8 comentários:
De Jornalismo, socialismo, capitalismo .Fr. a 2 de Julho de 2014 às 15:20
Jornalismo, socialismo, capitalismo [França]

(01/07/2014 por Sarah Adamopoulos ,http://aventar.eu/2014/07/01/jornalismo-socialismo-capitalismo-franca/#more-1217222 )


O jornal francês Libération também procura o modelo de negócio do jornalismo do futuro, se possível sem ter de abrir um restaurante ao lado da redacção. Entretanto, o director nomeado pelos novos ACCIONISTAS (mas os ASSALARIADOS poderão recusá-lo com mais de 66% de votos contra) aposta tudo no DIGITAL, na redução de jornalistas e em mais trabalho para os que ficam.
«Para combater o LIBERALISMO», afirmou ontem perante a redacção inteira reunida e «fazer do Libération o jornal de todas as esquerdas» (à imagem do que François Hollande também dizia, na campanha eleitoral para a presidência que ganhou, e a que aliás o Libération prestou vergonhosa vassalagem).
Sente-se a DESCONFIANÇA dos jornalistas no olhar da maioria, cheira-se o MEDO:
o medo de ir parar ao MATADOURO de fazer DESEMPREGADOS, em muitos casos para o resto da vida.

E nada de tudo o mais que disse Laurent Joffrin (para quem esta nomeação poderá constituir um regresso ao jornal onde se fez jornalista e cuja redacção já dirigiu) parece minimamente relevante, apesar de sê-lo:
o combate pela recuperação da credibilidade do jornalismo, numa sociedade que, tal como a nossa, o vê com os maus olhos de quem o sabe MINADO por toda a sorte de COMPROMISSOS anti-jornalísticos:
com os poderes políticos e financeiros,
com os interesses de classes particulares,
com a mediocridade que incessantemente vemos espelhada num jornalismo preguiçoso
e indigno de sociedades supostamente civilizadas e democráticas.
E não parece relevante porque objectivamente não o é para Laurent Joffrin, uma pessoa que diz coisas apenas para dizê-las, porque ficam bem, num discurso sem qualquer eloquência e que não seria jamais capaz de improvisar em razão do VAZIO de ideias que o define.

Joffrin, cata-vento sempre útil para os que em França prosseguem utilizando o jornalismo como plataforma de lançamento e entreposto para tudo e mais alguma coisa alheia ao próprio jornalismo,
não passa de um lamentável elo numa cadeia que liga os investidores (como é de novo o caso dos accionistas do jornal a que se abalança agora a voltar) à classe política que os serve.
Entrevistado para um documentário feito por jornalistas independentes quando dirigia ainda a redacção do Nouvel Observateur, declarou com descontraída certeza que os valores de esquerda não são incompatíveis com a economia de mercado tal como a conhecemos:
desregulada por omissão política e responsável pela desigualdade extrema que actualmente atinge os povos europeus.

É assim natural que o eventual regresso de Joffrin não colha entusiastas entre os jornalistas da redacção do Libération, nem anuncie nada que não conheçam já. É tudo velho e decadente, como os valores que movem Joffrin pelos caminhos enviesados do jornalismo que agora o trazem de volta ao falido Libé – ou ex-falido, já que parte substancial das dívidas foram já sanadas mediante a utilização de uma parte do novo capital accionista, estimado em 18 milhões de euros (resgate com origem, entre outros, num grande operador de telemóveis).

E no entanto, se Joffrin representasse interesses consequentes no que ao jornalismo e aos «segmentos das esquerdas» diz respeito, bastaria colher ensinamentos no projecto Mediapart**, que está ao que sei a ser bem sucedido em termos do modelo de negócio, assente num jornalismo de investigação e de leitura crítica da sociedade regido por princípios éticos à prova de promiscuidades torpes, e numa informação online de qualidade, paga por leitores que anteriormente compravam jornais (e que de vez em quando não se importam de comprar as edições especiais editadas em papel e distribuídas nas bancas francesas).
---** http://www.mediapart.fr/ :
Nicolas Sarkozy a été mis en examen dans la nuit de mardi à mercredi pour « corruption active », « trafic d'influence » et « recel de violation du secret professionnel ». L'ex-président est au cœur d'une information judiciaire ouverte depuis février. Deux hauts magistrats, Gilbert Azibert et Patrick Sassoust, ainsi que l'avocat et ami de l'ancien chef de l'État, Thierry Herzog, ont eux aussi été placés en garde


De Sentir Desemprego e ... 24/6/2014 a 24 de Junho de 2014 às 15:39
nós temos tudo.

nós não temos muito dinheiro: não vamos a restaurantes, compramos marca branca, roupa na primark. não temos iphones, nem plasmas, nem bimby. nunca comemos bifes do lombo. temos um carro que às vezes não pega. nas férias vamos às praias da caparica. vendemos o que já não precisamos para ganhar algum. tentámos emigrar para não estarmos sempre a contar tostões. nunca conseguimos poupar: nunca sobra nada. houve meses piores: em que um pacote de fraldas fazia diferença nas contas. em que adiávamos as contas da luz para o mês seguinte. mas as coisas vão correndo bem, vão andando: e às vezes compramos frango assado para o jantar. um brinquedo novo para eles. entradas no oceanário. caracóis e gelados na esplanada. o nosso frigorífico tem sempre comida. eu faço um bolo todas as semanas. vivemos bem: não sinto falta de nada.
em abril ele foi despedido.
chegou a casa: abraçou-me. pediu desculpa.
disse-me: fui despedido. disse-lhe que ia correr tudo bem, que iamos arranjar trabalho: ele, eu. eu ia servir às mesas outra vez. a maria e o miguel dormiam a sesta na nossa cama. conseguiamos vê-los: um sono já leve. vi na cara dele o medo de não ter o que lhes dar: um brinquedo novo. gelados na esplanada. uma bolacha. um medicamento. uma sopa. encostado à parede ele chorou enquanto eu lhe limpava as lágrimas.

ele começou a trabalhar este mês.
foram semanas difíceis: ele a adaptar-se a estar sempre em casa connosco. eu e eles a adaptarmo-nos a estar sempre em casa com ele. às vezes mais nervosos porque os dias passavam. às vezes mais deprimidos porque os dias passavam. às vezes com medo porque os dias não paravam de passar. é mais difícil do que se pensa: lidar com isto foi difícil. mas passou: ele começou a trabalhar. correu tudo bem. tivemos sorte. eles não sentiram falta de nada.

estava a pensar em todas estas coisas quando vi um apelo: uma família em dificuldades. o pai desempregado, a mãe, um filho, uma menina como a maria. pediam alimentos. pensei que podiamos ajudar. não acredito em deus: naquele momento apeteceu-me agradecer-lhe este novo trabalho. expliquei à maria o que íamos fazer: iamos comprar comida para uma menina como ela. e ela ajudou-me a colocar as coisas no cesto enquanto dizia: massa para a menina. arroz para a menina. leite para a menina. cereais para a menina. disse-lhe que se ela quisesse também podia dar um brinquedo dela à menina. quando chegámos a casa ela correu para o quarto para o escolher.
sozinha na cozinha passei os alimentos para um saco grande: a massa, o leite, o feijão, o arroz. lembrei-me que não tinha arroz agulha na minha despensa: tinha carolino, arroz de risotto, basmati, integral. não tinha agulha. guardei um dos 4 pacotes na minha despensa. a maria apareceu à minha frente com a carolina na mão: queria dá-la à menina. perguntei-lhe se tinha a certeza. se não ia sentir falta dela: era a única boneca que ela tinha com cabelo. ela pediu durante meses um bebé com cabelo. ela disse que tinha a certeza: queria dá-la à menina: meteu-a no saco.
fui espreitar o miguel: dormia aconchegado, enrolado nos meus lençóis que cheiravam a amaciador. estava a ficar melhor da gastroenterite: dei-lhe tudo o que ele precisava nesses dias: medicamentos para as cólicas, peito de frango cozido, papa de arroz, bananas e puré de maçã, torradas com compota. não lhe faltou nada. beijei-o na testa: deixei-o dormir.
fiz uma chávena de café, cortei uma fatia do bolo que fiz naquela semana e sentei-me no sofá de 4 lugares a ver um dos 74 canais que nunca vejo. quando olhei para o lado vi a maria: estava a brincar com a carolina. perguntei-lhe se já não a queria dar. ela respondeu-me que sim, que a queria dar. estava a brincar com ela porque "às vezes vou ter saudades dela e ela vai ter saudades minhas". eu não respondi: sorri: olhei para a televisão.
à minha frente sempre: a maria. para lá e para cá. parou: com as mãos nos meus joelhos disse-me "sabes mãe, a carolina é a única que tem cabelo, mas este bebé tem dentes, este tem chapéu, este tem uma banheira e este fala.": atrás dela alinhados no chão: 4 bonecos. ela tinha um sorriso no rosto enquanto apontava para eles. "vês?"-perguntou. vi. vi: carolino, risotto, basmati, integral.
levantei-me envergonhada. eu não sou uma pessoa egoísta, ...


De confede amestrada e capturad neoliberal a 24 de Junho de 2014 às 11:46
O Verdadeiro Artista (é da amestrada UGT )
(-por josé simões, 22/6/2014)


«O secretário-geral da UGT, Carlos Silva, defendeu hoje que a posição de diálogo que tem assumido é mais bem-sucedida do que a luta na rua […]

[…] frisou que a central sindical que dirige "sempre fez da negociação, do diálogo social e da concertação uma forma de estar e de lutar".

Carlos Silva insistiu que a forma que a UGT tem "promovido para resolver o problema das pessoas tem mais sucesso e tem-se provado".»

Numa coisa o líder da UGT, Carlos Silva, tem razão: cedências atrás de cedências traduzidas em diminuições do salário real e do tempo de descanso, aumentos das mais-valias para os patrões e accionistas sem retorno para a economia real, perdas de direitos e garantias dos trabalhadores sempre em favor da rigidez patronal, é um sucesso… para os patrões.

Até à data o papel da UGT tem sido o de passar uma imagem de credibilidade e seriedade a decisões tomadas em sede de concertação social e de onde saem como se de negociações se tratassem, evitando com isso às organizações patronais a 'maçadoria' de negociarem entre si e entre si e o Governo.


De ... já aí vem outro despedimento colecti a 18 de Junho de 2014 às 12:57
160 dramas pessoais e um desastre colectivo
(o pais do burro, 13/6/2014)
...
... não faço ideia qual terá sido o critério de escolha dos que ficaram e dos que saíram, se é que houve outro que não o dos proveitos e custos.
Se houvesse justiça neste mundo, os dispensados seriam exclusivamente aqueles que sempre colaboraram com o poder na guerra de percepções que vai resultando na imposição das regras do jogo atrás enunciadas
e, nesse caso, a democracia sairia a ganhar com a limpeza na classe daqueles que asseguram o seu pilar informação.
Se o episódio servisse para evitar sequelas futuras, os jornalistas deixariam de comportar-se como quase todas as outras classes profissionais, cada um por si,
e a ética profissional, os deveres deontológicos e o espírito de classe encarregar-se-iam de expulsar a concorrência desleal dos maus profissionais pagos a um prato de lentilhas
que vão substituindo os bons, e há muitos, que são postos na prateleira e, dessa forma, também de devolver aos clientes finais do seu trabalho aquele prazer antigo de comprar jornais e revistas.

Infelizmente, nem o mundo é justo, nem a generalidade dos jornalistas se diferencia assim tanto dos restantes compatriotas que não dispõem do seu poder de influenciar as percepções dos outros.

Foram despedidos mais 160 portugueses. 160 dramas pessoais e um desastre colectivo.

O desemprego já está a trabalhar para surpreender os 160 seguintes.


De Sobrevivência... líderes darwin.neolib a 16 de Junho de 2014 às 09:09

Sobrevivência
(dos trabalhadores e pessoas ... face aos "líderes" e darwinistas sociais... neoliberais)

(ACSantos, 13/6/2014, http://diario-metafisico.blogspot.pt/ )

O darwinismo social está mais vivo do que nunca. Ou és o melhor ou morres. Sendo que o conceito de "o melhor" é altamente subjectivo.
Podes ser o melhor a engraxar o chefe e assim serás verdadeiramente "o melhor".
Se fores o melhor a trabalhar e incomodares o chefe, serás "o pior" - o verme a extinguir, o cancro que prejudica a evolução dos melhores.

Os melhores são os mais capazes. E, nestes novos tempos de darwinismo social, os melhores sobrevivem sempre. Saem sempre bem. Por cima. Em cima dos outros.

Os darwinistas sociais estão a liderar as organizações. Mas nunca ouviram sequer falar em Darwin. Ou terão ouvido vagamente.
Porque nunca o estudaram, nem percebem o alcance. Porque nunca leram história, nem história social, nem sociologia, nem história económica, nem política social, nem políticas públicas, nem antropologia cultural, nem filosofia, nem psicologia social, nem sociologia urbana, nem demografia, nem ecologia, nem história das ideias políticas, nem direito, nem direito constitucional, nem direitos humanos, nem quaisquer outras ciências sociais.
Porque isso não é ensinado nos MBA's (os que os têm, os que os compraram).

Os darwinistas sociais que estão a liderar as organizações e a sociedade não têm a noção de que a luta pela sobrevivência individualista vai matar a própria sociedade.
Não sabem porque não páram para pensar no que estão a fazer.
Não sabem que por detrás da competição individualista estão tiques de autoritarismo e de deriva anti-social,
que podem culminar numa luta extrema pela sobrevivência. No limite, há-de matá-los também.

Os darwinistas sociais não querem pensar nas consequências dos seus actos.
Pensar fá-los perder tempo.
Não querem perder tempo no que pode estar para vir.
Porque acham que os fracos nunca vão ter força para os derrubar.
Os fracos, mesmo muitos, não constituem ameaça.
Porque dos fracos, pensam eles, não reza a história.
Mas os fracos são cada vez mais.
E eles não sabem disso, porque não páram para pensar.

Os darwinistas sociais fazem o seu trabalho. Limpinho.
O das saídas limpas ou o das negociações sujas.
O que interessa é fazer o que tem que ser feito.
Com dor, reconhecem falsamente combalidos, mas é o que tem que ser feito.
Não se incomodam com os que ficam pelo caminho.
Mesmo sendo pessoas.
Porque os que ficam pelo caminho são os fracos.

A sociedade não quer saber dos fracos.
Os darwinistas sociais estão de consciência tranquila.
Fizeram o que tinha de ser feito. Fazem o que tem de ser feito.
Se a natureza não elimina os fracos por si só, nós os fortes fazemos o que tem de ser feito.
Seus fracos, orientem-se. Façam-se à vida. Morram. Longe.


De Valores e indignação anti-neoliberal a 12 de Junho de 2014 às 15:07
Prémio Fé e Liberdade para Soares dos Santos gera indignação
(-por Lusa, 11/6/2014)

Frei Bento Domingues, o catedrático José Mattoso e o musicólogo Rui Vieira Nery são algumas das mais de 30 pessoas que manifestaram "indignação" pela atribuição do prémio "Fé e Liberdade" a Alexandre Soares dos Santos, ex-presidente do grupo Jerónimo Martins.

Em documento enviado à reitoria da Universidade Católica Portuguesa (UCP), os subscritores referem que foi com "grande perplexidade, tristeza e indignação" que tiveram conhecimento de que o Instituto de Estudos Políticos da UCP deliberou atribuir o prémio "Fé e Liberdade" a Elíseo Alexandre Soares dos Santos, designado "um dos homens mais ricos de Portugal".

Enfatizam que esta denúncia não é movida por "qualquer ressentimento contra a pessoa" em causa, mas pelo "dever" de, em consciência, tornar audível a voz dos cristãos que não querem - não podem - silenciar" a sua indignação.

"Um prémio tem um valor simbólico e testemunhal, pelo que, nas presentes circunstâncias, ocorre perguntar: O que é que se pretende enaltecer? Que valores merecem apreço explícito por parte da UCP? Quais os conceitos de fé e de liberdade que estão implícitos nesta atribuição?", questionam os subscritores, entre os quais constam os jornalistas Jorge Wemans e António Marujo e a professora universitária Isabel Allegro de Magalhães.

A carta de protesto lança ainda uma série de dúvidas sobre o que se pretende distinguir na personalidade de Alexandre Soares dos Santos.

Uma colossal fortuna pessoal? Uma forma de enriquecimento baseada nos ganhos do capital e sua acumulação? Práticas de exploração do trabalho humano (baixos salários, horários excessivos, precariedade nas relações laborais)? Expedientes fiscais para fugir aos impostos?.Um modelo de economia que permite o desemprego massivo, a grande concentração do património individual e correspondente poder político, com risco para a democracia e para a coesão social?, lê-se no documento a que a agência Lusa teve acesso.

Notando que a decisão vai também contra aquilo que tem sido o ensinamento e os apelos mais recentes do papa Francisco, os subscritores gostariam de ver a UCP empenhada na denúncia de "uma economia que mata", em especial pelo que produz "de grande pobreza, desemprego maçiço, excessivas e crescentes desigualdades, riscos ecológicos sérios", naquilo que é uma das maiores ameaças à liberdade e à democracia.

A Lusa tentou obter um comentário junto da reitoria da UCP, mas até ao momento não foi possível obter um esclarecimento por parte da reitora Maria da Glória Garcia.

O Instituto de Estudos Políticos (IEP), da UCP, atribuiu o Prémio Fé e Liberdade a Alexandre Soares dos Santos, devendo a distinção ser entregue a 24 de junho, durante o Fórum Político do Estoril, que reúne dezenas de oradores nacionais e estrangeiros.


De trabalhador paga; continuam delapidadors a 16 de Junho de 2014 às 12:39
Notícias do pântano

A notícia, seca e fria, era assim:
“A Controlinveste Conteúdos, empresa detentora dos títulos DN, JN, TSF e O JOGO, entre outros,
anunciou hoje um processo de redução de efectivos no total de 160 postos de trabalho, soma de um despedimento coletivo de 140 colaboradores e de um conjunto de rescisões amigáveis que abrangem mais 20”.

Há muito que se falava desta possibilidade, há muito que se percebera que seriam os trabalhadores a pagar o preço de uma gestão laça, muitas vezes incompetente, na maioria dos casos apenas ignorante.
Quando falo de gestão falo também, sem medo, na direcção dos principais títulos do grupo.
A crise não justifica nem desculpa tudo.
Não desculpa, por exemplo, a descaracterização de um titulo como o Diário de Notícias, que deixou de ser jornal de referência para não ser nem isso nem o seu contrário.
Popular? Tabloíde? Conforme os dias. Falo com conhecimento de causa. O DN foi o jornal a que estive ligado mais anos consecutivos: fui colaborador-estagiário, colunista, director (do DNA, que criei de raiz), e cheguei a pertencer a uma direcção do jornal - ininterruptamente, ao longo de 20 anos, de 1986 (comecei por escrever sobre musica no suplemento de sábado) a 2006 (quando o DNA acabou), fui um leal colaborador daquelas páginas, e vibrei com a remodelação de 1996, que disparou as vendas do jornal para números acima dos 60000, e ambição para mais, como voltei a acreditar na mudança que tentámos fazer em 2005, na direcção de Miguel Coutinho e Raul Vaz, a que tive o privilégio de pertencer.
O DN sempre foi um jornal velho que se soube renovar - e esse foi também o segredo da sua longevidade -, e agora tornou-se um jornal velho que não se renovou nem soube continuar a envelhecer.
Perdeu-se algures entra a ilusão de agradar a todos e o desespero de vendas abaixo dos 15000 exemplares diários.

Uma coisa é a crise da imprensa e o fim anunciado dos jornais diários em papel - sobre isso, não tenho grandes duvidas.
Outra coisa é não olhar de frente o olho do furacão e tentar dar a volta, “errando cada vez melhor”
(como está a fazer o “Expresso” ou o “Público”, mesmo que sem o sucesso esperado, pelo menos imediato), reinventando o negócio, usando o papel na sua dimensão exclusiva
e o online como megafone de marcas e produtos, ou fazendo opções de fundo radicais e consistentes, mesmo que arriscadas, como sempre defendi.

O DN teve oportunidade, integrado num grupo de razoável dimensão, de voltar a renovar-se sem perder a idade - mas não soube fazê-lo.
Ou não quis. Ou pura e simplesmente desistiu. Os leitores sabem ler estes estados de alma - talvez por isso, desistiram também.
Este anuncio de despedimentos em massa tem uma mensagem implícita:
os títulos podem permanecer no mercado, mas tudo vai mudar- dos conteúdos ao negócio, da forma de produzir jornalismo aos objectivos a alcançar -,
e não se adivinha uma estratégia ou uma ideia que nos faça acreditar que a mudança melhorará o quadro geral.
Sem ideias, sem pessoas, só com máquinas de calcular, podem fazer-se sabonetes - mas não se fazem jornais e revistas e rádios e televisões.

Se falo apenas do DN é porque me toca no coração, porque vivi naquele jornal alguns dos momentos mais fortes da minha vida profissional (e até pessoal: falhei uma única vez a entrega de uma crónica, no dia em que o meu filho nasceu…), e porque me doeu a forma como perdeu identidade e personalidade nos últimos anos.

Como de costume nestes casos, os 160 despedidos são o clássico mexilhão que se lixa.
Aqueles que nestes anos contribuíram para delapidar o património material e imaterial do DN flutuam tranquilamente no pântano que criaram.

(-por PRDuarte,)


De .Enformação neoliberal ... LUTAR. a 18 de Junho de 2014 às 12:19
Novos meios de enformação
(- por Ricardo M Santos em 13/6/2014 , Manifesto74)

Quando, em 1999, a caminho dos 18 anos, entrei pela primeira vez na redacção de um jornal, apaixonei-me. ...
Não sou nem nunca me vi como jornalista mas passei por alguns jornais. Deles trouxe muitos e bons amigos, que guardo ainda hoje, e outros que que acumulam as características de serem uma merda como pessoas e como jornalistas. E outros que já se esqueceram do que passaram quando foram jornalistas.
Mas como é que viemos parar aqui?
Como é possível que o despedimento de 160 pessoas de uma mega-empresa de comunicação aconteça e os jornais continuem a sair no dia seguinte?

Apesar dos enormes tratados que vamos lendo sobre o futuro do jornalismo, em papel e online, quanto a mim, houve e há factores bem mais relevantes do que uma suposta guerra entre a informação online e em papel.
-- O problema começou na perda de consciência de classe dos profissionais.
Sim, eu sei que há quem já não leia esta frase porque fechou a janela quando leu "consciência de classe". Não faz mal. Eu escrevo porque gosto de escrever e não por gostar de ser lido - já o disse quando deixei o Aventar.

Os "camaradas" desapareceram das redacções, porque a palavra tem uma carga ideológica fora de moda para alguns ... . E poucos são os que nos seus locais de trabalho ... se assumem como verdadeiros camaradas. Porque sabem o que isso lhes pode vir a custar.

Esta perda de CONSCIÊNCIA de classe é também consequência do aumento da PRECARIEDADE ... e da suposta notoriedade que alguns jornalistas foram conseguindo, movendo-se em corredores que os deslumbraram e onde se perderam
- sem perceberem bem que um jornalista que cobre assuntos económicos não é um capitalista ou que quem cobre um determinado município não é vereador.
E, pois claro, lá para os lados da capital com mais intensidade, não falta quem ache que uma ORDEM resolveria todos os problemas da classe. Uma ordem é muito mais chique. É muito melhor falar na Ordem dos Jornalistas do que no SINDICATO dos Jornalistas enquanto se come um bife no Snob.
.... Como se pagarem a alguém pelo seu trabalho fosse um favor. Obviamente que recebi e ainda tive uma visita guiada às instalações pela mão do subdirector.
Pouco antes, numa altura em que esse mesmo jornal se preparava para despedir mais trabalhadores, fui questionado sobre a minha disponibilidade para trabalhar mais, fazer mais peças - normalmente, os "COLABORADORES" são pagos à PEÇA.
Perguntei se me estava a oferecer um CONTRATO de trabalho, uma vez que estavam a despedir gente. Claro que não. Claro que não aceitei.

Começou aí a perda da essência do jornalismo. Acentuou-se quando deixou de ser vocação e passou a ser uma saída profissional. E nunca o foi. ....

Quem vive nas redacções não pode escrever belos tratados cheios de emoção a perguntar "como é que chegamos a isto".
Pode mas não deve.
Fica mal e cai ainda pior para quem anda no meio. Quem vive nas redacções sabe a precariedade e a EXPLORAÇÃO a que está sujeita a pessoa que está ao lado.
Pode é não se lembrar disso, seja por conforto ou por ser mesmo um filho da puta.
Mas sabe. E sabe que há jornais em que só lá vão pousar o casaco e vão trabalhar para outros sítios. Nesses jornais "de referência", seja isso o que for.

... . E, sempre que der jeito, ouviremos o mesmo na TSF.
E o mesmo serve para outros GRUPOS que CONTROLAM os MEDIA. Não esquecendo a importante fatia que J.Oliveira tem na LUSA, dividida com o Balsemão.

E ficamos assim com uma visão cada vez mais afunilada do que acontece. A pluralidade dos órgãos de informação permitia-nos pensar as notícias, interpretá-las no JN, DN e Público, por exemplo, e pensar no que lemos e por que cada uma delas foi escrita com abordagens diferentes.

O que sucedeu com este despedimento - quantas vezes alguns destes 64 não terão chamado REESTRUTURAÇÃO a outros DESPEDIMENTOS ? - colectivo é mais um passo no caminho de transformar a informação em ENFORMAÇÂO.
Enformados, formatados e OBEDIENTES.
Ou então ACORDAMOS TODOS, seja qual for a profissão, e DAMOS a VOLTA a ISTO, custe o que custar.
Sábado há MANIF no Porto.
É sempre um bom dia para quem não o fez ainda começar a LUTAR.


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