De Valores e indignação anti-neoliberal a 12 de Junho de 2014 às 15:07
Prémio Fé e Liberdade para Soares dos Santos gera indignação
(-por Lusa, 11/6/2014)

Frei Bento Domingues, o catedrático José Mattoso e o musicólogo Rui Vieira Nery são algumas das mais de 30 pessoas que manifestaram "indignação" pela atribuição do prémio "Fé e Liberdade" a Alexandre Soares dos Santos, ex-presidente do grupo Jerónimo Martins.

Em documento enviado à reitoria da Universidade Católica Portuguesa (UCP), os subscritores referem que foi com "grande perplexidade, tristeza e indignação" que tiveram conhecimento de que o Instituto de Estudos Políticos da UCP deliberou atribuir o prémio "Fé e Liberdade" a Elíseo Alexandre Soares dos Santos, designado "um dos homens mais ricos de Portugal".

Enfatizam que esta denúncia não é movida por "qualquer ressentimento contra a pessoa" em causa, mas pelo "dever" de, em consciência, tornar audível a voz dos cristãos que não querem - não podem - silenciar" a sua indignação.

"Um prémio tem um valor simbólico e testemunhal, pelo que, nas presentes circunstâncias, ocorre perguntar: O que é que se pretende enaltecer? Que valores merecem apreço explícito por parte da UCP? Quais os conceitos de fé e de liberdade que estão implícitos nesta atribuição?", questionam os subscritores, entre os quais constam os jornalistas Jorge Wemans e António Marujo e a professora universitária Isabel Allegro de Magalhães.

A carta de protesto lança ainda uma série de dúvidas sobre o que se pretende distinguir na personalidade de Alexandre Soares dos Santos.

Uma colossal fortuna pessoal? Uma forma de enriquecimento baseada nos ganhos do capital e sua acumulação? Práticas de exploração do trabalho humano (baixos salários, horários excessivos, precariedade nas relações laborais)? Expedientes fiscais para fugir aos impostos?.Um modelo de economia que permite o desemprego massivo, a grande concentração do património individual e correspondente poder político, com risco para a democracia e para a coesão social?, lê-se no documento a que a agência Lusa teve acesso.

Notando que a decisão vai também contra aquilo que tem sido o ensinamento e os apelos mais recentes do papa Francisco, os subscritores gostariam de ver a UCP empenhada na denúncia de "uma economia que mata", em especial pelo que produz "de grande pobreza, desemprego maçiço, excessivas e crescentes desigualdades, riscos ecológicos sérios", naquilo que é uma das maiores ameaças à liberdade e à democracia.

A Lusa tentou obter um comentário junto da reitoria da UCP, mas até ao momento não foi possível obter um esclarecimento por parte da reitora Maria da Glória Garcia.

O Instituto de Estudos Políticos (IEP), da UCP, atribuiu o Prémio Fé e Liberdade a Alexandre Soares dos Santos, devendo a distinção ser entregue a 24 de junho, durante o Fórum Político do Estoril, que reúne dezenas de oradores nacionais e estrangeiros.


De trabalhador paga; continuam delapidadors a 16 de Junho de 2014 às 12:39
Notícias do pântano

A notícia, seca e fria, era assim:
“A Controlinveste Conteúdos, empresa detentora dos títulos DN, JN, TSF e O JOGO, entre outros,
anunciou hoje um processo de redução de efectivos no total de 160 postos de trabalho, soma de um despedimento coletivo de 140 colaboradores e de um conjunto de rescisões amigáveis que abrangem mais 20”.

Há muito que se falava desta possibilidade, há muito que se percebera que seriam os trabalhadores a pagar o preço de uma gestão laça, muitas vezes incompetente, na maioria dos casos apenas ignorante.
Quando falo de gestão falo também, sem medo, na direcção dos principais títulos do grupo.
A crise não justifica nem desculpa tudo.
Não desculpa, por exemplo, a descaracterização de um titulo como o Diário de Notícias, que deixou de ser jornal de referência para não ser nem isso nem o seu contrário.
Popular? Tabloíde? Conforme os dias. Falo com conhecimento de causa. O DN foi o jornal a que estive ligado mais anos consecutivos: fui colaborador-estagiário, colunista, director (do DNA, que criei de raiz), e cheguei a pertencer a uma direcção do jornal - ininterruptamente, ao longo de 20 anos, de 1986 (comecei por escrever sobre musica no suplemento de sábado) a 2006 (quando o DNA acabou), fui um leal colaborador daquelas páginas, e vibrei com a remodelação de 1996, que disparou as vendas do jornal para números acima dos 60000, e ambição para mais, como voltei a acreditar na mudança que tentámos fazer em 2005, na direcção de Miguel Coutinho e Raul Vaz, a que tive o privilégio de pertencer.
O DN sempre foi um jornal velho que se soube renovar - e esse foi também o segredo da sua longevidade -, e agora tornou-se um jornal velho que não se renovou nem soube continuar a envelhecer.
Perdeu-se algures entra a ilusão de agradar a todos e o desespero de vendas abaixo dos 15000 exemplares diários.

Uma coisa é a crise da imprensa e o fim anunciado dos jornais diários em papel - sobre isso, não tenho grandes duvidas.
Outra coisa é não olhar de frente o olho do furacão e tentar dar a volta, “errando cada vez melhor”
(como está a fazer o “Expresso” ou o “Público”, mesmo que sem o sucesso esperado, pelo menos imediato), reinventando o negócio, usando o papel na sua dimensão exclusiva
e o online como megafone de marcas e produtos, ou fazendo opções de fundo radicais e consistentes, mesmo que arriscadas, como sempre defendi.

O DN teve oportunidade, integrado num grupo de razoável dimensão, de voltar a renovar-se sem perder a idade - mas não soube fazê-lo.
Ou não quis. Ou pura e simplesmente desistiu. Os leitores sabem ler estes estados de alma - talvez por isso, desistiram também.
Este anuncio de despedimentos em massa tem uma mensagem implícita:
os títulos podem permanecer no mercado, mas tudo vai mudar- dos conteúdos ao negócio, da forma de produzir jornalismo aos objectivos a alcançar -,
e não se adivinha uma estratégia ou uma ideia que nos faça acreditar que a mudança melhorará o quadro geral.
Sem ideias, sem pessoas, só com máquinas de calcular, podem fazer-se sabonetes - mas não se fazem jornais e revistas e rádios e televisões.

Se falo apenas do DN é porque me toca no coração, porque vivi naquele jornal alguns dos momentos mais fortes da minha vida profissional (e até pessoal: falhei uma única vez a entrega de uma crónica, no dia em que o meu filho nasceu…), e porque me doeu a forma como perdeu identidade e personalidade nos últimos anos.

Como de costume nestes casos, os 160 despedidos são o clássico mexilhão que se lixa.
Aqueles que nestes anos contribuíram para delapidar o património material e imaterial do DN flutuam tranquilamente no pântano que criaram.

(-por PRDuarte,)


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