De Viva a Língua portuguesa viva. a 14 de Maio de 2015 às 10:44

Viva língua

(-por Sérgio Lavos, 12/5/2015, http://365forte.blogs.sapo.pt/viva-lingua-352248#comentarios )

Quando Fernando Pessoa escreveu “a minha pátria é a língua portuguesa”,
já tinha havido uma tentativa séria de estabelecer uma norma linguística que visava sobretudo o controlo, pelo estado português, dessa norma.
Depois desta frase, muitas tentativas foram feitas para que essa norma existisse.
Em 1992, foi estabelecido o Acordo Ortográfico para os países de língua portuguesa.
Agora, enquanto escrevo este texto, desrespeito o acordo que entrou em vigor hoje.

Contudo, não desrespeito a língua.
Escrevo em português, e ao escrever produzo uma língua diferente da que falo.
Fernando Pessoa, quando pensou essa frase, que tão bem tem servido os interesses de uma pátria que quase nunca respeita a herança deixada pelos grandes escritores do passado,
não teria com certeza em mente esta irreprimível vontade de regular essa coisa volúvel (e como a palavra se aproxima de volúpia) que é a língua.
A pátria (Língua) de Fernando Pessoa foi o instrumento usado para deixar a sua marca no mundo.
Criar uma nova língua dentro da língua que antes havia.
E se outra prova não houvesse, bastaria o facto de esta, e outras frases, do poeta continuarem a ser repetidas mais de setenta anos depois da sua morte.

Duvido que os belos BASTARDOS da língua portuguesa se interessem minimamente pelo Acordo Ortográfico, com a sua regra e a sua excepção, com as supostas vantagens comerciais desta normalização forçada.
Não precisam, usam a língua portuguesa como pátria, e isso é suficiente.
Mia Couto, Luandino Vieira, Ondjaki, Rubem Fonseca;
tudo o que eles escrevem é prova dura a superar pelos académicos bafientos que querem impor regras gramaticais e ortográficas ao resto do mundo.
José Saramago e seu desengonçado flamenco prova que nada é tão rígido que não possa ser dobrado pelos anos de contacto com outra língua –
ninguém poderá recusar o enriquecimento estilístico que as derivações cervantinas dos últimos romances de Saramago trouxeram.

Escrever abraçando a música de outra língua abre o leque, balança o swing das mãos sobre as teclas.
Há quem ouça música de negros para escrever; talvez eu precise apenas de derrogar por momentos a autoridade do meu português num longínquo gingar brasileiro para que todo meu pensamento se mova e se contorça, perca a palidez da normalidade.

A questão é simples:
queremos uma língua pura ou uma língua mestiça?
A resposta é um pouco mais complexa do que poderia parecer.
O Acordo visa normalizar a mestiçagem da língua. E isso, parece-me bem claro, é um paradoxo.

Nenhuma norma poderá obrigar um português a escrever como um brasileiro ou um angolano, e vice-versa.
A mestiçagem é um fenómeno livre, o cruzamento de influências um fluxo libertário que não deverá ser constrangido.
Ao defender isto, não colocamos em causa a existência de uma gramática.
Ela existe, é verdade, e deverá existir, sobretudo para não ser respeitada.
A tradição literária contemporânea vive desta liberdade.
O uso de coloquialismos, calão, gíria de bandidos, é traço comum em muitos autores brasileiros actuais e começa a ser também em alguma literatura portuguesa.
A invenção passa por aqui; e mesmo que continuemos a admirar o divino português do Padre António Vieira, as duas coisas não são incompatíveis:
basta pensar nos diálogos nos filmes de João César Monteiro para se perceber isto.

A única posição esteticamente correcta nesta questão é esta:
promover uma gramática comum a todos os países de língua portuguesa,
na esperança de que esta seja continuamente desrespeitada por quem escreve e fala, contribuindo deste modo para que a língua portuguesa seja uma coisa viva, em permanente evolução, como qualquer língua deverá ser.

Se esta posição for a que vingar, não se duvide de que será o único modo de
combater o predomínio da língua inglesa no actual mundo globalizado.


(No dia em que oficialmente entra em vigor o Acordo Ortográfico deixo aqui um texto publicado há uns anos no Arrastão que continua a descrever bem o que penso sobre o tema.)


De Indesejável Acordo Ortográfico 1990. a 14 de Maio de 2015 às 15:20
...
Relembro a posição de Feijó sobre o dito cujo e, dela, esta significativa passagem.
«Não há qualquer acordo ortográfico entre países de língua inglesa, nem poderá havê-lo.
A língua inglesa nem mesmo é língua oficial dos Estados Unidos, sendo as tentativas de legislá-la como tal sistematicamente recusadas pelo Congresso.
A inexistência de uma língua oficial implica que, em qualquer comunidade em que haja uma significativa comunidade de falantes de um idioma que não o inglês, os documentos oficiais devam escrever-se nesse idioma, bem como em inglês, enquanto idioma mais falado no país.
O critério é aqui pragmático e político, o do necessário reconhecimento democrático de uma realidade local.
Arrogar-se o Estado legislar sobre intangíveis como a língua, que na realidade o excedem, seria uma extensão abusiva das suas funções.
Numa altura em que, em Portugal, se procura definir com parcimónia quais as funções do Estado,
a sua extensão a um domínio como a língua é uma forma de cesarismo indesejável.»
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Desobedecer ao "acordês"

[ "If a law is UNJUST, a man is not only right to DISOBEY it, he is obligated to do so." - Thomas Jefferson, USA ]

Basta atentar em títulos de jornais, capas de livros, rodapés das televisões, no "Diário da República", em documentos e "sítios" oficiais, oficiosos e "institucionais" para se ter
uma dolorosa ideia do desastre a que conduziram as "facultatividades", as "cláusulas de excepção" e as duplas grafias do "acordo".
Os alunos, cuja dificuldade com o Português é conhecida e tragicamente demonstrável,
ficaram reféns de uma "novilíngua" imposta pelos manuais escolares pelo que corremos o risco de à "mais bem preparada geração"
seguir-se "a mais iletrada e analfabeta".
Os miúdos não sabem como escrever o que os afastará do gosto de ler.
Penalizá-los nos exames por não seguirem o "acordês" não reforça a disciplina mental indispensável à aprendizagem.
Apenas confunde e atemoriza.
Porque passa a ser considerado "erro ortográfico" escrever em português e não em "acordês",
esse aleijão a meio de lugar nenhum que Crato resolveu apascentar.
Por outro lado, insistir no argumentário vulgar da "lusofonia" para defender o "acordo" releva da má-fé política e da ignorância histórica.
Como sugeria Vasco Pulido Valente pouco tempo após o Governo do doutor Cavaco Silva, por interposto secretário de Estado Pedro Santana Lopes, ter subscrito o dito "acordo",
"nada em princípio impede Lisboa de se tornar o centro do estudo do português:
não só do português de Portugal, mas do português do Brasil e do português de África".
E acrescentava:
"Convém talvez lembrar que até ao século XVIII não havia outro senão o nosso e que mesmo a literatura brasileira permaneceu até muito tarde tributária dele.
O que impede, na prática, que isso aconteça é a política pacóvia de "afirmação cultural"",
agora, da patética "lusofonia" que, paradoxalmente, exibirá, findo em 2016 o período de transição brasileira, três tristes normas ortográficas.
Legislar sobre uma língua, na afirmação de Miguel Tamen, é uma tontice e outra maior ainda é "imaginar que leis sobre a língua possam ter efeitos".
Um, todavia, com certeza terá.
O da desobediência.

Jornal de Notícias


De 'Acordês' e Urrar em vez de Falar. a 22 de Maio de 2015 às 10:25
Urrar em vez de falar

«A vitalidade do nosso português está nos seus grandes escritores,
Miranda, Camões, Bernardes, Vieira, Herculano, Camilo, Eça, todos conhecedores do seu Virgílio, do seu Horácio, do seu Ovídio, mesmo do seu escolar Tácito, César ou Salústio.
Todos lidos, estimados e estudados no Brasil, que por eles faz muito mais do que nós alguma vez fizemos, por exemplo, com Machado de Assis.
E é também por isso, que a maioria dos escritores portugueses contemporâneos recusa o AO, como quase toda a gente que está na escrita e vive pela escrita e é independente da burocracia do estado.

Todos sabem que o português permite todas as rupturas criativas, dos simbolistas ao Sena dos Sonetos a Afrodite Anadiómena – “E, quando prolifarem as sangrárias,/ lambidonai tutílicos anárias,/ tão placitantos como o pedipeste”, – ao “U Omãi Qe Dava Pulus” de Nuno Bragança.

Criativamente a nossa língua vernácula suporta e bem tudo, menos que seja institucionalizada com uma ortografia pobre e alheia à sua história.
O futuro do português como língua já está há muito fora do nosso alcance, mas o português que se fala e escreve em Portugal, desse ainda podemos cuidar.
É que é em Portugal que o português está em risco, está na defensiva, e o AO é mais uma machadada nessa defesa de último baluarte.
É em Portugal que um Big Brother invisível, que se chama sistema educativo, retira todos os anos centenas de palavras do português falado, afastando das escolas os nossos escritores do passado e substituindo-os por textos jornalísticos.
É em Portugal que uma linguagem cada vez mais estereotipada domina os media, com a substituição dos argumentos pelos soundbites, matando qualquer forma mais racional e menos sensacional de conversação.
É em Portugal que formas guturais de escrita, nos SMS e nos 140 caracteres do Twitter, enviados às centenas todos os dias por tudo que é adolescente, ou seja também por muitos adultos, se associa à capacidade de escrever um texto, seja uma mera reclamação a uma descrição de viagem.

É neste Portugal que, em vez de se puxar para cima, em nome da cultura e da sua complexidade, em nome da língua e da sua criatividade, em nome da conversação entre nós todos que é a democracia,
se puxa para baixo não porque os povos o desejem, mas porque há umas elites que acham que a única pedagogia que existe é a facilidade.
E é neste Portugal que uma geração de apátridas da língua, todos muito destros em declamar que a “a nossa pátria é a língua portuguesa”, minimizam a nossa identidade e a nossa liberdade,
que vem dessa coisa fundamental que é falar e escrever com a fluidez sonora do português, mas também com a complexidade da sua construção ortográfica.
É como se estivéssemos condenados a escrever como se urrássemos em vez de falar.»

José Pacheco Pereira, Público

Adenda:
Miguel Sousa Tavares, um autor que recusa o "acordo ortográfico", sugere na sua crónica no Expresso que, por exemplo, um candidato presidencial que é "senhor professor doutor" (e autor de uma enternecedora tese intitulada Le temps des professeurs),
em vez de se preocupar em ser um "transportador de desassossego", deveria antes perorar contra isto.
Impossível, meu caro Miguel.
O "senhor professor doutor" apresenta-se, em letra de forma, em "acordês".
Já Henrique Neto, sem ser "professor doutor" ou dar manchetes, tem uma posição clara sobre o "acordo". Vá lá ver.

(-JG, 16/5/2015, http://portugaldospequeninos.blogs.sapo.pt/ )


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