Desastroso "ajustamento" económico e venda de ilusões de futuro.

 

      O  fracasso  e  as  ilusões  do  grandioso  ajustamento    (N.Serra, 17/1/2014, Ladrões de B.)
   A operação de propaganda em curso, à escala nacional e internacional, assente num suposto «milagre económico português» e nos bons auspícios que o «programa cautelar» reserva para o nosso país, tem em vista difundir três mensagens essenciais. Desde logo, que a estratégia de ajustamento resultou e, nessa medida, que os sacrifícios acabaram por ser relativamente suportáveis, sugerindo-se que os seus impactos são razoavelmente fáceis de reverter (apesar da proclamação, recorrente, de que o país continua a não ter uma vida fácil pela frente).  Por último, a noção de que o «programa cautelar» que vier a ser assinado com as instituições europeias é afinal uma espécie de prémio pelo «êxito» do ajustamento e representa, nesses termos, uma ruptura com o modelo de austeridade imposto pela Troika (ao ponto de se falar na reconquista da soberania do país no próximo dia 17 de Maio).
       O Ricardo Paes Mamede desmontou recentemente (aqui, aqui e aqui), alguns dos principais embustes que sustentam esta operação de camuflagem da realidade e que continuará a fazer o seu caminho nos próximos meses, a bem da agenda ideológica da «grande transformação estrutural» e dos resultados que a direita possa vir a ambicionar nas próximas eleições europeias, com a generosa ajuda da fragmentação à esquerda (que parece confirmar-se, apesar dos esforços desenvolvidos, em sentido contrário, pelo Manifesto 3D).  E o Nuno Teles e o João Rodrigues também já se referiram neste blogue (por exemplo aqui e aqui) ao facto de a assinatura de um «programa cautelar» não significar mais do que uma espécie de continuação da austeridade por outros meios, sejam quais forem os contornos específicos que esse programa venha a assumir.
     A devastação causada pela aplicação, «além da Troika», do Memorando de Entendimento, fica contudo reflectida no incumprimento, em toda a linha, das metas inicialmente estabelecidas (gráfico em cima).  De facto, era suposto que o país, entre 2011 e 2013, tivesse aumentado em apenas 2,3 pontos percentuais a taxa de desemprego: mas na verdade esse aumento foi de 4,6 pontos percentuais (isto é, o dobro).   Do mesmo modo, a dívida pública (em percentagem do PIB) deveria supostamente ter aumentado em «apenas» 22 pontos percentuais: na verdade, esse aumento foi de 38 pontos percentuais (isto é, quase o dobro do previsto).     Relativamente ao PIB, a estimativa inicial apontava para que, em 2013, o país já estivesse a crescer, cerca de 0,1% abaixo do valor registado em 2011 (1,3%):  mas, na verdade, não só o Memorando não pôs a economia portuguesa a crescer como esta atingiu um nível de contracção na ordem dos -2,1%.   E mesmo uma das principais bandeiras do proclamado «sucesso do ajustamento», a redução do défice (6% em 2013), ficou muito aquém das previsões iniciais (os milagrosos 3%).  Não sobra margem para dúvida:  a austeridade em dobro produz impactos negativos redobrados e resultados «positivos» apenas pela metade.
     A amplitude dos desvios face aos objectivos fixados demonstra pois o fracasso da estratégia de ajustamento e consolidação orçamental seguida pelo governo e pela Troika.   (O fracasso da estratégia é a desumanidade, o sofrimento e a morte que esta implica.)  E não só os seus impactos, na economia e na sociedade, não se inverteriam nunca com a mesma celeridade com que foram causados, como a sua putativa reversibilidade esbarra nas condições com que o país objectivamente se confronta:  os factores estruturais que conduziram à crise mantém-se intocados (da continuidade da submissão da economia que trabalha aos apetites do sistema bancário e financeiro até à manutenção de uma zona monetária disfuncional, passando pelo agravamento das fragilidades estruturais da economia portuguesa), como se lhes somam novas circunstâncias desfavoráveis, como as que decorrem das imposições de um Tratado Orçamental que inviabiliza quaisquer perspectivas de investimento público, de recuperação da economia e de criação de emprego. Para se perpetuar o desastre, vendem-se novas ilusões.
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            Ainda a propósito do milagre económico a que estamos a assistir  (R.P.Mamede)

A minha entrevista a Paulo Magalhães no programa 'Política Mesmo', da TVI24, na passada 4ª feira (a partir do minuto 37). Clicar aqui.



Publicado por Xa2 às 07:48 de 17.01.14 | link do post | comentar |

5 comentários:
De o dia em que acabou a crise. perd.30anos a 19 de Janeiro de 2014 às 13:29

Convido-vos a tomarem consciência da assustadora realidade, convido-vos a pensarem se este futuro que está à porta é o futuro que querem para vocês, para os vossos filhos, para os vossos netos.

Concha Caballero é licenciada em filosofia e letras, é professora de línguas e literatura. Entre 1993 e 2008 ocupou um lugar no parlamento da Andaluzia. Deputada autonómica entre 1994 e 2008 foi uma das deputadas chave na aprovação da Reforma do Estatuto Autonómico da Andaluzia a que imprimiu um caracter mais social e humano do que, no princípio, os grupos maioritários do parlamento pretendiam.

Actualmente colabora em diferentes meios de comunicação. Escreve sobre actualidade politica. Em 2009 publicou o livro “Sevilha cidade das palavras”.
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“O dia em que acabou a crise!

Quando terminar a recessão teremos perdido 30 anos de direitos e salários…

Um dia no ano 2014 vamos acordar e vão anunciar-nos que a crise terminou. Correrão rios de tinta escrita com as nossas dores, celebrarão o fim do pesadelo, vão fazer-nos crer que o perigo passou embora nos advirtam que continua a haver sintomas de debilidade e que é necessário ser muito prudente para evitar recaídas. Conseguirão que respiremos aliviados, que celebremos o acontecimento, que dispamos a atitude critica contra os poderes e prometerão que, pouco a pouco, a tranquilidade voltará às nossas vidas.

Um dia no ano 2014, a crise terminará oficialmente e ficaremos com cara de tolos agradecidos, darão por boas as politicas de ajuste e voltarão a dar corda ao carrocel da economia. Obviamente a crise ecológica, a crise da distribuição desigual, a crise da impossibilidade de crescimento infinito permanecerá intacta mas essa ameaça nunca foi publicada nem difundida e os que de verdade dominam o mundo terão posto um ponto final a esta crise fraudulenta (metade realidade, metade ficção), cuja origem é difícil de decifrar mas cujos objectivos foram claros e contundentes:

Fazer-nos retroceder 30 anos em direitos e em salários

Um dia no ano 2014, quando os salários tiverem descido a níveis terceiro-mundistas; quando o trabalho for tão barato que deixe de ser o factor determinante do produto; quando tiverem ajoelhado todas as profissões para que os seus saberes caibam numa folha de pagamento miserável; quando tiverem amestrado a juventude na arte de trabalhar quase de graça; quando dispuserem de uma reserva de uns milhões de pessoas desempregadas dispostas a ser polivalentes, descartáveis e maleáveis para fugir ao inferno do desespero, ENTÃO A CRISE TERÁ TERMINADO.

Um dia do ano 2014, quando os alunos chegarem às aulas e se tenha conseguido expulsar do sistema educativo 30% dos estudantes sem deixar rastro visível da façanha; quando a saúde se compre e não se ofereça; quando o estado da nossa saúde se pareça com o da nossa conta bancária; quando nos cobrarem por cada serviço, por cada direito, por cada benefício; quando as pensões forem tardias e raquíticas; quando nos convençam que necessitamos de seguros privados para garantir as nossas vidas, ENTÃO TERÁ ACABADO A CRISE.

Um dia do ano 2014, quando tiverem conseguido nivelar por baixo todos e toda a estrutura social (excepto a cúpula posta cuidadosamente a salvo em cada sector), pisemos os charcos da escassez ou sintamos o respirar do medo nas nossas costas; quando nos tivermos cansado de nos confrontarmos uns aos outros e se tenham destruído todas as pontes de solidariedade. ENTÃO ANUNCIARÃO QUE A CRISE TERMINOU.

Nunca em tão pouco tempo se conseguiu tanto. Somente cinco anos bastaram para reduzir a cinzas direitos que demoraram séculos a ser conquistados e a estenderem-se. Uma devastação tão brutal da paisagem social só se tinha conseguido na Europa através da guerra.

Ainda que, pensando bem, também neste caso foi o inimigo que ditou as regras, a duração dos combates, a estratégia a seguir e as condições do armistício.

Por isso, não só me preocupa quando sairemos da crise, mas como sairemos dela. O seu grande triunfo será não só fazer-nos mais pobres e desiguais, mas também mais cobardes e resignados já que sem estes últimos ingredientes o terreno que tão facilmente ganharam entraria novamente em disputa.

Neste momento puseram o relógio da história a andar para trás e ganharam 30 anos para os seus interesses...


De Crise: Perdemos 30 anos... mas eles ganh a 19 de Janeiro de 2014 às 13:32

" No dia em que acabou a crise !"
...
...

Neste momento puseram o relógio da história a andar para trás e ganharam 30 anos para os seus interesses. Agora faltam os últimos retoques ao novo marco social: um pouco mais de privatizações por aqui, um pouco menos de gasto público por ali e “voila”: A sua obra estará concluída.

Quando o calendário marque um qualquer dia do ano 2014, mas as nossas vidas tiverem retrocedido até finais dos anos setenta, decretarão o fim da crise e escutaremos na rádio as condições da nossa rendição.”

Concha Caballero


É nossa responsabilidade contrariarmos este caminho, é nosso dever transformar as palavras de Concha em ficção e não permitir que destruam ainda mais o nosso futuro e o dos nossos.


De Lavar imagem de DesGoverno SUJO e crimin a 20 de Janeiro de 2014 às 17:46
Saída limpa ou saída suja?
(OJumento, 20/1/2014)

O governo tem vindo a sugerir uma saída limpa do programa de ajustamento, fazendo passar a ideia de que mais uma vez Portugal é um caso de sucesso internacional.
Se não fosse Cavaco até se dispensaria qualquer amparo de um programa cautelar, algo que Passos se apressou a aproveitar para fazer chantagem sobre o seu amigo Seguro.
Há poucas semanas o resgate era evidente, agora estamos quase a escolher a título de favor os investidores que podem comprar a nossa dívida soberana.

É evidente que Portugal vai sair do programa onde não deveria ter entrado,
é verdade que para os alemães o país que lhes serviu para fazerem experiências só pode ser um caso de sucesso,
é mais do que evidente que para um Durão Barroso à beira do desemprego interessa fazer passar a imagem de quem ajudou o seu país,
é evidente que o FMI vai querer defender que a sua receita deu resultado.
Os mesmos que tudo fizeram para transformar Portugal num campo de testes vão querer agora passar a imagem de que tudo correu bem.

A verdade é que nada correu bem,
as políticas falharam, a reforma do Estado ficou por fazer,
o corte da despesas assentou em medidas temporárias e inconstitucionais,
a nova legislação laboral não atraiu um único investidor,
no lugar do muito de bom que foi destruído nada se construiu.

Portugal está pior, muito pior do que estava,
perdeu centenas de milhares de empregos,
destruiu dezenas de milhares de pequenas empresas que estruturavam o tecido social,
empobreceu os trabalhadores,
expulsou os jovens qualificados,
reduziu a zero a formação profissional,
decretou que qualquer aposta na ciência ou na inovação vai contra os superiores interesses da nação.
O país regrediu.

A saída limpa de que agora se fala não passa de uma saída suja que visa ilibar as RESPONSABILIDADES CRIMINOSAS dos que destruíram empresas, empobreceram os portugueses, expulsaram os jovens, fizeram o país recuar mais de uma década.
O governo que apostar em ser mais troikista do que a troika não tem a distância em relação à troika que tem o governo irlandês e muito menos a dignidade do governo grego,
o governo português não passou de um pau mandado de estrangeiros falhados que agora querem sair ilibados.

Passos Coelho quer escapar-se das suas responsabilidades,
Cavaco Silva quer sair ileso depois de ter sido o arquitecto de tudo o que se passo, um
Durão Barroso quer que o país lhe fique agradecido pela merda que fez e ainda lhe dê o Palácio de Belém para viver confortavelmente até poder gozar das várias pensões a que tem direito, a
senhora Lagarde quer continuar à frente do FMI,
os bardamerdas que representaram a troika em Portugal quererão uma pormoçãozeca,
o BCE quer manter a zona euro tal como estava e
a senhora Merkel agradece poder continuar a enriquecer a Alemanha à custa da Europa.

É esta a saída de Portugal, uma saída suja em que se
tenta esconder ao povo português que foi vítima de golpes sujos,
de muita incompetência, do favorecimento de interesses estrangeiros, e de portugueses sem grandes escrúpulos.
Uma saída suja que visa iludir a responsabilidades pela destruição da economia, pelo desemprego, pela fome,
pela emigração e mesmo pela morte dos que se suicidara ou que foram impossibilitados de tratarem dos seus problemas de saúde.
É uma saída suja porque se traem os interesses de Portugal para encobrir as responsabilidades criminosas dos que conduziram o país ao desastre.


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