De China NeoLiberal, totalitária,... a 12 de Janeiro de 2015 às 12:02
...a ascensão da Ásia Oriental à liderança económica do planeta.

Para esta ascensão gradual contribuíram a modernização e dinamismo económicos do Japão, que na verdade remontam à era Meiji do final do século XIX; o milagre económico dos vários "tigres", ou "dragões", asiáticos (Coreia, Singapura, Hong Kong, Taiwan) no pós-2ª Guerra Mundial; e mais recentemente o crescimento fulgurante das economias da Malásia, Indonésia, Filipinas e Tailândia (também conhecidos como os "pequenos tigres", ou "tiger cubs"). Mas o elemento mais preponderante de todos para explicar a inexorável deslocação para leste do centro de gravidade da economia mundial é, sem dúvida, a extraordinária transformação e expansão económica da China ao longo das últimas três décadas e meia.

Vários autores têm assinalado que a ascensão da China ao estatuto de maior economia mundial não tem nada de extraordinário, na medida em que vem apenas colocar um ponto final no breve interlúdio de pouco mais de um século, esse sim extraordinário, durante o qual a China não foi a maior economia mundial. Falamos aqui de dimensão absoluta, de produção total, e para isso é óbvio que a dimensão territorial e populacional da China é preponderante. Mas os trabalhos de historiadores económicos como Angus Maddison sugerem que a China se encontrava à frente da Europa mesmo em termos relativos, de produto per capita, até ao século XIV.

Claro que esta análise é algo enganadora, na medida em que o que teve lugar do século XIV em diante no Ocidente envolveu uma mudança qualitativa fundamental, em termos de organização social, face aos séculos e milénios anteriores: a emergência e expansão do capitalismo. Ora, é essa mesma emergência e expansão que, aplicada agora ao caso chinês, explica a re-deslocação para oriente do centro de gravidade da economia mundial nas últimas três décadas e meia. É uma história fascinante, que resiste às análises simplistas e desafia o maniqueísmo.

Trata-se da mais acelerada instância de expansão do capitalismo da história, em termos dos milhões de pessoas que passaram a ser sujeitas às lógicas do trabalho assalariado e da dependência do mercado para assegurarem a sua subsistência. Trata-se, também, do mais acelerado processo de redução de pobreza da história da humanidade: segundo algumas estimativas, 680 milhões de pobres a menos entre 1981 e 2010. Trata-se, ao mesmo tempo, de um processo que tem sido caracterizado por uma enorme desestruturação social; por um aumento brutal da desigualdade; pela maior migração em massa da história, do interior rural para as áreas urbanas concentradas sobretudo na faixa litoral sudeste; e pela extracção de recursos naturais e emissão de poluentes a uma escala gigantesca. E tudo isto no contexto de um regime político fortemente autoritário e repressivo.

Trata-se, no fundo, do pacto faustiano do capitalismo concentrado no tempo e no espaço: dinamismo das forças produtivas e expansão do bem-estar material sem precedentes, por um lado; violência estrutural, desigualdade social e devastação ambiental, por outro. Com a particularidade notável e porventura irónica deste processo extraordinariamente acelerado de expansão capitalista ter sido conduzido por um partido dito comunista. Pois a China que tem vindo a ser construída nos últimos trinta e cinco é tudo menos comunista, claro está, pelo menos se o controlo colectivo e democrático dos meios de produção contar como critério. Na China, esse controlo é maioritariamente privado ou, em alternativa, oligárquico - mas dificimente pode ser considerado colectivo e seguramente não pode ser apelidado de democrático. Pelo contrário: se o que define o neoliberalismo é a inexorável remoção das barreiras sociais à valorização do capital, então Deng Xiaoping, que em 1979 liderou este processo de libertação do génio capitalista da garrafa ao mesmo tempo que proclamava "enriquecer é glorioso", merece certamente um lugar ao lado de Reagan e Thatcher no panteão neoliberal.

Mas a história não acaba aqui, pois claro. À medida que tem vindo a tornar-se um epicentro do capitalismo, a China tem também vindo a tornar-se um palco central da luta de classes à escala mundial. De há alguns anos para cá, e apesar das restrições decorrentes do carác


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