3 comentários:
De Euro, Financeirização, Poder da Banca a 6 de Março de 2014 às 17:49

Ligações de economia política

[livro de : Wolfgang Streeck : « Tempo Comprado - a crise adiada do capitalismo democrático », ed. Actual ]

Streeck é muito claro sobre as razões para a inexistência de uma União Europeia com orçamento redistributivo digno desse nome,
em que as regiões ricas financiariam maciçamente as regiões pobres, aguentando-as à tona.
Com efeito, a Europa não é um Estado e não o será, até porque os povos não o desejam,
o que significa que o federalismo só pode ser furtivo, clientelar e perverso, incapaz de mobilizar lealdades populares.
E, mesmo que os povos o desejassem, seria mais do que duvidoso que as transferências pudessem substituir com o mesmo sucesso a mobilização de instrumentos de política à escala nacional.
Mas, infelizmente, como Streeck sublinha,
nada nos diz que as alianças sociais que sustentam o Euro, e que na periferia incluem elites extrovertidas, as que gostam de moeda forte para viajar e importar bens de consumo mais ou menos conspícuos,
não consigam manter um projeto que se aproxima cada vez mais de uma “operacionalização do modelo social hayekiano [anti-social-democrata]
da ditadura de uma economia de mercado capitalista acima de qualquer correção democrática” (p. 252).

Excerto da minha recensão ao livro de Wolfgang Streeck. Foi publicada no último número da Revista Crítica de Ciências Sociais, dedicado a perspectivas interdisciplinares sobre consumo e crédito.
O Nuno Teles, em coautoria com Ana Cordeiro Santos e Vânia Moreira, publicou aí um artigo sobre economia política do endividamento e do crédito.
Neste contexto, chamo também a atenção para o artigo que Ana Cordeiro Santos e Vânia Moreira publicaram na Análise Social sobre a financeirização em Portugal, analisando aí a forma como
o Banco que não é de Portugal tenta transferir para os consumidores, através de uma conversa sobre a promoção da literacia financeira, um fardo que deve recair sobre o sistema financeiro.
Graças a uma certa economia política, é possível ver que estas coisas - euro, financeirização, endividamento ou poder da banca - estão todas ligadas num tempo em que tudo parece estar à venda.

(-por João Rodrigues , Ladrões de B., 3/3/2014)


De DesGoverno: + endividados e + pobres a 3 de Março de 2014 às 11:53
Almofada da Miss Swaps custa uma pequena fortuna
(Corporações, 27/2/2014)

Estado português tem mais de 12.000 milhões de euros “parados” no BCE

«Que a dívida não se paga, apenas se gere, é uma verdade que devia ser de la palisse.
Dito isto, há boas e más formas de gerir a dívida; e a que o governo escolheu não é má, é péssima.

A "almofada" de liquidez que o governo criou pode parecer um excelente exemplo de prudência financeira,
mas como o dinheiro tem um custo (próximo dos 4% ao ano)
e não rende nada (o BCE, por exemplo, remunera os depósitos à taxa de 0%),
toda esta prudência custa, por ano, uma (não tão) pequena fortuna.
Se olharmos apenas para os 12.000 milhões parqueados no BCE, o custo é aproximadamente de 500 milhões por ano.»

João Galamba, no Facebook


De Almofada prá dívida ou garrote futuro ! a 3 de Março de 2014 às 11:32

Almofada de pedra

(-por V. Soromenho Marques, DN, 27/2/2014)

Como é que designaríamos o comportamento de um cidadão que, incapaz de honrar um crédito pessoal a uma taxa de 3,35%, prestes a atingir a maturidade, contraísse um novo empréstimo a uma taxa de 5,11% para pagar o primeiro ("troca de dívida")?
Sem dúvida, tratar-se-ia de um comportamento pouco recomendável.
E como seria classificado esse comportamento se o cidadão em causa utilizasse parte do novo empréstimo (de 11-02-2014) para antecipar, parcialmente, o pagamento em 19,5 meses do primeiro empréstimo, pagando 102,89 euros por cada 100 euros de dívida ("recompra")?
Seria, certamente, uma atitude temerária, pois aumenta a despesa com juros para apenas empurrar a dívida para o futuro.
Pois é isso que o Governo pretende fazer hoje.
O leitor pode ir ao site eletrónico do IGCP. Abra o boletim mensal de fevereiro sobre "Dívida Pública".
Na p. 2, vê que o Estado vai ter de resolver até 2016 cerca de 39 mil milhões de euros de empréstimos.
Esse imenso obstáculo tem sido o pretexto para a constituição de uma volumosa "almofada" financeira.
Tudo indica que o IGCP quer recomprar, hoje, uma parte de uma série de dívida a dez anos, contraída a partir de outubro de 2005 (ver p. 3).
Se o fizer, às taxas mais recentes no mercado secundário, isso significa que, para o montante que for hoje amortizado, vamos pagar mais 3,53% de juros por ano até outubro de 2015 do que antes das duas operações financeiras supracitadas.
Será isto uma gestão prudente, ditada pelo interesse nacional, ou estará o Tesouro público em risco para alimentar uma ilusão pré-eleitoral de triunfo?
Será esta uma almofada que alivia o País, ou uma pedra amarrada às pernas que o atira para o fundo?
Temos direito a saber a lógica com que se joga o dinheiro sonegado aos salários e às pensões.
Direito a uma explicação, ou a uma beliscadela que nos acorde deste pesadelo.


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