De Desigualdade, remunerações e classes a 30 de Outubro de 2014 às 17:10

Um outro mundo é possível

(Crónica de Diana Andringa, 28/10/2014, na Antena 1--- http://entreasbrumasdamemoria.blogspot.pt/2014/10/um-outro-mundo-e-possivel.html )
[foto de Mujica, presidente do Uruguai]


Um estudo realizado por dois economistas, e recentemente publicado, analisou a forma como as pessoas imaginavam as diferenças salariais entre os executivos e os trabalhadores de base das empresas, que diferenças entenderiam como justas e quais eram, realmente, essas diferenças.

Como era de prever, a maioria dos inquiridos entendia que as diferenças eram grandes demais e, embora aceitando o maior salário dos executivos, defendia que a diferença deveria ser menor.

Até aqui, nada que surpreenda. O curioso é que a ideia que os inquiridos tinham sobre as diferenças salariais estava muito aquém da realidade. Na Áustria, por exemplo, os inquiridos julgavam que um Director Executivo ganhava 5 vezes mais do que um trabalhador não qualificado, mas ganhava 36 vezes mais. Na Dinamarca, não ganhava duas vezes mais, como os inquiridos pensavam, mas 48 vezes – e na Suécia 89 vezes. Nos Estados Unidos, em lugar de ganhar, como pensavam os inquiridos, 6,7 vezes mais, um Director Executivo ganhava 354 vezes mais. Em Portugal, onde os inquiridos apontavam um rácio de 5, ele é, de facto, de 53. E o Público recorda a propósito que, em 2013, Pedro Soares dos Santos ganhou 108 vezes mais do que a média dos restantes trabalhadores da Jerónimo Martins.

Sim, conheço o argumento, é o peso da responsabilidade. Mas será justificável que essa responsabilidade se salde nestes valores?

Dias antes, saíram notícias sobre um homem que terminava o seu mandato como presidente de um país. País pequeno, é certo, mas talvez não seja excessivo comparar as suas responsabilidades às de um Director de uma grande empresa. No entanto, José Mujica, uma vez presidente do Uruguai, não viu razões para mudar da casa onde há anos vivia com a mulher, nem para auferir um salário muito superior ao que necessitava para viver – e doava 90% desse salário a obras de caridade… E não se pode dizer que não tivesse responsabilidades. O seu foi o primeiro país do Mundo a enfrentar o narcotráfico, legalizando a produção e a venda da cannabis.

Vi as duas notícias com poucos minutos de intervalo, e corri o risco de acreditar que, digam o que digam, um outro Mundo é possível.


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