De Quem nada tem a perder... Extremista a 12 de Janeiro de 2015 às 11:10


Jan


Pastoral, a resposta


por mariana pessoa




Aqui, o meu fellow cenas CRG defende que, face ao que afirmei aqui, "considerar que é potenciado largamente por falta de condições económicas é um salto lógico que não posso acompanhar".

Não precisas de acompanhar, até porque o que afirmei era que "o extremismo medra nas condições de austeridade", não defendi uma relação causa-efeito linear, nem o objectivo era o de minimizar a responsabilização individual destes actos. Dessa forma, não abdico do factor da tomada de decisão individual de quem adere a estes movimentos extremistas.

-----A questão, tal como descreveu e bem o nosso Sérgio Lavos, reside no facto de que a ascensão de movimentos e partidos explicitamente xenófobos está par a par com o aumento exponencial do desemprego,
criando espaço para o argumento de que há falta de emprego por causa dos imigrantes, paredes meias com o racismo e xenofobia.
Ora, nesse sentido, estamos a apontar para razões materiais para a ascensão de discursos radicais, colocando em causa a prevalência das sociedades democráticas no projecto europeu.
É só ver Le Pen (Direita francesa), que demorou apenas o tempo de descer uns degraus para propôr a suspensão do espaço Schengen, como se a estes terroristas, nascidos e criados em França, tivesse feito alguma diferença ter de mostrar o passaporte numa qualquer fronteira....

Assim sendo, custa assim tanto acreditar que as consequências sócio-económicas das políticas de austeridade que levaram a um aumento do desemprego estejam associadas a uma vida no ghetto, sem esperança e sem expectativas?
E que este vazio de futuro, assim percepcionado por quem não tem nada a perder, seja caldo de cultura perfeito para a disseminação de ideias extremistas?
Pelos vistos não - e a economia política tem-se dedicado a este assunto.

Está aqui um exemplo:
Blomberg, S., Hess, G., Weerapana, A. Economic conditions and terrorism. European Journal of Political Economy, Volume 20, Issue 2, June 2004, Pages 463–478
Abstract:
We explore the links between the incidence of terrorism and the state of a country's economy. Groups that are unhappy with the current economic status quo, yet unable to bring about drastic institutional changes, may find it rational to engage in terrorist activities. The result is a pattern of reduced economic activity and increased terrorism. In contrast, an alternative environment can emerge where access to economic resources is more abundant and terrorism is reduced. Our empirical results are consistent with the theory. We find that for democratic, high income countries, economic contractions lead to increased likelihood of terrorist activities.
-----
http://365forte.blogs.sapo.pt/o-odio-298594 -por Sérgio Lavos



De Causas do Ódio e extremismo a 12 de Janeiro de 2015 às 11:16
http://365forte.blogs.sapo.pt/o-odio-298594
O ódio (-por S.Lavos, 9/1/2015, 365forte)
...
... Vamos então desacelerar o tempo.
E pensar no momento em que um grupo de jovens franceses, descendentes de magrebinos (no caso do raptor do supermercado, descendente de imigrantes da África subsariana), decidiu matar jornalistas de uma publicação satírica e algumas pessoas num supermercado.
Ou então voltar atrás no tempo, e apanhá-los no momento em que tomaram contacto com algum clérigo radical do Islão que os conduziu ao caminho que agora percorrem.
Ou então ainda, capturá-los na adolescência, quando em qualquer escola dos subúrbios aspirariam talvez a ser mais do que acabaram por se tornar.
Poderiam ser os adolescentes que Abdellatif Kechiche retrata em A esquiva, perdidos entre os problemas normais daquela idade, tentando encontrar a normalidade enquanto ensaiam uma peça de Marivaux, um dos mais importantes dramaturgos do país que acolheu os seus pais.

Poderiam ser também os adolescentes problemáticos de O ódio, de Mathieu Kassovitz, jovens pressionados pela marginalidade dos subúrbios,
indecisos entre a vingança e a redenção, subúrbios onde as diferenças raciais e religiosas se esbatem, e onde um negro, um branco e um magrebino podem partilhar o mesmo ódio à polícia, à autoridade, ao país onde habitam - os laços que unem as pessoas podem ser negativos, tanto como podem ser positivos.
Pelo que vamos sabendo, os jovens que ontem e hoje levaram a violência a território francês poderiam ser estas personagens, estes desenraizados dentro do seu próprio país
que a determinada altura escolheram mal, e ouviram as palavras do clérigo radical que os acolheu e aceitaram o seu ódio e a sua razão envenenada.

Não, isto não é uma descupabilização do que fizeram:
o acto de matar é individual, parte de uma escolha.
E nem o clérigo mais radical, nem as condicionantes culturais dos assassinos, poderão desculpar este acto.
Mas precisamos de saber por que razão o caminho é percorrido, de que modo é que a radicalização destes jovens ocidentais (o ISIS tem conseguido recrutar combatentes de todas as partes do mundo) é feita, o que os leva ali.
A melhor maneira de combater a ascensão do radicalismo e a multiplicação de terroristas é EVITAR que os jovens imigrantes ou filhos de imigrantes achem mais aceitáveis os valores medievais e violentos do fundamentalismo islâmico do que os valores das democracias liberais
- entre eles, um dos mais sagrados, a liberdade de expressão, e outro, não menos importante, o laicismo do Estado, a separação entre lei e religião.
Será uma árdua tarefa que os governos ocidentais têm pela frente.
Mas compreender o Outro e as suas motivações é a maneira mais fácil, a única maneira que temos, de combater ideias, de impor os nossos valores - e neste aspecto, não sou um relativista:
não aceito que uma visão obscurantista do mundo seja colocada ao mesmo nível e olhada do mesmo modo que uma visão progressista.
Os assassinos foram carrascos, mas também foram veículo de ideias.
E não é a morte dos assassinos que vai apagar as ideias que os motivaram, que eles propagam.
A guerra (ela existe) combate-se neste campo.
Deixarmos de ser Charlie e passarmos a ser Dirty Harry não pode ser uma opção.


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