Crise e narrativas económico-políticas

Três (ou 4) narrativas    (-J.C. Alexandre, Destreza das dúvidas)

Após o eclodir da crise financeira de 2007-2008, surgiram na Europa e em Portugal em particular três grandes narrativas ou histórias. Chamemos-lhes a “narrativa da dívida”, a “narrativa do euro” e a “narrativa da banca”. (e a da 'globalização')

A “narrativa da dívida”, sublinha sobretudo a má gestão da política fiscal dos governos, que se endividaram demais e, por consequência, se expuseram demasiado aos mercados financeiros em período de recessão. Esta história sugere que o orçamento de Estado foi capturado por vários grupos de interesses e, como a despesa pública cresce a um ritmo superior ao do PIB, só é possível manter o atual estado de coisas com mais endividamento. Daqui decorre a necessidade das famigeradas "reformas estruturais".

A “narrativa do euro” aponta para as falhas institucionais da zona euro, ao não permitir, por exemplo, que um estado saia temporariamente da UEM para proceder a desvalorizações da moeda. Como corolário, defende-se uma maior integração europeia, nomeadamente através de uma expansão do orçamento comunitário, uma união bancária, etc.

Por fim, a “narrativa da banca” atribui as culpas da crise à ganância dos banqueiros e às falhas dos reguladores.

A esquerda, desde o início, tentou centrar a crise na “narrativa da banca”, atribuindo inclusive o problema (inegável) dos défices excessivos do Estado ao resgate de alguns bancos. A direita, por seu lado, agarrou-se sobretudo à “narrativa” da dívida”.

Tanto à direita como à esquerda, há, todavia, um certo consenso sobre a existência de erros no design institucional do euro, e embora a maioria das soluções apresentadas caminhe no sentido de uma maior integração europeia, não há unanimidade sobre a melhor forma de lá chegar.

Com o tempo, impôs-se, na opinião pública, a “narrativa da dívida”. Talvez porque fosse mais fácil de perceber pelo cidadão comum. A metáfora da família que ganha 100 e gasta 150 e que, por isso, tarde ou cedo, estará a braços com graves problemas financeiros é fácil de assimilar. Já as manigâncias da banca e os erros da regulação são questões demasiado esotéricas para a maioria dos cidadãos.

Cada uma destas narrativas tem um fundo de verdade, mas nenhuma delas conta a verdade toda.

É inegável que há um problema de sustentabilidade da despesa do Estado, que é muito anterior à crise. Entre 1980 e 2010, o nosso PIB cresceu à taxa média anual de 2,4% enquanto a despesa primária do Estado evoluiu à taxa de 4,2% (quase o dobro). Se nos concentrarmos no período 2000-2010, esses valores são, respectivamente, 0,6% e 2,9%. Bastam estes números para se perceber que, tarde ou cedo, Portugal acabaria por bater na parede. A crise veio apenas acelerar o inevitável.

Por outro lado, parece hoje ridículo o discurso elogioso sobre a solidez da banca portuguesa que nos foi impingido durante anos e anos, inclusive após o eclodir da crise - lembram-se? E, retrospectivamente, parece inacreditável a maneira acéfala e acrítica com que a maioria das elites políticas e económicas nacionais acolheu o euro de braços abertos. Quando, por exemplo, Milton Friedman afirmava que a moeda única não resistiria à primeira depressão económica, os europeus (economistas incluídos) diziam, com arrogância, que se tratava apenas do medo dos EUA da concorrência ao dólar.

Não se pode discutir seriamente a crise ignorando ou desvalorizando qualquer uma destas “narrativas”. Qualquer solução que não tenha em conta estas três facetas da crise está condenada a falhar.

'Narrativa da globalização ou da competitividade'     (- por Rui Fonseca)

Há uma quarta narrativa que não pode ser descartada e que, aliás, disputa com a moeda única as responsabilidades pela gestação da crise e pela anemia económica na Europa: a globalização e a consequente concorrência da China, Índia, etc., em segmentos da economia que representavam uma parte substancial do PIB e das exportações dos países economicamente frágeis.
     Pergunto-me se Portugal não tivesse aderido ao euro se teria sido evitado o destroçar das indústrias sustentadas pelo (baixo) preço da mão-de-obra. Creio que não. A menos que o escudo tivesse caído para cotações competitivas com os preços concorrentes dos países asiáticos, o que teria implicado níveis de inflação elevados e a redução dramática dos salários de empregos não qualificados. Falou-se, na altura, muito na requalificação, reestruturação, etc. Coisas que não acontecem com o estalar do médio com o polegar.
     Não desvalorizo o peso da responsabilidade do euro mas creio que tem sido sobrevalorizada. Trabalhei dezenas de anos numa indústria obrigada desde sempre a competir globalmente. Com a entrada no euro, os resultados não foram negativamente afectados.
     Mas alinho ao lado daqueles que vêm nos banqueiros os grandes responsáveis pelos acontecimentos.  Os banqueiros ou as políticas que lhes permitiram andar à rédea solta, se partirmos do princípio que os banqueiros têm propensão natural para fomentarem desastres e mandarem-nos a factura das reparações a casa. Porque só eles, ou principalmente eles, sabiam os níveis de endividamento que estavam a importar e as mascambilhas em que se envolviam. A promiscuidade entre a política e a banca não poderia conduzir senão ao descarrilar dos atrelados.
     Mas o que é incrível é que, no essencial, continua tudo na mesma.



Publicado por Xa2 às 07:35 de 06.01.15 | link do post | comentar |

6 comentários:
De Desgovernos:...+Nepotismo+sabujos+burlõe a 20 de Janeiro de 2015 às 10:34
...
...Também é verdade que o nosso desinvestimento na agricultura e pescas foi negociado durante a adesão à CEE, mas nós poderíamos ter aproveitado as conclusões do Relatório Porter para renegociar a nossa estadia na CEE. Em 2002, quando Michael Porter visitou Portugal e disse que o país estava no mau caminho, também podíamos ter aproveitado para repensar o que andávamos a fazer. Não só não repensámos, como ainda fizemos escolhas que nos prejudicaram ainda mais. Em 2011, quando negociámos com a Troika também podíamos ter reavaliado o papel da agricultura e das pescas no nosso desenvolvimento, mas escolhemos não o fazer novamente. Em 2013, 19 anos após o Relatório Porter, há quem defenda que precisamos de um Relatório Porter novo.

O que nós precisamos é de ter vergonha na cara. Andar ad eternum a fazer estudos e relatórios, sem ter intenção de implementar as conclusões do relatório, só gasta dinheiro, não cria valor nenhum. É incompreensível não saber álgebra; é uma coisa que se aprende na escola primária. Pagar 100 para ter um proveito de 10, resulta numa perda de 90. Até agora, o que nós fizemos foi aumentar custos e destruir ou internacionalizar proveitos.

Vejamos alguns exemplos:

Pedimos emprestado para investir em infraestrutura e, segundo os rankings de competitividade, temos uma das melhores do mundo. Ao construir a infraestrutura, aumentámos os nossos compromissos financeiros futuros, pois são necessários custos de manutenção e pagamento de juros e da dívida contraída para a construção. Ainda por cima, tivemos a brilhante ideia de garantir rentabilidade a certas PPPs, independentemente do uso que tem a infraestrutura, pois construímos sem qualquer noção de escala ou de benefício público--se calhar, somos fãs do Kevin Costner e da filosofia "if you build it, he will come". Mas ainda não chegou ninguém; pelo contrário, manda-se pessoas embora do país e, para adoçar o veneno com que nos matamos, limitamos o acesso à infraestrutura através de portagens, efectivamente destruindo grande parte dos proveitos que a existência dessa infraestrutura poderia ter.
Também poderíamos falar da camada de stress a que submetemos os nossos cidadãos, alguns que até pagam as portagens e, mesmo assim, recebem cartas em casa a acusá-los de não pagamento e a exigir somas exorbitantes. Isto é terrorismo fiscal, meus amigos (Je suis Zé Povinho); diminui a produtividade e a moral do povo, e usa recursos públicos num país cujo estado está endividado até ao queixo, já nem se vê o pescoço.

Ainda não satisfeitos, continuamos com a mesma lenga-lenga: enganámo-nos, afinal não devíamos ter construído esta autoestrada aqui, devia ter sido no outro lado, precisamos de mais. Pergunte-se aos demagogos: porque é que os EUA e a Alemanha crescem com uma infraestrutura envelhecida e inadequada e Portugal não cresce com uma infraestrutura muito mais recente?

Destruímos os poucos clusters de competitividade que tínhamos. Sem produção de produtos físicos, de que nos vale infraestrutura? O que acontece, a nível nacional, é que o custo fixo da infraestrutura é dividido por uma quantidade mais pequena de produto, o que aumenta o custo médio de produção para o país.
Investimos fortemente na educação dos jovens, e depois convidámo-los a emigrar. Esta ideia é completamente suicida! É tão suicida que, três anos depois, andamos às aranhas porque a taxa da natalidade foi para as urtigas e os nossos governantes só pensam em promover a natalidade. Para quê? Será que precisamos de mais emigrantes daqui a 20-24 anos? Aliás, repararam que, para 2060, desapareceram mais de um milhão de portugueses entre as projecções de 2009 e 2014?
Efectivamente, se compararmos as projecções médias da população portuguesa no relatório saído em Março de 2009 com as do relatório saído em Março de 2014, concluímos que a população portuguesa em 2060 está projectada para descer de 10 milhões para 8,6 milhões de almas. E note-se que os números foram calculados antes dos nossos governantes mandarem os jovens embora para "resolver os problemas deles e dos outros".

Então e a álgebra onde fica? É que custou, e custa, aos contribuintes portugueses manter estes jovens saudáveis, dar-lhes uma educação, etc., e, agora que eles estão prestes a começar a contribuir para a sociedade, nós ..


De Desgoverno: +'competi.'+fisco+emigr+cris a 20 de Janeiro de 2015 às 10:40
A arte de enfraquecer

"The fault, dear Brutus, is not in our stars
But in ourselves, that we are underlings."
--William Shakespeare, "Julius Caesar"

...
...
... Então e a álgebra onde fica? É que custou, e custa, aos contribuintes portugueses manter estes jovens saudáveis, dar-lhes uma educação, etc., e, agora que eles estão prestes a começar a contribuir para a sociedade, nós internacionalizamos os proveitos, damo-los de mão beijada à Alemanha, aos EUA, ao Reino Unido, etc. É que nem temos a presença de espírito de começar um programa para acompanhar estes jovens fora de Portugal, para que eles continuem a manter ligações com a sua pátria, e quem sabe um dia regressavam e dinamizavam o país. Podiam convidar estas pessoas a investir em dívida pública portuguesa, ou começavam um programa em que os jovens contribuíam uma certa quantia por mês e depois, quando se reformassem, tinham acesso aos serviços de saúde em Portugal (um programa assim poderia ser desenvolvido de forma a que qualquer estrangeiro pudesse participar). Ao perder dois milhões de pessoas em 45 anos, nós vamos ter de reduzir a infraestrutura física e laboral dos serviços de saúde (será que vale a pena construir mais hospitais?) ou encontrar mais pessoas para vir viver para Portugal. Isto tem de começar a ser planeado agora. Os portugueses têm de ser informados das escolhas que o país enfrenta. Não é depois da casa arrombada que se metem as trancas à porta; se bem que até agora, esse tenha sido o modus operandi que nos tem regido.

Há tanta coisa original que poderia ser feita e explorada, para nos dar dinheiro a curto prazo e nos dar tempo para alinhar os incentivos da economia para que sobreviva no longo prazo. Talvez fosse isso o que Agostinho da Silva nos tentava dizer, quando dizia que Portugal tem, em si, o engenho para mostrar ao mundo novas formas de resolver os problemas e de reinventar o mundo. Mas note-se que seria de muito mau tom pedir às pessoas para investir em Portugal quando o país continua a ser sugado pelos mesmos do costume e nem sequer há um enquadramento legal para combater a corrupção. Basta pensar que, no caso dos submarinos, foi provada corrupção na Alemanha e não em Portugal.
É que Shakespeare tinha razão: a culpa não é das estrelas, ela reside em nós.

(-por Rita I Carreira, 20/1/2015, destreza dúvidas)


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