encuentran Francia, (UK e Alemanha), han intervenido militarmente varios países del mundo árabe bajo el pretexto de la lucha contra el terrorismo y la exportación de la democracia.
Es el caso de las invasiones de Afganistán (2001) e Irak (2003), los bombardeos de la OTAN en Libia (2011) o el financiamiento de grupos opositores armados en Siria (2011). http://www.librered.net/
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UJCE :
Ante el atentado contra las/os trabajadoras/es de la revista satírica Charlie Hebdo, queremos en primer lugar, transmitir nuestra solidaridad con las familias de las victimas y en general con pueblo francés por el brutal ataque, dirigido no solo contra sus ciudadanos y ciudadanas, sino contra la libertad de expresión, y que ha sido llevado a cabo por militantes o seguidores de grupos islamistas radicales.

Estos grupos islamistas radicales, que NO representan al Islam ni a las/os musulmanes, son un “monstruo” creado y/o apoyado por EEUU, la UE y la OTAN desde hace décadas con el único fin de derrocar gobiernos legítimos, así como generar un clima de enfrentamiento basado en la doctrina del “choque de civilizaciones” que le permite no solo acabar con gobiernos laicos y/o anti-imperialistas que se opongan a sus planes, sino también generar un estado de terror entre su propia población que justifique un aumento de medidas represivas y restricciones a las libertades.


Este monstruo, que toma diversas formas, sea Al-qaeda, Estado Islámico, o pequeñas milicias y grupos mercenarios, en este caso se vuelve contra sus ciudadanos/as, con el consiguiente coste en vidas humanas inocentes. No podemos olvidar que el estado francés apoyó logística, militar y económicamente a organizaciones islamistas radicales en Libia con el fin de derrocar al gobierno de Gadafi y hace lo mismo hoy por hoy en Siria.

Es la naturaleza del capitalismo y el imperialismo la que fundamentan la necesidad de estos grupos, la necesidad de dominar y someter mediante la violencia, la ignorancia y el miedo a las/os trabajadoras/es y estudiantes en el medio oriente y el magreb, la necesidad de justificar guerras de rapiña, la necesidad de generar una reacción igual de radical como es la del fascismo, racismo, islamofobia, para dividir a la clase trabajadora, etc.

Nuestras condolencias a las familias de las víctimas.
Nuestra condena y nuestro máximo desprecio tanto los asesinos como al sistema que los patrocina.


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